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Último Passe

  O primeiro hat-trick de Haris Seferovic pela seleção suíça não podia ter escolhido melhor ocasião do que a épica reviravolta dos helvéticos ante uma Bélgica que vinha de peito feito e confirmara pretensões com dois golos madrugadores. Já o disse e escrevi várias vezes: Seferovic não é um goleador de topo, um avançado capaz de acabar um campeonato competitivo com 30 golos no cabaz. Mas tem virtudes que fazem dele um bom jogador de plantel e um delas é a resiliência, que ficou bem à vista num jogo com a Bélgica onde, é verdade, tudo lhe correu de feição, mas onde o mais fácil seria desistir e sair do relvado com a apreciação mais vulgar para um avançado cuja equipa precisava de ganhar por dois golos e ao quarto-de-hora já perdia pelos mesmos dois: “a equipa não o ajudou e ele não pôde fazer mais”. Essa tem sido, aliás, um pouco a história de Ferreyra. Resignação em vez de resiliência. Ferreyra, sim, é um goleador daqueles capazes de acabar uma época numa Liga competitiva com números avassaladores. E no entanto, ao fim de quatro meses de Benfica, quatro meses depois de uma transferência avultada, do que se fala é de desistência. Desistência do Benfica nele, a exemplo do que aconteceu com outros goleadores que no passado tardaram em impor-se, mas também desistência dele em relação ao Benfica, por incapacidade de encaixar numa ideia de jogo que parte de uma primeira linha de pressão agressiva e onde a relação com a bola varia consoante a zona onde se está: ataque à bola e ao espaço, encostando o cabedal ao adversário direto nas imediações da área; bola no pé e toque em apoio, bem mais aveludado, na zona entre linhas opositoras. Ao contrário de Ferreyra, com menos qualidade técnica mas mais espírito de luta, Seferovic é um atacante agressivo. Repito que o hat-trick à Bélgica até pode ter sido um caso isolado de uma noite perfeita, mas o suíço já tinha mostrado capacidade, por exemplo, ao fazer o golo que derrotou o FC Porto, depois de partir como quarta opção para uma vaga apenas na frente de ataque encarnada. E incapacidade, é verdade, depois, no ciclo de derrotas que a equipa de Rui Vitória atravessou, muito devido às falhas de finalização da sua linha da frente. Com Jonas de volta e a confessar-se “a 100 por cento”, o Benfica deverá mesmo ter de tomar decisões na janela de mercado de Janeiro, porque se Castillo é um jogador completamente diferente dos outros – e cuja utilidade também ainda tem de ser provada – se a ideia é continuar a jogar em 4x3x3 há gente a mais para uma vaga só. E por gente “a mais” entende-se gente “a desvalorizar” a cada semana que passa. O mercado de Janeiro serve para corrigir erros e o que aconteceu no ataque do Benfica esta época foi mesmo um erro. Ou um erro de apreciação de quem achava que Jonas acabara e iria embora. Ou um erro de casting/scouting de quem achou que seria fácil fazer Ferreyra encaixar no futebol “fast and furious” do ataque benfiquista. Ou um erro de definição de sistema, porque para o 4x3x3 faz falta um avançado que seja ao mesmo tempo confrontacional e goleador puro. Ou todos os acima mencionados, que é o que me parece mais plausível no momento em que vai a época.
2018-11-19
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