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Alguns amigos, tanto de direita como de esquerda, têm comentado comigo a preocupação que lhes cresce na alma perante a possibilidade cada vez mais iminente de Donald Trump vir a ser presidente dos Estados Unidos. O que lhes digo sempre é que isso não me surpreende, porque o estado do Mundo é um convite à intolerância, ao radicalismo, ao soundbyte que deles se alimenta. E não é só na política. Fruto daquilo em que se transformaram os media, da amplificação da opinião do “idiota da aldeia” que trouxeram as redes sociais, o futebol português está cheio de radicais encartados, de gente cuja única missão é sobrepor as suas cores às de todos os outros, nem que para isso seja preciso atropelar todas as regras do bom-senso, da educação ou da ética. Um fim-de-semana como o que acaba de viver a Liga portuguesa, com penaltis polémicos e discutíveis, é o combustível destes Donald Trumps dos relvados, desta gente para quem mais importante do que ganhar ou perder é garantir que o rival teve ajudas. Passei boa parte do fim-de-semana a responder a esta legião de radicais, a adeptos que repetem até à exaustão as mesmas expressões – “jornaleiro”, “cobarde”, “burro”, “faccioso”, “invertebrado”, “azia”, “tira as palas”, despe a camisola”, “se falas acabam-se os tachos”… – e que me acusam de ser sempre adepto ou de estar a ser pago por um clube que não o deles. Seja o deles qual for. Aliás, já me aconteceu ser acusado por leitores diferentes de estar ao serviço de cada um dos três grandes e contra cada um os três grandes por causa de um só texto. Na parte que me sobrou do fim-de-semana, achei que precisava de me reconciliar com a profissão e foi ver “Spotlight”, um excelente filme acerca de jornalismo como ele deve ser e que recomendo sem reservas a todos os talibans da bola nacional. Sei que as realidades não têm comparação, que uma coisa é falar-se de penaltis e outra denunciar o crime mais hediondo que possamos imaginar, que é o crime de pedofilia, mas acreditem que, com mais ou menos tempo – a investigação acerca da pedofilia na igreja em Boston levou meses de dedicação total e só foi denunciada com provas irrefutáveis – e com mais ou menos meios, os jornalistas são e querem ser sempre jornalistas. E, dentro da responsabilidade ética e moral da profissão, o que querem é revelar a verdade e denunciar quem a não respeita. Simplesmente, se Trump acha que consegue resolver o problema da criminalidade nos Estados Unidos impedindo a entrada de imigrantes mexicanos, os radicais do futebol português acham sempre que o futebol seria uma limpeza se os jornalistas se comportassem como os comentadores engajados que aparecem nos programas de segunda-feira a gritar penalti sempre que é um jogador deles que cai e a assobiar para o ar quando quem se estatela é um dos rivais. Nunca escolhi, nem escolherei esse caminho. Porque não creio que a minha opinião em lances polémicos seja palavra de lei. Porque acredito no erro – e tenho visto os mesmos árbitros errar para todos os lados. Porque ainda estou para ver uma discussão acerca de arbitragem mantida no plano racional e de urbanidade no qual me reveja. E porque, francamente, muito mais interessante do que discutir penaltis é perceber que o Paços de Ferreira encontrou espaço para jogar entre as linhas do Benfica porque, desgastada, a equipa de Rui Vitória não foi tão compacta como costuma ser. Ou explicar que os problemas defensivos do FC Porto têm a ver com o deficiente controlo da profundidade defensiva ou com o espaço que a equipa deixa criar entre central e lateral quando o adversário cruza referências à sua frente. Assim será até que, tal como em “Spotlight”, a história não seja ir atrás de um penalti, não seja dar a minha irrelevante opinião acerca de um lance, mas sim denunciar todo um sistema. Até perceber que há uma teia a manobrar para favorecer um clube – os do Benfica dizem que é o Sporting, os do Sporting dizem que é o Benfica, ambos concordam que há uns anos era o FC Porto e os do FC Porto dizem agora que quem é favorecido são os de Lisboa – vou continuar a ver e interpretar futebol sem me focar nos árbitros. Da mesma forma que os religiosos falam com Deus sem precisar da intermediação dos padres. In Diário de Notícias, 22.02.2016
