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Último Passe

Há uns anos, estava eu ainda na direção do Record, um dirigente de um clube que nos contestava por portas e travessas ao mesmo tempo que mantinha em público um silêncio cúmplice disse-me mais de uma vez (e só ele saberá se estava a ser sincero): “Nós sabemos que vocês são honestos, mas o problema é que a perceção que as pessoas têm do vosso trabalho é outra”. Tanto tempo passado, Tiago Fernandes está a sofrer do mesmo mal, este mal do século XXI que nasce agarrado ao reinado das redes sociais, para as quais o que parece, é. O treinador-interino do Sporting precisa de fazer tudo para combater esta imagem de “Mourinho 2.0” com que está a ser rotulado – e não necessariamente pelos melhores motivos. Porque, por mais agradável que lhe seja para o ego a colagem a um treinador de top, de quem ainda por cima é amigo, a perceção que as pessoas começam a ter dele é a de um jovem convencido e pouco escrupuloso no relacionamento com os colegas de profissão. E manter isso equivale a jogar um jogo com a parada demasiado alta. Tiago Fernandes tem estado a fazer um bom trabalho aos comandos da equipa do Sporting, na qual pegou depois da derrota contra o Estoril, para a Taça da Liga, e da demissão de José Peseiro. Começou por ganhar ao Santa Clara nos Açores, é verdade que sem que a equipa tenha sido brilhante. Depois empatou no Emirates com o Arsenal, conquistando um ponto que pode ser precioso, ainda que num desafio em que os leões pura e simplesmente não existiram do ponto de vista ofensivo. Nos dois jogos, tentou deixar um cunho pessoal. Nos Açores usando um 4x4x2 que pode até fazer sentido mas ao qual os jogadores não se adaptaram de imediato, por via também das condições meteorológicas difíceis em que se jogava e – pareceu-me – da apatia de alguns deles. Em Londres com a colocação de Miguel Luís no onze titular, tendo o jovem respondido ao nível do resto da equipa: cumpriu sem brilhar. Até à chegada de Marcel Keizer falta a Tiago Fernandes a receção ao GD Chaves, jogo que tem de ser de ganhar e com aquilo que ainda não mostrou: futebol atrativo. Se o conseguir, passa o testemunho com a plena satisfação do dever cumprido e a certeza de que terá crescido como alternativa para uma próxima ocasião. A questão é a de entender se, aos 37 anos, isso deve chegar-lhe – e é em função da resposta a esta pergunta que Tiago Fernandes deve conduzir os próximos tempos da sua carreira. É verdade que a opinião pública ficou condicionada com a frase proferida por ele há um ano: “É difícil chegar aqui algum treinador e ensinar-me mais do que sei sobre futebol”, afirmou na altura. Talvez por isso, o debate nas TVs enquanto se esperava pela sua conferência de imprensa na sequência da estreia, nos Açores, estava a ser feito mais em torno do facto de ele não ter deixado na “flash interview” uma palavra de apreço a José Peseiro do que daquilo que a equipa tinha ou não rendido no campo. Depois do empate em Londres e já com a certeza – ainda que só oficializada mais tarde – de que vinha aí Marcel Keizer, a conversa passou para a ambição do jovem treinador: se se sentia “injustiçado” por não passar de interino a principal e se achava que “merecia uma oportunidade”. Aqui, Tiago Fernandes entendeu bem a lição do passado de José Mourinho e vestiu a capa da humildade: “Estou a ter a minha oportunidade”, respondeu aos jornalistas. Aos 37 anos, quando Vale e Azevedo o chamou para ser treinador do Benfica, Mourinho já tinha sido adjunto de Robson e van Gaal, por exemplo. Durante esse período, mantinha relações amistosas com muitos jornalistas, mas não se lhe ouviam em público assomos de vaidade que não podia justificar na prática – só se auto-denominou “Special One” quando assinou pelo Chelsea, depois de ser bicampeão nacional e de ganhar uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões. Só assim fez o percurso que tinha de fazer e que incluiu o Grito de Ipiranga no FC Barcelona para pegar no Benfica e até o bater com a porta da Luz para recomeçar por baixo, em leiria, depois de ter visto frustrada a mudança para Alvalade devido, ainda assim, a alguns “excessos de personalidade”. A lição que Tiago Fernandes tem do passado de Mourinho vai muito para lá dos blocos de treino que o treinador de Setúbal lhe confiou e é muito simples: a não ser que sejam de tal forma poderosos que garantam desde logo a vitória, os trunfos guardam-se para quando possam ser verdadeiramente eficazes. E, para Tiago Fernandes, este ainda não é o momento de os jogar.
2018-11-09
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