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Em Madrid há quem chore por Pepe, 34 anos feitos em Fevereiro, que o clube deixou fugir para o Besiktas. Esse, Fernando Santos não deve perdê-lo antes do próximo Campeonato do Mundo. Mas não há tantas certezas acerca de Bruno Alves, que faz 36 anos este mês e já nem sempre joga pelo Glasgow Rangers. Ou até de José Fonte, que faz 34 antes do Natal, mas os celebrará  em recuperação de uma lesão contraída na semana passada e que o afastará dos relvados pelo menos até Janeiro. O selecionador nacional já reconheceu por palavras e por atos que esta é a sua maior preocupação, mas sendo verdade que o panorama é desanimador e não lhe facilita a tarefa, não é menos evidente que ele também tardou em assumir o problema: a chamada de segundas linhas para os particulares solidários deste mês pode ser tão importante como tardia para o que se pretende. O que se pretende é ter pelo menos três defesas-centrais que deem garantias no Mundial, em Junho de 2018. Portugal apareceu e ganhou o Europeu de 2016 com Pepe (33 anos à data), Fonte (32 anos), Bruno Alves (34 anos) e Ricardo Carvalho (38 anos). É absolutamente invulgar uma equipa chegar a uma fase final com quatro defesas centrais tão avantajados, porque se a experiência pode ser uma virtude, ela deve ser temperada com a fogosidade da juventude. Porquê? Para que não suceda o que sucedeu com Ricardo Carvalho, por exemplo, no Europeu: começou a prova como primeira escolha e teve de ser substituído no onze a partir do final da primeira fase. Fez a sua parte, o que lhe competia, e fê-lo bem, mas por muito que um jogador se cuide, é humanamente impossível aguentar o ritmo de uma competição como um Europeu ou um Mundial a partir de determinada idade. Não vou sequer centrar-me no futuro. O futuro, no futebol, é agora. Não acho que Santos deva ter nas listas defesas-centrais sub25 só porque pode vir a precisar deles daqui a dois ou três anos. Sei também que o tempo de treino de uma seleção é geralmente tão curto que tem de ser aproveitado para preparar o jogo seguinte e não dez jogos à frente. Ainda assim, podendo o selecionador chamar 23, 24, 25, até 26 jogadores para cada compromisso duplo da seleção, não vejo nenhuma razão para não se ter já começado a introduzir novos elementos desta posição no grupo há mais tempo. O selecionador confia em Pepe, Bruno Alves, Fonte e Neto (29 anos)? Muito bem. Pois que os convoque. Mas olhando para o envelhecimento daquela posição em específico, podia também já ter alargado o “numerus clausus”, chamando nem que fosse um jogador extra-contingente a cada convocatória. Depois, a treinar, se veria como respondia e se ia à ficha de jogo ou ficava a ver da bancada. Agora, para os jogos com a Arábia Saudita e os Estados Unidos, apareceram na lista de Fernando Santos Edgar Ié, 23 anos, titular no Lille de Bielsa e membro recente da seleção de sub21, e Ricardo Ferreira, 24 anos, uma das opções de Abel Ferreira no SC Braga. Não são más escolhas – e em abono do atraso com que Fernando Santos os chamou pode até dizer-se que Ié era lateral-direito no Belenenses na época passada, que o Lille anda pelos fundos da tabela francesa ou que Ricardo Ferreira vai apenas com cinco jogos competitivos feitos esta época. A questão é que nem estes jogos servirão para avaliar grande coisa – o facto de não estarem os pesos pesados levará inevitavelmente a que toda a equipa os encare de forma, digamos, muito mais distendida – nem haverá já tempo para os avaliar em situação de pressão antes de chegar o Campeonato do Mundo. O problema é que, no que aos defesas-centrais diz respeito, Fernando Santos olhou sempre para a seleção como ponto de chegada. E, tendo em conta a crise que o próprio detetou, devia tê-la visto mais como ponto de