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Artigo

Nos quase 30 anos que já levo de futebol, cansei-me de ouvir dizer que a Liga deveria castigar duramente quem pusesse em causa o prestígio da competição com declarações inflamatórias. Cheguei a engrossar o pelotão dos que defendiam essas sanções, importadas do então muito à frente futebol inglês. Hoje estou convencido de que o problema tem de ser atacado muito antes. O que a Liga tem de fazer não é no plano reativo. Tem, isso sim, que ser proativa. Tem de criar condições para que essas declarações não existam e sobretudo tem de fomentar a sua substituição no plano mediático por outras, que satisfaçam todos os players no mercado: a própria Liga, os clubes, os operadores e, sobretudo, o público, que é quem paga. Isso, em Portugal, é terreno absolutamente virgem. Vamos, então, falar de comunicação aplicada ao futebol. A questão das punições a quem abalar o prestígio do futebol, os clubes já a driblaram. Criaram braços armados que não são dirigentes nem funcionários mas apenas e só adeptos socialmente reconhecíveis, para estarem nos programas onde se discute “futebol”. E sim, as aspas não são engano – porque o que ali se discute não é futebol, mas sim agendas políticas. Tenta-se sempre passar a mensagem de que o presidente, o treinador ou os jogadores do clube que se defende são os mais impolutos e que esse mesmo clube é invariavelmente o mais prejudicado, mas de caminho passa-se também a mensagem de que o futebol está cheio de malandragem que anda a roubar e que por isso nem vale a pena perder-se tempo ou gastar-se dinheiro com o tema. Aquilo vê-se como os reality shows, para perceber que novos limites se cruzam desta vez, mas quem quer que seja que, não sendo espectador habitual de futebol, vá ali parar, não fica com vontade de comprar bilhetes para o próximo jogo, camisolas para dar aos filhos ou assinaturas de canais temáticos. Chegados a este ponto, há quem goste de culpar os operadores de televisão. Não o faço. Os operadores de televisão fazem o que os deixam fazer, na realidade em que estão inseridos – que é uma realidade de acesso-zero aos protagonistas. E dou um exemplo. A UEFA, que está muito à frente de toda a gente do futebol nesta matéria, criou há uns anos o conceito de mini-flash, a ser feita antes dos jogos da Liga dos Campeões pelo canal detentor dos direitos televisivos. Como estou no relvado antes dos jogos, habituei-me a ver passar por estas mini-flashes todas as grandes figuras dos bancos das maiores equipas europeias, mas nem assim os clubes portugueses mudaram de atitude. O Benfica manda invariavelmente Shéu Han, o secretário técnico; do FC Porto costuma aparecer Rui Barros, um dos treinadores-adjuntos; no Sporting já por lá vi Jaime Marta Soares, presidente da Assembleia Geral, ou Otávio Machado, diretor de futebol. Não é isto que promove o futebol, não foi por isto que os operadores pagaram e, acreditem, até pode ser isto que o público acha que quer, porque há muitos anos que não tem outra coisa. Pensemos nas conferências de imprensa, agora sempre televisionadas e por isso mesmo um meio absolutamente gratuito que a Liga tem de promover o futebol. O que se passa lá? Para quem começou a carreira nas conferências de imprensa de Sven-Goran Eriksson, Tomislav Ivic ou Bobby Robson, que duravam enquanto houvesse uma dúvida por esclarecer, uma explicação a dar, e não estavam freadas por subterfúgios impostos pelos limites políticos à comunicação, estes simulacros de conferência de imprensa a que se assiste agora são absolutamente risíveis. O que temos ali é, sempre, um desastre à espera de acontecer: um treinador sem vontade de falar, um diretor de comunicação interessado em que ele fale o mínimo possível – a não ser que haja agenda política a satisfazer – e jornalistas dos canais de TV interessados em soundbytes rápidos, porque tudo o que seja acima de um minuto já é demasiado em termos televisivos. É assim que o futebol vai ganhar quota de mercado? Claro que não. E se o leitor acha agora que este é um problema dos jornalistas, desengane-se. Não é. É um problema do futebol. Os jornais apanham por tabela, mas quem perde mais com este vazio mediático é mesmo o futebol, que desaproveita as oportunidades que lhe são dadas de bandeja, abrindo caminho (e as TVs dos clubes são, aqui, caso emblemático) a mais intervenções que para enaltecerem o próprio, destroem o meio em que ele se insere. Como jornalista, defendo e defenderei sempre o livre acesso aos protagonistas por parte dos meios de informação. No caso do futebol, porém, já ficaria feliz se a Liga aprendesse com a UEFA e percebesse que se quer acabar com aquilo de que não gosta nos programas sobre “futebol” – assim mesmo, com aspas – tem de tonar o caso em mãos e criar condições para que haja conteúdos sobre Futebol – assim mesmo, com maiúscula.
