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Último Passe

A mais do que certa reeleição de Luís Filipe Vieira para um quinto mandato como presidente do Benfica não é sequer notícia. Seja porque o trabalho já feito na devolução do clube aos patamares de exigência competitiva no futebol – que é o que interessa aos sócios – está à vista de todos; seja também porque, em consequência disso, Vieira passou pelo segundo ato eleitoral sem qualquer oposição. Nesse aspeto, aliás, Vieira e o Benfica estão a fazer um percurso muito igual ao de Jorge Nuno Pinto da Costa e do FC Porto. E é nisso, mais do que nas “admiráveis manifestações de fervor clubístico” que os presidentes agradecem sempre aos sócios que se dão ao trabalho de ir votar em dias de eleições de lista única, que vale a pena debater em plebiscitos como o de hoje. Porque no futebol, nem a política é política. Vieira, que já era o presidente mais durável no comando do Benfica – completará 17 anos no final do mandato para que será hoje eleito – foi cinco vezes a votos, duas delas sem oposição. Nas três ocasiões em que alguém lhe disputou o cargo, no entanto, as suas votações foram arrasadoras: 90% contra Jaime Antunes e Guerra Madaleno em 2003; 91% contra Bruno de Carvalho em 2009; e 83% contra Rui Rangel em 2012. É uma realidade muito próxima da experimentada por Pinto da Costa, que no final da época passada foi eleito para um 13º mandato consecutivo à frente do FC Porto, os últimos nove sem qualquer oposição nas urnas. Aliás, o lendário presidente portista só teve um adversário em 34 anos: Martins Soares concorreu em 1988 (menos de 5% dos votos) e em 1991 (20% dos votos). E desapareceu de circulação até que, já neste século, a TSF o descobriu e lhe recolheu declarações de apoio ao trabalho feito pelo atual presidente Em comum, Pinto da Costa e Vieira têm a recuperação competitiva dos seus clubes. Mais completa a do presidente portista, que cinco anos depois de ser eleito estava a sagrar-se campeão europeu e mundial e a dar entrada em década e meia de hegemonia indiscutível no espaço nacional; mais restrita ao panorama interno a do líder benfiquista, que depois de um título atribulado ao segundo ano de presidência, ganhou quatro Ligas e esteve em duas finais europeias nos últimos sete anos. Fizeram um excelente trabalho, tanto um como o outro, e isso ajuda a perceber como se foram eternizando nos cargos. O mais difícil de entender, porém, é que mesmo assim não apareça ninguém com uma ideia diferente e disponível para se bater por ela. Sim, boa parte dessa abrangência tem a ver com a integração das diferentes sensibilidades no bolo cozinhado para cada ato eleitoral. Vieira, por exemplo, já o tinha feito com José Eduardo Moniz e voltou a fazê-lo agora com Fernando Tavares; Pinto da Costa ter-lo-á feito em tempos com Adelino Caldeira, o aliado que quis aproveitar das candidaturas de Martins Soares. E é aqui chegado que qualquer teorizador político pode alertar para o perigo que é a falta de massa crítica, o desaparecimento da oposição em qualquer organização. Mas o contraponto, fornecido a cada eleição pelo Sporting, não tem sido o mais feliz. Em 2011, as eleições mais disputadas na história recente do clube, com cinco listas concorrentes e vitória de Luís Godinho Lopes, com apenas 36% dos votos, deram lugar à maior crise competitiva de que o futebol leonino tem memória. E o facto de João Rocha (1973 a 1986) ter sido o último presidente a durar pelo menos uma década poderá ser apresentado como justificação para o declínio competitivo do futebol do clube, que ganhou apenas dois campeonatos nos 30 anos após a saída daquele seu importante líder. No fundo, o que falta explicar é se a falta de oposição leva às vitórias ou se são as vitórias que levam à falta de oposição. Seja como for, o fenómeno faz do futebol um palco único para os admiradores de plebiscitos e dos líderes totais a que eles dão azo.
2016-10-27
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Pinto da Costa esteve na exposição destinada a celebrar os 86 anos do andebol do FC Porto e, certamente a isso instado pelos jornalistas – a fazer lembrar o célebre “ainda bem que me faz essa pergunta” – não perdeu a oportunidade de falar daquilo que mais interessa, que é o futebol. Fê-lo para manifestar a sua confiança em Nuno Espírito Santo e no plantel, bem como para manifestar otimismo a respeito do que tem vindo a ver à equipa, tanto em termos de resultados como de espírito, e fez bem. De errado só mesmo a forma como descartou o que se passou nos últimos anos, como se tivesse acabado de chegar de uma viagem a Marte. Este FC Porto teve um início de época complicado, fruto da necessidade de adaptação às ideias do novo treinador e do facto de vir de três anos sem ganhar nada e, por isso mesmo, com um plantel diminuído na qualidade e na moralização. Ainda assim, a equipa respondeu quase sempre bem quando isso foi necessário. Aconteceu em Roma, quando correu riscos de ficar de fora da Champions – e todos sabemos como isso seria problemático para umas contas já a ameaçar o crash – e voltou a acontecer recentemente em Brugges, onde qualquer outro resultado que não fosse a vitória a deixaria em sério risco de desmobilização para a segunda metade do grupo da Liga dos Campeões. A exceção às boas respostas terá sido a visita a Alvalade, onde os dragões perderam com o Sporting, mas mesmo essa derrota terá sido atenuada pelas perdas de pontos sucessivos dos leões – também enfatizadas pelo presidente portista –, podendo ser completamente posta para trás das costas caso o FC Porto ganhe em casa ao Benfica, daqui a semana e meia. Vendo a equipa a crescer ao ritmo da afirmação de André Silva, um ponta-de-lança como o clube não via nascer desde Domingos, há um quarto de século, Pinto da Costa deu-lhe o empurrãozinho que muitas vezes faz a diferença. “Temos uma equipa, um plantel, como eu desejava, e como já não via há algum tempo”, disse, completando: “Nos últimos anos, nem todos os jogadores eram à FC Porto”. Talvez, fruto da longa experiência que já acumulou no cargo de presidente do clube, Pinto da Costa esteja a ver mais longe do que toda a gente, mas o que é mais estranho é que foi acima de tudo ele quem assinou por baixo a tão dispendiosa política de recrutamento dos últimos anos, os anos do Lopeteguismo. E que, depois de um ano sem nada ganhar, manteve a ideia e a política, jogando o “dobro ou nada” que se vê nos filmes e arruína tanta gente nos casinos. O que Pinto da Costa disse agora acerca do espírito criado por Nuno Espírito Santo no plantel do FC Porto é mais do que suficiente para garantir ao treinador a permanência no cargo, mesmo que, por esta ou aquela razão, ele acabe por não ganhar nada. Da mesma forma que o que ele disse da equipa após a derrota caseira contra o Tondela, em início de Abril, chegava a sobrava para que se percebesse que José Peseiro poderia até ganhar a Taça de Portugal que nunca iria continuar em funções na nova época. Mas não foi para nos garantir isso que Pinto da Costa falou agora. Fê-lo para dar o seu empurrão, sob a forma de moral, para evitar um quarto ano sem troféus. Porque não quererá ter de abusar da falta de memória de alguns para voltar a dizer daqui a uns tempos que nos últimos anos, nem todos os jogadores “eram à FC Porto”.
