O inverno do Restelo rumo ao calor dos grandes palcos

Estádio do Restelo. 14 de novembro de 2019. O dia e noite de chuva que se fizeram sentir não afastaram do trabalho o plantel do Clube de Futebol Os Belenenses, rumo a mais uma jornada da Segunda Divisão distrital da AF Lisboa. Quinta-feira foi dia de preparar a receção à AD Oeiras, jogo que os azuis viriam a resolver com uma difícil vitória por 3-2, no domingo. O recinto que há dois anos acolhia a elite do futebol português é agora palco de jogos dos escalões mais baixos do futebol distrital lisboeta. No entanto, o ambiente em torno do clube não deixou de ser caloroso e está na mente e coração de todos o desejo de voltar aos duelos com os grandes.

É de conhecimento geral a confusão que eclodiu no Restelo há menos de dois anos. A separação entre a SAD e o clube levou à inscrição do CF Belenenses na divisão mais baixa dos distritais de Lisboa. É esta a realidade atual de um emblema que chegou a ser campeão nos anos 40. Mas não nos foquemos no passado. Os olhos de todos os elementos dos azuis do Restelo estão virados para o presente e para uma rápida ressurreição.

O relógio marcava 17h quando chegámos ao Estádio do Restelo. Recebidos por José Taira – diretor desportivo e um dos homens fortes deste projeto -, fomos convidados a pisar o relvado. O desgaste no piso verde é evidente e foi feito pelas chuteiras de um plantel que convence dentro de campo e com o qual os responsáveis estão satisfeitos. “É um plantel com várias soluções, tem concorrência por vários lugares e isso dá-nos garantias para, nesta fase, estarmos em primeiro lugar com oito vitórias em outros tantos jogos. Isto não nos dá uma tranquilidade absoluta, mas a continuidade do rigor que temos de ter neste projeto”, assegura-nos Taira (veja aqui a entrevista completa com o diretor desportivo), também ele com história neste símbolo enquanto futebolista.

José Taira, diretor desportivo do Belenenses.

Já que se falou nesse primeiro lugar, vamos a um pouco de contexto. Faz agora pouco mais de um ano que começou a aventura deste projeto na última divisão distrital de Lisboa. A primeira época foi de sucesso, com a conquista do campeonato e todos os dez encontros realizados em 2019/20 (um deles para a Taça de Lisboa) também acabaram em triunfo. O objetivo, esse, está bem vincado desde os primeiros passos, reconhece Taira. “É uma ambição voltarmos a colocar este clube no sítio a que tem direito, que é no principal escalão. A época passada foi altamente positiva, pois para além de subirmos de divisão fomos campeões. Este ano começámos bem, fortes, competentes e juntámos a isso alguma exuberância, que é sinal de que esta equipa está a responder de forma mais homogénea a nível coletivo.”

Um pouco mais tarde conhecemos o treinador, Nuno Oliveira, ‘mister’ deste projeto desde o começo. Equipado a rigor e com a Cruz de Cristo à vista, o jovem técnico de 32 anos deu-nos a entender algo mais sobre o que se passa dentro do balneário na equipa no que concerne a metas traçadas… até porque vencer não é tudo o que se pretende. “A subida de divisão é o objetivo prioritário, aquilo que mais nos interessa. Mas depois temos vários objetivos entre nós aqui dentro. Objetivos de equipa, atingir certos valores, chegar a um certo patamar de golos sofridos e marcados, assim como muitos outros. Existem também objetivos individuais para cada atleta, abordados em reuniões individuais com eles. Isso é um sinal claro de que temos completa noção do que estamos aqui a fazer e de que olhamos muito para o detalhe não apenas coletivo, mas também individual”, considerou (veja aqui a entrevista completa com o técnico).

Para chegar aos objetivos propostos, o índice de trabalho desenvolvido tem de estar a nível máximo e foi mesmo isso que aconteceu a Nuno Oliveira a partir do momento que recebeu o convite para pegar no leme da equipa. “Aquilo que senti foi um orgulho imenso de poder representar este clube, ainda mais neste contexto em que se encontra atualmente, no qual precisa de muita força da parte de todos. Eu ser um dos escolhidos para poder ajudar foi um motivo de orgulho muito forte e de felicidade. Mas fui muito rápido a mudar esse ‘chip’ para o do trabalho, porque era exatamente isso que este projeto necessitava desde o início.”

