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Último Passe

Chego de férias com a notícia triste da morte de Moniz Pereira. Toca-me a emoção de Fernando Mamede a falar daquele a quem chamou “um pai”. Os contactos que tive com um e com o outro foram sempre demasiado efémeros para ter sobre eles qualquer opinião que não venha dos resultados que foram sempre conseguindo e que provam que Moniz Pereira era um excelente treinador e Mamede um atleta excecional. Mas Mamede recorda como o mestre foi capaz de elevar toda uma geração da indiferença para um patamar de conquistas internacionais, interferindo a nível governamental em 1975 para fazer aprovar um plano que veio transformar o atletismo nacional. E isso, essa missão de uma vida, que teve os primeiros resultados logo nos Jogos Olímpicos de 1976, com a medalha de prata de Carlos Lopes, fez dele muito mais que um treinador. Moniz Pereira era um líder, um ideólogo que via à frente dos outros. Vai a enterrar quando estão a começar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, competição da qual a generalidade do público português já exigirá medalhas e na qual quase todo o desporto nacional se empenha para as obter. Quase? Sim. Porque há sempre o futebol, única modalidade que o país levará aos Jogos sem chamar – nem pouco mais ou menos – os melhores atletas disponíveis, mesmo tendo celebrado o brilhantismo com que a seleção de Rui Jorge conseguiu, há um ano, a qualificação para o Rio de Janeiro. É verdade que muita da responsabilidade da vergonha que foi a convocatória para a seleção caberá à FIFA, que não é capaz de dignificar o torneio olímpico com ajustes na calendarização que tornassem possível a imposição da libertação dos melhores jogadores por parte dos clubes. No que ao futebol diz respeito, estes Jogos Olímpicos serão uma competição quase clandestina, a decorrer em simultâneo com o arranque dos campeonatos nacionais e com a fase decisiva de acesso à Liga dos Campeões. Ainda assim, ao ouvir Fernando Mamede falar do plano apresentado por Moniz Pereira há 40 anos, da forma como ele valorizava os Jogos Olímpicos, não pude deixar de me lembrar da tragicomédia que foi o anúncio da lista de convocados para a seleção olímpica de futebol. A FPF não está ao nível em que estava o atletismo – e o desporto – nacional em 1975 e a prova disso está na conquista do Europeu de França. Mas isso não quer dizer que não lhe faça falta a visão de um Moniz Pereira.
2016-08-01
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Último Passe

Citius, altius, fortius! Há alguma coisa na vida de um atleta que seja mais importante do que uns Jogos Olímpicos? Aparentemente não, a não ser que estejamos a falar de futebol. E a razão para esta diferença pode custar muito a muita gente, mas está na cara de quem quer vê-la: é que os Jogos Olímpicos são importantes sobretudo na medida em que garantem contratos milionários a quem leva medalhas de ouro para casa. Citius, altius, fortius? Ditius! Quem é como quem diz: mais rápido, mais alto, mais forte? Mais rico! É por isso que andarmos agora a carpir desgostos porque a seleção olímpica de futebol vai viajar para o Rio de Janeiro sem boa parte das suas estrelas soa tanto a hipocrisia. A grande diferença entre o futebol e a generalidade das outras modalidades é que no futebol quem vai aos Jogo Olímpicos são os sub23. Cada seleção pode até reforçar aquela categoria etária com um trio de estrelas, mas o que vai jogar-se não deixa de ser um torneio que não é bem um Mundial de sub20 ou um Europeu de sub21, mas também não é um Mundial absoluto. Se o atletismo tem os seus campeonatos do Mundo e depois, de quatro em quatro anos, os Jogos Olímpicos, para celebrar os melhores, o futebol optou por uma via diferente. Porquê? Para não estragar o negócio que é o Mundial, um dos poucos eventos com mais visibilidade planetária do que os próprios Jogos Olímpicos. A FIFA, portanto, nunca quis dar ao Comité Olímpico Internacional a possibilidade de organizar um torneio verdadeiramente importante e o desprezo a que vota os Jogos Olímpicos vai ao ponto de nem sequer ter colocado as datas do torneio de 2016 na sua calendarização. O que no imediato vem provocar um conflito entre os que levam o olimpismo a sério e os que, olhando para a realidade, percebem que mais importante é um qualquer Benfica-V. Setúbal, um Tondela-FC Porto ou um Sporting-Chaves que venha a jogar-se naquele período. O torneio olímpico de futebol começa, para os homens, a 4 de Agosto. Três dias depois joga-se a Supertaça entre Benfica e Sp. Braga. A 12 deve começar o campeonato nacional. A 16/17, o FC Porto terá a primeira mão da decisiva pré-eliminatória da Liga dos Campeões, jogando a segunda a 23 ou 24. E a 20, horas antes de no Rio se jogar pela medalha de ouro, os clubes portugueses estarão envolvidos na segunda jornada da Liga. Como a FIFA não incluiu os Jogos Olímpicos no calendário oficial, nenhum clube será obrigado a ceder jogadores, havendo neste momento na Federação Portuguesa de Futebol a ideia de chamar um lote restrito de cada clube, provavelmente nem os que mais jeito dariam à equipa, mas aqueles que os clubes não se importarão de ceder. Olhemos para o onze que esteve na final do último Europeu de sub21: José Sá; Esgaio, Illori, Paulo Oliveira e Guerreiro; William, Sérgio Oliveira e João Mário; Cavaleiro, Bernardo Silva e Ricardo. Agora juntemos-lhes nomes que nessa tarde estavam no banco, como Rafa, Iuri Medeiros, Cancelo, Ruben Neves ou Carlos Mané. E ainda valores entretanto revelados, mais jovens e por isso dentro da idade regulamentar, como Renato Sanches ou André Silva. Uma super-seleção, mesmo sem contar com a possibilidade de reforço com os tais jogadores extra-contingente sub23. Neste momento, Rui Jorge não pode saber muito bem quem vai ter ou o que vai fazer quando tiver que convocar os homens que leva aos Jogos. Porque o trabalho fundamental não será dele, mas sim das relações públicas da FPF, dos dirigentes que hão-de conversar. O percurso desta equipa merecia outro tratamento, mas não é dos clubes portugueses. É da FIFA, que continua a não saber fazer uma coisa tão simples como um calendário.
2016-05-31
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Último Passe