partida, reconhecendo até a sua vertente motivacional. Sei bem que, em situações normais, é assim que deve ser. A seleção é uma etapa de excelência, não deve servir para motivar jogadores. Só que esta não é uma situação normal. E para situações excecionais, medidas excecionais. Nos últimos anos, jogadores houve que – como Ruben Dias agora, por exemplo… – podiam ter sido chamados extra-contingente. Falo, por exemplo, de Ruben Semedo, quando foi titular do melhor Sporting de Jesus. De Josué, enquanto foi pilar defensivo de um Vitória SC que andava pelo topo da tabela em Portugal. De André Pinto, que chegou a ser chamado para um destes particulares de escassa exigência, contra Cabo Verde, e depois foi deixado cair. Admito até que Santos não tenha visto nestes jogadores o que viu em Fonte que, valha a verdade, foi ele quem “inventou” para a seleção: testou-o contra a Argentina, num particular de prestígio que tem pouco a ver com os que aí vêm, e deu-lhe meses depois a prova de fogo, quando uma lesão de Ricardo Carvalho o forçou a coloca-lo em campo aos 17’ de um jogo decisivo com a Sérvia. Fonte respondeu bem. Mas está próximo o dia em que Santos vai ter de inventar mais alguém. Talvez seja ainda antes do Mundial.
2017-11-05
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Portugal entra na meia final do Europeu, contra Gales, na condição de favorito mas com a noção das dificuldades que terá de enfrentar. A poucas horas do jogo, Fernando Santos já terá escolhido a equipa que vai fazer jogar, tendo para isso superado algumas dúvidas que a mim ainda me assaltam. Têm a ver com gestão física do plantel, com escolhas técnico-táticas e até com a estratégia a adotar face às particularidades do adversário. As respostas à frente são as minhas. As de Fernando Santos ficam para mais perto do jogo. O que fazer se não houver Pepe? Evidentemente, terá de avançar outro defesa-central. A escolha mais óbvia pode ser Bruno Alves, por várias razões. Porque é um jogador tão impetuoso como Pepe (até mais, provavelmente) e isso não é de desprezar face a uma equipa como Gales. Porque depois da asneira que fez em Wembley também ele sente que deve alguma coisa a esta equipa e isso poderá reforçar-lhe o empenho e a concentração. E finalmente porque esta é a forma de o selecionador provar uma coisa que já afirmou vezes sem conta: que esta equipa não são onze, são 23. Ora além dos dois guarda-redes suplentes, é Bruno Alves o único que ainda não jogou neste campeonato. Quem substitui William Carvalho? Vai ser Danilo. Aqui não há grandes dúvidas. Será um estereótipo – ainda por cima errado – dizer que Gales joga como a Inglaterra ou como a Islândia. Não joga. Esta não é uma equipa de “kick and rush”. Aliás, a Inglaterra não joga como a Islândia e isso percebeu-se na forma como Danilo fez uma exibição excelente em Wembley mas depois isso não lhe chegou para ser mais do que sofrível contra os islandeses. De qualquer modo, mesmo sem a capacidade de William para lançar jogo, para arriscar nos primeiros passes, Danilo é quem melhor cumpre a posição de pêndulo à frente da defesa na ausência do titular. E sim, em caso de necessidade, pode aparecer melhor como auxiliar dos centrais de forma a condicionar os movimentos sem bola de Bale. Se o tiver em condições, Fernando Santos deve arriscar Raphael Guerreiro? Sim. Mesmo que perceba que se o colocar a jogar hoje corre riscos elevados de não o ter na final. É verdade que a gestão da condição física de Raphael Guerreiro tem levado o treinador a alterná-lo entre a relva e a bancada e que basta somar um mais um para perceber que esse risco existe. E que qualquer adversário que Portugal venha a ter numa eventual final colocará problemas mais difíceis de resolver que Gales na meia-final. Tudo isso poderia levar o