2016-10-26
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A saída de Antero Henrique do FC Porto, no final de um defeso capaz de deprimir a maioria dos adeptos do clube, pode até ter sido mesmo devida apenas a razões pessoais do ex-administrador da SAD com responsabilidade máxima no mercado, conforme foi escrito no comunicado que pôs termo a mais de duas décadas de ligação. Mas no futebol estas coisas raramente se explicam com recurso a uma só leitura e neste caso parece evidente que o que está aqui em causa é a chicana política visando a inevitável sucessão de Pinto da Costa e a aplicação das duas leis do Pinto-da-Costismo.Sim, é verdade que o presidente portista tomou posse em Abril para o 14º mandato, apontando a mais quatro anos à frente do clube, até 2020. Goste-se ou não do estilo e da estratégia, há que reconhecer ao veterano líder dos dragões o estatuto dos gigantes, de quem mudou o panorama do futebol em Portugal. Se a hegemonia do Benfica começou com Eusébio, na década de 60, a portista teve início com Pinto da Costa, entre os anos 80 e 90. Só que tal como Eusébio deixou de jogar, um dia Pinto da Costa vai deixar de liderar. E à noção de que esse dia está próximo – o presidente completará 79 anos em Dezembro – junta-se o facto de o futebol portista estar a atravessar um dos períodos mais difíceis desde que Pinto da Costa tomou posse para o primeiro mandato, em 1982. Desde que ele é presidente, esta é apenas a segunda vez que o FC Porto passa três campeonatos seguidos sem ganhar (a primeira foi de 1999 a 2002 e acabou com a chegada às Antas de Mourinho) e a primeira em que, nesses três anos, não ganha mais nenhum troféu. A Supertaça de Agosto de 2013 foi a última conquista do plantel azul-e-branco.A verdade é que há muitos anos que se fala na sucessão de Pinto da Costa e até aqui o presidente sempre soube dar a volta por cima. Chegou a pensar-se que o sucessor podia ser José Guilherme Aguiar, que podia ser Angelino Ferreira, que podia ser Fernando Gomes – seja o Bibota de Ouro ou o presidente da FPF –,que podia ser Vítor Baía, que podia ser António Oliveira… Houve quem mencionasse o próprio Antero Henrique ou até António Salvador, presidente do Sp. Braga mas portista de coração. Como todas as estrelas do firmamento, Pinto da Costa atrai vários planetas à sua órbita, mas ao contrário do que sucede na lei da gravidade universal, estes planetas acabam por se afastar. Porque aqui não se aplicam as Leis de Newton, mas sim as tais leis do Pinto-da-Costismo. A primeira é que Pinto da Costa nunca “nomeará” um sucessor, nem formal nem informalmente. A segunda é que não se pode ganhar um lugar no pós-Pinto da Costa afrontando Pinto da Costa. Nem é o legado, esse inatacável: é a presidência atual e as decisões de hoje.E em que medida é que se enquadra aqui a saída de Antero Henrique? Isso é matéria de discussão para blogues, uns acusando Antero de ser o culpado dos erros de mercado cometidos pelo FC Porto nos últimos anos, outros atribuindo esses erros à intervenção do presidente e dos seus “yesmen”. Uns achando que o regresso de Luís Gonçalves é a vitória da importância do scouting sobre os jogos de bastidores, outros rebatendo que é apenas uma forma de o clube deixar de ter massa crítica que se oponha aos especialistas nos tais jogos de bastidores. Qual é a verdade? Só o próprio Antero poderia vir esclarecê-lo. Mas tal como nunca se ouviram a Angelino Ferreira declarações públicas acerca das divergências que mantinha com a linha dominante na SAD acerca do destino a dar às mais-valias que se iam fazendo no mercado de transferências – abatimento de passivo ou compra de mais e mais jogadores –, também dificilmente se ouvirá Antero Henrique falar abertamente das últimas escolhas de treinador ou da crescente influência de Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente, que voltou às boas graças do pai depois de ter sido o parceiro predileto de José Veiga na tentativa de o derrubar.A questão é que, apesar dos tais três anos sem ganhar nada, a segunda lei do Pinto-da-Costismo continua válida. Foi por ela que, depois de se ter esticado mais do que quereria a propósito do presidente, Baía adotou imediatamente uma atitude conciliadora, deixando a animosidade para o debate entre as esposas dos dois nas redes sociais. É por isso que Oliveira mantém há muito um distanciamento cauteloso em relação às políticas do clube, que não abandona sequer nas suas múltiplas intervenções públicas, na TV ou nos jornais onde escreve opinião. Foi para aparecer na fotografia que, depois de também ter sido tão próximo de José Veiga, Fernando Gomes regressou ao clube para ocupar uma posição de alguma visibilidade mas nula importância estratégica. Onde se encaixa Antero Henrique? Di-lo-á o futuro próximo. E isso em muito vai depender do que fizer o plantel que ele deixa no clube na época que agora se inicia.
