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Nos quase 30 anos que já levo de futebol, cansei-me de ouvir dizer que a Liga deveria castigar duramente quem pusesse em causa o prestígio da competição com declarações inflamatórias. Cheguei a engrossar o pelotão dos que defendiam essas sanções, importadas do então muito à frente futebol inglês. Hoje estou convencido de que o problema tem de ser atacado muito antes. O que a Liga tem de fazer não é no plano reativo. Tem, isso sim, que ser proativa. Tem de criar condições para que essas declarações não existam e sobretudo tem de fomentar a sua substituição no plano mediático por outras, que satisfaçam todos os players no mercado: a própria Liga, os clubes, os operadores e, sobretudo, o público, que é quem paga. Isso, em Portugal, é terreno absolutamente virgem. Vamos, então, falar de comunicação aplicada ao futebol. A questão das punições a quem abalar o prestígio do futebol, os clubes já a driblaram. Criaram braços armados que não são dirigentes nem funcionários mas apenas e só adeptos socialmente reconhecíveis, para estarem nos programas onde se discute “futebol”. E sim, as aspas não são engano – porque o que ali se discute não é futebol, mas sim agendas políticas. Tenta-se sempre passar a mensagem de que o presidente, o treinador ou os jogadores do clube que se defende são os mais impolutos e que esse mesmo clube é invariavelmente o mais prejudicado, mas de caminho passa-se também a mensagem de que o futebol está cheio de malandragem que anda a roubar e que por isso nem vale a pena perder-se tempo ou gastar-se dinheiro com o tema. Aquilo vê-se como os reality shows, para perceber que novos limites se cruzam desta vez, mas quem quer que seja que, não sendo espectador habitual de futebol, vá ali parar, não fica com vontade de comprar bilhetes para o próximo jogo, camisolas para dar aos filhos ou assinaturas de canais temáticos. Chegados a este ponto, há quem goste de culpar os operadores de televisão. Não o faço. Os operadores de televisão fazem o que os deixam fazer, na realidade em que estão inseridos – que é uma realidade de acesso-zero aos protagonistas. E dou um exemplo. A UEFA, que está muito à frente de toda a gente do futebol nesta matéria, criou há uns anos o conceito de mini-flash, a ser feita antes dos jogos da Liga dos Campeões pelo canal detentor dos direitos televisivos. Como estou no relvado antes dos jogos, habituei-me a ver passar por estas mini-flashes todas as grandes figuras dos bancos das maiores equipas europeias, mas nem assim os clubes portugueses mudaram de atitude. O Benfica manda invariavelmente Shéu Han, o secretário técnico; do FC Porto costuma aparecer Rui Barros, um dos treinadores-adjuntos; no Sporting já por lá vi Jaime Marta Soares, presidente da Assembleia Geral, ou Otávio Machado, diretor de futebol. Não é isto que promove o futebol, não foi por isto que os operadores pagaram e, acreditem, até pode ser isto que o público acha que quer, porque há muitos anos que não tem outra coisa. Pensemos nas conferências de imprensa, agora sempre televisionadas e por isso mesmo um meio absolutamente gratuito que a Liga tem de promover o futebol. O que se passa lá? Para quem começou a carreira nas conferências de imprensa de Sven-Goran Eriksson, Tomislav Ivic ou Bobby Robson, que duravam enquanto houvesse uma dúvida por esclarecer, uma explicação a dar, e não estavam freadas por subterfúgios impostos pelos limites políticos à comunicação, estes simulacros de conferência de imprensa a que se assiste agora são absolutamente risíveis. O que temos ali é, sempre, um desastre à espera de acontecer: um treinador sem vontade de falar, um diretor de comunicação interessado em que ele fale o mínimo possível – a não ser que haja agenda política a satisfazer – e jornalistas dos canais de TV interessados em soundbytes rápidos, porque tudo o que seja acima de um minuto já é demasiado em termos televisivos. É assim que o futebol vai ganhar quota de mercado? Claro que não. E se o leitor acha agora que este é um problema dos jornalistas, desengane-se. Não é. É um problema do futebol. Os jornais apanham por tabela, mas quem perde mais com este vazio mediático é mesmo o futebol, que desaproveita as oportunidades que lhe são dadas de bandeja, abrindo caminho (e as TVs dos clubes são, aqui, caso emblemático) a mais intervenções que para enaltecerem o próprio, destroem o meio em que ele se insere. Como jornalista, defendo e defenderei sempre o livre acesso aos protagonistas por parte dos meios de informação. No caso do futebol, porém, já ficaria feliz se a Liga aprendesse com a UEFA e percebesse que se quer acabar com aquilo de que não gosta nos programas sobre “futebol” – assim mesmo, com aspas – tem de tonar o caso em mãos e criar condições para que haja conteúdos sobre Futebol – assim mesmo, com maiúscula.
2017-03-26
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A perda de uma vaga na Liga dos Campeões por parte dos clubes portugueses já fez mexer a Liga. Pedro Proença, presidente do organismo que tutela a competição em Portugal, deu o primeiro passo, ao admitir o problema, e disse não só que quer “encontrar soluções” como que quer ver a Liga portuguesa “no Top 5 das Ligas europeias”. E se o primeiro objetivo me parece relativamente fácil de assumir – assim haja vontade… – para encarar o segundo já temos um atraso tão significativo que dificilmente o poderemos encarar no curto ou médio prazo. Mas, cada coisa a seu tempo. Para já, era urgente que a Liga se centrasse em três áreas de atuação: o plano competitivo, o plano da comunicação e, resultado do sucesso nos dois primeiros, o plano do negócio. Não sou dos que acham que para a Liga ser competitiva seja necessário reduzir o número de clubes na divisão de topo. Se olharmos para as cinco principais Ligas da Europa, todas têm pelo menos 18 participantes. Têm mais jogadores, um universo maior? Verdade. Mas o número de clubes não é um fator decisivo na competitividade. Nenhuma dessas cinco Ligas tem a luta pelo título tão apertada como a portuguesa: a diferença entre Benfica e FC Porto era, à entrada para a jornada deste fim-de-semana, de um ponto, contra os dois que separam Real Madrid e Barcelona (e em Espanha o líder tem um jogo a menos) ou os três que dista o PSG do Mónaco. Em Inglaterra e na Alemanha as diferenças são de 10 pontos e em Itália são de 12. E se formos comparar com uma realidade de uma Liga com menos clubes, como a escocesa, o que vemos é o Aberdeen a 25 pontos do Celtic. Aliás, aos que depois argumentam que a diferença deve ser feita para os não candidatos ao título, a resposta também é simples: a diferença do primeiro ao sexto não é muito maior em Portugal (26 pontos) que na Alemanha (24) ou em França (25). Na Escócia, o dito paraíso do campeonato reduzido, é de 47 pontos em 28 jornadas. Abissal, portanto. Ter mais clubes na I Liga não significa diminuir a competitividade. Significa, pelo contrário, dar a mais clubes – a mais jogadores, a mais treinadores, a mais adeptos – a hipótese de competir ao mais alto nível e, portanto, de crescer competitivamente. A competitividade aumenta-se, isso sim, quando lhes dermos condições para competir verdadeiramente. E aqui a questão começa a ser política e já exige alguma coragem que até ver não se viu a nenhum dirigente máximo do futebol em Portugal. Para termos uma Liga verdadeiramente competitiva temos de ter uma Liga em que existam mais do que os três grandes. E Portugal, neste particular, está particularmente inquinado. Basta ver o regozijo que os adeptos de cada um dos clubes assumiu assim que o rival foi afastado da Europa. Ou reparar que assim que se começou a debater a perda de uma vaga na Champions, tudo o que a generalidade dos adeptos quis discutir foi que clube estava a dar mais ou menos pontos para o bolo geral. A questão é que isso é absolutamente indiferente: Portugal só terá uma Liga de topo quando houver mais do que três clubes a contribuir de facto para esse bolo. E isso só se consegue quando a Liga – antes seja de quem for – assumir que em Portugal há mais do que três clubes. Como? Na distribuição da receita, por exemplo. Mas não só aí. A questão da receita é flagrante. Primeiro, é importante deixar algumas perguntas. A Liga acha possível fazer subir o bolo global da receita gerada pela sua atividade? Como? Já fez alguma coisa para centralizar as negociações dos direitos televisivos dos jogos, podendo logo à partida aumentar o bolo e depois distribuí-lo de forma mais igualitária, assumindo como objetivo que passe a haver mercado interno em Portugal, com mais de três “players”? Já fez alguma coisa para assegurar, junto dos dois últimos governos, que uma das principais fontes de financiamento do futebol – o mercado de apostas – não seja excluída do mercado português? Já fez alguma coisa para garantir que o futebol em Portugal não são três estádios cheios, três meio-cheios e 12 às moscas? Já deu algum passo no sentido de promover o espetáculo do qual depende a sua sobrevivência, criando conteúdos mais abrangentes que possam ser atraentes para os operadores e para os telespetadores e que dessa forma substituam o insulto à inteligência de quem gosta de futebol que são os programas que gastam horas a discutir os centímetros de um fora-de-jogo ou a intensidade de um toque nas costas? Não, pois não? Pode começar por aqui. Mas amanhã voltarei ao tema.
2017-03-25
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A matemática não engana e esta semana soube-se que muito provavelmente Portugal vai perder uma das três vagas que ocupa na Liga dos Campeões já em 2018/19. Podemos até dizer que é normal, consequência natural de termos as equipas mais fortes a jogar na I Divisão do futebol europeu, porque se sabe que elas pontuaram – e pontuariam – muito mais na Liga Europa, onde estão agora os russos e os belgas, que nos ameaçam. O sinal de preocupação não vem, portanto, da pura aritmética. E também não vem de onde devia vir: da eliminação do Sp. Braga na fase de grupos da Liga Europa, precisamente face a ucranianos e belgas; da incapacidade do Sporting se sobrepor ao modesto campeão polaco na corrida à permanência na Europa, esgotada a hipótese de continuidade na Champions; ou, por fim, da constatação de inferioridade evidente de Benfica e FC Porto face a Borussia Dortmund e Juventus (esta última ainda por confirmar no jogo da segunda mão, é verdade, mas com pouca esperança de êxito face ao resultado que se verificou no Dragão). Estes sinais do apocalipse deviam chegar para se pôr a mexer as ideias e se fazer algo, tanto no plano do contexto como no do negócio. Tem a palavra a Liga.Jorge Jesus ainda esta semana falou do assunto e voltou a dizer que Portugal produz dos melhores treinadores que o futebol europeu vai vendo. Há Fernando Santos campeão da Europa. Há Mourinho para o confirmar. Há Jardim para ajudar à festa. Já houve Villas-Boas, antes do exílio dourado na China. Mas então se temos bons treinadores, dos melhores que a Europa produz, se vamos renovando a produção de jogadores de alto nível, capazes de serem campeões da Europa e de se imporem nos melhores clubes do continente, por que raio estaremos condenados a ficar apenas pela classe média da Champions e a perder influência numa Liga Europa que já foi feudo nosso?Aqui chegados, toda a gente se foca na questão dos orçamentos. Mas a este propósito só tenho duas coisas a dizer. A primeira é que a questão dos orçamentos não tem de ser decisiva e só aparece sempre à tona do debate porque nos serve de bode expiatório perfeito. A cada vez que uma equipa portuguesa cai na Europa, aparece a justificação: o orçamento do adversário era superior e portanto está o assunto arrumado, não haveria nada a fazer. Perdão?! É para superar esta desvantagem que existem os tais excelentes treinadores e a tal renovação permanente de um quadro que tem dos melhores jogadores da Europa. E a segunda é que se a questão é a dos orçamentos, então o que tem de ser feito é mexer no futebol em termos de negócio, criar condições para que os orçamentos possam crescer e o jogo seja um oásis de prosperidade que não dependa apenas da criação de mais-valias nascidas na transferência dos melhores jogadores. Foi o que fizeram os ingleses há 25 anos, quando os resultados dos seus clubes definhavam e eles não só criaram a Premier League como lhe associaram uma estratégia de divulgação global do futebol que por lá se joga.Claro que há coisas a melhorar em ambos os planos. No que toca ao contexto, era bom que os adeptos portugueses se preocupassem mais em perceber o processo de jogo das suas equipas, as condições físicas, táticas e técnicas enfrentadas pelos jogadores e treinadores em cada situação e pusessem de lado a atual obsessão pelos cinco centímetros fora-de-jogo ou pelo intensómetro no toque do defesa no avançado. E termina nas pessoas mas começa nos clubes, que não entenderam ainda que só têm a ganhar em abrir onde hoje fecham, em utilizar o conhecimento dos seus treinadores em sessões públicas em vez de se fecharem sobre si mesmos, remetendo os néscios para a discussão das arbitragens. Já viram Vitória, Jesus ou Espírito Santo falar de forma aberta do processo de jogo das suas equipas? Claro que não, porque sempre que eles falam as conversas se limitam a aspetos banais, à busca do soundbyte televisivo, da polémica que queima mais depressa mas não cria valor.Já acerca dos orçamentos, há uma coisa que não podemos mudar, que é a dimensão do país. Mas podemos mudar a dimensão do mercado. Portugal tem durante quatro anos uma vantagem competitiva enorme no plano do marketing: é campeão da Europa. Já tem há uma década outra vantagem do mesmo calibre: produziu Cristiano Ronaldo, crónico candidato ao título de melhor jogador do Mundo. Se mesmo assim não conseguimos que o Mundo queira ver os nossos jogos, é porque, das duas uma: ou não estamos a fazer o que podemos para os mostrar ou não lhes associámos as vantagens competitivas que temos. Há 30 anos, quando se viu perante um quadro de falta de talentos, a FPF lançou um plano de formação revolucionário que alimentou o futebol nacional durante duas gerações. Mais recentemente, colocada face ao mesmo problema, integrou as equipas B na II Liga e criou condições para voltar a ter de forma repetida a melhor seleção de sub21 da Europa e, consequência disso, a seleção campeã da Europa. O plano do negócio pertence à Liga. E acho que já era altura de a Liga fazer qualquer coisa.
