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Artigo

Comentei ontem o Andorra-Portugal, para a RTP1, sentado num andaime colocado junto à linha lateral, ligeiramente acima do banco de Portugal. Não o escrevo para me queixar. Os jogadores portugueses jogaram num relvado sintético de primeira geração, que dificulta o jogo mais técnico a que estão habituados e pode ser mais propenso a lesões de impacto. E é assim que tem de ser, porque a alternativa era Andorra receber os adversários nesta fase de qualificação fora do país, num ambiente asséptico e normalizado, mas que não seria o deles. Essa opção era melhor para os interesses de Portugal, que nestas coisas da UEFA é um dos grandes, mas pior para o Mundial, que pode gabar-se precisamente de ser a forma de levar a todo o Mundo a mensagem do futebol. Um pouco como a Taça de Portugal dentro das nossas fronteiras. Não domino questões de segurança e sei bem que um Andorra-Portugal não envolve tantas preocupações a este nível como um Oleiros-Sporting, um Olhanense-Benfica ou um Lusitano de Évora-FC Porto. A razão é simples e tem a ver com as claques que acompanham as equipas dos nossos grandes e que, pelo menos nas fases de qualificação, não estão associadas a jogos de seleção a contar para o Mundial. Não vou, por isso, contestar a parte mais securitária por trás da mudança de local dos jogos da Taça de Portugal. Mas há mais razões. E em relação a estas, todas facilmente rebatíveis (da televisão à relva), parece-me seguro dizer, ao menos, que a letra e o espírito da lei se contradizem no futebol português. Porque se por um lado se condiciona o sorteio desta eliminatória da Taça de Portugal para garantir que os clubes vindos da I Divisão têm de jogar fora, por outro deixa-se os mais pequenos vulneráveis aos interesses dos grandes, de forma a que acabem por trocar os locais de realização dos jogos. O que fica assim em causa é a “festa da Taça”. Já pensou por que razão se ouve esta expressão há décadas? É por isso mesmo: porque ao pôr frente a frente equipas de divisões diferentes, a Taça de Portugal democratiza o futebol e leva o jogo de mais alto nível aos quatro cantos do país. Isso tem de ser preservado. E é isso que fica ameaçado quando se autorizam estas alterações de local ao abrigo de questões como a facilidade da realização televisiva ou o mau estado de alguns relvados. Porque há muito mais dinheiro envolvido em direitos de TV no Andorra-Portugal de ontem e nem por isso ele deixou de ser disputado num estádio que dificilmente teria condições para albergar um jogo da Taça de Portugal. Sem ter espaço para um ângulo favorável às câmeras, sem espaço para os jornalistas, num relvado que já não se usa, ainda que em Andorra até faça sentido – o facto de haver neve durante metade do ano impede que nesta pequena cidade dos Pirenéus cresça e possa manter-se um relvado natural em condições para que se jogue. Menos sentido faz que em Portugal as equipas andem a optar cada vez mais pelos sintéticos só porque os relvados naturais são mais caros de manter, e que depois se ouçam os clubes de I Divisão a queixar-se porque têm de ir lá jogar. Porque ou os relvados são bons e admissíveis ou não são e devem ser proibidos num país com tantos dias de sol e, à exceção de alguns locais, sem neve, como é o nosso. Nem que para isso tenha de se legislar, como se fez quando foram proibidos os pelados em todos os campeonatos nacionais. É verdade que Portugal até foi um dos últimos redutos dos campos pelados e que isso não era bom para o futebol. Nem para os futebolistas – como agora parece consensual que não são os relvados sintéticos. Muito do encanto deste desporto, no entanto, vai-se fazendo das memórias que guardamos todos e muitas dessas memórias têm a ver com aquela tarde em que um craque de seleção foi ao campo da nossa terra e esteve ali ao pé de nós, depois de disputar uma bola com o Joaquim do talho ou ou João da farmácia. Se isso lhe põe em risco a integridade física, então não deve jogar lá ele nem os amadores das divisões secundárias. Porque o Joaquim do talho e o João da farmácia também são gente e merecem o mesmo respeito. No fundo, os jogos mudam de local porque a polícia acha que não consegue controlar as claques dos grandes em estádios mais mal equipados – e nesse aspeto os grandes até beneficiam das suas próprias más condutas, pois acabam a jogar em campo neutro em vez de enfrentarem as dificuldades de uma saída ao campo do adversário. E mudam porque dá mais receita jogar noutros locais do que nos campos de província. Bom era que os clubes pequenos canalizassem essa receita adicional para a manutenção de bons relvados e a edificação de infraestruturas que lhes permitam em breve dar uma alegria às suas populações. Ou isso ou que se mude este regulamento e, sem hipocrisias, tal como na Taça da Liga, se metam os grandes a jogar sempre em casa.