2016-09-05
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Último Passe

A apresentação de Nuno Espírito Santo como treinador do FC Porto podia dividir o público entre aqueles que lhe são indiferentes e os que vão pela enésima vez levantar um cenário de exigência máxima segundo o qual esta será – mais uma vez – a última oportunidade de Pinto da Costa para devolver o clube aos tempos de vitória. Neste aspeto, Figo deu uma ajuda. Se o novo treinador dos dragões pudesse escolher um presente para o dia do regresso, certamente não pediria nada diferente, pois o que o antigo Bola de Ouro disse veio transferir toda a pressão que ele podia sentir para cima do presidente. Não é nada habitual ver alguém do futebol falar de forma tão desassombrada sobre outro agente do meio como Figo fez em relação a Pinto da Costa. Neste momento não é sequer importante tentar descobrir uma agenda nas palavras de Figo, ainda que certamente vá haver quem prefira centrar-se na ideia de que ele estava a ser uma mera correia de transmissão ou a repetir palavras que teria ouvido a amigos portistas – e também não é difícil perceber quais. Porque, na verdade, como depois disse o presidente portista, Figo “não faz parte da história do FC Porto” e, francamente, não vejo razão para de repente começar a ter opiniões sobre o que se passa no clube… A não ser o facto de lhe terem perguntado ou ainda outro – também nada despiciendo – de ter no futebol mundial um estatuto que o deixa indiferente ao que dele possam pensar os adeptos deste ou daquele clube. Figo está acima disso tudo. Não é inimputável mas está-se marimbando. A questão é que Figo se limitou a repetir em voz alta aquilo que há anos dizem os adversários do FC Porto e do seu presidente. A teoria segundo a qual Pinto da Costa devia abandonar porque estava a ficar velho já data do início do século, desde que os erros cometidos com Otávio Machado depois dos campeonatos perdidos com Fernando Santos foram emendados pela aposta visionária em José Mourinho. A diferença é que hoje começa a haver portistas a dizer a mesma coisa, a centrar-se nas lutas internas em torno dos jogos de influências na SAD. E isso faz toda a diferença em relação ao último período de três épocas seguidas dos dragões sem ganharem um campeonato (de 2000 a 2002). A pressão mediática de ter de acabar com este período negro, sob pena de estarmos perante a evidência de um fim de ciclo hegemónico, estava em cima de Nuno Espírito Santo até Figo a transferir para Pinto da Costa. O novo treinador podia até agradecer. Mas no fundo ansiará por que Figo esteja enganado. Porque na verdade o que depende dele é muito menos do que se pensa – e aí têm razão os indiferentes. Como estão as coisas, o FC Porto precisa sobretudo de acertar plenamente nos retoques que vai fazer no plantel e isso só será possível se o mercado for conduzido a pensar mais na equipa e menos no poder de cada um. Ao contrário do que tem sucedido, portanto.
2016-06-01
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Ninguém a não ser os próprios poderá dizer com toda a certeza quais são as relações entre a Gestifute de Jorge Mendes e a Doyen Sports. Um pouco por todo o Mundo se leem coisas absolutamente inconciliáveis. Lê-se em italiano que são aliados numa espécie de cartel que se destina a fazer subir os preços dos passes e aumentar a dependência financeira dos clubes face aos investidores. E lê-se em francês que são inimigos figadais desde que a Doyen se meteu no negócio Falcao, financiando a compra do jogador por parte do Atlético de Madrid, ganhando mais que o mais poderoso agente do Mundo e levando-o depois a enveredar pela opção de empréstimos onerosíssimos – nos quais todos ganham menos o fundo que só recupera o investimento na venda. Seja qual for a verdade, uma coisa é certa: se Nuno Espírito Santo entrar como treinador no FC Porto, Jorge Mendes consegue algo de absolutamente extraordinário, que é o estabelecimento de uma relação privilegiadíssima com dois dos três grandes do futebol nacional. Ainda por cima numa altura em que consta que nem está de costas viradas para o terceiro. Se olharmos para esta realidade à escala global, nem há grande novidade: a Doyen é há muito um dos parceiros prediletos do Atlético de Madrid, que ao mesmo tempo é um dos principais portos de abrigo para os jogadores que a Gestifute transfere de Portugal para o estrangeiro. Aí, ganha a tese do interesse comum. Em Portugal, porém, a radicalização de interesses entre os três grandes nunca permitiu grandes confluências. Veja-se o caso de José Veiga, o antecessor de Mendes como maior agente futebolístico nacional. Enquanto trabalhou preferencialmente com o FC Porto, na década de 90, Veiga era frequentemente verberado pelos grandes de Lisboa. Quando se zangou com Pinto da Costa, no final dos anos do “penta”, fez da vontade de ver crescer o Sporting (primeiro) e o Benfica (depois) quase uma profissão de fé, mas nunca conseguiu estar bem com os dois ao mesmo tempo: o processo que levou à autodestruição de Jardel é disso bom exemplo. Veiga conseguiu sempre algo que Mendes também já pôs em prática, que foi ter um segundo clube para os “ressaltos” – o de Veiga era o Boavista, mas Mendes até tem dois, que são o Sp. Braga e o Rio Ave. Mas foi cometendo erros que o impediram de construir aquilo que Mendes pode estar prestes a conseguir: a quase unanimidade. As boas relações de Mendes com o Benfica estão à vista. O rosto da Gestifute tem sido o operacional preferido para as grandes vendas do clube para o estrangeiro – conseguindo no processo valores absolutamente mirabolantes para jogadores que muitas vezes não tinham sequer passado da equipa B – e mantém com Luís Filipe Vieira um entendimento por sinais de fumo. Aqui convém lembrar que Mendes – um Mendes ainda muito longe da influência que tem hoje… – foi o agente escolhido por Manuel Vilarinho para fazer os primeiros negócios depois de o clube ter extirpado os efeitos da liderança de João Vale e Azevedo (os brasileiros Roger e André), mas que chegou a perder espaço no clube quando José Veiga, com quem chegou a envolver-se em lutas físicas, apareceu como “homem do futebol” de Vieira. Tudo isso, porém, são águas passadas: hoje em dia, sempre que há um problema de mercado para resolver no Benfica, Mendes faz parte da solução. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu na saída de Jorge Jesus, que tinha de Mendes uma proposta para seguir para o médio oriente enquanto esperava pelo Paris Saint Germain. No FC Porto, porém, Mendes tem enfrentado mais barreiras. É verdade que durante a passagem de Veiga pelo Benfica, já exerceu ali uma espécie de magistério de influência semelhante ao que agora pratica na Luz – ganhou muito e deu muito a ganhar ao clube depois da vitória na Champions, com a venda para o estrangeiro de jogadores como Paulo Ferreira, Deco, Costinha, Maniche ou Derlei – mas esse efeito foi-se extinguindo à medida que se reforçavam os seus laços com Vieira e com o Benfica. Agora, se Nuno Espírito Santo regressar de facto ao Dragão, como parece ser intenção firme de Pinto da Costa, pode reacender-se a chama da parceria, uma vez que além de ser amigo do técnico desde que, ainda como guarda-redes, o transferiu de Guimarães para a Corunha (foi mesmo o primeiro negócio de Mendes no futebol), o agente tem apostado firmemente no treinador, qu colocou no Rio Ave e depois no Valência. Uma parceria que exigirá de Mendes o equilíbrio no fio da navalha que Veiga, por exemplo, nunca conseguiu manter, mas que, somada ao facto de representar boa parte dos jogadores vendáveis do Sporting, a ser bem sucedida pode dar-lhe um domínio do futebol nacional nunca visto até hoje.