2017-03-26
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Último Passe

Não há-de haver um adepto de futebol que não tenha gostado da resposta que a Federação de São Marino deu a Thomas Müller, depois de o craque alemão do Bayern se ter queixado da perda de tempo que é ter de defrontar equipas como aquela nas eliminatórias do Mundial. Entre os que se emocionaram com os dinheiros que vão para a construção de campos nas escolas, os que se riram com a imagem das sandálias com meias brancas, tão própria da falta de gosto dos alemães, e os ficam felizes por ser possível a amadores defrontarem os campeões do Mundo, ninguém deixou de aplaudir. Mas agora que a festa está bonita, vamos lá a pôr um pouco de bom-senso na conversa e ver o lado correto entre as duas realidades. Não tenho nada contra os jogos entre seleções como a Alemanha ou Portugal e outras como Andorra ou São Marino. Como espetáculo valem pouco mais de zero e são, como alertou Müller, um “risco idiota”, porque alguém pode magoar-se sem haver nada em disputa, mas para os representantes daquelas nações aquele é sempre um momento marcante. Nunca defrontei Bobby Fischer ou Anatoly Karpov num tabuleiro, quando era aspirante a xadrezista, nem tive alguma vez a oportunidade de placar Jonah Lomu ou Julian Savea numa das minhas incursões pelo râguebi, mas uma vez, estava eu junto ao relvado onde a seleção nacional de futebol jogava aquele meinho que se faz sempre antes do treino a sério, e a bola veio ter comigo. E não só a devolvi para o grupo onde estava Ronaldo com um toque de primeira, como o fiz de pé esquerdo. Estranhamente, nenhum dos nossos internacionais valorizou o gesto técnico que eu acabara de protagonizar: continuaram todos na galhofa. Como digo, não tenho nada contra os jogos entre seleções como a Alemanha e equipas como a de São Marino. Acho contra-producente que se joguem nesta altura do ano, na qual os jogadores de top estão demasiado concentrados em competições de clubes, e por isso já propus que as datas FIFA para os jogos de seleção se concentrassem todas no final da época, de forma a evitar estas constantes mudanças de foco com as quais ninguém ganha a não ser as companhias aéreas que fazem voos de longo curso entre a Europa e a América do Sul. De resto, sou dos que acredita na componente aspiracional dos desafios de futebol: todos devem poder jogar contra todos, desde que mostrem mérito para tal, razão pela qual nunca achei que as eliminatórias dos Mundiais ou dos Europeus devessem jogar-se com duas ou três divisões e fui e serei sempre contra Superligas fechadas, sem subidas nem descidas, sem um modelo que permita a qualquer clube lá chegar. A realidade recente, porém, com a dissolução de tantas nações e o aparecimento de seleções com pouca razão de existir – Gibraltar, Andorra, qualquer dia o Vaticano, a Madeira, os Açores ou até o Baixo Alentejo – transformou a maioria dos calendários de seleções num aborrecimento quase permanente. Porque em cada dez jogos, as seleções de top só são verdadeiramente postas à prova duas ou três vezes. E isso não só vem complicar muito a vida a quem tem por missão exigir àqueles jogadores rendimento permanente como muda radicalmente o panorama que os adeptos da minha geração viveram ao crescer, onde as datas de seleções eram uma espécie de ponto alto do calendário. É isso que importa recurperar. E não se fará com muitos jogos entre a Alemanha e São Marino.