2017-03-12
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Último Passe

O apuramento de Sp. Braga e Moreirense para a final da Taça da Liga podia ser uma excelente oportunidade para ensinar os portugueses a gostar de futebol. Os dois jogos das meias-finais foram excelentes, com ritmo, boa qualidade dos executantes e opções estratégicas bastante interessantes, pelo que se antevê uma final igualmente atrativa. Com um senão: em campo não vai estar nenhum dos três grandes. Óbice de monta para um país onde em vez de gostarem de futebol, os adeptos gostam dos seus clubes. Os números não enganam. A Liga portuguesa tem-se esforçado na promoção do espetáculo, na tentativa de encontrar os melhores horários para fazer subir os protagonistas aos relvados – e a este propósito ainda há demasiados jogos em horas pouco convidativas de dias ainda menos interessantes – e nisso tem sido acompanhada por alguns clubes, que já perceberam que é na capacidade para mobilizar o seu exército que se tornam mais fortes. Em termos gerais, ainda sem contar com os jogos desta 19ª jornada entretanto realizados, a média de espectadores por jogo na Liga cresceu 6,5 por cento, dos 10.802 nos jogos do campeonato passado para os atuais 11.552. Não são os 43.300 de média da Bundesliga ou os mais de 36 mil da Premier League, nem sequer os 19 mil da Liga holandesa, a que mais se aproxima das cinco grandes, mas já são um valor assinalável. Sobretudo se repararmos que 11 das 18 equipas da Liga portuguesa cresceram em espectadores da época passada para a corrente e que das sete que baixaram duas – Sp. Braga e Moreirense, exatamente os finalistas da Taça da Liga – ainda não receberam nenhum dos três grandes no seu estádio. Ora é aqui que entra nas contas o principal fator desequilibrante: os três grandes. Só porque o Benfica subiu de 50.322 para 56.031 espectadores por jogo (aumento de 10%); porque o Sporting tem sido capaz de acompanhar os campeões nacionais, com um crescimento de 39.988 para 43.148 espectadores por jogo (subida de 7%) e o FC Porto também aumentou o público por jogo em casa de 32.324 para 35.305 (crescimento de 8%), isso não quer dizer que esteja tudo bem. Porque há uma Liga dos três e uma Liga dos restantes. Sim, é verdade que ainda temos mais uma equipa acima da média geral – o Vitória de Guimarães, que leva em média 17.581 pessoas a cada jogo. As outras 14 estão abaixo da média. Com a agravante de haver uma média para a Liga e outra, bem diferente, para os jogos que não envolvem nenhum dos três grandes, nem na qualidade de visitado nem de visitante, como será o caso da final de hoje, no Algarve: os 111 desafios já disputados sem a presença de nenhum dos três candidatos ao título foram capazes de arrastar até ao estádio pouco mais de 429 mil pessoas. São 3865 espectadores por jogo. Estou convencido de que há maneiras de fazer crescer estes números – e um dia voltarei a este assunto. Neste momento, porém, o que interessa é a final da Taça da Liga e fazer com que o público esteja à altura de duas equipas que valem mais do que os espectadores que levam ao estádio (10.100 por jogo no caso do Sp. Braga; 1.424 no Moreirense, a equipa com menos presença média de adeptos de toda a Liga). Porque aquilo que Sp. Braga e Moreirense foram capazes de mostrar nas meias-finais justificaria um público interessado e conhecedor, mesmo que não seja diretamente interessado numa ou noutra equipa. São duas equipas que sofreram há pouco um processo de mudança técnica, com as entradas de Jorge Simão e Augusto Inácio, mas que já sabem aproveitar muito do que os novos treinadores têm para lhes oferecer: uma boa organização acima de tudo no caso de Simão, a inteligência estratégica que a experiência já longa lhe proporciona no caso de Inácio. O Sp. Braga de Simão passou a ser forte onde a equipa de José Peseiro mais vacilava: no meio-campo. Com Battaglia ao lado de Xeka, os arsenalistas formam uma dupla capaz de ocupar sempre bem a posição que é o coração de qualquer equipa de Simão. Já tinha sido assim no Belenenses, no Paços de Ferreira e no Chaves, os três clubes de topo que o treinador lisboeta dirigiu antes de chegar ao Minho. Depois, a qualidade ofensiva já lá estava, com extremos da categoria de Pedro Santos, Ricardo Horta ou Wilson Eduardo, avançados como Stojiljkovic, Rui Fonte ou Hassan ou até a integração permanente dos dois laterais em manobras atacantes. Por seu turno, o Moreirense de Inácio soube potenciar melhor as caraterísticas dos seus melhores jogadores, fazendo sobressair as capacidades de Dramé, Boateng ou Podence em contra-ataque e de médios como o promissor Francisco Geraldes – um cérebro futebolístico ao serviço de bons pés – e o seguro Fernando Alexandre.
2017-01-29
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Uma semana dedicado a outros projetos valeu-me agora o regresso a um futebol português posto de pernas para o ar. As razões são as habituais: as arbitragens e a interferência que têm nos resultados dos jogos. A este respeito, quem me segue já sabe o que penso. Há culpa de todos, dos que andam nos relvados aos que dirigem, passando pelos que reportam (estes umas vezes por inércia e outras por exagero no aproveitamento populista), mas o pior é mesmo não querermos olhar para as coisas como elas devem ser vistas. Os árbitros erram e acredito que o futuro do futebol tem de passar (e rapidamente) pela criação de condições para que comecem a errar menos, com a institucionalização de um árbitro de régie, que tenha acesso às imagens de todas as câmeras disponíveis ao realizador de televisão. Isto não é unânime nem sequer pacífico. E até se preza a leituras como as que vi esta semana feitas por gente inteligente e responsável, que mesmo assim não se coibiu de dizer que com o vídeo-árbitro as coisas não teriam sido diferentes. Talvez. Não sou capaz de dizer que sim nem que não. Mas tenho a certeza que a complexidade de que se faz a natureza humana pode ajudar-nos a explicar o que acontece tanto a montante como a jusante dos factos. Nunca explico jogos em função do acerto ou do erro das arbitragens. E se o não faço não é por achar que os árbitros acertam sempre, por ter medo de os afrontar ou por estar ao serviço de alguém que os comande como se fossem marionetas. Não o faço por acreditar que há sempre aspetos mais relevantes, que quem gosta de futebol pode debater para aumentar os seus conhecimentos e tornar o debate bem mais frutuoso. E não o faço por saber que o dia em que entrasse por aí seria o dia em que todos os outros caminhos iriam esbarrar numa parede, porque nesse caminho nunca é possível definir quem tem mais razão, tais são as suas subjetividade e (até às vezes) irracionalidade. A mesma natureza humana que nos ajuda a explicar o erro dos árbitros volta a entrar na equação no momento em que o discutimos. Duplamente. Primeiro porque o sacudir de água do capote (em direção a tudo e muitas vezes aos árbitros) em noites de frustração é um reflexo muito normal no homem. Depois, porque em qualquer organização as relações de poder e a forma de as condicionar a nosso favor são aspetos fundamentais para separar o sucesso do insucesso. Sei disso. Sempre o soube. Ora isto quer dizer o quê? Que os árbitros erram, sim. Que cabe aos líderes do futebol criar condições para que eles errem menos a cada dia que passa. Que apesar de isso não levar a lado nenhum, o choradinho de quem se sente prejudicado é tão natural e humano como o erro. Tão natural, igualmente, como a propensão – também ela humana – para querer dominar as organizações e passar a ser beneficiado nelas se tal for possível. Aliás, muitas vezes esse choradinho não mais é do que uma tentativa de condicionamento para virar a mesa. Perante isto, o que fazer? Depende do lugar em que nos coloquemos. Os árbitros têm de continuar a apitar, os jogadores a jogar, os treinadores a treinar, os dirigentes a dirigir, os adeptos a apoiar, os jornalistas a reportar e a investigar. O que é muito diferente de se concluir que se os árbitros erram é porque são corruptos ou parte de um sistema que é corrupto, mas também de inferir que se as provas não nos caem no colo é porque não há corrupção nenhuma  – aqui serão as provas a marcar a diferença, mas é preciso inquietação e ir à procura delas. Esta semana, tal como em várias ocasiões no passado, quando eram outros a queixar-se e outros também a manter-se em silêncio, não foram apenas os árbitros a exorbitar nos seus erros. Houve muitos jogadores e treinadores a ir longe demais nos protestos, mas também na acusação pública e na tentativa de expor os rivais ao ridículo. Houve responsáveis de clubes a exagerar na reação à infelicidade e adeptos a passar muito para lá das marcas nas ações e nas palavras. Os jornalistas estão entre a apatia face ao que muitos julgam ser passível de acusação (mesmo sem provas, que não se conseguem só porque se quer) e a denúncia populista, porque é o caminho mais fácil para somar likes e cliques. Este é um assunto delicado. Não é por medo ou por conivência, mas sim por respeito à presunção da inocência. E não se resolve a misturar análise a jogos com avaliação das arbitragens.
2017-01-08
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O país futebolístico anda entretido com a Taça da Liga e a ideia generalizada é a de que os espetáculos não têm sido condizentes com a quadra festiva que se vive. Acumulam-se os resultados mínimos, em jogos tardios, com o frio e a falta de interesse competitivo a levar a que se registem médias consideravelmente mais baixas de espectadores para todos os clubes. A Liga, que até tem feito muito pela credibilização desta prova, não fez ainda o suficiente. Nem sequer o que podia. E não falo sequer da atribuição de uma vaga na Liga Europa para aquele a que agora quem manda no futebol quer chamar campeão de Inverno.Quem é que não inveja o boxing day inglês, aquela jornada de dia 26 de Dezembro, à tarde, com estádios cheios de famílias e a competitividade ao máximo? Ou aquilo que se fazia na Escócia até há poucos anos, com o Old Firm (Celtic-Rangers) sempre marcado para o dia de Ano Novo? No fundo, o que os britânicos fazem há muito tempo é uma coisa muito simples: juntam a predisposição do público para assistir ao espetáculo com a realização de jogos apaixonantes. Aqui, se é verdade que já se acabou com essa ideia peregrina de interromper a competição por duas ou três semanas por alturas do Natal e do Ano Novo, que é quando as famílias têm mais dinheiro e tempo livre, depois enche-se o calendário desta época festiva com jogos muitas vezes vazios de sentido, porque são organizados com a intenção firme de ter os grandes no “final four” e fingir que se joga uma competição justa até lá chegarmos. João Eusébio, treinador do Varzim, lamentou após a derrota em Alvalade o facto de ter de jogar duas vezes fora e apenas uma em casa, mais uma desvantagem competitiva a juntar ao facto de liderar uma equipa de um escalão inferior, apenas para concluir de forma até muito compreensiva que “o futebol é cada vez mais um negócio”. A questão é que é um negócio que não sabe defender-se em boas condições.Percebo bem a ideia por trás do raciocínio de Eusébio: o negócio precisa de ter tantos grandes clubes quanto for possível no “final four” para tornar o evento atrativo para a TV ou para os compradores de bilhetes. Mas o negócio defender-se-ia muito melhor com mais competitividade. E se olharmos para o futebol como um todo, o negócio defender-se-ia melhor se a Taça da Liga, a terceira das provas nacionais em termos de relevância, aparecesse numa altura em que o público tem mais fome de bola. No início da época, por exemplo, em vez de atafulhar esta altura de Natal, na qual seria muito mais cativante dar aos potenciais interessados jornadas competitivas, sim, mas do campeonato nacional, onde cada clube mete sempre mais gente nos estádios. Se os treinos abertos de Natal são um sucesso, por que razão não se explora melhor esta época com jornadas diurnas, eventualmente até com os derbis regionais? É por isso que continuo a considerar a Taça da Liga como a melhor ideia desaproveitada dos últimos anos do futebol português. Já no ano de inauguração me parecia que a melhor altura para a jogar seria o início de época, a altura em que a fome de bola dos adeptos é tão grande que até um Sporting-Varzim, um FC Porto-Feirense ou um Benfica-Vizela são pratos apetecíveis. Depois, toda a prova se revela injusta, na forma como os grandes são poupados à primeira fase e fazem dois jogos em três nos seus estádios: uma competição justa começaria com a fase de grupos entre todos os participantes e, no final do Verão, com os grandes a jogar fora, nos campos das equipas de II Liga, fazendo uma espécie de “tournée” pelo país real. Até me parece evidente que, na maioria das vezes, os grandes acabariam na mesma por satisfazer quem se preocupa apenas com os nomes dos participantes na decisão final, sobretudo se jogassem as fases a eliminar numa altura da época em que ainda não estão fatigados pela dureza da época que já vai longa. E nesta altura estaríamos todos a deliciar-nos com uma jornada diurna cheia de derbis. Com os estádios cheios e com as famílias felizes a ver futebol em vez de andarem a vaguear pelos centros comerciais. Não tem de ser assim apenas no estrangeiro.