2017-10-08
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Último Passe

Há uma grande diferença entre dar uma esmola e promover a distribuição de riqueza. Uma esmola dá-se por caridade. É um gesto muito nobre mas nunca resolve o problema e deixa sempre o necessitado a precisar de nova esmola, pouco tempo depois. A distribuição da riqueza é que pode tornar a esmola desnecessária. E o futebol português está tão cheio de gente interessada em dar e receber esmolas como escasso de quem gere e esteja depois interessado em distribuir riqueza. A Taça de Portugal, que coloca grandes e pequenos no mesmo pote, pode ser um instrumento muito interessante na distribuição de riqueza. Mas não é só isso. É suposto ser uma festa, também. Quando foi decidido que, a partir desta época, os pequenos jogariam em casa sempre que o sorteio lhes ditasse defrontar um grande, a ideia não era gerar riqueza de forma imediata: era publicitar o futebol, levar as grandes equipas a estádios onde nunca vão, fazê-las jogar para públicos que nunca as veem ao vivo. Era, em suma, criar engajamento, ganhar esse público para o futebol de bancada, em vez de o ter no futebol de sofá e, aí sim, gerar e distribuir riqueza, nem que seja num plano secundário. Os clubes, no entanto, não conseguiram ver tão longe. O Vianense deslocou a receção ao Benfica para Barcelos, onde o Gil Vicente teve nos últimos anos muito futebol de primeira, ao passo que o Vilafranquense vai “receber” o Sporting no Estoril, num relvado que até à Liga Europa já está habituado. Só o Varzim manteve o jogo com o FC Porto no seu recinto. Calculo que a pressão de pagar salários, de encontrar verba para cumprir orçamentos, seja muito forte e leve os clubes a tomar decisões com base no imediato, mas se a ideia era ter mais receita já, o melhor teria sido decidir ao contrário: sempre que um grande defrontasse um pequeno, o jogo disputar-se-ia no estádio com mais lotação. Dava-se uma esmola em vez de se gerar e distribuir riqueza. Ao mudarem os jogos para campos neutros só porque levam mais gente nas bancadas, os clubes modestos estão a alienar o futuro em nome do presente, estão a preferir os tostões de hoje aos milhares de amanhã, estão a decidir pela caixa das esmolas que o sorteio lhes deixou escancarada – podiam ter calhado uns contra os outros e nem fazer receita nenhuma - em detrimento da sustentabilidade futura do futebol como um todo. Os clubes pequenos podem até argumentar que não é a eles que lhes cabe pensar nisso, pois se eles até jogam no Campeonato Nacional de Seniores… Por isso é de uma assinalável coerência virem depois, como veio o presidente do Vilafranquense, estranhar que o Sporting não abdique da sua parte da receita: a caixa das esmolas devia ser toda para o pobre e dela não devia beneficiar o remediado. Numa forma pequenina de pensar, faz sentido. Mas pensar grande era outra coisa. Era fazer da Taça da Portugal a festa do país futebolístico, era ganhar gente para os domingos seguintes, era fazer com que dentro em breve não se precisasse tanto da caixa das esmolas porque a riqueza estava a crescer. Infelizmente ainda não estamos prontos para isso.
2015-10-16
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