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O arraso dado esta semana pelos clubes ingleses nos adversários que lhes apareceram pela frente na Liga dos Campeões dá que pensar, porque parece ser uma coisa que vai muito para lá da dimensão financeira. E até mesmo a total impossibilidade de determinar uma alteração no panorama global do futebol europeu, no sentido de tornar mais acessível o “Clube do Bolinha” que os mais ricos tornam a cada ano mais exclusivo, deveria levar-nos a questionar as razões profundas pelas quais Manchester City e Liverpool FC arrasaram FC Basileia e FC Porto e até o Tottenham pareceu forte demais para uma Juventus quase envergonhada do estatuto de “Velha Senhora” que ostenta. Sérgio Conceição colocou a questão orçamental na ordem do dia, mesmo que o tenha feito de um ponto de vista da negação. De qualquer modo, o treinador do FC Porto sabia perfeitamente que ao dizer que se não costumava levantar essa questão nos jogos de campeonato nacional não iria agora levantá-la na Champions, estava, no fundo, a levantá-la. Para o que desse e viesse. Na minha opinião, contudo, Conceição tinha razão: essa não é a questão fundamental. Até porque a realidade de mercado dos clubes ingleses é muito diferente da dos clubes portugueses: têm de gastar muito mais para contratarem os mesmos jogadores. E isso até nos leva a dizer que, jogador por jogador, os nossos são regra geral melhores e mais baratos. Se não serviu para mais nada, o último Europeu há-de ter servido pelo menos para isso. Bem mais importante é, na minha perspetiva, a questão do ambiente. Olhemos para os últimos 40 anos de futebol. Nos anos imediatamente antes de Heysel, os clubes ingleses dividiam a liderança do futebol europeu com os alemães e os italianos, surgindo os espanhóis e até um ou outro de um campeonato limítrofe dentro da equação. A realidade económica era irrelevante, porque havia limite de estrangeiros e o talento não circulava como hoje – o que valia era a qualidade do trabalho. E os treinadores britânicos, nessa altura, eram quem melhor trabalhava: eram requisitados por todo o mundo, mesmo se depois se lhes via aquela irredutibilidade idiota quando se tratava de mudar um plano em andamento. Dizia-me Bobby Robson, uns anos depois: “Mas se eu estava convencido de que aqueles eram os melhores onze, por que é que haveria de os alterar durante o jogo?” A morte lenta do futebol inglês começou em Heysel e no isolamento que se lhe seguiu. Quando voltaram, os clubes ingleses não ganhavam a ninguém. Tinham perdido o comboio. E levaram uma geração a reentrar na carruagem, porque o fizeram da forma ao mesmo tempo mais difícil e mais consolidada: a forma do negócio de base. Inglaterra mudou os estádios, erradicou vícios antigos que estavam na base de problemas como o “hooliganismo”, criou uma Premier League assente num modelo de negócio de sucesso, que anos depois passou a permitir aos seus clubes recrutar os melhores talentos, as maiores promessas e os melhores treinadores. O Manchester City que foi ganhar por 4-0 a Basileia tem a marca de Pep Guardiola, um espanhol que ganhou no FC Barcelona e no Bayern. O Tottenham que empatou em Itália com a Juventus tem a marca de Mauricio Pochettino, um argentino de quem se diz poder vir a ser solução para o Barça ou o PSG. O Liverpool que ganhou por 5-0 no Porto tem a marca de Jurgen Klopp, um alemão que deu dimensão ao Borussia Dortmund com um futebol sexy. Além destes, no topo da Premier League estão o Manchester United de José Mourinho (português), o Chelsea de António Conte (italiano) e o Arsenal de Arsène Wenger (francês). O primeiro inglês, o rude Sean Dyche, surge em sétimo lugar, com exatamente metade dos pontos do Manchester City (de 36 para 72) e funciona como metáfora perfeita para aquilo que estou a tentar provar. É que não é uma questão de estilo de jogo. Podemos encontrar pontos em comum entre o estilo de Guardiola e o de Wenger (o futebol de toque), entre estes e Klopp, depois entre Klopp, Pochettino e o jovem Mourinho (zonas de pressão e ritmo elevado) e, apesar das ofensas abundantes entre eles, entre o Mourinho de hoje e Conte (jogo mais feito de equilíbrios). É uma questão de lideranças e de qualidade de trabalho ao serviço de um negócio bem gerido. Se não podemos ter os números do futebol inglês, devemos ao menos esforçar-nos por ter o que só depende de nós. Porque o talento, até ser internacionalmente detetado, ainda dá muito jeito a quem o cultiva.