2016-02-22
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Há muitos leitores indignados porque me referi à arbitragem após o Tondela-Sporting e não o fiz hoje, após o Benfica-Estoril. A esse respeito tenho a dizer o seguinte.1. Raramente comento arbitragens. Não é o meu estilo. Prefiro falar de futebol jogado.2. Fi-lo após o Tondela-Sporting para dizer que não alinho nas discussões estéreis de hooligans de fato e gravata e que os erros só diminuirão com a introdução do vídeo-árbitro que permita ao juiz de campo ver o mesmo que os telespectadores. Basta lerem o que lá está para - se quiserem - o perceberem.3. Não tenho problemas em reconhecer que o Benfica foi hoje beneficiado pela arbitragem, que ignorou um penalti a favor do Estoril com 0-0 no marcador. Aliás, escrevi-o na primeira resposta que dei a um comentário de um leitor. Simplesmente pareceu-me muito mais interessante destacar as dificuldades que o Benfica mostrou em campo do que o erro do árbitro (já vos tinha falado do vídeo-árbitro?)4. Não devo nada a ninguém, a nenhum clube, dirigente ou jogador. Nunca trabalhei e julgo poder dizer que nunca trabalharei para nenhuma cor clubística. Nunca recebi e julgo poder dizer que nunca receberei sequer um bilhete para ir ao futebol vindo de um clube, dirigente, treinador ou jogador. Quem quiser sequer insunuá-lo, é bom que o faça muito bem documentado. Com provas, que para insinuações idiotas e cobardes já bastam as que são feitas pelas fontes de informação aos jornais, por exemplo acerca dos sms.5. Não admito que ponham em causa a minha isenção ou que me acusem de ser anti isto ou aquilo ou avençado deste ou daquele. Digo sempre aquilo que vejo, porque é nisso que acredito e não num jornalismo de interesses. Sejam eles dos clubes ou dos leitores com vocação de censores que acham que podem decidir acerca do que escrevo a cada dia.Quem perceber isto é sempre bem vindo aqui. Quem não perceber isto não percebe nada e, francamente, faz pouca falta.
2015-08-16
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Pedro Proença é o novo presidente da Liga de clubes. Dele e de quem o acompanha espero o seguinte compromisso:1. Que seja, como já disse, o presidente de todos os clubes, quer o tenham apoiado ou não, rompendo com o passado de lobismo que só envergonha o futebol nacional;2. Que traga para a Liga o know-how e o profissionalismo com que conviveu nas grandes competições internacionais em que marcou presença;3. Que dê o contributo necessário em clareza nas decisões para se acabar com as suspeições no que toca à arbitragem e disciplina, os cavalos de batalha de todos os dirigentes antigos;4. Que consiga acabar com o feudalismo no futebol nacional, o sistema no qual quem não tem receita só sobrevive prestando vassalagem a interesses superiores, sejam eles clubes grandes ou grupos de interesse. É isso só será possível através de uma distribuição mais igualitária da receita nascida nos direitos televisivos;5. Que mantenha na presidência da Liga a atitude é o profissionalismo que teve enquanto árbitro internacional: pode errar, mas apenas se o fizer convicto de que está a fazer o mais correto.6. Que acabe de uma vez por todas com o futebolzinho pequenino que se auto-destrói em cada declaração;7. Que seja implacável com os não cumpridores, seja em pagamento de salários, impostos ou obrigações sociais. Sem subterfúgios; 8. Que crie um nível de exigência para se pertencer à elite, impedindo quem não tem público de jogar o seu campeonato.Para cumprir este compromisso é muito provável que tenha de afrontar muitos interesses, incluindo alguns de quem até hoje o apoiou em nome de interesses eles também inconfessáveis. Espero que vá até ao fim. xpto data asd asd asd asd asd asd asd asd ad asd asd ads asd ads
2015-07-28
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