2017-01-01
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Último Passe

Que o futebol vai mudar em breve, toda a gente já percebeu. Podemos ficar à espera que os grandes agentes de mudança avancem - e nessa altura não nos restará nada a não ser aceitar o que eles terão para impor. Em alternativa, podemos tentar cavalgar essa onda de mudança e conduzi-la para um desfecho mais justo e racional. Foi isso que a UEFA fez no início da década de 90, quando travou as iniciativas de secessão com a criação da Liga dos Campeões. Isso, hoje, porém já não chega. E não chega porque nos conduziu a uma realidade em que clubes e seleções estão sempre no caminho uns dos outros (os últimos Jogos Olímpicos deviam ter sido a gota de água a fazer transbordar o copo da insanidade) e em que não se está a explorar devidamente a possibilidade de passar a competição para a escala normal dos dias de hoje, que é a continental. As alterações nos tempos mais próximos serão, como defendi no artigo da semana passada, nestes dois âmbitos. Hoje deixo a minha proposta. Não estou convencido de ser dono da razão. Mas sei que recusar o que aqui vai ler só porque "isso é impossível" ou porque muda muitas das realidades tidas por imutáveis é ficar à mercê de uma mudança que é inevitável e será então regulada apenas por interesses económicos dos mercados mais imponentes. Seria como a NBA recusar equipas de estados mais pequenos dos EUA só porque neles a TV tem menos audiência potencial. Em tempos já escrevi sobre um projeto de Superliga europeia. Acho que ela vai chegar mais cedo ou mais tarde e, francamente, quanto mais cedo melhor. Porque os campeonatos nacionais estão de tal modo desvirtuados com o dinheiro da Champions que, à exceção da Premier League, onde o dinheiro da TV pode competir com o da prova europeia, os maiores clubes passeiam impavidamente por eles. A Superliga europeia vem aí. Pode ser é de uma forma justa, em que os lugares são distribuídos de acordo com o mérito desportivo, com subidas e descidas e sem matar os campeonatos de cada país, ou à bruta, com atribuição de vagas numa Liga fechada, de acordo com a força que os clubes têm nos mercados, e sem preocupação com os campeonatos nacionais. O que vai fazer a diferença aqui é a proatividade que as federações que terão mais a perder com uma competição desenhada de acordo com os maiores interesses económicos (como a portuguesa, por exemplo) irão ou não assumir.Imaginemos então uma Superliga europeia com 24 clubes, os 16 melhores da Liga dos Campeões de um ano e os oito mais fortes da Liga Europa do mesmo ano. E imaginemos que os dividimos em dois grupos de 12, que jogariam todos contra todos a duas voltas (22 jornadas). Aqui chegados, apuramos os oito melhores para os quartos-de final (seguidos de meias-finais e final) os oito piores para a fuga à despromoção. No fim, em 27 jogos, teríamos um campeão europeu e dois despromovidos, que na época logo a seguir dariam o lugar aos finalistas da Liga Europa, que se manteria nos moldes atuais. São 27 semanas de competição, com jogos todas as semanas: supondo que se começava na terceira semana de Agosto e que se interrompia por três semanas por alturas do Natal e Ano Novo, podia jogar-se a final no primeiro domingo de Março. Ao mesmo tempo, jogar-se-iam os campeonatos nacionais, também por jornadas. Equipas haveria que teriam de jogar as duas competições, mas esse seria um problema bom. Por um lado porque o que ganhariam na Liga Europeia lhes permitiria pagar planteis com a profundidade necessária para as "duas cadeiras"; por outro porque ao terem de dividir as atenções entre ambas as provas, deixariam de ser tão dominantes dentro de portas, incrementando a competitividade. Com o tempo, o normal é os campeonatos nacionais acabarem por sofrer o mesmo destino que tiveram os regionais em meados do século passado. Mas aí morrerão de morte natural, sendo substituídos por mais escalões na competição continental. Ninguém os assassinará. E haverá tanta gente a bater-se pela sua continuidade como houve na altura gente a dizer que acabar com o campeonato de Lisboa ou do Porto era matar o futebol. Em Março, findos os campeonatos nacionais e europeus, era a altura ideal para entrarem em ação as seleções, com três ou quatro meses anuais para jogarem qualificacão e, se fosse caso disso, fases finais, sem os jogadores terem de andar a saltitar de uma realidade para a outra e de preferência dividindo as seleções em escalões, para evitar a profusão de jogos com amadores que hoje se realizam. Já sei qual é a primeira objeção: como sobreviveriam os clubes nesses meses? Os que tivessem internacionais receberiam pela cedência desses jogadores, que a FIFA e a UEFA geram receita suficiente para tal. Além disso, havia sempre a positividade de se jogarem provas de menor importância, como as Taças da Liga, disputadas sem os internacionais. Podiam organizar clínicas para jovens, porque vai caber-lhes cada vez mais a formação transformada em negócio. Podiam organizar digressões. Porque essa ideia segundo a qual os clubes têm de estar em ação permanente para serem um sucesso financeiro é desmentida, também, pela NBA. As finais de 2016 chegaram ao sétimo jogo e concluíram-se a 19 de Junho. A competição recomeça a 25 de Outubro, mais de quatro meses depois. E as equipas que não chegarem ao playoff ficam despachadas em inícios de Abril, quase seis meses antes de voltarem à competição. E não tenho ideia de as franchises andarem a perder dinheiro
2016-10-17
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Quando se perde, é normal que surjam as queixas. Quando se perde muitas vezes, como tem acontecido ao Nacional neste início de época, é ainda mais normal que as queixas se acumulem como ficheiros em lista de espera em cima de uma secretária. Manuel Machado, que viu a sua equipa perder mais vezes que as esperadas nas primeiras sete jornadas da Liga, passou a semana a queixar-se. Mas, ainda que as queixas tenham o seu quê de circunstancial e, pelo menos num caso, de desculpa de mau pagador, o veterano treinador não deixa de ter alguma razão. Já se sabe que o futebol português se move de acordo com os estados de alma dos três grandes, mas nunca é demais lembrar que sem os outros não haveria Liga. E portanto é importante saber o que têm para dizer. Ora Machado começou por se queixar de um calendário que o forçou a receber o Benfica à terceira jornada e o FC Porto à sétima e que em breve o levará a medir forças com o Sporting. Qual é o problema? Nenhum, como é óbvio. A Liga joga-se em sistema de todos contra todos e este não é sequer um daqueles casos evidentes – que já se viu em épocas anteriores – de um “rolo compressor”, em que uma equipa jogava, por exemplo, com dois dos três grandes de seguida. Acha que nunca aconteceu? Pois engana-se. Em 1992/93, por exemplo, quase todas as equipas do campeonato defrontaram, de seguida, Sporting, Benfica, Boavista e FC Porto. A questão é que isso só deixou de ser possível porque o grande que jogava primeiro se queixou, pois os rivais acabavam por beneficiar, por exemplo, de castigos provocados por expulsões nesses jogos. E aí, mesmo não tendo razão nenhuma na queixa que fez, Machado mete uma “lança em África” ao completá-la com a alusão a tantos condicionalismos que se fazem nos sorteios, sempre em benefício dos mesmos. Por que razão não hão-de os grandes jogar entre si a abrir os campeonatos? Há alguma razão que o justifique e que os mais pequenos não possam depois apresentar em sua defesa para fugirem a este tipo de confrontos de perfil mais elevado nas primeiras jornadas? Claro que não há, a não ser a proteção dos mais fortes. Mais interessante, porém, é a temática em torno da segunda queixa de Machado. Então o FC Porto pôde jogar com dois jogadores emprestados pelo Atlético Madrid – Diogo Jota e Oliver Torres – e o Nacional não pôde fazer o mesmo com o jogador que tem emprestado pelo FC Porto? Dita assim, a coisa parece ser para rir. Vítor Garcia não pôde jogar por estar emprestado: ele não pôde jogar por estar emprestado pelo clube que o Nacional ia defrontar. Aliás, no mesmo jogo, o Nacional alinhou com César, que está emprestado pelo Benfica, e Tobias Figueiredo, emprestado pelo Sporting. No entanto, mesmo não tendo outra vez razão, Machado voltou a pôr o dedo numa ferida que está mal cicatrizada. Sei que a Liga portuguesa proibiu os clubes de utilizarem os emprestados nos jogos contra o clube-mãe para evitar suspeições. Sei até que não é a única Liga mundial que o faz. Assim sendo, a utilização dos jogadores não fica dependente da boa vontade de quem empresta – e já se sabe que uns autorizavam e outros não – ou até da capacidade para influenciar decisões que cada clube grande vai tendo junto da sua “clientela”. E no entanto, esta é uma solução que nunca me convenceu. Porque afasta bons jogadores dos relvados, porque desvirtua a concorrência e porque se baseia na ideia de que os clubes não podem ser todos iguais, mesmo que participem todos no mesmo campeonato. Ora isso não é bom. Será esta solução melhor que a anterior, na qual a utilização dos emprestados era deixada ao critério de cada um? Admito que sim, como admito o contrário. Depende das boas ou más intenções de cada um. Mas sei que a solução ideal passava, isso sim, pela limitação do total de jogadores que cada clube pode ter sob contrato e, depois, do total de jogadores que poderia emprestar. Uma equipa mais forte do ponto de vista financeiro – e já se sabe a influência que o dinheiro da Champions tem em campeonatos de países periféricos como o nosso – pode contratar sem limites e depois espalhar jogadores por vários clubes concorrentes, assegurando desde logo que está a defrontar equipas que nesses dias se apresentam inferiorizadas jornada após jornada. Ora se cada clube visse limitado o total de jogadores que podia contratar e emprestar isso viria automaticamente reduzir os efeitos deste atropelo às regras da concorrência. Se são bons, os jogadores que os grandes contratam e emprestam não iam deixar de ter emprego – teriam, isso sim, outros empregadores. Empregadores pelos quais poderiam lutar em todas as rondas da Liga. Ganhariam menos dinheiro? Talvez. Mas a essa questão – a da distribuição da receita, que continua a ser o maior entrave a um futebol português verdadeiramente competitivo – voltarei um dia.