2016-11-15
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Último Passe

Que o futebol vai mudar em breve, toda a gente já percebeu. Podemos ficar à espera que os grandes agentes de mudança avancem - e nessa altura não nos restará nada a não ser aceitar o que eles terão para impor. Em alternativa, podemos tentar cavalgar essa onda de mudança e conduzi-la para um desfecho mais justo e racional. Foi isso que a UEFA fez no início da década de 90, quando travou as iniciativas de secessão com a criação da Liga dos Campeões. Isso, hoje, porém já não chega. E não chega porque nos conduziu a uma realidade em que clubes e seleções estão sempre no caminho uns dos outros (os últimos Jogos Olímpicos deviam ter sido a gota de água a fazer transbordar o copo da insanidade) e em que não se está a explorar devidamente a possibilidade de passar a competição para a escala normal dos dias de hoje, que é a continental. As alterações nos tempos mais próximos serão, como defendi no artigo da semana passada, nestes dois âmbitos. Hoje deixo a minha proposta. Não estou convencido de ser dono da razão. Mas sei que recusar o que aqui vai ler só porque "isso é impossível" ou porque muda muitas das realidades tidas por imutáveis é ficar à mercê de uma mudança que é inevitável e será então regulada apenas por interesses económicos dos mercados mais imponentes. Seria como a NBA recusar equipas de estados mais pequenos dos EUA só porque neles a TV tem menos audiência potencial. Em tempos já escrevi sobre um projeto de Superliga europeia. Acho que ela vai chegar mais cedo ou mais tarde e, francamente, quanto mais cedo melhor. Porque os campeonatos nacionais estão de tal modo desvirtuados com o dinheiro da Champions que, à exceção da Premier League, onde o dinheiro da TV pode competir com o da prova europeia, os maiores clubes passeiam impavidamente por eles. A Superliga europeia vem aí. Pode ser é de uma forma justa, em que os lugares são distribuídos de acordo com o mérito desportivo, com subidas e descidas e sem matar os campeonatos de cada país, ou à bruta, com atribuição de vagas numa Liga fechada, de acordo com a força que os clubes têm nos mercados, e sem preocupação com os campeonatos nacionais. O que vai fazer a diferença aqui é a proatividade que as federações que terão mais a perder com uma competição desenhada de acordo com os maiores interesses económicos (como a portuguesa, por exemplo) irão ou não assumir.Imaginemos então uma Superliga europeia com 24 clubes, os 16 melhores da Liga dos Campeões de um ano e os oito mais fortes da Liga Europa do mesmo ano. E imaginemos que os dividimos em dois grupos de 12, que jogariam todos contra todos a duas voltas (22 jornadas). Aqui chegados, apuramos os oito melhores para os quartos-de final (seguidos de meias-finais e final) os oito piores para a fuga à despromoção. No fim, em 27 jogos, teríamos um campeão europeu e dois despromovidos, que na época logo a seguir dariam o lugar aos finalistas da Liga Europa, que se manteria nos moldes atuais. São 27 semanas de competição, com jogos todas as semanas: supondo que se começava na terceira semana de Agosto e que se interrompia por três semanas por alturas do Natal e Ano Novo, podia jogar-se a final no primeiro domingo de Março. Ao mesmo tempo, jogar-se-iam os campeonatos nacionais, também por jornadas. Equipas haveria que teriam de jogar as duas competições, mas esse seria um problema bom. Por um lado porque o que ganhariam na Liga Europeia lhes permitiria pagar planteis com a profundidade necessária para as "duas cadeiras"; por outro porque ao terem de dividir as atenções entre ambas as provas, deixariam de ser tão dominantes dentro de portas, incrementando a competitividade. Com o tempo, o normal é os campeonatos nacionais acabarem por sofrer o mesmo destino que tiveram os regionais em meados do século