Formar para conquistar

Visto que foi um projeto começado a partir do zero, o Belenenses recorreu a muitos jovens que tinha nos juniores para formar o plantel de 2018/19. Uma grande parte desse núcleo duro continua nesta temporada e foi mesmo isso que percebemos quando os atletas começaram a chegar ao Restelo, ao fim da tarde. A equipa técnica levou a cabo uma sessão de preparação e estudo do adversário deste fim de semana e nota-se perfeitamente nas caras a aposta na formação que tem sido executada e que começa a colher frutos.

Nuno Oliveira já tinha sido mentor de vários dos jovens que agora treina na equipa principal, tendo em conta que já tinha orientado os juniores do clube. A relação de confiança que tem vindo a estabelecer com esses atletas ao longo do tempo é a peça chave para este percurso positivo, entende o próprio. “Grande parte destes jovens que aqui estão eu já tinha trabalhado com eles anteriormente e havendo um conhecimento e confiança de parte a parte ajuda ao processo. Na base da confiança é que conseguimos construir tudo”, salientou o timoneiro.

Crédito: Os Belenenses

“Os jovens – pelo menos parece-me a mim pela curta experiência até agora – normalmente são mais abertos e disponíveis para te poder ouvir e aceitar as tuas ideias do que propriamente aqueles que com 30 anos já trazem 20 anos de vícios de futebol e que se calhar já aprenderam tudo o que tinham para aprender”, apontou Nuno Oliveira. No entanto, o técnico confidenciou-nos que nesta época se deparou com uma situação que vai contra essa mesma tese. “É curioso que para esta temporada de 2019/20 reforçámos a equipa com alguns jogadores de mais idade e também eles mostraram uma disponibilidade enorme para ouvir. Temos aqui atletas com 30, 28, 32 anos que chegaram aqui com uma humildade fantástica. Essa gestão parte de uma base muito forte de confiança e competência.”

Taira considera igualmente que o trabalho desenvolvido nos escalões de formação do clube é uma mais valia não apenas em termos futuros, mas já no presente. “A formação do Belenenses trabalha muito bem e é muito forte na prospeção e no desenvolvimento. No ano passado e nesta época utilizámos muitos jogadores juniores, até de primeiro ano”, revelou. O diretor desportivo contou-nos ainda de certos entraves que surgiram em relação a segurar jovens promessas, problemas que considera poderem desaparecer com o regresso aos escalões mais altos.

“Assim que nos aproximarmos dos escalões superiores, esses jogadores que fazem parte da formação querem ainda mais pertencer a este projeto, coisa que no ano passado e neste ainda se nota dificuldade. Um jogador que acaba a idade de júnior e tem a competência do campeonato nacional de juniores, vê esta equipa nas divisões distritais como um patamar de expetativas baixas para ele. Claro que o funil está invertido: à medida que vamos subindo temos de ser cada vez mais rigorosos e de observar a excelência dos nossos jogadores juniores. Mas tenho a certeza que com esta equipa a disputar campeonatos de outra excelência, essa exigência na formação vai existir, pois eles sabem que passarão a ser muito menores as possibilidades de entrarem na equipa principal do que agora”, esclareceu o dirigente.

A geração futura habituada a ganhar

O que é de um clube sem os adeptos? A resposta é simples e explica-se numa palavra: nada. Por isso mesmo, o ambiente nos jogos do Belenenses tem sido um caso à parte nos distritais. “Os adeptos têm sido fiéis. Têm marcado presença e acompanham-nos em casa e fora. A dinâmica está muito engraçada, no sentido em que há uma grande empatia entre a equipa e os adeptos”, referiu Taira. O diretor desportivo perspetivou ainda a futura geração de apaixonados pelo emblema do Restelo. “Penso também que se vai assistir aqui a um fenómeno futuro: estas novas gerações de crianças que são atletas do clube e outros que vivem nas redondezas estão habituados a ver o Belenenses ganhar domingo após domingo e normalmente as pessoas acompanham quem é ganhador.”