2016-10-03
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Três opiniões sobre o Jogo Duplo   A operação Jogo Duplo não foi uma surpresa para mim. Não sabia que ia acontecer, como é evidente, mas suspeitava de que algumas coisas daquele género se passam em Ligas menos visíveis, como a II Liga portuguesa ou até as Ligas principais de alguns países mais recônditos. Tem tudo a ver com a necessidade de compreender o sistema  e a própria realidade, em vez de lhe fechar os olhos, como têm feito as autoridades. A esse respeito, tenho por isso três coisas a dizer. Perante a detenção de agentes e jogadores acusados de fabricar resultados, a primeira tentação será a de se dizer: “isso das apostas é um mundo podre com o qual temos de acabar”. Errado! É uma falácia achar que o problema está no jogo. O problema está no jogo desregulado. Será mil vezes mais fácil detetar irregularidades e movimentações suspeitas de dinheiro com a regulamentação e a monitorização do jogo online do que limitando o jogo a terminais físicos, como sucede neste momento em Portugal. Ao manter estas limitações, o Estado português não está a acabar com o jogo online nem com as possibilidades de corrupção: está a encaminhar os grandes jogadores para fora do país – dessa forma deixando de recolher impostos sobre os volumes apostados – através de VPN e de contas bancárias no estrangeiro. Porque com ou sem jogo online em Portugal, ele continuará a existir no estrangeiro e a abarcar jogos de equipas portuguesas. Quem me conhece melhor sabe que enquanto isso foi autorizado fiz trading em casas de apostas desportivas, como a Betfair. Nessa altura cheguei a fazer parte de um grupo de “amigos” de vários países que se entretinha a “seguir o dinheiro”. E nem imaginam como é fácil descobrir movimentações suspeitas. Como? É simples. O trading funciona com base em apostas a favor (back) e contra (lay). O jogador não joga contra a casa, mas sim contra outro jogador, que aposta contra uma posição inicial colocada a favor de um determinado evento. Através de software relativamente fácil de utilizar, como o Geek’s Toy, por exemplo, é possível ver os montantes que estão à espera de ser correspondidos, isto é, as apostas colocadas mas ainda sem ninguém do outro lado. Estes grupos de apostadores têm Ligas e equipas sinalizadas como suspeitas, tanto na Betfair como sobretudo nos mercados asiáticos. É impressionante como por vezes aconteciam entradas de volumes anormais de dinheiro num determinado acontecimento e, assim que essas verbas eram correspondidas, esse evento verificava-se. Não é um meio fácil de ganhar dinheiro, porque muitas destas apostas eram simples bluffs: haverá certamente quem faça isto para lavar dinheiro, para o mover de uns países para outros, apostando a favor de um lado e contra do outro. Mas até por isso a regulação é importante, porque permitirá às polícias saber aquilo que os grupos de curiosos não saberão – de onde vem o dinheiro e para onde ele vai. Acredito que a generalidade dos jogadores de futebol não é subornável. Mas também acredito que entre os futebolistas – como entre os jornalistas, os médicos, os arquitetos, os políticos etc. – há gente capaz de aceitar dinheiro para facilitar um acontecimento. No caso dos futebolistas o problema é suscetível de ser agravado quando as suas equipas já não têm objetivos desportivos pelos quais lutar. O que fazer para o evitar? Se não é possível acabar com as apostas no Mundo, há duas coisas a fazer. Regulá-las, primeiro. E tornar o sistema do futebol o mais invulnerável possível a este tipo de tentações. Isto para dizer que ter jogadores profissionais de futebol a ganhar menos do que o ordenado mínimo – quando o recebem, porque parte deles só recebem o primeiro mês – é vulnerabilizar o sistema. Ora se o futebol move milhões – e tanto move, que as apostas se fazem – como é possível que os clubes da II Liga portuguesa, do segundo escalão profissional nacional, de uma elite, não sejam sequer capazes de manter em dia salários de miséria? O que há a fazer é tudo o possível para trazer os milhões que o futebol move para dentro do sistema, apostando depois numa repartição mais equilibrada da receita. É regulamentar o jogo, acabar com os monopólios existentes e permitir que as casas de apostas devolvam parte do dinheiro que ganham aos agentes desportivos sob a forma de patrocínios, por exemplo, e depois ser rigoroso na inspeção das irregularidades, tanto dos jogadores que se vendem como dos clubes que não lhes pagam. É por isso que digo que os menos culpados, aqui, são os jogadores. Eles são as vítimas que se deixaram apanhar num enredo que está viciado desde o início.
2016-05-19
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Não sei se o Sporting tem um agente a passear-se pelo país com uma mala cheia de dinheiro para incentivar os adversários do Benfica a tirarem pontos ao líder do campeonato. Se tem, acho mal. Como acharei mal se o mesmo se passar com o Benfica relativamente aos adversários do Sporting. Como achei mal que, no passado, tenha havido ausências difíceis de explicar contra qualquer dos grandes ou contratações em alturas menos apropriadas, feitas por qualquer um deles. Se atribuídos por terceiros, os prémios para ganhar um jogo não são tão graves como os prémios para o perder, mas devem na mesma ser punidos, porque desvirtuam a lealdade da competição. Por isso mesmo acho muito bem que a Comissão de Inquéritos da Liga abra um expediente para lidar com as suspeitas lançadas para o espectro mediático. Ainda que me pareça absolutamente impossível que venha a concluir seja o que for sem o auxílio da polícia. O problema aqui, porém, resume-se àquilo a que se resumiu em todos os outros inquéritos que lidam com assuntos tão nebulosos: a prova. Foi estranho que o Marítimo tenha poupado a maioria dos jogadores que tinha à beira da suspensão na partida com o Estoril, para os ter contra o Benfica? Foi. Só que as vozes também se levantaram antes, quando o U. Madeira poupou os jogadores que tinha “à bica” contra o Sporting, de forma a garantir que os tinha na partida seguinte, perante a Académica, onde acabou por dar um passo decisivo em direção à manutenção. Sim, o Marítimo já não tem objetivos na Liga. Mas isso chega para dizer que não tem nenhuma razão para querer fazer boa figura ante o campeão nacional, no jogo com mais visibilidade de toda a época? A verdade é que as equipas, nesta altura do campeonato, poupam jogadores em alguns desafios. Devia Nelo Vingada fazê-lo antes de jogar com o Benfica? Claramente: não! Até para evitar a suspeita. O facto de o ter feito indicia, só por si, um ilícito? Claramente, também: não! Pelo menos até que esse ilícito seja provado. Porque, vamos a ver se nos entendemos, a única diferença entre o que se passa este ano e o que se passou em anos anteriores no nosso campeonato tem a ver com o clima de suspeição generalizada provocado pelos programas de comentadores-engajados e pelo cada vez maior descaramento dos acusadores, que têm cada vez menos vergonha na cara. Façamos uma viagem ao passado. Foi estranho que Armando Sá, que era o melhor jogador do Rio Ave em 1999/00, tenha falhado o jogo com o Sporting (treinado pelo sogro, Augusto Inácio), na ponta final desse campeonato, em que os leões sprintavam com o FC Porto pelo título? Realmente, foi. Foi ilícito? Que se saiba, não! Estava lesionado. Foi estranho que Rui Duarte, que tinha apenas três amarelos em 29 jogos do campeonato de 2004/05, tenha provocado dois em 25 minutos, fazendo-se expulsar a meio da primeira parte do famoso Estoril-Benfica jogado no Algarve, onde os encarnados arrancaram para esse título nacional? Realmente, foi. Foi ilícito? Que se saiba, também não! Teve uma tarde destemperada. Da mesma forma que, por si só, não houve ilícito no facto de André Horta ter falhado apenas um jogo por opção no campeonato do V. Setúbal – contra o Benfica –, no penalti cometido por Tonel no Sporting-Belenenses, no frango de Gudiño no Sporting-U. Madeira ou no corte em rosca de André Vilas Boas no Rio Ave-Benfica, permitindo o golo da vitória a Jiménez. Queremos ir ao fundo da questão? Vamos a isso! Mas não creio que seja através da Comissão de Inquéritos da Liga que lá chegaremos. E também não me parece normal que a cada decisão discutível de um treinador, a cada gesto técnico imperfeito, se chame a polícia. Porque se há um homem a correr o país com uma mala cheia de dinheiro para incentivar terceiros, não é bom que a necessidade de uma investigação seja travada por causa de uns quantos Pedros que passam a vida a gritar “Lobo!”
2016-05-05
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Quem faz o favor de me ler há tempo suficiente sabe que adotei de Sven-Goran Eriksson a teoria segundo a qual discutir arbitragens é irrelevante porque, no fim, feitas as contas, entre o deve e o haver, as coisas acabam por se equilibrar. É por isso, e também porque nunca encontrei um debate sobre penaltis ou foras-de-jogo em cujos padrões de urbanidade ou educação me reveja, que não sigo o caminho geral, o caminho que manda o adepto comum vociferar contra os árbitros nos fins-de-semana em que a sua cor saiu prejudicada e silenciar essas discussões quando são os outros a queixar-se. Mas também já ando no futebol português há tempo suficiente para acrescentar à teoria de Eriksson uma outra, à qual chamo a “teoria do remediado”. E que diz o seguinte: nos últimos dez ou quinze anos, em cada momento conjuntural do futebol português, há sempre um que ganha, um que é cúmplice porque joga na mesma na Champions e um terceiro que luta por aquilo a que chama “a verdade desportiva”, mas que não é mais do que a defesa dos seus interesses e a vontade em ocupar o lugar de um dos outros dois. Não vou ao ponto de dizer, como Jorge Jesus disse do fair-play, que a verdade desportiva seja uma treta. Não é. Sou, aliás, favorável à introdução no futebol de meios auxiliares de diagnóstico que venham ajudar os árbitros a decidir melhor. Mas não tenho a ilusão de que isso venha acabar com a discussão, porque não é preciso recorrer às hordas de fanáticos que enxameiam as redes sociais para encontrar gente que, perante as mesmas imagens, tira conclusões diferentes. Basta muitas vezes consultar ex-árbitros internacionais. Como não existe uma verdade absoluta, mas sim diferentes interpretações de um mesmo acontecimento, quando houver vídeo-árbitro – e reparem que não disse “se”, disse “quando”, porque acredito que isso é inevitável – as suspeitas de favorecimento manter-se-ão, mas mudarão de destinatário: passarão do relvado para a régie. E isso será assegurado por todos os que mantém a funcionar o sistema de acordo com a “teoria do remediado”, esse axioma nascido da evidência de que só há lugar para dois clubes verdadeiramente grandes no futebol nacional, porque são apenas duas as vagas garantidas na distribuição de milhões da Liga dos Campeões. Foi de acordo com essa evidência que as coisas mudaram. Se até há uns dez, quinze anos, o que interessava era só ganhar, depois da reforma das provas europeias, que assegurou uma segunda vaga direta de clubes portugueses na Champions, passou a interessar também ficar em segundo lugar. Chegámos, nessa altura, ao ponto de ouvir um presidente do Sporting dizer que ante dois desafios, preferia ficar em segundo no campeonato a ganhar a Taça de Portugal. Ou ser duas vezes segundo a ser uma vez primeiro e outra terceiro. Essa, já se vê, era a altura em que o Sporting era o remediado. O FC Porto ganhava – e nos últimos 30 anos nunca deixou de ganhar por mais de três anos seguidos, mantendo mesmo assim com frequência o segundo lugar – e o Sporting era segundo, o que garantia à equipa de Paulo Bento um cartão de passageiro frequente na Liga dos Campeões. E dinheiro, muito dinheiro. Quem lutava nessa altura pela “verdade desportiva”? O Benfica, pois então. Era Luís Filipe Vieira quem falava mais na regeneração do sistema. António Dias da Cunha, um voluntarioso franco-atirador que, na qualidade de presidente do Sporting, chegou a alinhar com Vieira nalgumas iniciativas, acabou por ser afastado dentro do próprio clube, pois estava a ir contra a “teoria do remediado”. Entretanto, o Benfica passou a ganhar – é neste momento favorito à conquista do tricampeonato. E da Luz passaram a chegar vozes de moderação, de crítica a quem passa a vida a falar dos árbitros. Quem passou a ser o principal crítico do sistema? O Sporting, pois então, onde Bruno de Carvalho diz tudo aquilo que Luís Filipe Vieira disse e talvez até muito mais, questionando os árbitros e clamando por injustiça em todas as jornadas e chegando mesmo ao ponto de recusar a admissão de favorecimentos quando eles acontecem – como foi o caso esta semana. O FC Porto tem sido o remediado e por isso mesmo ninguém se juntou a Lopetegui quando este criticou as arbitragens, na época passada. Veremos como passarão a comportar-se no Dragão na próxima época, quando se torna mais ou menos evidente que o FC Porto será terceiro na Liga que se aproxima do fim e tem a Liga dos Campeões em risco. In Diário de Notícias, 19.04.2016
2016-04-18
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Último Passe

Benfica e Sp. Braga não foram bafejados pela sorte nos sorteios dos quartos-de-final da Liga dos Campeões e da Liga Europa. Aos bicampeões nacionais saiu o Bayern, um dos tubarões que havia no sorteio – e havia quatro –, a tornar muito complicado pensar mais à frente nesta competição, enquanto que a equipa minhota terá de defrontar o Shakthar Donetsk, poderosa equipa do Leste europeu, que já se sabe vai ganhando ritmo competitivo à medida que a Primavera substitui o inverno. Não sendo proibido pensar em apuramentos, o que mais interessa agora é ver até que ponto a UEFA justifica um descentrar de ideias na Liga. Ora isso não será um problema para o Sp. Braga, que está a onde pontos do terceiro lugar, tem o quinto a seis pontos ainda assim geríveis e pode dar-se ao luxo de pensar sobretudo nas provas a eliminar que tem pela frente: meia-final da Taça da Liga com o Benfica, final da Taça de Portugal com o FC Porto e quartos-de-final da Liga Europa, com o Shakthar. Ainda assim, e mesmo tendo em conta que tem um plantel muito equilibrado, com 16/17 jogadores do mesmo nível, Paulo Fonseca deve lembrar-se que já teve o quinto lugar mais longe e que não lhe convirá tirar por inteiro a cabeça da Liga portuguesa. O Shakthar, ainda por cima, sendo um adversário forte, não é um opositor que pareça inultrapassável. Os ucranianos acabam de afastar o Anderlecht, com duas vitórias, depois de mesmo em férias ativas terem eliminado o Schalke, sem sofrer golos; estão a apenas três pontos do Dynamo Kiev no topo da sua própria Liga e além disso já vão chegar a Abril mais rodados que neste momento, mas não têm um histórico recente nada famoso contra equipas portuguesas. Muito mais complicada é a tarefa à frente do Benfica. É verdade que, sem alguns dos seus titulares, este Bayern Munique parece uma equipa manejável. A Juventus esteve a um minuto de eliminar os alemães, que durante uma hora pareceram irreconhecíveis, na lentidão com que saíam a jogar, por exemplo. Mas o peso competitivo de um plantel que, recorde-se, ainda há um ano goleou o FC Porto em Munique é incomensurável – e isso viu-se na forma como fez o 2-2 no último minuto e partiu dali para ganhar por 4-2 no prolongamento. Só um super-Benfica poderá pensar em equilibrar a eliminatória com o Bayern – e o FC Porto, apesar de tudo, ainda ganhou a primeira mão, há um ano, antes de soçobrar em Munique – e não é líquido que Rui Vitória esteja em condições para meter tudo na Liga dos Campeões, deixando momentaneamente para segundo plano a Liga portuguesa. É claro que qualquer treinador dirá que aborda um jogo de cada vez, mas alguém duvida que a estratégia e o comportamento do FC Porto no jogo do título da época passada (0-0 com o Benfica na Luz) foi condicionado pelo 6-1 que os dragões tinham apanhado em Munique uns dias antes? Porque uma eliminatória com o Bayern pode pesar de inúmeras formas e a física nem é a mais importante.