Restam poucas dúvidas acerca do que espera mais uma geração nacional de sub-21 anos. Os 4-0 aplicados à Albânia, somados a idêntico resultado na Grécia, aos 6-1 aos albaneses em Tirana e aos 2-0 contra a Hungria querem dizer simplesmente que só uma surpresa, que só mesmo uma hecatombe inesperada impedirá Portugal de desempenhar papel principal em mais um Europeu da categoria, depois de ter perdido a final de 2015 nos penaltis. Faltam seis jogos da qualificação, mas isso pouco parece importar para a seleção que já não perde há quatro anos. Há duas gerações. Tudo isto vem recordar-nos duas coisas que muita gente ainda insiste em desvalorizar ou em desvirtuar. A primeira é que ainda se forma bem em Portugal. As carpideiras do reino andam constantemente a dizer que é uma vergonha termos tantos estrangeiros a jogar nos escalões de formação, que os quadros competitivos são ridículos, que os espanhóis é que sabem porque só introduzem a competição nacional mais à frente ou que os ingleses é que sabem porque metem a competição nacional mais cedo, mas quem dá cartas nesta matéria é Portugal. Sim, a grande vantagem competitiva destas seleções tem a ver com a inclusão das equipas B na II Liga, o que foi um golpe de mestre da FPF, mas isso de nada serviria se as bases estivessem erradas. Não estão – e aí o golpe de mestre é dos clubes, que mesmo que o façam por interesses competitivos próprios e se calhar nada saudáveis, resistem sempre aos pedidos para facilitar a vida aos meninos com a limitação de estrangeiros que só iria atrasar a sua entrada num quadro de competição mais exigente. Na verdade, é assim, nesse panorama mais exigente, sem recurso a protecionismos, que eles crescem. A segunda é que Rui Jorge tem de ver o seu trabalho reconhecido de outra forma. Rui Jorge é um tipo tímido, de “low profile”, que não se põe em bicos de pés – pelo contrário, muitas vezes até se encolhe. E isso se calhar até é bom, porque lhe permitirá andar com um grau de satisfação elevado pelos sub21 enquanto a seleção A estiver entregue a Fernando Santos. Aliás, do que dele conheço, acho que lhe permitirá até desejar que a liderança do engenheiro dure largos anos. Mas como líder destas (para já…) três gerações que não perdem um jogo competitivo para amostra, é impossível não olhar para ele no momento em que se pensar a sério na sucessão. Desde André Almeida, Cédric ou Danilo, todos da equipa que falhou o Europeu de 2013 por um golo, aos atuais Ronny Lopes, Bruno Fernandes, Carlos Mané ou Ruben Vezo, com passagem pelos jogadores da geração intermédia, como Bernardo Silva, William Carvalho, João Mário ou Paulo Oliveira, todos asseguram o futuro da seleção nacional. E é claro que, pelo conhecimento que dele têm ou que ele tem deles, asseguram também o futuro de Rui Jorge como técnico da FPF.
2015-11-12
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