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Último Passe

Há duas formas bem distintas de olhar para o resultado da seleção nacional frente ao México, na abertura da campanha na Taça das Confederações. Uma obriga-nos a olhar para a exibição, frouxa e descontínua, e para o resultado, que podia e devia ter sido melhor. A outra força-nos a olhar para a frente e para a vantagem que Portugal tem face a russos e mexicanos: joga com a Nova Zelândia na última jornada e, desde que não peca com os russos, na quarta-feira, fá-lo-á a saber de quantos golos precisa para se apurar para as meias-finais. Nunca mais de três, já se sabe. “Voltou a trupe dos empatas”. Era isso que se lia um pouco por todo o lado, nas redes sociais, no seguimento do Portugal-México. Os portugueses sabem tanto de futebol como de incêndios e, regra geral, não hesitaram em condenar de forma veemente o resultado contra o México. O que é estranho é que o tenham feito recorrendo ao exemplo do último Europeu, prova na qual seis empates em sete jogos – dois deles transformados em vitórias no prolongamento – valeram o troféu à equipa de Fernando Santos. A gestão calculista dos resultados e da estratégia para os alcançar tem sido uma das principais armas deste selecionador e basta fazer contas mais com a cabeça do que com o coração para perceber que o empate com o México não deixa Portugal em tão maus lençóis. Ou que, mesmo tendo ganho à Nova Zelândia por 2-0, no jogo de abertura, a Rússia entrará em campo na próxima quarta-feira tão ou até mais pressionada do que a equipa portuguesa. Como é possível? É. Porque Portugal tem a vantagem de defrontar a Nova Zelândia no último dia e acertar contas nessa altura. Imaginemos que Portugal empata com a Rússia e que o México ganha à Nova Zelândia por vários golos. Nesse caso, à entrada para a jornada das decisões, Portugal teria dois pontos, contra os quatro dos rivais, mas só precisaria de ganhar à Nova Zelândia por três golos para assegurar o apuramento. Isto, presumindo que México e Rússia empatavam, porque se um dos dois se impusesse no duelo, para ter a certeza da qualificação sem depender do que se passará à mesma hora em São Petersburgo, bastaria aos portugueses vencer os neozelandeses. Imaginemos, em contrapartida, que os mexicanos ganham à Nova Zelândia por apenas um golo – nesse caso, tudo se manteria, menos a necessidade de ganhar por três no último dia. Aí bastaria vencer os All Whites, bem menos poderosos do que os seus colegas All Blacks, do râguebi. Mas quer isso dizer que Portugal esteve bem frente ao México? Não. Portugal cometeu erros, demasiados erros. Primeiro, o selecionador adotou uma estratégia que acabou por se revelar errada – a exclusão de André Silva para permitir a entrada de Nani como tampão a Herrera não resultou bem, sobretudo por ter inibido a equipa do ponto de vista ofensivo (conforme pode ler aqui: http://bancada.pt/futebol/artigo/falta-andre-silva-a-ronaldo-para-se-ver-o-melhor-de-portugal). Depois, a equipa acumulou erros individuais, reveladores de que afinal há ali gente longe dos melhores momentos: Fonte teve dificuldades nas saídas e falhou no segundo golo mexicano, Guerreiro mostrou menos fulgor do que habitualmente, Moutinho voltou a ser uma sombra do jogador dinâmico que já se revelou, Nani não justificou nova aposta como segundo avançado… Tudo coisas que Fernando Santos pode pensar em emendar antes do jogo com a Rússia. Ainda que, bem feitas as contas, novo empate acabe por não ser assim tão mau. Foi o que o Europeu nos ensinou.