2016-03-18
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Que a SuperLiga vem aí, já toda a gente com olhos na cara percebeu há uns 25 anos. Tem a ver com a compreensão daquilo que é o futebol, mas também com a noção daquilo que é o Mundo, que se reflete sempre no futebol. As instâncias que governam o futebol têm vindo a dar pequenos passos numa direção que por vezes nem é a que mais lhes convém, porque perceberam que essa é a única forma de impedir as forças motrizes do negócio de dar o grande salto em frente. Mas chegará o momento em que as ligeiras travagens não são suficientes. E ele já não está muito longe, pelo que o que há a fazer não é tentar impedi-lo. É prepararmo-nos para ele. De preferência com a UEFA à cabeça – mas para isso, as federações que mais podem perder com isto têm de se mexer. E a portuguesa é uma delas. Quem me acordou para esta realidade foi Alex Fynn, em inícios da década de 90. Na altura um executivo de topo da Saatchi & Saatchi, o homem que primeiro defendeu a criação desta SuperLiga europeia explicou-me, a mim e a quem fez o favor de me ler, nas páginas do “Expresso”, as razões pelas quais a prova já estava ali ao virar da esquina. Se a melhoria dos transportes ferroviários e da rede de autoestradas nos permitiu passar dos campeonatos regionais aos nacionais e, depois, a evolução dos transportes aéreos permitiu a criação das competições europeias, a sua vulgarização levaria a que fosse possível jogar-se uma verdadeira Liga europeia. E Fynn falava muitos anos antes do fenómeno “low cost” na aviação e das implicações que ele trouxe para a mobilidade das pessoas em geral. Fynn não falava sem interesse – tinha feito um estudo encomendado por Silvio Berlusconi, na altura ainda apenas dono do Milan e de uma rede de media. Berlusconi tinha um clube e os meios de o rentabilizar e queria ver avanço no negócio. Porque para o Milan era mais atrativo jogar com o Manchester United do que com o Bari. Tal como agora para o Bayern é mais interessante defrontar o Barcelonado que o Hoffenheim. E é mais rentável. Sobretudo, é mais rentável. Por isso, se algo me surpreende, agora que recupero as notas dessa conversa com mais de 20 anos, é que a SuperLiga ainda não tenha arrancado. Não arrancou porque a UEFA tem andado sempre um passo à frente. Em 1992, para impedir o avanço da SuperLiga, criou a Liga dos Campeões, assegurando mais jogos a cada clube. Em 1998, quando se falou outra vez de secessão, aumentou para dois o número de vagas para cada um dos principais países. Em 2010, face a mais conversas, o total de vagas cresceu para quatro nos três primeiros países do ranking. Agora, que os cinco maiores clubes ingleses abriram conversações para jogarem partidas da Champions nos EUA ou no Oriente, não se vê o que mais pode a UEFA oferecer-lhes a não ser criar ela própria uma nova competição. E mesmo assim não é garantido que os clubes decidam ficar, pois o organismo que tutela o futebol europeu já não é um garante de legitimidade que era há 20 ou 30 anos, quando ainda não se falava de corrupção como se fala agora. Aqui chegados, a SuperLiga não é uma má ideia. Pelo contrário. É uma excelente ideia. O que nos trouxe a globalização, com a vulgarização das transmissões de futebol de todo o Mundo para todo o Mundo, é que as novas gerações de portugueses já sabem melhor como joga o Barcelona, o Real Madrid ou até o Leicester do que o Tondela, o Arouca ou o V. Setúbal. Podemos gostar ou não gostar – e a mim não me incomoda por aí além – mas não podemos mudar o Mundo de uma penada. E se o que as pessoas querem é grande futebol, pois que se lhes dê grande futebol. De preferência com a UEFA a mandar, porque essa, ainda assim, é a única forma de desviar alguma da receita para o desenvolvimento do futebol jovem e das federações menos ricas, de evitar, não que os ricos fiquem mais ricos, mas que os pobres fiquem mais pobres. Salvaguardados esses princípios de justiça relativa, é preciso depois pensar que SuperLiga se cria. Porque uma coisa é aquilo que é justo e outra é aquilo que é melhor para o negócio. O que é justo é pegar-se nas 20 melhores equipas da Europa (por exemplo os 16 apurados na fase de grupos de uma próxima Champions e os quatro semi-finalistas da Liga Europa do mesmo ano), criar para elas um escalão supra-nacional, acima dos campeonatos de cada país e das atuais provas europeias, com quatro despromoções e quatro subidas, a serem entregues aos finalistas das duas competições continentais de cada ano. Jogar-se-ia em 38 jornadas, ao fim-de-semana e, para não se esvaziar totalmente os campeonatos nacionais, os clubes da SuperLiga até poderiam participar neles com equipas B. O que é melhor para o negócio é fazer uma Liga fechada, tipo NBA, sem subidas nem descidas, com cinco equipas de Inglaterra, quatro da Alemanha, quatro de Espanha, quatro de Itália e dar as três vagas restantes ao Paris St. Germain, ao Mónaco e ao Zenit. Eventualmente, o Celtic, o Ajax, o Galatasaray, o Benfica ou o Shakthar Donetsk podiam tentar entrar, ainda que sem grandes hipóteses de sucesso. Portugal quer isto? Creio que não. Então mexam-se! In Diário de Notícias, 14.03.2016
2016-03-14
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Alguns amigos, tanto de direita como de esquerda, têm comentado comigo a preocupação que lhes cresce na alma perante a possibilidade cada vez mais iminente de Donald Trump vir a ser presidente dos Estados Unidos. O que lhes digo sempre é que isso não me surpreende, porque o estado do Mundo é um convite à intolerância, ao radicalismo, ao soundbyte que deles se alimenta. E não é só na política. Fruto daquilo em que se transformaram os media, da amplificação da opinião do “idiota da aldeia” que trouxeram as redes sociais, o futebol português está cheio de radicais encartados, de gente cuja única missão é sobrepor as suas cores às de todos os outros, nem que para isso seja preciso atropelar todas as regras do bom-senso, da educação ou da ética. Um fim-de-semana como o que acaba de viver a Liga portuguesa, com penaltis polémicos e discutíveis, é o combustível destes Donald Trumps dos relvados, desta gente para quem mais importante do que ganhar ou perder é garantir que o rival teve ajudas. Passei boa parte do fim-de-semana a responder a esta legião de radicais, a adeptos que repetem até à exaustão as mesmas expressões – “jornaleiro”, “cobarde”, “burro”, “faccioso”, “invertebrado”, “azia”, “tira as palas”, despe a camisola”, “se falas acabam-se os tachos”… – e que me acusam de ser sempre adepto ou de estar a ser pago por um clube que não o deles. Seja o deles qual for. Aliás, já me aconteceu ser acusado por leitores diferentes de estar ao serviço de cada um dos três grandes e contra cada um os três grandes por causa de um só texto. Na parte que me sobrou do fim-de-semana, achei que precisava de me reconciliar com a profissão e foi ver “Spotlight”, um excelente filme acerca de jornalismo como ele deve ser e que recomendo sem reservas a todos os talibans da bola nacional. Sei que as realidades não têm comparação, que uma coisa é falar-se de penaltis e outra denunciar o crime mais hediondo que possamos imaginar, que é o crime de pedofilia, mas acreditem que, com mais ou menos tempo – a investigação acerca da pedofilia na igreja em Boston levou meses de dedicação total e só foi denunciada com provas irrefutáveis – e com mais ou menos meios, os jornalistas são e querem ser sempre jornalistas. E, dentro da responsabilidade ética e moral da profissão, o que querem é revelar a verdade e denunciar quem a não respeita. Simplesmente, se Trump acha que consegue resolver o problema da criminalidade nos Estados Unidos impedindo a entrada de imigrantes mexicanos, os radicais do futebol português acham sempre que o futebol seria uma limpeza se os jornalistas se comportassem como os comentadores engajados que aparecem nos programas de segunda-feira a gritar penalti sempre que é um jogador deles que cai e a assobiar para o ar quando quem se estatela é um dos rivais. Nunca escolhi, nem escolherei esse caminho. Porque não creio que a minha opinião em lances polémicos seja palavra de lei. Porque acredito no erro – e tenho visto os mesmos árbitros errar para todos os lados. Porque ainda estou para ver uma discussão acerca de arbitragem mantida no plano racional e de urbanidade no qual me reveja. E porque, francamente, muito mais interessante do que discutir penaltis é perceber que o Paços de Ferreira encontrou espaço para jogar entre as linhas do Benfica porque, desgastada, a equipa de Rui Vitória não foi tão compacta como costuma ser. Ou explicar que os problemas defensivos do FC Porto têm a ver com o deficiente controlo da profundidade defensiva ou com o espaço que a equipa deixa criar entre central e lateral quando o adversário cruza referências à sua frente. Assim será até que, tal como em “Spotlight”, a história não seja ir atrás de um penalti, não seja dar a minha irrelevante opinião acerca de um lance, mas sim denunciar todo um sistema. Até perceber que há uma teia a manobrar para favorecer um clube – os do Benfica dizem que é o Sporting, os do Sporting dizem que é o Benfica, ambos concordam que há uns anos era o FC Porto e os do FC Porto dizem agora que quem é favorecido são os de Lisboa – vou continuar a ver e interpretar futebol sem me focar nos árbitros. Da mesma forma que os religiosos falam com Deus sem precisar da intermediação dos padres. In Diário de Notícias, 22.02.2016
2016-02-22
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O empate do Sporting com o Rio Ave, conjugado com a vitória do Benfica frente ao Belenenses, deu a primeira liderança da Liga partilhada envolvendo os grandes de Lisboa desde há uns dois anos. Na altura, ainda fazia eu parte da direção do Record, o caso deu origem à feroz guerra das classificações. Para mim, que não sigo carneiradas, mantenho a coerência e sei que a liderança que vale é a da última jornada e não a da 21ª, quem comanda agora a Liga é o Sporting e não o Benfica, como está no site oficial. E o mais divertido vai ser ver os fanáticos da aritmética de conveniência que me (nos) insultaram há dois anos mudarem de posição consoante os argumentos passaram a favorecer quem outrora desfavoreceram. Ou aqueles que há dois anos acharam que tínhamos razão virem agora chamar-me nomes porque se há uma classificação oficial os jornalistas têm mais é que a seguir de forma cega. A situação explica-se facilmente. Em Dezembro de 2013, o empate do Sporting em casa com o Nacional – também 0-0, como agora – deu até uma liderança a três: FC Porto, Benfica e Sporting, todos com 33 pontos. Para a Liga, as regras são claras: o desempate faz-se por diferença de golos até à penúltima jornada e por confronto direto no final da prova. Pelas regras da Liga, o primeiro naquele mês de Dezembro era o Sporting, com diferença de 24 golos positivos, seguido de FC Porto (20) e Benfica (15); pelas do bom-senso, que foram aplicadas pelo Record, quem liderava era o FC Porto, que ganhara aos leões, seguido de Benfica, porque tinha empatado em Alvalade, e de Sporting, o mais fraco numa mini-Liga a três. Tal como agora é o Benfica quem lidera pelas regras da Liga, mas na verdade, o líder do bom-senso é o Sporting, que ganhou por 3-0 aos encarnados na Luz – a este propósito, cresce o meu respeito pelo zerozero.pt, que manteve a coerência na diferença. As regras da Liga fazem pouco sentido. Imaginemos que Benfica e Sporting ganham todos os jogos até à última jornada, empatando de caminho no dérbi entre ambos, em Alvalade. Imaginemos ainda que os encarnados mantêm a vantagem na diferença de golos geral. Aí, o que sucederá é que, mesmo entrando para a última jornada em primeiro lugar – para a Liga – o Benfica pode até ganhar por 50-0 ao Nacional que a mesma Liga o despromoverá à segunda posição desde que o Sporting vença em Braga. Normal? A mim não me parece. Como não pareceu há dois anos, na altura em que a direção do Record de que fazia parte foi chamada a deliberar acerca de uma decisão tomada em outras núpcias por uma direção anterior – e que é em grande parte a atual – acabando por decidir manter as regras que aquele coletivo tomara. Na altura, uma onda de contestação nasceu em Alvalade e chegou às imediações do Estádio da Luz, às instalções da Cofina. Houve condenações, imolações, tudo em crescendo à medida que o ruído vindo das redes sociais aumentava. Vinham de quem não é capaz de perceber que nem todos têm de seguir a carneirada e que as tomadas de posição, se são prévias aos acontecimentos, não podem ser acusadas de ser parciais quando se trata de os avaliar. Dois anos depois, cá estou, a manter a coerência e a dizer: para mim, quem vai à frente é o Sporting.