2018-02-17
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Portugal está em êxtase com o título do Leicester. “É a prova de que tudo é possível no futebol”, dizem uns. “É o regresso do romantismo”, dizem outros. Depois, uns recordam o Boavista, outros falam na fábula da pizza e do trabalho. Sim, também eu fiquei com os olhos marejados quando li a história da fábula da pizza. Mas se quisermos falar disto a sério, sem clichés nem frases feitas, daquelas que se destinam apenas às partilhas nas redes sociais, temos de colocar a cabeça a funcionar. E de perguntar a nós mesmos: quereríamos nós um Leicester em Portugal? Deixem-me responder por vós. Não! Porque se quiséssemos já estaríamos a fazer alguma coisa para que algo de semelhante pudesse acontecer por cá. E a verdade é que nos dirigimos cada vez mais no sentido contrário. Primeira fase da reflexão – desconstrução de mitos. Há, de facto, algo de Boavista de Jaime Pacheco na proeza do Leicester de Claudio Ranieri. Há um plantel humilde, pelo menos se comparado com os que com ele se batem na mesma Liga. Há espírito de grupo, resultante dos laços que se vão criando a cada semana que o “underdog” segue na frente. “Somos nós contra o Mundo”. É aqui que entra a fábula da pizza. Se tivesse tido comunicação, o Boavista de Jaime Pacheco também teria tido uma fábula da pizza para contar. Esta, de Ranieri, explica-se de forma simples. O treinador estava a ganhar jogos, mas preocupado com o facto de a equipa sofrer sempre golos. Um dia, temendo que essa permeabilidade se tornasse um problema, ofereceu-se para pagar o jantar a toda a equipa se esta mantivesse as redes a zero. E quando isso foi conseguido, cumpriu. Ranieri levou os jogadores a um restaurante italiano e, ante a ausência previamente combinada do pessoal da cozinha, ordenou-lhes que fizessem as suas próprias pizzas. “Vou pagar-vos o jantar, mas aqui, tal como no campo, vocês vão ter de trabalhar para o conseguirem”, disse-lhes. Ranieri, como Jaime Pacheco, pode não ser um génio da metodologia de treino ou um paradigma de modernidade na tática, mas tem vivência, tem mundo, sabe como motivar um grupo. As comparações entre o Boavista e o Leicester, porém, acabam aqui, no balneário. Porque o Boavista do início do século já andava a ameaçar as posições cimeiras há algum tempo e este Leicester só era candidato a descer de divisão. Porque aquele Boavista era uma das equipas com mais poder nos bastidores do futebol português e este Leicester não é tido nem achado nesses pormenores. Porque aquele Boavista caiu vitimado por alguma soberba – aumento exponencial de orçamento – e pelas mesmas armas de bastidores que lhe permitiu chegar lá acima e este Leicester vai cair porque, pura e simplesmente, a fábula da pizza só resulta com jogadores esfomeados de sucesso. Ou acham que Mahrez, Kanté ou Vardy, daqui por um ano, quererão sujar as mãos com a massa? Claro que não. Vão passar a ter quem faça a pizza por eles, mesmo sem perceberem que foi isso que lhes permitiu ganhar. Mas é da natureza humana e não há nada neles que lhes permita ver isso por antecipação. Por que ganhou então o Leicester? Por várias razões. E o espírito de grupo criado por situações como a fábula da pizza é uma delas. Outra é o facto de, apesar de tudo, o Leicester não ser uma equipa de coitadinhos. Porque na Premier League não há equipas de coitadinhos. É certo que aquilo que o Leicester gastou não chegará para pagar as comissões gastas por Chelsea, Manchester City ou Manchester United nas suas aquisições, mas ainda assim os novos campeões ingleses investiram esta temporada 4,2 milhões de euros em Huth, 9 milhões em N’Golo Kanté, 7 milhões em Inler e 11 milhões em Okazaki, aos quais acrescentaram, em Janeiro, mais 6,6 milhões em Amartey e 5,1 milhões em Gray. Foram, ainda assim, mais de 40 milhões de euros em aquisições, o que permite que se diga que a equipa não é de bidons e que quem está errado é que gasta isso e muito mais em jogadores que ainda não são o Messi ou o Cristiano Ronaldo só para satisfazer a clientela. E é aqui que a realidade inglesa se separa da portuguesa. Porque, estando inserido num mercado que funciona, o Leicester teve, por um lado, a vontade, e por outro a possibilidade, de tomar as suas próprias decisões. Agora vamos à parte chata. Perguntemos a todos aqueles que têm vibrado nas redes sociais com o título do Leicester e que são adeptos do Benfica, do Sporting e do FC Porto, se gostavam de ver uma coisa assim na Liga portuguesa. Quase todos vão dizer que sim, sobretudo porque vão estar a pensar que o nosso Leicester seria campeão em vez de um rival e não do clube deles. Mas quase todos vão recuar quando se lhes disser que enquanto o futebol português estiver organizado como está isso não será possível e que só poderemos ter um Leicester como tivemos um Boavista, se esse clube estiver encostado aos bastidores do poder. Porque para termos um Leicester teremos de ter, primeiro, um mercado interno que funcione para lá dos humores dos grandes, que jogam o jogo das influências emprestando jogadores à esquerda ou à direita. Para termos um Leicester teremos de ter uma distribuição mais equitativa das receitas de televisão, teremos de ter limitação do número de jogadores que cada clube pode ter sob contrato, teremos de ter clubes com vontade e acima de tudo com a possibilidade de tomarem as suas próprias decisões em vez de terem de se colocar debaixo da asa do "seu" grande. E é aqui que os nossos adeptos, que são extensões dos nossos clubes, vacilam. Mais: é aqui que recuam, que concluem que afinal de contas é melhor não termos um Leicester. Eu, que há uns dez anos já escrevo isto – a ponto de achar que me repito – quero ter um Leicester em Portugal. Até acho normal que os clubes grandes não queiram. O que acho estranho é que a Liga não queira.
2016-05-03
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