2016-05-31
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A resposta dada na RTP por Julen Lopetegui às declarações de Jorge Nuno Pinto da Costa acerca da situação que ainda o liga ao FC Porto mostrou que o treinador espanhol mudou mais do que a forma física – parece mais gordito, provavelmente por causa dos três meses de inatividade a que foi forçado pela demissão no Dragão. Mudou mesmo uma coisa fundamental: começa finalmente a perceber o que é ser FC Porto e de que é feito o futebol português. Se tivesse entendido antes, talvez ainda estivesse no clube. Há um aspeto em que o treinador basco tem 100 por cento de razão. É que quando chegou a Portugal, o FC Porto tinha ficado a 13 pontos do Benfica; acabou o campeonato seguinte a três e com a desvantagem competitiva de ter estado na Champions até Abril; saiu do atual, a um jogo de terminar a primeira volta, empatado com os encarnados e a quatro pontos do Sporting; e, 14 jogos depois, os dragões estão a dez pontos do Sporting e a doze do Benfica. Além disso, se o FC Porto perdeu sete vezes nos 30 jogos de 2013/14, já foi derrotado apenas três vezes em 50 jogos com ele e entretanto cedeu mais cinco derrotas em 14 jogos, depois da sua saída. Olhando para os números, tem razão Lopetegui quando alega que foi um erro demiti-lo. Mas o futebol não são números. O futebol são títulos. E ele, nesse aspeto, prolongou aquilo que vinha sendo o falhanço do FC Porto – e que, é preciso dizê-lo, não melhorou depois da sua saída. Porque falhou Lopetegui, então? Sempre tive a mesma opinião: Lopetegui chegou a Portugal com a sobranceria natural de quem vem de uma Liga superior e nunca procurou perceber bem o ambiente que o rodeia: basta ver que mesmo tendo estado ano e meio em Portugal e a dar uma entrevista à RTP, que é uma televisão portuguesa, e a uma jornalista portuguesa, para ser vista por portugueses, falou em castelhano. São detalhes? Sem dúvida. Mas não é um detalhe falhar na motivação dos seus jogadores, muitos deles também vindos de ambientes competitivos superiores, sempre que iam jogar a um daqueles “quintais” que são tão vulgares na nossa Liga. Como não é um detalhe não se ter preparado para lidar com a tal “fação” da claque portista onde teve origem a tal “contestação exagerada” após o empate com o Rio Ave. Então Lopetegui veio treinar o FC Porto e não se deu sequer ao trabalho de saber quem foi e como saiu Co Adriaanse do Dragão? Quando diz agora que finalmente começa a compreender essa tal “fação”, Lopetegui pretende enfatizar o que considera ser um processo de manipulação vindo de fora para dentro mas com origem no interior do clube, mas acaba por deixar bem à vista que não tinha feito o trabalho de casa no que respeita à compreensão do ambiente – “el entorno, señor Lopetegui, si es que me entiende” – do qual (também) dependia o seu sucesso. Aliás, não foi só isso que Lopetegui não entendeu logo à primeira: também lhe faltou perceber que, em Portugal, mercado pequeno, quando um clube quer ver-se livre de um treinador, o mais normal é que, para voltar a trabalhar e não ficar com o nome sujo no mercado, esse treinador abdique de receber o que falta do contrato. Tantas vezes ouvi essa história! Aqui, no entanto, quando diz que nem precisa de dois segundos para resolver o assunto, que as negociações foram feitas na altura de assinar o contrato e que depois disso tudo o que as partes têm a fazer é cumpri-lo, é Lopetegui quem tem razão. Neste aspeto, sim, os nossos dirigentes deviam aprender com ele.