Crédito: Os Belenenses

Dentro das quatro linhas e também no banco de suplentes, a força que vem das bancadas é ímpar e o treinador Nuno Oliveira confidenciou até que, agora sim, sente uma expressão muito falada no desporto rei. “Temos sempre sentido o apoio dos sócios. Nunca tinha sentido a questão do 12.º jogador e não há dúvidas disso aqui. Nós sentimos isso na pele. Jogares para 30 pessoas ou para mil, duas mil, três mil, é completamente diferente, dá uma motivação distinta. Independentemente do adversário, quando tens um ambiente destes à nossa volta todos nós conseguimos encontrar uma motivação extra para estarmos dentro de campo e respeitar este símbolo que carregamos ao peito.” Nem mesmo habituado a receber os grandes do nosso futebol, o Restelo fica despido agora que é palco de compromissos relativos a escalões mais baixos.

O sonho interrompido e a inspiração Mourinho

Como grande parte dos jovens, Nuno Oliveira tinha o sonho de ser futebolista. Esse desejo foi interrompido ainda muito jovem devido a uma lesão. No entanto, a paixão que tinha pelo desporto rei fez com que não desistisse de uma carreira neste ramo. “O meu sonho era ser futebolista. Infelizmente lesionei-me cedo, por volta da altura de entrar para a faculdade. Recordo-me de falar com o meu pai sobre o que iria fazer e eu respondi-lhe ‘só sei fazer uma coisa na vida, que é o desporto’. O bichinho para ser treinador deriva muito do meu amor pelo futebol”, contou-nos.

A chegada à elite de José Mourinho serviu como inspiração para o surgimento de uma grande vaga de treinadores em Portugal e Nuno Oliveira foi um deles. “Estávamos numa era em que o José Mourinho conseguiu conquistar a Taça UEFA, a Liga dos Campeões e houve ali um certo ‘boom’ de treinadores, algo que me influenciou também. Por isso é que foi relativamente cedo. Penso que aos 20 anos já estava a fazer a minha primeira participação como adjunto num jogo de seniores. Enquanto tiver paixão sinto que tenho armas para crescer. Penso que aqui no Belenenses foi onde mais consegui enriquecer a nível de treinador e pessoal também”, reconheceu.

Nuno Oliveira, treinador do Belenenses.

Quando pedimos a Nuno Oliveira para olhar até ao futuro daqui a dez anos, o sentimento que nutre pelo símbolo que representa falou mais alto… isso e também a crença de que o Belenenses estará no lugar a que diz pertencer. “Não tenho dúvidas disto e penso que não vão ser precisos dez anos. Quer eu seja o treinador ou não, no dia em que o Belenenses subir da Segunda Liga para a Primeira vou sentir uma alegria enorme e chorar como um sócio e adepto. A paixão que estamos a colocar aqui neste projeto é enorme. Sei que quando isso acontecer – quando voltarmos a ter o Belenenses no principal escalão – vou sentir uma alegria enorme. A marca mais efetiva que eu posso deixar no clube e mais importante de todas são as subidas de divisão consecutivas, é isso que vai ficar na história.”

Uma época sem subir… seria fracasso?

Muito tem sido escrita aqui a palavra “subida”, mas o que acontece se uma época num futuro próximo terminar sem o Belenenses avançar mais um patamar rumo ao regresso à elite? Fomos diretos ao assunto e questionámos o diretor desportivo: seria essa temporada considerada um fracasso total? “Não vejo isso como um fracasso, mas sim como uma etapa de aprendizagem, porque irá mexer com muita coisa: a necessidade de ir subindo a outros patamares diferentes vai ter de ser ajustada em relação a um orçamento real deste clube”, começou por referir.

“Se há uma coisa que eu creio que esta direção não quer é hipotecar-se relativamente ao futuro, fazer coisas que estão fora do nosso alcance. Os passos têm de ser extremamente seguros. Só vamos eventualmente partir para uma situação de fracasso quando aumentamos as expetativas e temos um orçamento claramente exacerbado. Mas neste caso é o contrário: sabemos perfeitamente que passo a passo temos de adequar o orçamento e o nosso perfil de jogador e em função disso o futebol também é imprevisível”, prosseguiu o dirigente.

O plantel em pleno treino no Restelo.

Taira apontou ainda a presença de vários investidores no futebol português como forma de desajustar orçamentos de certas equipas. “Claro que a exigência do Belenenses num Campeonato Nacional de Seniores será totalmente diferente de muitas outras equipas que estão por lá – com todo o respeito. A nível de orçamento há clubes com investidores a aumentar imenso os orçamentos, o que faz com que retenham os melhores jogadores. Logo quem tem capacidade de contratar esses jogadores está mais aproximado de não fracassar”, concluiu.