2017-06-19
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Artigo

Portugal vai entrar hoje naquela que se diz poderá vir a ser a última Taça das Confederações da história do futebol num papel a que nunca se habituou e com o qual, diga-se, nunca se deu bem também: o de favorito. Olha-se para as principais publicações europeias, sejam elas de que país forem, e todas carregam a equipa nacional de favoritismo. Para dizer a verdade, não estou assim tão convencido. E não é por Portugal estar mal, que não está. Está até melhor do que há um ano. Nem sequer por esta ser uma competição maldita, cujo vencedor costuma dar-se mal no Mundial a seguir. É só porque todas estas análises se fundam na premissa de que esta jovem Alemanha que Joachim Löw trouxe até à Rússia não tem capacidade para competir ao mais alto nível, mas se há coisas que estes alemães têm a mais do que os outros são energia, ritmo e intensidade. E isso costuma ser decisivo em finais de época. Há aquela velha frase de Gary Lineker. “O futebol é um jogo com onze de cada lado e onde no final ganha a Alemanha”. Pois bem, desta vez toda a gente acha que não ganha a Alemanha. É que, consciente de que não seria bom para o esforço de manter o título Mundial chegar à Rússia, daqui por um ano, com jogadores sujeitos a três anos seguidos com férias reduzidas e a conta-gotas, Löw trouxe uma equipa sem as suas maiores estrelas. Só lá estão três campeões do Mundo (Draxler, Mustafi e Ginter, sendo que este nem jogou um minuto sequer no Mundial); o mais velho é Wagner, ponta-de-lança do Hoffenheim, que tem 29 anos; e 18 dos 23 convocados têm 25 anos ou menos. Mais: face às lesões de Demme e Sané, o selecionador optou por nem chamar mais ninguém. “Bastam 21 jogadores”, disse Löw, mostrando uma ligeireza de atitude que, se for imitada pelos jogadores nos relvados, pode permitir-lhes ter as pernas muito mais leves do que as dos adversários. Esta não é a super-Alemanha que ganhou o Mundial há três anos, mas continua a ser uma muito boa equipa, com jogadores como Goretzka, Kimmisch, Draxler ou Werner. E será o maior teste ao novo paradigma do futebol alemão, o tal paradigma inaugurado depois da derrota contra Portugal no Europeu de 2000 (3-0 contra as reservas portuguesas, que os titulares ficaram a descansar depois de terem garantido a qualificação), em que passou a beneficiar-se a habilidade em vez do físico. Claro que Portugal pode fazer sombra a esta Alemanha e é, até, favorito, como dizem as mais renomadas publicações internacionais. Mas é aqui que entra o fator-maldição: o vencedor da Taça das Confederações nunca faz um bom Mundial. E não é seguramente por causa de um alinhamento negativo dos astros, mas devido a uma conjugação de fatores onde entram o tal cansaço acumulado com os efeitos perniciosos que o sucesso traz a uma equipa: se se ganha, muda-se menos e chega-se ao Mundial com uma equipa mais velha, petrificada, com menos sede de vitórias. Talvez por isso mesmo Santos tenha reforçado que traz “oito jogadores” que não estiveram no Europeu, como quem diz que, caso Portugal se qualifique para o Mundial, outras mudanças poderão suceder. Aliás, bem vistas as coisas, mais três equipas podem sonhar com o sucesso nesta prova. Há o Chile, que apresenta como desvantagem o facto de ser a seleção mais velha – 29 anos de idade média – de uma competição onde a recuperação física será fundamental, com três jogos numa semana. Mas que tem como vantagem o facto de muitos destes jogadores, de Sánchez a Vidal, de Bravo a Médel, já se conhecerem como irmãos, tantas batalhas já travaram juntos, incluindo as vitórias nas duas últimas edições da Copa América. Há a Rússia, uma Rússia rejuvenescida por Tcherchesov, em parte devido às ausências forçadas de Dzyuba, Dzagoev, Kokorin e Mamaev e aos abandonos internacionais dos centrais Berezutsky e Ignashievich, mas que mostrou contra a frágil Nova Zelândia uma velocidade rara nas suas seleções. E, sim, há o México, mais uma equipa veloz e vertiginosa, que depois dos 7-0 encaixados contra o Chile nos quartos-de-final da última Copa América, há exatamente um ano, não voltou a perder um jogo oficial e que além da tripla de inspiração portista – Layún, Reyes e Herrera – tem muita gente de qualidade na frente, graças a Chicharito, ao benfiquista Jiménez e aos regressos de Vela e Giovanni dos Santos.