passado. Mas aí morrerão de morte natural, sendo substituídos por mais escalões na competição continental. Ninguém os assassinará. E haverá tanta gente a bater-se pela sua continuidade como houve na altura gente a dizer que acabar com o campeonato de Lisboa ou do Porto era matar o futebol. Em Março, findos os campeonatos nacionais e europeus, era a altura ideal para entrarem em ação as seleções, com três ou quatro meses anuais para jogarem qualificacão e, se fosse caso disso, fases finais, sem os jogadores terem de andar a saltitar de uma realidade para a outra e de preferência dividindo as seleções em escalões, para evitar a profusão de jogos com amadores que hoje se realizam. Já sei qual é a primeira objeção: como sobreviveriam os clubes nesses meses? Os que tivessem internacionais receberiam pela cedência desses jogadores, que a FIFA e a UEFA geram receita suficiente para tal. Além disso, havia sempre a positividade de se jogarem provas de menor importância, como as Taças da Liga, disputadas sem os internacionais. Podiam organizar clínicas para jovens, porque vai caber-lhes cada vez mais a formação transformada em negócio. Podiam organizar digressões. Porque essa ideia segundo a qual os clubes têm de estar em ação permanente para serem um sucesso financeiro é desmentida, também, pela NBA. As finais de 2016 chegaram ao sétimo jogo e concluíram-se a 19 de Junho. A competição recomeça a 25 de Outubro, mais de quatro meses depois. E as equipas que não chegarem ao playoff ficam despachadas em inícios de Abril, quase seis meses antes de voltarem à competição. E não tenho ideia de as franchises andarem a perder dinheiro
2016-10-17
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Último Passe

Afinal, a quem aproveita esta interrupção no calendário competitivo dos clubes europeus para que se joguem os desafios de qualificação para o Mundial de futebol? Quer a verdade? A ninguém. Perdem os clubes, perdem as seleções, perdem os adeptos e perdem os meios de comunicação, que também são parte importante na mobilização de gente para o espetáculo. Já devia ser razão mais que suficiente para que esta questão, a par do tema dos quadros competitivos do futebol no continente e no Mundo, fosse posta em causa de uma forma séria e sem tabus. Porque o Mundo mudou e a evolução não pode esperar nem estar presa a ideias feitas de acordo com a realidade de há décadas.A instituição das datas FIFA já foi uma vitória, mas uma vitória de Pirro. Porque organiza as coisas, ainda que o faça no sentido contrário ao da sua evolução natural. Experimente por-se no lugar do treinador de um clube. Se tem bons jogadores, daqueles que vão às seleções, ficou sem meia equipa durante quase duas semanas, o que torna impossível os trabalhos de conjunto. Mais: quando eles regressarem, muitos de longas viagens intercontinentais e em vésperas do jogo que se segue, chegam "mortos" e em condições que não recomendam que os envolva nos compromissos do próximo fim-de-semana. É mau, não é? Ponha-se então no lugar de um selecionador nacional. Pode ser Fernando Santos. Chamou 23 jogadores para as partidas com a irrelevante equipa de Andorra e a mais complicada (mas nem por isso mais estimulante) seleção das Ilhas Faroé. Recebeu os jogadores em cima da data dos jogos, sem hipótese de trabalhar seja o que for em condições satisfatórias, e a sua maior dificuldade é motivar homens que fazem a sua vida na Liga dos Campeões e em exigentes Ligas nacionais para meterem o pé com o risco de se lesionarem contra amadores e em jogos onde não têm nada a ganhar mas muito a perder. Não parece nada fácil e acredite: não é aliciante.Como se tudo isso ainda não bastasse, a interrupção não serve aos adeptos, que já ressacam a falta da emoção dos jogos dos clubes - ou, no caso dos que gostam e vivem a seleção, de jogos mais a sério da equipa