2016-02-09
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Último Passe

A instauração de um processo disciplinar a Slimani pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, na sequência da queixa do Benfica, que acusa o argelino de ter dado uma cotovelada em Samaris, é absolutamente normal. Primeiro porque, ao contrário do que pode parecer pela reação inflamada do Sporting, Slimani não foi castigado. Pode vir a sê-lo, como pode acabar ilibado. Depois porque há uma grande diferença entre o choque de Slimani com Samaris e os lances apresentados pelo Sporting como represália. É uma coisa redonda, que se chama bola, que não está num e aparece nos outros. Aqui chegado, não tenho nada a certeza de que Slimani tenha de ser castigado. Aliás, o argumento apresentado hoje por Octávio Machado parece-me plausível ou pelo menos defensável: o argelino estaria a tentar chegar à bola e para isso tentou tirar da frente o adversário que lhe bloqueava o caminho. Terá sido isso? Ninguém pode garanti-lo. Nem isso nem o seu contrário. Mas a defesa ensaiada por Octávio Machado serve na perfeição para arrumar a um canto as queixas leoninas acerca de lances em que vários jogadores do Benfica são vistos a atingir adversários, nesse mesmo jogo. É que todos esses lances são duros, estão mesmo um pouco para lá dos limites da dureza aceitável, mas em todos a bola está bem presente e a ser disputada pelos intervenientes. Não percebo, por isso, tão inflamadas queixas leoninas acerca da existência de dois pesos e duas medidas, pelo menos no que toda aos lances de futebol. Diferente é se falarmos das motivações por trás de cada queixa. E aí tão mal fica o Sporting, por ter ido a correr compilar imagens de jogo que lhe servissem de represália à queixa benfiquista, como o Benfica, por se ter queixado de Slimani só para se vingar as denúncias acerca dos vouchers, feitas por Bruno de Carvalho. É que se queremos falar de um arquivamento incompreensível, é neste que devemos centrar atenções.
2016-01-27
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No futebol, há muito quem ligue a estas coisas das superstições. Há quem entre em campo a saltitar em cima do pé direito, porque só ao fim de calcar a relva uma meia dúzia de vezes com aquela chuteira lhes é permitido pousar a esquerda. Há treinadores que não deixam o autocarro da equipa fazer marcha-atrás, causando dores de cabeça infindas aos respetivos motoristas. Há quem vá para os jogos sem fazer a barba ou com uma peça de roupa em particular. E há quem ligue aos inícios. Muita gente liga aos inícios. Como representante de uma escola mais científica, das que acredita mais no valo do trabalho que nos sinais, José Peseiro, espero, não deve ser muito de ligar aos inícios. Porque se o início da sua etapa no FC Porto foi marcado por uma exibição pouco conseguida, nem o prenúncio se salvou. Os adeptos do FC Porto lembram com saudade José Mourinho, o último treinador que lhes deu a alegria de uma Liga dos Campeões, em 2004. Ora Peseiro vem do mesmo sítio: o antigo ISEF, a que agora se chama Faculdade de Motricidade Humana. São dois representantes de uma mesma escola de treino e Peseiro até esteve para ser um continuador de Mourinho, no início do século, quando apurou o Sporting para a final da Taça UEFA de 2005, um ano depois de o Special One ter ganho a tal Liga dos Campeões com o FC Porto. Perdeu-a, é certo, com algum azar – uma bola nos dois postes em resposta à qual o adversário fechou o jogo com o 3-1 – mas já se sabe que a diferença entre uma vitória e uma derrota é tantas vezes tão ténue que se explica com minudências. Assim como as superstições, por exemplo. Ora Peseiro estava lançado para uma estreia de sonho para quem acredita nestas coisas. Chegou ao FC Porto em meados de Janeiro, como Mourinho. Fez o primeiro jogo contra o Marítimo, como Mourinho. No outro banco, tinha como padrinho Nelo Vingada, como Mourinho, quase parecendo que o Marítimo tinha ido a correr contratá-lo só para poder haver mais uma coincidência. Abriu o marcador aos 22 minutos, apenas dois minutos depois de Mourinho. E fê-lo com um autogolo do adversário, como Mourinho. O problema é que se na altura valeu a lei dos jornalistas, que atribuíram o golo de abertura do jogo a Briguel, na própria baliza, agora a Liga tem a mania de se organizar e estende as suas influências por todo o lado. E logo veio, na mesma noite, dizer que o autogolo de Salin, afinal, era um golo de André André. Não vou ao ponto de dizer que a Liga o fez só para estragar a coincidência a Peseiro. Acho que não. Acho francamente que o fez porque, além de andar toda a gente louca com as mãos na bola e as bolas na mão – qualquer dia os futebolistas têm de jogar de mãos amarradas atrás das costas para não causarem aquilo a que os especialistas de arbitragem chamam “volumetria” – o futebol nacional está cheio de especialistas que acham que não há autogolos. Ora o golo de André André é muito parecido com o primeiro do Benfica em Braga. Na altura Pizzi chutou, agora chutou André; na altura a bola foi cortada por um defesa em cima da linha, agora acertou na barra; na altura bateu nas costas de Kritciuk e voltou a assumir a direção da baliza, agora bateu nas pernas de Salin e tomou de novo o caminho das redes. Presumo que, movidos pela maior força motriz do futebol em Portugal, que é o fanatismo clubístico, os que na altura acharam que era golo de Pizzi, agora virão dizer que é autogolo de Salin, enquanto que os que na altura defenderam que era autogolo de Kritciuk virão agora sustentar que é golo de André André. Nesse aspeto, a Liga foi coerente e deu os dois golos a quem chutou: Pizzi e André André. Eu também o sou. Para mim são ambos autogolos. E não é para permitir a Peseiro compor melhor o filme das suas premonições. É mesmo porque sem a intervenção involuntária dos dois guarda-redes, aquelas duas bolas nunca chegariam à baliza. Vinham na direção oposta, aliás. In Diário de Notícias
2016-01-26
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Ainda faço parte de uma geração que passou boa parte da infância e da adolescência a correr atrás de uma bola, a ler sobre bola, a ver bola, a discutir bola. As mães e as avós, que não nos compreendiam, nem a nós nem aos nossos pais, diziam que éramos “doentes da bola”. Ouvi essa expressão com alguma frequência. Hoje, os doentes da bola deram lugar a outro tipo de doentes. São os doentes da arbitragem, aqueles que não correm atrás de uma bola, não leem sobre bola, não veem bola nem discutem bola. Só discutem penaltis e off-sides, mãos na bola e bolas na mão, intensidades e intenções. O problema é que ou estão a ficar em maioria ou são uma minoria demasiado ruidosa. É sintomático que no fim-de-semana em que o Tondela, último classificado da Liga portuguesa, surpreendeu o Sporting, que é primeiro, com um empate a dois golos no seu próprio estádio não se esteja a debater a audácia de Petit, que jogou com as linhas subidas e soltou dois velocistas em diagonais para a área do leão, ou que depois, no final, fez substituições ofensivas para ir buscar o empate. Argumentarão que não se discute o jogo dos pequenos. OK, discuta-se então a forma como Jesus montou a equipa na segunda parte, com dez, para virar um jogo que estava complicado, chamando outra vez Gelson e prescindindo de William em quebra. Ou como depois deixou que a equipa baixasse o ritmo antes de ter o resultado seguro e não fez atempadamente as trocas que se impunham para o congelar. Não. O que se discute é um penalti de Rui Patrício sobre Nathan Júnior. Para uns é, porque o guarda-redes toca na perna do jogador adversário. Para outros não é, porque também toca na bola, porque antes do choque, o avançado do Tondela deu um chuto na relva e depois festejou o apito do árbitro. É sintomático também que não se discuta a pressão que o Benfica foi capaz de fazer ao Estoril, não o deixando sair do seu meio-campo, ou o jogo nada ambicioso dos estorilistas, que amontoaram homens à saída da sua própria grande área, quase se limitando a dar a bola ao adversário e a convidá-lo a encadear ofensiva sobre ofensiva. Não. O que se discute é se Mitroglou estava fora de jogo no lance do 1-1 e se uma bola que tabelou nas costas de Pizzi entrou ou não na baliza de Kieszek. E não se discute a forma como os jogadores que o V. Guimarães tem na frente foram capazes de manter em respeito o FC Porto, o erro de Casillas no lance que deu a vitória aos minhotos ou a incapacidade do FC Porto para fazer um golo num jogo em que jogou mais pelo meio e menos pelas pontas relativamente à herança de Lopetegui. Não. Discute-se se é admissível que haja notícias nos jornais acerca do interesse do FC Porto no treinador do V. Guimarães e assinalam-se nexos de causalidade do tipo: se Conceição for mesmo para o FC Porto, é porque vendeu o resultado. Como se um dirigente no seu perfeito juízo pudesse contratar um treinador que vende resultados, sabendo que um dia, na Champions ou onde for, também o FC Porto encontrará adversários mais poderosos que ele. O problema são os malucos da arbitragem. Os fanáticos da ilegalidade. Posso dar a minha opinião sobre os lances polémicos – é penalti de Rui Patrício sobre Nathan, porque o guarda-redes do Sporting toca antes no adversário e só depois na bola; há fora-de-jogo de Mitroglou no golo que deu o empate ao Benfica e a bola impelida inadvertidamente por Pizzi entrou na baliza de Kieszek. Nos três lances, contudo, admito que me digam o contrário. O que não admito, porque não é saudável, é que queiram dizer-me o contrário com letra de lei, porque são três lances tão difíceis de analisar, tão no limite, que todas as opiniões são válidas. E porque, continuo convencido disso, no final as contas entre o deve e o haver não vão influenciar assim tanto a tabela classificativa. Tendem mesmo a equilibrar-se entre os três, como acho que estão realmente equilibradas neste momento. E é aí que entram em campo os malucos da arbitragem. Uns fazem-no por carolice, porque são facilmente influenciáveis, outros por dever profissional, porque são pagos para isso. Porque se convencionou que a melhor maneira de um clube ser beneficiado – ou de não ser prejudicado – é convencer a opinião pública que quem está a ser beneficiado é o adversário direto. E aí vale tudo, valem todas as formas de influenciar os observadores. Valem conferências de imprensa, posts no Facebook, tweets no Twitter, longos monólogos em programas de comentadores engajados ou soundbytes em newsletters diárias. Mas, ao contrário do que acontece no campeonato da bola, não me interessa rigorosamente nada saber quem vai à frente neste campeonato, no campeonato da estrutura, da comunicação. Porque posso ser doente mas sou um doente da bola. In Diário de Notícias
2016-01-18
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Último Passe

Os mais mil e trezentos milhões de euros injetados em três clubes de futebol pelas principais operadoras de TV por cabo nas últimas semanas vieram agitar o futebol nacional e merecem uma explicação. Ao mesmo tempo que os adeptos querem sobretudo ver escrito que o seu clube fez o melhor negócio dos três - seja ele qual for -, essa medição é o que menos me interessa, porque só é feita por quem vê o futebol como um exercício de culto da personalidade, seja ela a de Luís Filipe Vieira, de Pinto da Costa ou de Bruno de Carvalho. Mais interessante é perceber como é que isto foi possível e o que vai acontecer daqui para a frente.É verdade que o panorama de rivalidade fortíssima entre os clubes, que está na génese das tais atitudes de confronto do adepto comum, ajudou a potenciar todos os negócios, porque contribuiu para o crescimento da concorrência: todas as operadoras temem o efeito de rejeição dos adeptos de um clube excluído. Mas a chave destes negócios esteve na decisão tomada há tempos pela autoridade da concorrência, quando impediu a entrada da PT no capital da Sport TV e impôs que os contratos existentes expirassem em 2018, matando a cláusula de preferência que eternizava o domínio exercido pela PPTV de Joaquim Oliveira no direitos de TV do futebol.Se o aparecimento da concorrência e o desaparecimento do intermediário ajuda a explicar de onde veio o dinheiro, já me parece impossível definir quem dos três fez o melhor negócio, porque fruto da tal predisposição para o culto do líder, todos os clubes acabaram por meter mais e mais coisas nos contratos para poderem subir o montante final de cada contrato, que é o que faz manchetes nos jornais e motiva a discussão dos adeptos. Creio que os tempos da gestão irresponsável ds operadoras estão bem lá atrás e que tanto a Nos como a Altisse pagaram um justo valor, não pelo que os direitos valem agora mas sim pelo que poderão valer nos próximos dez anos, com a criação de novas plataformas e o aparecimento em Portugal de realidades como o Pay Per View.Aliás, essa é uma das inquietações que me assaltam neste momento. É que se é mais ou menos claro que até 2018 - até os jogos do FC Porto passarem para a Altice - o futebol vai ficar concentrado na Sport TV, onde a Nos deverá querer meter o Benfica, a dúvida é acerca do que acontecerá depois. Quererá a Altice criar um novo canal de desporto - diz-se até que já está a negociar com outros clubes nesse sentido - para concorrer com a Sport TV? E com os valores que ambos estão a pagar aos clubes, poderão estes dois canais ser rentáveis a médio prazo, tendo só metade do futebol? É que, ainda por cima, apesar de a Liga de Proença estar a falhar o encontro com a história ao perder a oportunidade de centralizar pelo menos as negociações dos clubes além dos três grandes - se 17 jogos de um dos grandes em casa valem 400 milhões por dez anos, 45 jogos dos três fora de casa valerão seguramente mais de mil milhões - ainda há muito dinheiro a gastar para assegurar todo o futebol. E os pequenos têm de entender que nesta guerra não são de todo um verbo de encher.
