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Último Passe

Que o futebol vai mudar em breve, toda a gente já percebeu. Podemos ficar à espera que os grandes agentes de mudança avancem - e nessa altura não nos restará nada a não ser aceitar o que eles terão para impor. Em alternativa, podemos tentar cavalgar essa onda de mudança e conduzi-la para um desfecho mais justo e racional. Foi isso que a UEFA fez no início da década de 90, quando travou as iniciativas de secessão com a criação da Liga dos Campeões. Isso, hoje, porém já não chega. E não chega porque nos conduziu a uma realidade em que clubes e seleções estão sempre no caminho uns dos outros (os últimos Jogos Olímpicos deviam ter sido a gota de água a fazer transbordar o copo da insanidade) e em que não se está a explorar devidamente a possibilidade de passar a competição para a escala normal dos dias de hoje, que é a continental. As alterações nos tempos mais próximos serão, como defendi no artigo da semana passada, nestes dois âmbitos. Hoje deixo a minha proposta. Não estou convencido de ser dono da razão. Mas sei que recusar o que aqui vai ler só porque "isso é impossível" ou porque muda muitas das realidades tidas por imutáveis é ficar à mercê de uma mudança que é inevitável e será então regulada apenas por interesses económicos dos mercados mais imponentes. Seria como a NBA recusar equipas de estados mais pequenos dos EUA só porque neles a TV tem menos audiência potencial. Em tempos já escrevi sobre um projeto de Superliga europeia. Acho que ela vai chegar mais cedo ou mais tarde e, francamente, quanto mais cedo melhor. Porque os campeonatos nacionais estão de tal modo desvirtuados com o dinheiro da Champions que, à exceção da Premier League, onde o dinheiro da TV pode competir com o da prova europeia, os maiores clubes passeiam impavidamente por eles. A Superliga europeia vem aí. Pode ser é de uma forma justa, em que os lugares são distribuídos de acordo com o mérito desportivo, com subidas e descidas e sem matar os campeonatos de cada país, ou à bruta, com atribuição de vagas numa Liga fechada, de acordo com a força que os clubes têm nos mercados, e sem preocupação com os campeonatos nacionais. O que vai fazer a diferença aqui é a proatividade que as federações que terão mais a perder com uma competição desenhada de acordo com os maiores interesses económicos (como a portuguesa, por exemplo) irão ou não assumir.Imaginemos então uma Superliga europeia com 24 clubes, os 16 melhores da Liga dos Campeões de um ano e os oito mais fortes da Liga Europa do mesmo ano. E imaginemos que os dividimos em dois grupos de 12, que jogariam todos contra todos a duas voltas (22 jornadas). Aqui chegados, apuramos os oito melhores para os quartos-de final (seguidos de meias-finais e final) os oito piores para a fuga à despromoção. No fim, em 27 jogos, teríamos um campeão europeu e dois despromovidos, que na época logo a seguir dariam o lugar aos finalistas da Liga Europa, que se manteria nos moldes atuais. São 27 semanas de competição, com jogos todas as semanas: supondo que se começava na terceira semana de Agosto e que se interrompia por três semanas por alturas do Natal e Ano Novo, podia jogar-se a final no primeiro domingo de Março. Ao mesmo tempo, jogar-se-iam os campeonatos nacionais, também por jornadas. Equipas haveria que teriam de jogar as duas competições, mas esse seria um problema bom. Por um lado porque o que ganhariam na Liga Europeia lhes permitiria pagar planteis com a profundidade necessária para as "duas cadeiras"; por outro porque ao terem de dividir as atenções entre ambas as provas, deixariam de ser tão dominantes dentro de portas, incrementando a competitividade. Com o tempo, o normal é os campeonatos nacionais acabarem por sofrer o mesmo destino que tiveram os regionais em meados do século passado. Mas aí morrerão de morte natural, sendo substituídos por mais escalões na competição continental. Ninguém os assassinará. E haverá tanta gente a bater-se pela sua continuidade como houve na altura gente a dizer que acabar com o campeonato de Lisboa ou do Porto era matar o futebol. Em Março, findos os campeonatos nacionais e europeus, era a altura ideal para entrarem em ação as seleções, com três ou quatro meses anuais para jogarem qualificacão e, se fosse caso disso, fases finais, sem os jogadores terem de andar a saltitar de uma realidade para a outra e de preferência dividindo as seleções em escalões, para evitar a profusão de jogos com amadores que hoje se realizam. Já sei qual é a primeira objeção: como sobreviveriam os clubes nesses meses? Os que tivessem internacionais receberiam pela cedência desses jogadores, que a FIFA e a UEFA geram receita suficiente para tal. Além disso, havia sempre a positividade de se jogarem provas de menor importância, como as Taças da Liga, disputadas sem os internacionais. Podiam organizar clínicas para jovens, porque vai caber-lhes cada vez mais a formação transformada em negócio. Podiam organizar digressões. Porque essa ideia segundo a qual os clubes têm de estar em ação permanente para serem um sucesso financeiro é desmentida, também, pela NBA. As finais de 2016 chegaram ao sétimo jogo e concluíram-se a 19 de Junho. A competição recomeça a 25 de Outubro, mais de quatro meses depois. E as equipas que não chegarem ao playoff ficam despachadas em inícios de Abril, quase seis meses antes de voltarem à competição. E não tenho ideia de as franchises andarem a perder dinheiro