2016-04-22
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Quem faz o favor de me ler há tempo suficiente sabe que adotei de Sven-Goran Eriksson a teoria segundo a qual discutir arbitragens é irrelevante porque, no fim, feitas as contas, entre o deve e o haver, as coisas acabam por se equilibrar. É por isso, e também porque nunca encontrei um debate sobre penaltis ou foras-de-jogo em cujos padrões de urbanidade ou educação me reveja, que não sigo o caminho geral, o caminho que manda o adepto comum vociferar contra os árbitros nos fins-de-semana em que a sua cor saiu prejudicada e silenciar essas discussões quando são os outros a queixar-se. Mas também já ando no futebol português há tempo suficiente para acrescentar à teoria de Eriksson uma outra, à qual chamo a “teoria do remediado”. E que diz o seguinte: nos últimos dez ou quinze anos, em cada momento conjuntural do futebol português, há sempre um que ganha, um que é cúmplice porque joga na mesma na Champions e um terceiro que luta por aquilo a que chama “a verdade desportiva”, mas que não é mais do que a defesa dos seus interesses e a vontade em ocupar o lugar de um dos outros dois. Não vou ao ponto de dizer, como Jorge Jesus disse do fair-play, que a verdade desportiva seja uma treta. Não é. Sou, aliás, favorável à introdução no futebol de meios auxiliares de diagnóstico que venham ajudar os árbitros a decidir melhor. Mas não tenho a ilusão de que isso venha acabar com a discussão, porque não é preciso recorrer às hordas de fanáticos que enxameiam as redes sociais para encontrar gente que, perante as mesmas imagens, tira conclusões diferentes. Basta muitas vezes consultar ex-árbitros internacionais. Como não existe uma verdade absoluta, mas sim diferentes interpretações de um mesmo acontecimento, quando houver vídeo-árbitro – e reparem que não disse “se”, disse “quando”, porque acredito que isso é inevitável – as suspeitas de favorecimento manter-se-ão, mas mudarão de destinatário: passarão do relvado para a régie. E isso será assegurado por todos os que mantém a funcionar o sistema de acordo com a “teoria do remediado”, esse axioma nascido da evidência de que só há lugar para dois clubes verdadeiramente grandes no futebol nacional, porque são apenas duas as vagas garantidas na distribuição de milhões da Liga dos Campeões. Foi de acordo com essa evidência que as coisas mudaram. Se até há uns dez, quinze anos, o que interessava era só ganhar, depois da reforma das provas europeias, que assegurou uma segunda vaga direta de clubes portugueses na Champions, passou a interessar também ficar em segundo lugar. Chegámos, nessa altura, ao ponto de ouvir um presidente do Sporting dizer que ante dois desafios, preferia ficar em segundo no campeonato a ganhar a Taça de Portugal. Ou ser duas vezes segundo a ser uma vez primeiro e outra terceiro. Essa, já se vê, era a altura em que o Sporting era o remediado. O FC Porto ganhava – e nos últimos 30 anos nunca deixou de ganhar por mais de três anos seguidos, mantendo mesmo assim com frequência o segundo lugar – e o Sporting era segundo, o que garantia à equipa de Paulo Bento um cartão de passageiro frequente na Liga dos Campeões. E dinheiro, muito dinheiro. Quem lutava nessa altura pela “verdade desportiva”? O Benfica, pois então. Era Luís Filipe Vieira quem falava mais na regeneração do sistema. António Dias da Cunha, um voluntarioso franco-atirador que, na qualidade de presidente do Sporting, chegou a alinhar com Vieira nalgumas iniciativas, acabou por ser afastado dentro do próprio clube, pois estava a ir contra a “teoria do remediado”. Entretanto, o Benfica passou a ganhar – é neste momento favorito à conquista do tricampeonato. E da Luz passaram a chegar vozes de moderação, de crítica a quem passa a vida a falar dos árbitros. Quem passou a ser o principal crítico do sistema? O Sporting, pois então, onde Bruno de Carvalho diz tudo aquilo que Luís Filipe Vieira disse e talvez até muito mais, questionando os árbitros e clamando por injustiça em todas as jornadas e chegando mesmo ao ponto de recusar a admissão de favorecimentos quando eles acontecem – como foi o caso esta semana. O FC Porto tem sido o remediado e por isso mesmo ninguém se juntou a Lopetegui quando este criticou as arbitragens, na época passada. Veremos como passarão a comportar-se no Dragão na próxima época, quando se torna mais ou menos evidente que o FC Porto será terceiro na Liga que se aproxima do fim e tem a Liga dos Campeões em risco. In Diário de Notícias, 19.04.2016
2016-04-18
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Pinto da Costa disse, a meio da semana, que já estava a preparar a próxima época do FC Porto com José Peseiro, mas que não podia garantir a continuidade do treinador. Mesmo assim, ao revelar que a derrota em casa com o Tondela tinha sido a que mais vergonha lhe provocara em toda a sua história no clube estava a tornar a vida do técnico ainda vez mais difícil do que a soma de maus resultados que a equipa vem somando. No fundo, aquilo que o presidente do clube estava a afirmar era que ia mudar não só de treinador, numa espécie de chicotada psicológica “avant-la-lettre”, como também de paradigma: na próxima época, quem vier para o lugar de Peseiro terá pouco a dizer acerca da composição do plantel. Ao contrário do que se passou com Julen Lopetegui e o processo de espanholização do Dragão. Ou com José Mourinho, na última vez que o clube se viu metido num problema com esta dimensão. As mais de três décadas de experiência de Pinto da Costa à frente do FC Porto podem até permitir que ele cometa erros, mas nunca um deste calibre – o que me leva a suspeitar que tudo não passou de uma ação premeditada por parte de um presidente que quer mudar de responsável pela equipa. Pinto da Costa sabe bem que ao dizer o que disse, ao tornar pública a sua vergonha, está a condenar o responsável máximo por essa vergonha, não só aos olhos do público como fundamentalmente aos dos jogadores. E isso viu-se no jogo seguinte, a derrota de ontem em Paços de Ferreira. O FC Porto teve sempre mais bola, jogou sempre mais no meio-campo adversário, rematou e atacou muito mais do que a equipa da casa, mas acabou por perder mais uma vez, tornando até o segundo lugar uma possibilidade meramente matemática, face aos dez pontos de que a equipa já dista do Sporting. E se desta vez o presidente até pode não ter sentido a mesma vergonha que aquando da derrota em casa com o último classificado, a equipa revelou os mesmos sintomas de descrença e falta de espírito ganhador que já tinha mostrado contra o Tondela. Porque ao longo dos últimos meses o processo transformou-a num coletivo amorfo e perdedor. A Taça de Portugal ainda pode ajudar a atenuar o desastre que está a ser esta época, a terceira seguida sem que o FC Porto chegue ao título, algo que o clube só viveu uma vez com Pinto da Costa: entre 2000 e 2002, período