2015-12-29
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Último Passe

O negócio feito pelo FC Porto com a Meo tem sido visto como uma resposta ao acordo entre o Benfica e a Nos, mas francamente essa é a parte que me parece menos interessante na notícia. Ainda que a generalidade dos adeptos veja o futebol como uma simples forma de medir virtudes – para poder dizer: “a minha é maior do que a tua” – aquilo que mais me interessa no negócio entre o FC Porto e a Meo são outras coisas. É, por exemplo, perceber quanto é que os mesmos adeptos que agora se digladiam para defender o negócio feito pelo seu presidente como melhor que o do rival terão de pagar para continuar a ver o futebol. Porque há um admirável mundo novo a desembrulhar-se à nossa frente e convém percebê-lo desde os primeiros tempos. Interessa primeiro dizer que, tal como o Benfica, o FC Porto fez um excelente negócio e conseguiu assegurar uma importante fonte de financiamento para os próximos anos. Se um negócio é melhor do que o outro é difícil ou até impossível de dizer, porque o que foi vendido foram coisas diferentes e por isso mesmo incomparáveis, as do Benfica por 400 milhões, as do FC Porto por 457. Depois, interessa salientar que se confirma a entrada do futebol nacional num novo paradigma, em que o produtor de conteúdos vende diretamente às empresas aglutinadoras desses mesmos conteúdos, dispensando não apenas o intermediário que fez lei e ditou preços durante anos no futebol nacional, com isso exercendo influência política, mas fundamentalmente dispensando também os canais propriamente ditos. Porque, mais do que perceber se este negócio torna a centralização dos direitos mais próxima ou total e absolutamente inviável, como à primeira vista parece, interessa perceber algo tão simples como: onde vão os jogos ser transmitidos? Os do Benfica na Sport TV (de Oliveira, portanto)? E os do FC Porto, onde? E o que quer a Meo? Melhorar a posição negocial? Quer os direitos para revender? Para lhe servirem de moeda de troca? E poderá a Sport TV aumentar o valor da assinatura sem ter os jogos do FC Porto em casa, mesmo que ganhe o Benfica e a Liga inglesa? E será que a Liga de Proença, que vai somando punhaladas nas costas, pode ainda vir à tona no final desta guerra? Vêm aí tempos animados.
2015-12-27
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A guerra que Bruno de Carvalho iniciou há quase três anos para tirar o Sporting do buraco para onde o qual o clube estava a cair é uma guerra sem quartel, com mil e uma batalhas e que cansa até de ouvir. Por sede de protagonismo, desconfiança nos que lhe estão mais próximos ou simples espírito de missão, o presidente do Sporting trava-as as todas na primeira pessoa do singular, tornando-se numa espécie de metralhadora falante. Depois, por simples questão de personalidade ou apelo ao populismo, extrema posições, arrastando as suas hostes com ele e afastando todos os outros daquele que de outra forma até poderia ser um caminho consensual – porque Bruno de Carvalho tem razão em muitas das guerras. Na verdade, Bruno de Carvalho não procura consensos, porque sabe que não é com eles que ganhará a guerra, e até tem uma noção segura do que mais interessa aqui: a realpolitik. O problema surge quando essa mesma realpolitik conflitua com o estilo de combate do presidente do Sporting, como no caso da abertura das inscrições dos reforços de Janeiro. Bruno de Carvalho defende o vídeo-árbitro com razão total, mas só depois dos jogos em que o Sporting é prejudicado – é a realpolitik que o manda manter um silêncio conivente nos outros todos. Combate a entrada dos fundos de investimento no futebol, mais uma vez com razão absoluta, mas não só muda de ideias quando o dinheiro entra no Sporting, como convence os que estão nas suas trincheiras de que essa situação é radicalmente diferente – é a realpolitik a ditar leis. Quer manter o controlo do clube sobre a SAD, e por isso apela à boa-vontade da banca credora para alargar o prazo de conversão das VMOCs em ações, fazendo-o baseado na noção prática de que os bancos quererão sobretudo receber em dinheiro e não em ações de baixo valor facial – é mais uma vez a realpolitik, desta vez a melhorar-lhe a posição negocial. É baseado numa noção prática das coisas que o presidente do Sporting abriu nova frente de batalha, desta vez contra a Liga, por causa da proibição da inscrição dos jogadores contratados no mercado de Janeiro antes da jornada de dia 2, onde há um Sporting-FC Porto que pode ser decisivo. Se já acho que não faz nenhum sentido que um espetáculo de lazer como o futebol pare numa época festiva, em que as famílias têm mais tempo livre e predisposição para assistir aos jogos, muito mais bizarro se torna que a Liga feche nos primeiros três dias após a reabertura do mercado, impedindo os clubes de utilizar os seus novos jogadores na primeira jornada do ano. Bruno de Carvalho tem, portanto, razão. Mas não vai ganhar a batalha extremando posições, deixando sequer implícito que a Liga esteja a defender os interesses do FC Porto, porque o Sporting tem reforços já contratados. Tal como nos erros dos árbitros, as coisas podem melhorar, mas não é preciso nenhuma teoria da conspiração para lá chegar. A Liga não aceita inscrições a 1 de Janeiro porque, inexplicavelmente, é uma instituição amadora a gerir uma atividade que movimenta milhões de euros. Essa é a realidade. A realpolitik tem de assentar nela.
2015-12-18
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Quase todos crescemos a ouvir dizer que Portugal é um país louco por futebol. Vemos os programas acerca de futebol proliferarem nas televisões, as transmissões dos jogos de futebol baterem recordes de audiências. Mas depois chega-se à altura em que percebemos que a esmagadora maioria dos negócios à volta do futebol são deficitários. Os clubes precisam de vender jogadores para pagar salários, os jogadores precisam de emigrar, há jogos com menos de mil espectadores na nossa maior Liga…. Os jornais perdem vendas, não temos uma revista de grande circulação sobre futebol. Tentei durante anos pôr de pé esse projeto, que esbarrou sempre na mesma parede: as marcas não querem associar o nome ao futebol e já se sabe que sem publicidade não há revistas. Parece um contrassenso? Mas não é. É que os portugueses não gostam de futebol. Gostam do escapismo que o futebol lhes permite, da possibilidade que têm de se insultar ao abrigo das rivalidades do futebol. Já todos ouvimos que os portugueses, na verdade, não gostam de futebol – gostam dos seus clubes, aprenderam a gostar da seleção em períodos de sucesso, mas gostam acima de tudo de odiar os clubes dos outros. Só assim se explica que passemos horas de televisão a discutir penaltis, foras-de-jogo, mãos na bola e bolas na mão, intencionalidades ou falta delas e depois não sejamos capazes de aceitar factos ou de debater técnica, tática, estratégia... Essa é, para todos nós, para todos vós, a parte aborrecida. Quando comecei a andar no futebol, antes de as televisões colonizarem as conferências de imprensa com os seus diretos, sempre na busca do “soundbyte”, ainda apareciam perguntas dessas. Depressa foram erradicadas porque não levavam a declarações bombásticas. Por isso, um dia como o de hoje, com queixas do Benfica acerca do Sporting, com queixas do Sporting acerca do Benfica, é o máximo a que podem aspirar os “adeptos” de futebol. Comunicados e contra-comunicados, tiros nos pés e momentos flagrantes de auto-flagelação. Haja animação! O problema é que esta lógica das queixas permanentes – que está no sangue dos portugueses – é a génese de todos os problemas. Do défice à falta de patrocinadores, com passagem pela falta de liquidez. Simpatizo com as ideias de Bruno de Carvalho, como o vídeo-árbitro ou o ataque aos fundos de investimento, mas desagrada-me a vitimização e a pressão permanentes. Simpatizo as atuais ideias de Luís Filipe Vieira, como a discrição em defesa do negócio do futebol, mas aborrece-me que só tenha chegado a elas quando começou a ganhar mais vezes do que as que perdia. Simpatizei com a eleição de Pedro Proença, por ser alguém que conhece o futebol profissional de altíssimo rendimento por dentro, mas chateia-me que ainda não tenha posto mão no problema. É que, no fundo, os portugueses não são loucos por futebol. São só loucos.
2015-12-01
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A UEFA fez a única coisa que podia fazer ao manter o Europeu de 2016 em França. E era a única coisa que podia fazer por várias razões. Porque não pode ceder ao medo instigado pelos terroristas – isso, sim, significaria a derrota total. Porque mesmo que quisesse ceder não poderia encontrar um ambiente seguro capaz de substituir os estádios e as cidades que até já estão a preparar-se para receber equipas e adeptos. E porque se há coisa em que o futebol está muito à frente de tudo nesta sociedade é na segurança. Os atentados de sexta-feira mostraram a quem quis ver que se houve local onde os terroristas não entraram foi no Stade de France, onde jogavam as seleções de França e Alemanha. É claro que, mesmo deixando toda a gente mais tranquila no que diz respeito ao sorteio de dia 12, em Paris, ou aos estádios do Europeu, no final da época, essa sensação de segurança deixa ainda tudo muito em suspenso acerca das concentrações de adeptos nas ruas ou nos cafés, muito mais difíceis – ou até impossíveis – de controlar. Mas, ainda que um hooligan não represente o mesmo nível de ameaça de um terrorista do Estado Islâmico, os mais de 30 anos de experiência no combate aos arruaceiros que se alimentam das concentrações do futebol serviu às polícias europeias para construir redes eficazes de deteção e desenvolver estratégias de combate no terreno. Ninguém pode garantir que o próximo Europeu de futebol seja livre de incidentes. Mas o que já começou a passar-se hoje em Paris, com relatos de aumento exponencial do controlo à entrada de todos os espaços públicos, provocando mesmo a revolta de alguns cidadãos menos dados, menos suscetíveis de se submeterem ao controlo policial, é um sinal do que aí vem. Exagerando um pouco, é quase caso para se dizer que poderemos começar a reler Orwell e encarar o 1984 como um manual de boas práticas. O futebol, nesse aspeto, já está na vanguarda há muito.
2015-11-16
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Quando há dias aqui defendi um papel mais proactivo da Liga no combate aos problemas que afetam o futebol nacional estava longe de antecipar uma tarde tão intensa como a vivida hoje pela Comissão de Instrução e Inquéritos. Os visitantes foram tão ilustres e incompatíveis que só faltou transformar a sede do organismo de acordo com as normas arquitetónicas de um qualquer consultório de psicologia clínica, para evitar que eles se cruzassem. Só hoje por lá passaram Luís Filipe Vieira, Bruno de Carvalho e Jorge Jesus – e alguns outros podiam ter lá dado um salto também. A questão é que, além de ser um empecilho – Vieira, a crer nas palavras de Rui Gomes da Silva, não pôde ir à Guiné Bissau, ao passo que Bruno de Carvalho e Jesus também terão coisas mais importantes para fazer – não vai ser a ouvir que a Liga lá chega. Há questões de procedimento, nada moderno para um desporto que se considera na vanguarda, e fazer os protagonistas correr meio país para lhes fazer perguntas de resposta óbvia é uma delas. Jesus terá então dito de onde conhece o árbitro Jorge Ferreira. Dos campos de futebol? A sério? Bruno de Carvalho terá sido questionado acerca das acusações que fez ao Benfica sobre o “vouchergate”? E não adiantou mais do que tudo o que já tinha dito no programa Prolongamento há um mês – um mês, veja-se a rapidez processual… – ou nas dezenas de intervenções que se seguiram? E Vieira terá sido questionado acerca das razões que levam o Benfica a oferecer os vouchers aos árbitros? E disse que era uma questão de cortesia e de bem-receber? Palavra de honra? Para cúmulo, os árbitros ouvidos também acham que as ofertas que recebem dos clubes não lhes toldam o discernimento, nem em campo nem no momento de escrever os relatórios? E isso é a resposta de agora e também a que darão se entretanto descerem de divisão? De certeza? Nem vale a pena dizer que nada disso me conforta, porque nem assim houve um único membro da equipa de arbitragem liderada por Cosme Machado a ver Lito Vidigal confrontar Naldo antes de este o empurrar para fora de campo, o que terá estado na origem da leveza do castigo ao treinador do Arouca. E não sei o que me preocupa mais. Se é que esta Comissão se leve tão a sério que ache que tem de convocar estas mini-cimeiras para ouvir respostas óbvias, que qualquer comentador engajado das segundas-feiras à noite daria, ou se é que mais ninguém faça nada para mudar isto. Vai-se a ver e no fim ficam todos amigos e vão almoçar juntos. Seja com vouchers ou senhas de presença.