2017-06-18
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Último Passe

Se lhe pedirem uma comparação entre a seleção portuguesa que vai entrar na Taça das Confederações e a que, há um ano, se preparava para dar os primeiros passos no Europeu, a diferença é muito mais do que um estado de espírito, uma dose de confiança reforçada por um título internacional. A ideia geral – que era a minha também – é a de que a equipa chega a este ponto da temporada menos sobrecarregada em 2017 do que em 2016, quando apresentou vários jogadores “presos por arames”. Mas esta é uma teoria que não tem sustentação nos números. Fazem-se as contas e a diferença entre a utilização do plantel atual e a do de há um ano é menor do que a causada pela troca dos dois guarda-redes suplentes – além de crença e credibilidade, o que há agora é mais talento. E mais idade. Claro que as perceções gerais são sempre muito influenciadas pelos exemplos de topo. E nesta seleção não há ninguém acima de Cristiano Ronaldo, que na parte final da época em curso até foi poupado por Zidane a várias deslocações do Real Madrid, com o objetivo de poder estar em grande na fase decisiva da Liga dos Campeões. Disso poderá beneficiar também a seleção, mas a questão é que, tudo somado, entre clube e seleção, Ronaldo fez esta temporada mais um jogo competitivo – e mais 103 minutos em campo – do que os que tinha na bagagem antes de entrar no Europeu de 2016. São 51 jogos contra 50. Se há um ano tinha feito 36 jogos da Liga, 12 na Champions e dois na qualificação para o Europeu, desta vez soma 29 na Liga, 13 na Champions, dois no Mundial de clubes, outros dois na Taça do Rei e cinco na qualificação para o Mundial. Ronaldo, portanto, jogou mais este ano. Como jogaram mais Moutinho, Guerreiro, Cédric, William ou André Gomes, só para citar os que estiveram no onze inicial contra a Letónia e já tinham estado no Europeu. Entre estes, só Rui Patrício, Fonte e Bruno Alves vêm com menos competição do que há um ano, sendo que Gelson e André Silva são novidades. Tudo somado, os 23 convocados para a Taça das Confederações têm, na verdade, menos jogos na época do que os que tinham os 23 que estiveram no Europeu: são 918 jogos, contra os 948 que o plantel acumulava há um ano. Mas esta diferença – 30 jogos – é anulada se retirarmos da equação os dois guarda-redes suplentes das duas listas: há um ano, Anthony Lopes (47 jogos) e Eduardo (44) somavam 91 partidas competitivas, enquanto que este ano Beto (nove jogos) e José Sá (seis) só contabilizam 15. Quem a 91 tira 15 fica com 76, bem mais do que os 30 que são a diferença geral. O que a equipa deste ano tem é gente importante em melhor fase – Ronaldo e Moutinho não chegam em dificuldades –; mais talento no meio-campo e na frente – Pizzi, Bernardo Silva, André Silva e Gelson são acrescentos muito importantes, que permitem, por exemplo, prescindir sem grandes dramas de João Mário e Renato Sanches, um lesionado e o outro nos sub21 – e mais crença em jogadores com os quais Fernando Santos conta em absoluto mas que há um ano não eram bem vistos pela nação futebolística, como Cédric, Guerreiro ou André Gomes. E, no entanto, é preciso ter calma. No final do jogo com a Letónia, uma jornalista levou Fernando Santos a rir num misto de incredulidade e indignação quando lhe perguntou se ele estava em condições de garantir que Portugal ia ganhar a Taça das Confederações. A lógica do raciocínio parece simples, mas bem vistas as coisas é apenas simplista. Se a equipa está melhor do que a que foi campeã da Europa… Acontece que Portugal não está melhor em tudo. Precisa, por exemplo, de encontrar sangue novo para o centro da defesa, nem de propósito o setor da equipa onde os escolhidos tiveram menos competição este ano do que no anterior: Neto substituiu Ricardo Carvalho, enquanto que Pepe passou de 32 jogos para 22, José Fonte de 45 para 41, Bruno Alves de 43 para 39. Vai-se a ver e afinal o problema que esta seleção pode apresentar na Rússia não é o excesso de competição. Também não será a falta. A surgir, será antes aquilo que levou a essa diminuição: a idade de um setor ao qual a renovação vai tardando a chegar. Sim, a experiência conta muito e a Juventus fez a época que fez com três defesas centrais trintões. Mas no fim quem ganhou a Champions foi o Real Madrid.
2017-06-11
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