no qual pelo banco dos dragões passaram Fernando Santos e Otávio Machado, antes da chegada de José Mourinho. O presidente do FC Porto teria tudo a ganhar em recordar a forma como saiu do buraco numa altura em que – e atenção que já lá vão 15 anos – começaram a aparecer as piadas acerca da sua idade e de uma alegada perda de qualidades. Foram as apostas firmes de Mourinho na contratação de jogadores como Paulo Ferreira, Nuno Valente, Maniche ou Pedro Emanuel, já para não falar no regresso de Jorge Costa, que tinha sido exilado no Charlton, a transformar uma equipa que passou três anos a perder tudo em bicampeã nacional, vencedora da Taça UEFA e da Liga dos Campeões. Nestas coisas do futebol, convém dar o poder de decisão a quem sabe. E Mourinho já sabia. O problema é que, mesmo nesta altura, em que se prepara para ver a sua legitimidade como líder do clube amplamente reforçada por mais um plebiscito, que serão as próximas eleições – um ato sem candidato de uma oposição que parece afiar as facas mas apenas para se bater entre si quando o líder máximo decidir abdicar –, Pinto da Costa esgotou a confiança total num treinador na forma como deixou que Lopetegui fizesse o desenho de um plantel ao qual desde o início se adivinhavam alguns excessos (muita e boa concorrência a meio-campo) mas também carências (um grande defesa-central e um ponta-de-lança de real qualidade). Desta forma, quando precisar de ajuda, a Pinto da Costa só lhe resta olhar para o lado, para os conselheiros que tem tido em tudo o que se são transferências nestes últimos tempos. E isso não é uma boa notícia para o FC Porto. In Diário de Notícias, 11.04.2016
2016-04-11
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O regresso de Julen Lopetegui ao palco cénico do futebol espanhol, por via de uma entrevista à Marca, a falar do Real Madrid e do conhecimento que tem de boa parte do plantel de Zidane, não foi propriamente uma surpresa. O basco tem cartel em Espanha, pelo trabalho que por lá fez, levou o FC Porto aos quartos-de-final da Liga dos Campeões e não há-de ser por não ter sido campeão em Portugal que os espanhóis deixam de considerá-lo. Aliás, em boa verdade, não creio que Lopetegui seja mau treinador: já vi piores a dirigir o Real Madrid, clube ao qual os espanhóis dizem agora que ele pode chegar. É certo que o FC Porto não ganhou nenhuma das duas últimas Ligas nem está bem colocado para ganhar a atual, mas o apuramento de responsabilidades não começa nem acaba no treinador. Se não forem campeões este ano, os dragões vão para o terceiro ano seguido sem ganhar a Liga – e para a segunda série de três anos sem lá chegar desde que Pinto da Costa se sentou na cadeira da presidência. A primeira, de 1999 a 2002, teve como treinadores Fernando Santos, Octávio Machado e José Mourinho, que foi também quem operou a revolução que levou o clube de volta a caminhos ganhadores. Desta vez, Paulo Fonseca e Julen Lopetegui já estão na lista negra, só faltando ver se José Peseiro a continua ou interrompe, mas tal como há década e meia a ideia que fica é a de que os treinadores não foram os mais culpados em dois dos três anos deste série. Há dois anos, Paulo Fonseca, que está a fazer um excelente trabalho em Braga e virá a ser um nome incontornável da nova geração de treinadores portugueses – a par de Marco Silva – teve ao dispor um plantel fraco, demasiado fraco para as aspirações portistas. Não sendo fraco, o grupo deste ano é bastante desequilibrado, com excesso de opções e de concorrência para umas posições e falta de alternativas para outras – e aí alguém na SAD deve ser chamado a dar explicações. Resta justificar a época passada, na qual Lopetegui teve um grupo de luxo, aquele que ainda acho que era o melhor plantel da Liga. E perdeu-a para o Benfica. Não por falta de uma boa ideia de jogo, que isso o FC Porto também tinha. O que faltou ao primeiro FC Porto de Lopetegui foi um treinador com mais conhecimento da realidade nacional e menos soberba, um treinador que não menosprezasse alguns dos quintais e algumas das equipas que jogam a Liga portuguesa e que valorizasse mais aquilo que Vítor Pereira, por exemplo, sempre teve como claro. O “Somos Porto” que o treinador de Espinho tantas vezes repetiu nunca entrou na cabeça do treinador basco e foi por isso que não conseguiu convencer os seus jogadores, por exemplo, que era mais importante ganhar na Choupana ao Nacional depois de o Benfica ter perdido com o Rio Ave em Vila do Conde do que fazer boa figura na eliminatória com o Bayern Munique. O problema de Lopetegui foi ter treinado o FC Porto a pensar que estava no Real Madrid. E nisso os espanhóis são muito práticos: se ele alguma vez treinar o Real Madrid, o problema desaparece.
2016-03-23
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Último Passe

Quando Jorge Nuno Pinto da Costa e Jorge Jesus estão de acordo acerca de um tema no qual quem fica a rir-se é o Benfica, é caso para se dizer que não estão a fazer favor nenhum e que o que dizem é justo. Acerca do interesse do Benfica em Carrillo, tanto o presidente do FC Porto – que o denunciou – como o treinador do Sporting – que o comentou – disseram o mesmo: Carrillo é profissional e vai para onde se sentir melhor. Mas nestas coisas do futebol-negócio há cada vez menos ingenuidades e convém todos sabermos acerca do que falamos. E do que falamos aqui é também do processo que o Benfica moveu a Jesus. Se perder Carrillo a custo zero, é evidente que o Sporting sai prejudicado pela estratégia que escolheu na abordagem ao tema. Bruno de Carvalho já fez excelentes operações em casos como este, nos quais fez da inflexibilidade negocial uma força, mas haveria de chegar o dia em que encontrava alguém igualmente inflexível do outro lado e sairia a perder. Já perdeu o contributo que o jogador podia ter dado durante a época desportiva – ainda que a sua ausência tenha sido gradualmente mitigada à medida que a equipa encontrou outras soluções – e prepara-se agora para partilhar com o investidor que ajudou a trazer Carrillo para Alvalade a perda do valor do passe. Às duas perdas, pode somar ainda uma terceira: a de ver Carrillo jogar com a camisola de um rival e, ainda, a de eventualmente vê-lo depois ser transferido por bom dinheiro. Mas é evidente que Carrillo tem todo o direito de assinar pelo Benfica. Assim como Jesus teve todo o direito de assinar pelo Sporting. A esse respeito, podemos criar todos os cenários que quisermos, mas ainda que Jesus não tenha sido convenientemente fotografado na mesma rua e no mesmo dia de Bruno de Carvalho, numa data em que já poderia assinar por um novo clube, como aconteceu com Carrillo e Luís Filipe Vieira, fará tanto sentido vir agora o Sporting processar Carrillo pela vontade que este tenha de jogar aqui ou ali como fez o Benfica processar Jesus por se ter mudado da Luz para Alvalade no verão passado. Nenhum sentido, portanto.