2015-11-11
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A próxima jornada da Liga vai ter um foco de polémica no facto de os três grandes jogarem no dia das eleições legislativas. Toda a gente condenou a Liga por não ter deixado esse fim-de-semana vago no calendário e, depois ainda, por ter permitido que o Benfica, o FC Porto e o Sporting jogassem precisamente no domingo do ato eleitoral, em vez de anteciparem ou adiarem os seus jogos. Nada de mais disparatado, é o que me parece. E não é só por todos estarem envolvidos em jogos europeus a meio desta semana. O que me espanta é que gente com responsabilidades governativas entre nesse tipo de argumentos, que facilmente se prova serem totalmente irresponsáveis. Como se o futebol de alto nível não fosse uma indústria tão precisada de gerar rendimento como outra qualquer, para poder cumprir as suas obrigações com funcionários ou credores. E como se o simples facto de querer ver futebol ao fim da tarde fosse impedir-me de cumprir o meu dever cívico e votar antes disso. Além do mais, não dei por qualquer indignação ante o facto de no dia das eleições também estarem abertos os centros comerciais, os cinemas, os teatros, ou até o Jardim Zoológico e o Oceanário. Sei que a moda é usar o futebol como sinónimo de alienação, de corrupção intelectual das classes baixas, mas alguém tem ainda de me convencer como é que um jogo dos grandes é mais alienante do que os intermináveis espetáculos de música popular de gosto duvidoso com que os canais de TV nos brindam todos os domingos da hora de almoço até à hora de jantar. E, mais, por que é que ninguém se insurgiu contra a sua realização e emissão em dia de eleições. Aliás, se me surpreendeu a reação da classe política quando rebentou de indignação ao saber que havia jogos de futebol na data das eleições, não me surpreendeu menos a reação dos dirigentes dos clubes, da Liga ou até da Federação. Os primeiros fizeram-no na tentativa de ganhar alguns voos no lóbi anti-futebol. Para o silêncio dos segundos tenho mais dificuldade em encontrar explicações. Foi como se já estivessem em período de reflexão.
2015-09-28
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Não estou nada convencido de que a solução encontrada pela Liga para a questão dos jogadores emprestados seja a melhor. Sei que em Inglaterra também se faz assim e que os clubes não podem utilizar os emprestados contra o clube que os cedeu. Porém, essa solução não resolve aquela que é a questão de fundo, que é a de se permitirem situações de concorrência desleal. Imaginemos que um clube espalha os excedentários pelos adversários, o que depois lhe permite defrontar a cada jornada equipas amputadas de jogadores importantes. É o que vai acontecer no domingo com Heldon, que o Rio Ave não poderá utilizar no jogo com o Sporting. E que também já sucedeu e voltará a suceder em jogos do FC Porto e do Sporting. Anda por aí tanta gente preocupada com o facto de o Arouca ter defrontado o Benfica em Aveiro e se preparar para receber o FC Porto no seu estádio, e poucos falam deste problema, bem mais premente. São os jogadores e não os estádios que ganham os jogos... A única solução justa para a questão - a solução que também moralizaria as regras de mercado - passaria pela redução do total de jogadores que um clube pode ter sob contrato para um número razoável e pela limitação drástica dos empréstimos no mesmo campeonato, para uns dois ou três. Se assim fosse, os grandes teriam muito mais parcimónia nas suas contratações e os pequenos até poderiam chegar aos jogadores que têm emprestados sem ficar a depender da boa vontade dos grandes e, sobretudo, sem que caísse sobre eles a suspeição de que algo terão de fazer para retribuir esses favores. Dessa forma ficava a ganhar a concorrência, dando-se um grande passo para que crescesse a competitividade. Poderia igualmente ficar a ganhar a seriedade, mas para isso seria ainda preciso que os clubes o quisessem e que a Liga se mexesse no sentido de impedir imoralidades. Miguel Rosa já não está emprestado pelo Benfica ao Belenenses há dois anos, mas nunca sobe ao relvado quando os dois clubes se defrontam. Ricardo Sá Pinto já disse que o atacante formado na Luz está convocado para o Benfica-Belenenses desta sexta-feira. Fico à espera de ver se joga, tal como jogou (e com bons resultados) nas jornadas já efetuadas deste campeonato. 
2015-09-10
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ay e Dynamo Kiev, Benfica e FC Porto não ficaram mal servidos.O Galatasaray conseguiu ganhar Liga e Taça da Turquia, mas saiu da última Champions logo à primeira fase, sem sequer aceder à Liga Europa. Como o Benfica, aliás. Deixando de parte o contributo exótico dado pelo Astana, o Benfica tem de ser considerado o favorito face aos turcos, seja porque não é normal uma equipa ser cabeça de série três anos seguidos e não ir aos oitavos de final (e o Benfica já vai em dois...), seja porque beneficia de uma última jornada em casa com os espanhóis do Atlético de Madrid, um clube amigo e que pode chegar aí já apurado.Por sua vez, o Dynamo Kiev volta à Champions após dois anos de fora, fruto de ter também ganho a dupla campeonato-taça na Ucrânia. E da última vez que por lá esteve saiu pela porta da Liga Europa, chutado para fora precisamente pelo FC Porto. Os dragões terão gostado pouco de ter de acabar o grupo em Londres, com o Chelsea, mas podem tirar frutos da sempre decisiva jornada dupla com o Maccabi Tel Aviv. E a obrigação que têm também é a de seguir em frente na prova.Resta agora que Sporting, Sp. Braga e Belenenses tenham pelo menos a mesma sorte de Benfica e FC Porto no sorteio da Liga Europa. É que por ali ainda há muito tubarão à solta e nem mesmo o Sporting, na condição de cabeça de série, pode garantir um grupo fácil, com equipas como o FC Liverpool, o Mónaco, a Fiorentina ou a Lazio fora do grupo dos privilegiados.
2015-08-27
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A UEFA continua a ser uma organização desconcertante. Por um lado pisca o olho à modernidade e a uma autêntica Liga europeia, ao alargar as vagas espanholas na fase de grupos da Liga dos Campeões para cinco, com a inclusão do FC Sevilha, na qualidade de vencedor da Liga Europa. Por outro, olha para trás, para a antiga Taça dos Campeões Europeus, enchendo o pote de cabeças de série com o atual campeão da Europa e os campeões nacionais dos sete países mais bem colocados no ranking após a Espanha.Vai haver quem queira vender esta medida como um passo no sentido da democratização do sorteio de quinta-feira, mas isso é uma falácia. Basta olhar para o Pote 2 em construção. Nele, além do FC Porto, perspectiva-se a presença de Real Madrid, Atlético Madrid, Valencia, Arsenal, Manchester City, Manchester United e Leverkusen. Um lote de pesadelo para Benfica (que será cabeça de série) e Sporting (que se conseguir apurar-se cairá no Pote 3). Quando entre os cabeças de série há equipas do calibre do Zenit ou do PSV Eindhoven, já se vê que bom mesmo para este sorteio é não ter sido campeão nacional: dá mais hipóteses de se apanhar um grupo fácil.
2015-08-25
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em os interesses globais à frente da estratégia clubística ou da vaidade. O pior é que não têm abundado.Evangelista colocou o dedo na ferida ao falar do licenciamento. Mas também o teria feito se falasse de outra questão: é que elas estão todas ligadas. A verdade é que o licenciamento para jogar na Liga tem de facto sido uma farsa. É uma farsa porque se fecham os olhos quando devia ter-se uma cultura de exigência. E não é só porque se permite que clubes paguem compromissos com o estado à custa de antecipação de receitas televisivas - algo tão próximo do tráfico de influências que assusta quem está de fora - ou porque se ignoram casos flagrantes de incumprimento simplesmente para não provocar ondas. É uma farsa porque os próprios critérios de licenciamento já são em si pouco exigentes, pois colocam a quantidade à frente da qualidade e continuam a permitir, por exemplo, que haja equipas sem adeptos a participar na prova de elite.A reforma é precisa, mas não creio que possa ser o Gil Vicente a liderá-la, conforme sugeriu Evangelista. Não só por falta de peso institucional mas acima de tudo porque os gilistas também só se queixaram quando lhes tocou a fava do bolo-rei e desceram de divisão. A reforma poderá fazê-la o sindicato, historicamente uma força progressista na realidade do futebol nacional, mas para isso precisará da Liga e que Pedro Proença seja capaz de dar um passo em frente relativamente aos interesses que o elegeram. O global sempre à frente do particular: tudo se resume a isso...
2015-08-21
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Artigo

Há muitos leitores indignados porque me referi à arbitragem após o Tondela-Sporting e não o fiz hoje, após o Benfica-Estoril. A esse respeito tenho a dizer o seguinte.1. Raramente comento arbitragens. Não é o meu estilo. Prefiro falar de futebol jogado.2. Fi-lo após o Tondela-Sporting para dizer que não alinho nas discussões estéreis de hooligans de fato e gravata e que os erros só diminuirão com a introdução do vídeo-árbitro que permita ao juiz de campo ver o mesmo que os telespectadores. Basta lerem o que lá está para - se quiserem - o perceberem.3. Não tenho problemas em reconhecer que o Benfica foi hoje beneficiado pela arbitragem, que ignorou um penalti a favor do Estoril com 0-0 no marcador. Aliás, escrevi-o na primeira resposta que dei a um comentário de um leitor. Simplesmente pareceu-me muito mais interessante destacar as dificuldades que o Benfica mostrou em campo do que o erro do árbitro (já vos tinha falado do vídeo-árbitro?)4. Não devo nada a ninguém, a nenhum clube, dirigente ou jogador. Nunca trabalhei e julgo poder dizer que nunca trabalharei para nenhuma cor clubística. Nunca recebi e julgo poder dizer que nunca receberei sequer um bilhete para ir ao futebol vindo de um clube, dirigente, treinador ou jogador. Quem quiser sequer insunuá-lo, é bom que o faça muito bem documentado. Com provas, que para insinuações idiotas e cobardes já bastam as que são feitas pelas fontes de informação aos jornais, por exemplo acerca dos sms.5. Não admito que ponham em causa a minha isenção ou que me acusem de ser anti isto ou aquilo ou avençado deste ou daquele. Digo sempre aquilo que vejo, porque é nisso que acredito e não num jornalismo de interesses. Sejam eles dos clubes ou dos leitores com vocação de censores que acham que podem decidir acerca do que escrevo a cada dia.Quem perceber isto é sempre bem vindo aqui. Quem não perceber isto não percebe nada e, francamente, faz pouca falta.
2015-08-16
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Pedro Proença é o novo presidente da Liga de clubes. Dele e de quem o acompanha espero o seguinte compromisso:1. Que seja, como já disse, o presidente de todos os clubes, quer o tenham apoiado ou não, rompendo com o passado de lobismo que só envergonha o futebol nacional;2. Que traga para a Liga o know-how e o profissionalismo com que conviveu nas grandes competições internacionais em que marcou presença;3. Que dê o contributo necessário em clareza nas decisões para se acabar com as suspeições no que toca à arbitragem e disciplina, os cavalos de batalha de todos os dirigentes antigos;4. Que consiga acabar com o feudalismo no futebol nacional, o sistema no qual quem não tem receita só sobrevive prestando vassalagem a interesses superiores, sejam eles clubes grandes ou grupos de interesse. É isso só será possível através de uma distribuição mais igualitária da receita nascida nos direitos televisivos;5. Que mantenha na presidência da Liga a atitude é o profissionalismo que teve enquanto árbitro internacional: pode errar, mas apenas se o fizer convicto de que está a fazer o mais correto.6. Que acabe de uma vez por todas com o futebolzinho pequenino que se auto-destrói em cada declaração;7. Que seja implacável com os não cumpridores, seja em pagamento de salários, impostos ou obrigações sociais. Sem subterfúgios; 8. Que crie um nível de exigência para se pertencer à elite, impedindo quem não tem público de jogar o seu campeonato.Para cumprir este compromisso é muito provável que tenha de afrontar muitos interesses, incluindo alguns de quem até hoje o apoiou em nome de interesses eles também inconfessáveis. Espero que vá até ao fim. xpto data asd asd asd asd asd asd asd asd ad asd asd ads asd ads
2015-07-28
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