2016-10-17
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Artigo

Que a SuperLiga vem aí, já toda a gente com olhos na cara percebeu há uns 25 anos. Tem a ver com a compreensão daquilo que é o futebol, mas também com a noção daquilo que é o Mundo, que se reflete sempre no futebol. As instâncias que governam o futebol têm vindo a dar pequenos passos numa direção que por vezes nem é a que mais lhes convém, porque perceberam que essa é a única forma de impedir as forças motrizes do negócio de dar o grande salto em frente. Mas chegará o momento em que as ligeiras travagens não são suficientes. E ele já não está muito longe, pelo que o que há a fazer não é tentar impedi-lo. É prepararmo-nos para ele. De preferência com a UEFA à cabeça – mas para isso, as federações que mais podem perder com isto têm de se mexer. E a portuguesa é uma delas. Quem me acordou para esta realidade foi Alex Fynn, em inícios da década de 90. Na altura um executivo de topo da Saatchi & Saatchi, o homem que primeiro defendeu a criação desta SuperLiga europeia explicou-me, a mim e a quem fez o favor de me ler, nas páginas do “Expresso”, as razões pelas quais a prova já estava ali ao virar da esquina. Se a melhoria dos transportes ferroviários e da rede de autoestradas nos permitiu passar dos campeonatos regionais aos nacionais e, depois, a evolução dos transportes aéreos permitiu a criação das competições europeias, a sua vulgarização levaria a que fosse possível jogar-se uma verdadeira Liga europeia. E Fynn falava muitos anos antes do fenómeno “low cost” na aviação e das implicações que ele trouxe para a mobilidade das pessoas em geral. Fynn não falava sem interesse – tinha feito um estudo encomendado por Silvio Berlusconi, na altura ainda apenas dono do Milan e de uma rede de media. Berlusconi tinha um clube e os meios de o rentabilizar e queria ver avanço no negócio. Porque para o Milan era mais atrativo jogar com o Manchester United do que com o Bari. Tal como agora para o Bayern é mais interessante defrontar o Barcelonado que o Hoffenheim. E é mais rentável. Sobretudo, é mais rentável. Por isso, se algo me surpreende, agora que recupero as notas dessa conversa com mais de 20 anos, é que a SuperLiga ainda não tenha arrancado. Não arrancou porque a UEFA tem andado sempre um passo à frente. Em 1992, para impedir o avanço da SuperLiga, criou a Liga dos Campeões, assegurando mais jogos a cada clube. Em 1998, quando se falou outra vez de secessão, aumentou para dois o número de vagas para cada um dos principais países. Em 2010, face a mais conversas, o total de vagas cresceu para quatro nos três primeiros países do ranking. Agora, que os cinco maiores clubes ingleses abriram conversações para jogarem partidas da Champions nos EUA ou no Oriente, não se vê o que mais pode a UEFA oferecer-lhes a não ser criar ela própria uma nova competição. E mesmo assim não é garantido que os clubes decidam ficar, pois o organismo que tutela o futebol europeu já não é um garante de legitimidade que era há 20 ou 30 anos, quando ainda não se falava de corrupção como se fala agora. Aqui chegados, a SuperLiga não é uma má ideia. Pelo contrário. É uma excelente ideia. O que nos trouxe a globalização, com a vulgarização das transmissões de futebol de todo o Mundo para todo o Mundo, é que as novas gerações de portugueses já sabem melhor como joga o Barcelona, o Real Madrid ou até o Leicester do que o Tondela, o Arouca ou o V. Setúbal. Podemos gostar ou não gostar – e a mim não me incomoda por aí além – mas não podemos mudar o Mundo de uma penada. E se o que as pessoas querem é grande futebol, pois que se lhes dê grande futebol. De preferência com a UEFA a mandar, porque essa, ainda assim, é a única forma de desviar alguma da receita para o desenvolvimento do futebol jovem e das federações menos ricas, de evitar, não que os ricos fiquem mais ricos, mas que os pobres fiquem mais pobres. Salvaguardados esses princípios de justiça relativa, é preciso depois pensar que SuperLiga se cria. Porque uma coisa é aquilo que é justo e outra é aquilo que é melhor para o negócio. O que é justo é pegar-se nas 20 melhores equipas da Europa (por exemplo os 16 apurados na fase de grupos de uma próxima Champions e os quatro semi-finalistas da Liga Europa do mesmo ano), criar para elas um escalão supra-nacional, acima dos campeonatos de cada país e das atuais provas europeias, com quatro despromoções e quatro subidas, a serem entregues aos finalistas das duas competições continentais de cada ano. Jogar-se-ia em 38 jornadas, ao fim-de-semana e, para não se esvaziar totalmente os campeonatos nacionais, os clubes da SuperLiga até poderiam participar neles com equipas B. O que é melhor para o negócio é fazer uma Liga fechada, tipo NBA, sem subidas nem descidas, com cinco equipas de Inglaterra, quatro da Alemanha, quatro de Espanha, quatro de Itália e dar as três vagas restantes ao Paris St. Germain, ao Mónaco e ao Zenit. Eventualmente, o Celtic, o Ajax, o Galatasaray, o Benfica ou o Shakthar Donetsk podiam tentar entrar, ainda que sem grandes hipóteses de sucesso. Portugal quer isto? Creio que não. Então mexam-se! In Diário de Notícias, 14.03.2016
2016-03-14
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