2016-01-29
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Se há coisa evidente no universo do FC Porto é que, mesmo que os dois anos seguidos sem ganhar nada se prolonguem para três, ver Pinto da Costa perder umas eleições no clube é algo quase tão improvável como assistir ao regresso de Jesus Cristo à Terra. Vítor Baía sabe disso, porque não é tolo e conhece bem o clube. Por isso, mais do que antecipar resultados de uma eventual disputa eleitoral entre o presidente de mais de 30 anos e o seu jogador mais titulado, o que importa agora entender é o que quer cada um deles – mandar – e que estratégia seguem para lá chegar. Pinto da Costa anunciou a recandidatura a mais três anos de liderança, o que significa que quer continuar a mandar no clube e, por inerência, na SAD. Por isso, das duas uma: ou o que Baía disse acerca dos maus conselheiros que por lá proliferam não é verdadeiro ou é algo que o presidente conhece e não valoriza. É verdade que até os grandes líderes estão sujeitos à decadência, mas não será certamente por causa de um poder ilusório que Pinto da Costa terá ido ao ponto de fazer um exame médico completo para prolongar a presidência quando já tem 78 anos de idade e poderia gozar o tempo que lhe resta. Se o faz, é porque julga que pode ser influente no regresso aos troféus no curto prazo. Quanto a Baía, quererá seguramente ser importante no momento em que o líder renunciar. Mas como ele haverá mais uns quantos. Discutível é se essa é a melhor estratégia para ganhar avanço antes do tiro de partida. Claro que Baía teve razão em muito do que disse – basta olhar para quem sai e entra no círculo mais próximo do presidente para o perceber – mas daí até achar que a melhor estratégia é a do afrontamento, que inevitavelmente lhe provocará desgaste antes do tempo e até a resposta cáustica da primeira dama do momento, vai uma longa distância. Se não foram um erro estratégico, as palavras de Baía foram pelo menos um erro político motivado por má informação. O que quer dizer que, para ele, a recandidatura terá sido uma surpresa.
2016-01-21
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A tentação dos “portólogos encartados” face à contratação de José Peseiro para suceder a Julen Lopetegui como treinador do FC Porto há-de ser a de avaliar se esta foi uma ação à Pinto da Costa – surpreendente, portanto – ou se ela revela apenas a falta de sucesso nas abordagens feitas aos treinadores de quem mais se falou, como Marco Silva, Sérgio Conceição ou até André Villas-Boas. A verdade é que pode até dar-se o caso de ambas as versões serem verdadeiras, mas nem é isso que mais importa. O que interessa é que tanto o FC Porto como Peseiro enfrentam aqui o desafio de uma vida e que ambos têm razões para acreditar no sucesso. É verdade que Peseiro estava exilado no Egito ou que não conseguiu nunca chegar a uma Liga de nível médio ou superior. Daí o fator surpresa, tão do agrado de Pinto da Costa, pois pareceria que a carruagem de primeira classe já tinha passado e o treinador de Coruche não a apanhara. Mas é verdade também que Peseiro é um dos treinadores mais bem preparados que Portugal conheceu nos últimos anos, que colocou o Sporting a jogar um futebol entusiasmante como talvez não se tenha voltado a ver em Alvalade nem na era de Paulo Bento – que era mais resultadista – e que o próprio Pinto da Costa, há uma década, tinha por ele muito apreço. Peseiro tem colada na testa a imagem de perdedor, porque perdeu tudo – Liga, final da Taça UEFA e apuramento para a Champions – naquela semana de Maio de 2005, mas até Jesus já provou que a distância entre a vitória e a derrota é tão ténue que pode passar-se de uma à outra num ápice. Depois, tem fama de ser um treinador frouxo, amplificada pelas imagens televisivas de um Fábio Rochemback vociferante na direção do banco, mas nunca ficou claro acerca de quem teve mesmo responsabilidade nesse e noutros casos de indisciplina no balneário leonino. A ideia dos dirigentes do FC Porto é que se Peseiro fez o que fez com o plantel e a estrutura daquele Sporting, poderá fazer muito mais com o grupo de jogadores riquíssimo e uma estrutura calejada, como a que tem em casa. Cabe agora a equipa e dirigentes provar que estão à altura.
2016-01-18
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Último Passe

Há quem olhe para a saída de Julen Lopetegui do FC Porto como uma manifestação da força do poder popular, julgando-a nascida dos lenços brancos que o público agitou nos últimos jogos no Dragão. Há também quem a veja como consequência da gota de água final que fez transbordar o copo da paciência de Pinto da Costa face ao futebol pobre que a equipa vinha exibindo nas últimas semanas. E há ainda quem a julgue injusta, face à evidência dos 37 pontos que os dragões têm ao fim de 16 jornadas, exatamente os mesmos 37 pontos que tinham na época passada, na qual se mostraram capazes de se manter vivos na luta pelo título até bem perto do fim da competição. A mim, a demissão do treinador basco parece-me sobretudo a falência de uma ideia de jogo e vem motivar-me uma curiosidade acima de todas: quem vem a seguir e em que medida é que isso vai influenciar a gestão que Jorge Mendes faz da balança de poderes no futebol nacional? A demissão do treinador basco é um rude golpe na ideia de jogo que o FC Porto vinha professando há ano e meio. O culto da posse, a largura na construção e a presença permanente de extremos tinham como objetivo a implementação de uma espécie de “tiki-taka” à portuguesa, algo que, porém, nunca teve resultados a condizer devido a fatores tão diversos como a falta de maleabilidade tática do treinador, o desinvestimento de alguns jogadores em partidas de menor visibilidade ou a ausência de um finalizador de excelência capaz de colocar o ponto final em tanto jogo pelas alas. A verdade é que, mesmo tendo o FC Porto perdido Jackson Martínez – e há muito que venho dizendo que o futebol de Aboubakar pede outro tipo de construção – o plantel à disposição de Lopetegui continua a ser o mais forte da Liga portuguesa. E mesmo assim tem zero títulos para apresentar e apenas duas vitórias em sete clássicos disputados. Com Lopetegui posto de parte, os nomes dos potenciais sucessores já estão a dançar na agenda mediática. Pinto da Costa tem duas opções: ou aposta num interino até poder contratar o técnico que quer, no final da época, como fez há dois anos, entre Paulo Fonseca e Lopetegui (e muito se tem falado de André Villas-Boas, que no entanto ainda não está disponível); ou avança já para uma solução de futuro. Neste caso, estranhamente, nem se tem falado de Marco Silva, treinador ligado à Doyen que está a arrasar na Grécia. Mas fala-se de Paulo Bento (o que é estranho, porque o ex-selecionador teve vários atritos com Pinto da Costa) e de Nuno Espírito Santo, um treinador do topo da agenda nacional de Mendes, que o super-agente português faria tudo para ajudar. Até equacionar a parceria com Luís Filipe Vieira e o Benfica, que tem sido o aliado preferencial nos negócios portugueses da Gestifute? Essa é a parte mais interessante do problema, a parte que pode afastar Nuno do Dragão.