nacional - nem aos órgãos de comunicação, que se vêem a braços com períodos vazios de interesse, nos quais por mais que se esforcem não lhes será possível manter o show em andamento nem cumprir a parte do orçamento que diz respeito às receitas. No fundo, estas interrupções, que todos temos como obrigatórias porque sempre as conhecemos assim, não satisfazem ninguém. E no entanto ninguém as põe em causa, porque estamos todos cheios de medo da evolução, do que aí vem no futuro do futebol mundial. Só que essa é a perspetiva errada. O futuro virá sempre. Escondê-lo, adiá-lo é só idiota, porque nos tira a possibilidade de o moldar da forma que melhor serve os interesses globais.O que reserva o futuro? Reserva mais jogos de perfil elevado e, a não ser que eles nasçam dentro do sistema, acabará por motivar a cisão entre grandes e pequenos e até entre grandes clubes e seleções, no dia em que um Real Madrid ou um Barcelona tenham uma alternativa credível à Liga dos Campeões e por isso se recusem a aceitar libertar os Ronaldos ou os Messis para jogarem contra agentes de seguros ou especialistas na pesca do bacalhau. Reserva, por isso, uma Superliga europeia, porque os grandes clubes já sabem há muitos anos que é a jogar uns contra os outros que enchem os estádios e motivam as audiências televisivas. E reserva na mesma jogos de seleções, mas com uma lógica que não fuja ao resto do panorama competitivo que os jogadores enfrentam no resto das suas vidas. Porque a não ser para bater recordes, as passagens de um jogador como Ronaldo pelas atuais fases de qualificação de Europeus e Mundiais parece-se assustadoramente com uma perda de tempo, com sete jogos inúteis em cada dez.Para enquadrar estas duas realidades é preciso pôr tudo em causa. Fá-lo-ei no artigo da próxima semana.
2016-10-10
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Último Passe

É impossível que o futebol português passe completamente ao lado das acusações feitas por Carlos Cruz no que respeita à alegada compra de votos por parte da candidatura portuguesa à organização do Euro’2004. E no entanto é isso que está a acontecer. Um dia depois de essas acusações terem sido tornadas públicas, na pré-publicação da autobiografia do ex-apresentador de televisão, pelo jornal “A Bola”, não há notícias de seguimento nem há reações oficiais, da Federação, dos clubes, da UEFA, da polícia... Nada. E isso incomoda-me. Carlos Cruz pode ter caído em desgraça quando foi condenado por alegados abusos sexuais a menores, no processo Casa Pia, mas não deixou de ser um dos principais responsáveis pelo sucesso da candidatura portuguesa, um dos principais executivos na empreitada que trouxe o Campeonato da Europa para os estádios nacionais. Lembro-me de entrevistar Cruz, naquele tempo, e de ele mandar vir uns pregos para comer durante a conversa, porque o desdobramento em reuniões atrás de reuniões não lhe deixava sequer tempo para almoçar. Portanto, se há coisa de que Cruz não pode ser acusado é de não ter estado por dentro das coisas, de não saber do que fala. E, bem ou mal intencionado, ele acusa claramente Gilberto Madaíl e José Sócrates de terem comprado votos a presidentes de federações estrangeiras, com envelopes recheados com dinheiro. Se o que Cruz escreveu foi verdade, isso cabe à polícia investigar. Tendo em conta o que se sabe hoje acerca da forma como se ganham e perdem organizações deste calibre, não me custa admitir que a história possa ter um fundo de verdade. Mas para já, o que queria mesmo era ter a certeza do normal funcionamento das instituições e de ser informado para além do que fez Jonas nos treinos da seleção do Brasil, do que disse Gaitán acerca do futuro do Benfica, se Peseiro sente o FC Porto e se os jornais turcos dizem que o Sporting está interessado em Raul Meireles. São tempos estranhos, estes que vivemos.
