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Último Passe

A UEFA fez a única coisa que podia fazer ao manter o Europeu de 2016 em França. E era a única coisa que podia fazer por várias razões. Porque não pode ceder ao medo instigado pelos terroristas – isso, sim, significaria a derrota total. Porque mesmo que quisesse ceder não poderia encontrar um ambiente seguro capaz de substituir os estádios e as cidades que até já estão a preparar-se para receber equipas e adeptos. E porque se há coisa em que o futebol está muito à frente de tudo nesta sociedade é na segurança. Os atentados de sexta-feira mostraram a quem quis ver que se houve local onde os terroristas não entraram foi no Stade de France, onde jogavam as seleções de França e Alemanha. É claro que, mesmo deixando toda a gente mais tranquila no que diz respeito ao sorteio de dia 12, em Paris, ou aos estádios do Europeu, no final da época, essa sensação de segurança deixa ainda tudo muito em suspenso acerca das concentrações de adeptos nas ruas ou nos cafés, muito mais difíceis – ou até impossíveis – de controlar. Mas, ainda que um hooligan não represente o mesmo nível de ameaça de um terrorista do Estado Islâmico, os mais de 30 anos de experiência no combate aos arruaceiros que se alimentam das concentrações do futebol serviu às polícias europeias para construir redes eficazes de deteção e desenvolver estratégias de combate no terreno. Ninguém pode garantir que o próximo Europeu de futebol seja livre de incidentes. Mas o que já começou a passar-se hoje em Paris, com relatos de aumento exponencial do controlo à entrada de todos os espaços públicos, provocando mesmo a revolta de alguns cidadãos menos dados, menos suscetíveis de se submeterem ao controlo policial, é um sinal do que aí vem. Exagerando um pouco, é quase caso para se dizer que poderemos começar a reler Orwell e encarar o 1984 como um manual de boas práticas. O futebol, nesse aspeto, já está na vanguarda há muito.
2015-11-16
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Artigo

Se não escrevi sobre o penalti de Arouca, não vos passa pela cabeça que seja porque nunca vejo os jogos em função das arbitragens. Para quem só sabe vir aqui descarregar frustrações e avalia os outros à luz das suas próprias faltas de carácter, é seguramente porque sou pago ou doente pelo Sporting. Se depois defendi que o que Naldo fez a Lito Vidigal foi grave e deve ser punido, também não vos passa pela cabeça que seja porque entendo que o respeito pelo outro, sobretudo se for mais velho, está acima de qualquer ofensa que esse outro nos tenha feito. Para outros, tão diferentes na cor mas tão iguais na mentalidade, é porque sou pago ou doente pelo Benfica. Se entretanto me manifestei desiludido com a falta de atuação da Liga acerca das constantes acusações que têm vindo a ser feitas um pouco por todo o lado, não vos passa pela cabeça que seja porque entendo que deve haver normas de conduta claras, para que todos saibamos quem está a infringir e quem está a agir bem. Para todos, os primeiros e os segundos, é porque sou contra os vouchers e a favor dos depósitos nas contas dos árbitros, ou a favor dos vouchers e contra os roupões, ou contra vouchers e roupões mas a favor das invasões de balneário. É portanto porque sou pago ou doente por todos os clubes, mas nunca pelo clube de quem se queixa. Como, por fim, não escrevi sobre a Porta 18 ou sobre o gangue dos assaltos, não vos passa pela cabeça que seja porque isso não tem nada a ver com futebol. E como não encontram aqui textos acerca do Apito Dourado ou de Inocêncio Calabote, não vos ocorre que seja porque este site não existia à altura dos acontecimentos. É evidentemente porque sou pago ou doente por alguma coisa de que quem se queixa não gosta e o meu silêncio acerca disso está lá para o provar. Hoje, estava a tentar escolher assunto para o Último Passe e a responder a alguns dos vossos comentários quando soube o que estava a acontecer em Paris. Há coisas tão mais importantes que o futebol... E sim, é verdade que não sou pago para tal, mas sou absolutamente doente por uma coisa: por pessoas. Hoje, em respeito aos que caíram nos ignóbeis ataques de Paris, não há Último Passe.
2015-11-13
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