2016-01-07
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Os mais mil e trezentos milhões de euros injetados em três clubes de futebol pelas principais operadoras de TV por cabo nas últimas semanas vieram agitar o futebol nacional e merecem uma explicação. Ao mesmo tempo que os adeptos querem sobretudo ver escrito que o seu clube fez o melhor negócio dos três - seja ele qual for -, essa medição é o que menos me interessa, porque só é feita por quem vê o futebol como um exercício de culto da personalidade, seja ela a de Luís Filipe Vieira, de Pinto da Costa ou de Bruno de Carvalho. Mais interessante é perceber como é que isto foi possível e o que vai acontecer daqui para a frente.É verdade que o panorama de rivalidade fortíssima entre os clubes, que está na génese das tais atitudes de confronto do adepto comum, ajudou a potenciar todos os negócios, porque contribuiu para o crescimento da concorrência: todas as operadoras temem o efeito de rejeição dos adeptos de um clube excluído. Mas a chave destes negócios esteve na decisão tomada há tempos pela autoridade da concorrência, quando impediu a entrada da PT no capital da Sport TV e impôs que os contratos existentes expirassem em 2018, matando a cláusula de preferência que eternizava o domínio exercido pela PPTV de Joaquim Oliveira no direitos de TV do futebol.Se o aparecimento da concorrência e o desaparecimento do intermediário ajuda a explicar de onde veio o dinheiro, já me parece impossível definir quem dos três fez o melhor negócio, porque fruto da tal predisposição para o culto do líder, todos os clubes acabaram por meter mais e mais coisas nos contratos para poderem subir o montante final de cada contrato, que é o que faz manchetes nos jornais e motiva a discussão dos adeptos. Creio que os tempos da gestão irresponsável ds operadoras estão bem lá atrás e que tanto a Nos como a Altisse pagaram um justo valor, não pelo que os direitos valem agora mas sim pelo que poderão valer nos próximos dez anos, com a criação de novas plataformas e o aparecimento em Portugal de realidades como o Pay Per View.Aliás, essa é uma das inquietações que me assaltam neste momento. É que se é mais ou menos claro que até 2018 - até os jogos do FC Porto passarem para a Altice - o futebol vai ficar concentrado na Sport TV, onde a Nos deverá querer meter o Benfica, a dúvida é acerca do que acontecerá depois. Quererá a Altice criar um novo canal de desporto - diz-se até que já está a negociar com outros clubes nesse sentido - para concorrer com a Sport TV? E com os valores que ambos estão a pagar aos clubes, poderão estes dois canais ser rentáveis a médio prazo, tendo só metade do futebol? É que, ainda por cima, apesar de a Liga de Proença estar a falhar o encontro com a história ao perder a oportunidade de centralizar pelo menos as negociações dos clubes além dos três grandes - se 17 jogos de um dos grandes em casa valem 400 milhões por dez anos, 45 jogos dos três fora de casa valerão seguramente mais de mil milhões - ainda há muito dinheiro a gastar para assegurar todo o futebol. E os pequenos têm de entender que nesta guerra não são de todo um verbo de encher.
2015-12-29
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Quando Julen Lopetegui disse, recorrendo à mais fina ironia que em tempos fez escola no FC Porto, que a sua equipa devia ser a única da Europa que ainda guardava em segredo o nome do seu especialista em penaltis, estava a mostrar duas coisas. Um maior conhecimento da realidade do futebol português, onde facto e opinião se misturam de forma indisfarçável, e a noção de que o vazio deixado pelo maior recato recente de Pinto da Costa tem de ser ocupado por alguém para entrar no jogo que Sporting e Benfica estão a disputar. Portugal está muito longe da realidade que serve de base aos manuais de jornalismo, onde os factos são a base de tudo e podem ser lidos de forma impoluta. Em Portugal, quem consome informação sobre futebol está amplamente colonizado pelas diatribes radicais dos programas de comentadores-adeptos e não é capaz de separar o facto da opinião. A ironia de Lopetegui tem essa noção como princípio orientador. O facto é que o FC Porto ainda não teve penaltis a favor na Liga. A opinião é a de que o FC Porto está a ser prejudicado, porque o Benfica já tem um e o Sporting soma cinco. Só que os factos não são só estes. Primeiro porque o FC Porto não é a única equipa da Liga sem penaltis a favor – há mais sete nessas condições. Depois porque FC Porto e Benfica são duas das oito equipas que também não têm nenhum penalti contra (e o Sporting, por exemplo, já tem dois) e isso não quer dizer que estejam a ser beneficiados. Porque ao contrário do que acontece nos programas de segunda-feira à noite, um facto é um facto e uma opinião, podendo ser nele baseada, é uma opinião. Nada mais… Outra questão prende-se com a razão que leva Lopetegui a entrar neste jogo – e essa tem a ver com aquilo que Rui Vitória disse no final do dérbi da Taça de Portugal. É que, tal como o técnico do Benfica, o treinador basco também não quererá “ser comido de cebolada”. Ora este é mais um plano em que o futebol nacional funciona como prolongamento dos programas de segunda-feira, onde quem fala mais alto e radicaliza mais o discurso é quem ganha. Só que aqui, até ver, FC Porto e Benfica estão a correr atrás, a reagir ao Sporting. Jorge Jesus nem precisa de falar do assunto, de se meter com o lado negro da força, porque Bruno de Carvalho e Octávio Machado têm feito todo o trabalho sujo. No Benfica, Rui Costa foi o primeiro a dizer alguma coisa, mas só o fez na viagem a Astana, depois de Rui Vitória ter sido lançado à fogueira na sequência da derrota de Alvalade. No FC Porto, que foi onde este “jogo” foi inventado, o silêncio impera e só é rompido de quando em vez pelo boletim “Dragões Diário”. O futebol seria muito melhor sem estas guerras. Disso não tenho dúvidas, da mesma forma que não tenho certeza de que a pressão dê frutos e se reflita em benefícios. Mas que Benfica e FC Porto estão próximos do Sporting aristocrático de outrora, onde Paulo Bento tinha de fazer a guerra sozinho, ao passo que em Alvalade se recorre às armas que outrora celebrizaram Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira, disso já não me restam dúvidas nenhumas.
2015-11-27
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