2016-03-23
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Artigo

Que a SuperLiga vem aí, já toda a gente com olhos na cara percebeu há uns 25 anos. Tem a ver com a compreensão daquilo que é o futebol, mas também com a noção daquilo que é o Mundo, que se reflete sempre no futebol. As instâncias que governam o futebol têm vindo a dar pequenos passos numa direção que por vezes nem é a que mais lhes convém, porque perceberam que essa é a única forma de impedir as forças motrizes do negócio de dar o grande salto em frente. Mas chegará o momento em que as ligeiras travagens não são suficientes. E ele já não está muito longe, pelo que o que há a fazer não é tentar impedi-lo. É prepararmo-nos para ele. De preferência com a UEFA à cabeça – mas para isso, as federações que mais podem perder com isto têm de se mexer. E a portuguesa é uma delas. Quem me acordou para esta realidade foi Alex Fynn, em inícios da década de 90. Na altura um executivo de topo da Saatchi & Saatchi, o homem que primeiro defendeu a criação desta SuperLiga europeia explicou-me, a mim e a quem fez o favor de me ler, nas páginas do “Expresso”, as razões pelas quais a prova já estava ali ao virar da esquina. Se a melhoria dos transportes ferroviários e da rede de autoestradas nos permitiu passar dos campeonatos regionais aos nacionais e, depois, a evolução dos transportes aéreos permitiu a criação das competições europeias, a sua vulgarização levaria a que fosse possível jogar-se uma verdadeira Liga europeia. E Fynn falava muitos anos antes do fenómeno “low cost” na aviação e das implicações que ele trouxe para a mobilidade das pessoas em geral. Fynn não falava sem interesse – tinha feito um estudo encomendado por Silvio Berlusconi, na altura ainda apenas dono do Milan e de uma rede de media. Berlusconi tinha um clube e os meios de o rentabilizar e queria ver avanço no negócio. Porque para o Milan era mais atrativo jogar com o Manchester United do que com o Bari. Tal como agora para o Bayern é mais interessante defrontar o Barcelonado que o Hoffenheim. E é mais rentável. Sobretudo, é mais rentável. Por isso, se algo me surpreende, agora que recupero as notas dessa conversa com mais de 20 anos, é que a SuperLiga ainda não tenha arrancado. Não arrancou porque a UEFA tem andado sempre um passo à frente. Em 1992, para impedir o avanço da SuperLiga, criou a Liga dos Campeões, assegurando mais jogos a cada clube. Em 1998, quando se falou outra vez de secessão, aumentou para dois o número de vagas para cada um dos principais países. Em 2010, face a mais conversas, o total de vagas cresceu para quatro nos três primeiros países do ranking. Agora, que os cinco maiores clubes ingleses abriram conversações para jogarem partidas da Champions nos EUA ou no Oriente, não se vê o que mais pode a UEFA oferecer-lhes a não ser criar ela própria uma nova competição. E mesmo assim não é garantido que os clubes decidam ficar, pois o organismo que tutela o futebol europeu já não é um garante de legitimidade que era há 20 ou 30 anos, quando ainda não se falava de corrupção como se fala agora. Aqui chegados, a SuperLiga não é uma má ideia. Pelo contrário. É uma excelente ideia. O que nos trouxe a globalização, com a vulgarização das transmissões de futebol de todo o Mundo para todo o Mundo, é que as novas gerações de portugueses já sabem melhor como joga o Barcelona, o Real Madrid ou até o Leicester do que o Tondela, o Arouca ou o V. Setúbal. Podemos gostar ou não gostar – e a mim não me incomoda por aí além – mas não podemos mudar o Mundo de uma penada. E se o que as pessoas querem é grande futebol, pois que se lhes dê grande futebol. De preferência com a UEFA a mandar, porque essa, ainda assim, é a única forma de desviar alguma da receita para o desenvolvimento do futebol jovem e das federações menos ricas, de evitar, não que os ricos fiquem mais ricos, mas que os pobres fiquem mais pobres. Salvaguardados esses princípios de justiça relativa, é preciso depois pensar que SuperLiga se cria. Porque uma coisa é aquilo que é justo e outra é aquilo que é melhor para o negócio. O que é justo é pegar-se nas 20 melhores equipas da Europa (por exemplo os 16 apurados na fase de grupos de uma próxima Champions e os quatro semi-finalistas da Liga Europa do mesmo ano), criar para elas um escalão supra-nacional, acima dos campeonatos de cada país e das atuais provas europeias, com quatro despromoções e quatro subidas, a serem entregues aos finalistas das duas competições continentais de cada ano. Jogar-se-ia em 38 jornadas, ao fim-de-semana e, para não se esvaziar totalmente os campeonatos nacionais, os clubes da SuperLiga até poderiam participar neles com equipas B. O que é melhor para o negócio é fazer uma Liga fechada, tipo NBA, sem subidas nem descidas, com cinco equipas de Inglaterra, quatro da Alemanha, quatro de Espanha, quatro de Itália e dar as três vagas restantes ao Paris St. Germain, ao Mónaco e ao Zenit. Eventualmente, o Celtic, o Ajax, o Galatasaray, o Benfica ou o Shakthar Donetsk podiam tentar entrar, ainda que sem grandes hipóteses de sucesso. Portugal quer isto? Creio que não. Então mexam-se! In Diário de Notícias, 14.03.2016
2016-03-14
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Último Passe

A UEFA fez a única coisa que podia fazer ao manter o Europeu de 2016 em França. E era a única coisa que podia fazer por várias razões. Porque não pode ceder ao medo instigado pelos terroristas – isso, sim, significaria a derrota total. Porque mesmo que quisesse ceder não poderia encontrar um ambiente seguro capaz de substituir os estádios e as cidades que até já estão a preparar-se para receber equipas e adeptos. E porque se há coisa em que o futebol está muito à frente de tudo nesta sociedade é na segurança. Os atentados de sexta-feira mostraram a quem quis ver que se houve local onde os terroristas não entraram foi no Stade de France, onde jogavam as seleções de França e Alemanha. É claro que, mesmo deixando toda a gente mais tranquila no que diz respeito ao sorteio de dia 12, em Paris, ou aos estádios do Europeu, no final da época, essa sensação de segurança deixa ainda tudo muito em suspenso acerca das concentrações de adeptos nas ruas ou nos cafés, muito mais difíceis – ou até impossíveis – de controlar. Mas, ainda que um hooligan não represente o mesmo nível de ameaça de um terrorista do Estado Islâmico, os mais de 30 anos de experiência no combate aos arruaceiros que se alimentam das concentrações do futebol serviu às polícias europeias para construir redes eficazes de deteção e desenvolver estratégias de combate no terreno. Ninguém pode garantir que o próximo Europeu de futebol seja livre de incidentes. Mas o que já começou a passar-se hoje em Paris, com relatos de aumento exponencial do controlo à entrada de todos os espaços públicos, provocando mesmo a revolta de alguns cidadãos menos dados, menos suscetíveis de se submeterem ao controlo policial, é um sinal do que aí vem. Exagerando um pouco, é quase caso para se dizer que poderemos começar a reler Orwell e encarar o 1984 como um manual de boas práticas. O futebol, nesse aspeto, já está na vanguarda há muito.
2015-11-16
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Último Passe

A UEFA continua a ser uma organização desconcertante. Por um lado pisca o olho à modernidade e a uma autêntica Liga europeia, ao alargar as vagas espanholas na fase de grupos da Liga dos Campeões para cinco, com a inclusão do FC Sevilha, na qualidade de vencedor da Liga Europa. Por outro, olha para trás, para a antiga Taça dos Campeões Europeus, enchendo o pote de cabeças de série com o atual campeão da Europa e os campeões nacionais dos sete países mais bem colocados no ranking após a Espanha.Vai haver quem queira vender esta medida como um passo no sentido da democratização do sorteio de quinta-feira, mas isso é uma falácia. Basta olhar para o Pote 2 em construção. Nele, além do FC Porto, perspectiva-se a presença de Real Madrid, Atlético Madrid, Valencia, Arsenal, Manchester City, Manchester United e Leverkusen. Um lote de pesadelo para Benfica (que será cabeça de série) e Sporting (que se conseguir apurar-se cairá no Pote 3). Quando entre os cabeças de série há equipas do calibre do Zenit ou do PSV Eindhoven, já se vê que bom mesmo para este sorteio é não ter sido campeão nacional: dá mais hipóteses de se apanhar um grupo fácil.
2015-08-25
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