treinador a pensar em poupar o titular da posição no lado esquerdo da defesa. Mas a única realidade que Portugal tem certa pela frente neste momento é a meia-final. Para haver final, é preciso lá chegar. E para isso há que colocar em campo os que mais garantias derem hoje. Qual é o melhor meio-campo para o jogo de hoje? Esta é a pergunta de mais difícil resolução, uma vez que todos os jogadores que têm vindo a ser chamados em vez dos titulares têm dado boas respostas. Havendo André Gomes e João Moutinho em condições, não deixa de haver Adrien Silva, João Mário e Renato Sanches. Certo é que só há três lugares disponíveis para estes cinco jogadores. Aqui, Fernando Santos tem de tomar decisões com base no que viu nos últimos jogos e nas caraterísticas da equipa adversária. Ora, com estes jogadores, dificilmente Portugal pode apresentar um meio-campo em 4x4x2 clássico, porque além de João Mário não tem quem seja capaz de jogar como médio-ala clássico. A questão é que, como Gales procura sobretudo os laterais na profundidade, isso pode acarretar um problema defensivo na largura para qualquer meio-campo em losango, sobretudo se nas alas estiverem jogadores de menor predisposição defensiva, como Renato Sanches e João Mário. Ainda assim, a melhor opção parece-me ser o regresso ao losango, com uma alteração: com Danilo atrás e Renato à frente, na posição que Santos costuma entregar a João Moutinho, dando-lhe indicações para investir na pressão sobre a saída de bola adversária. Assim, Portugal poderia manter Adrien como interior, a tentar condicionar Joe Allen, e João Mário (ou Moutinho, se preferir um jogador mais forte defensivamente) do outro lado. E como é que isso afeta a dinâmica de Gales? A saída de bola de Gales é geralmente feita por Ashley Williams ou com recurso à baixa de Joe Allen, mas com os dois laterais projetados nas alas, à procura de situações de dois para um com os laterais adversários potenciadas pelo apoio de um dos médios. Com a pujança de Renato na pressão ao central responsável pela saída de bola e Adrien Silva a condicionar Allen, como fez com Modric, Santos obrigaria os galeses a mudar: ou Allen baixava demasiado para pegar no jogo e depois faltava na frente, ou a saída teria de ser mais segura, com os laterais menos projetados no ataque. Aí, Nani e Ronaldo também têm uma palavra a dizer. Não se desgastando em infrutíferas (ainda que vistosas) ações de pressing, mas ocupando o espaço de forma a condicionar o jogo do adversário, como Ronaldo fez, por exemplo, contra a Croácia, quando conseguiu impedir as saídas pelo lado de Srna simplesmente procurando a meia esquerda em momentos de transição defensiva. E Quaresma? Que papel tem reservado? É verdade que o facto de Gales jogar com três centrais poderia levar Portugal a apostar num 4x3x3, deixando-os sem referências óbvias e condicionando também assim a ação dos laterais. Aí, Chris Coleman teria de optar: ou transformava o seu habitual 3x4x2x1 em 5x2x2x1 e perdia força ofensiva nas alas ou arriscava mantê-lo e quase jogava um para um na última linha defensiva. Só que isso também teria implicações na estratégia de Portugal. Quem jogaria no “três” de meio-campo? Danilo, Adrien e Renato? E quem sobraria no banco para dar uma volta ao jogo se isso vier a ser necessário? Só Rafa? Quaresma tem funcionado melhor a sair do banco que a jogar de início. E fazê-lo compreender isso, que as equipas não têm só onze titulares, tem sido uma das maiores vitórias de Fernando Santos.
2016-07-06
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Fernando Santos e Lars Lagerback já estão a preparar o Portugal-Islândia com que as duas equipas vão abrir a respetiva caminhada no Europeu. A questão é que ambos estão centrados na equipa de Portugal. Santos nas dúvidas que certamente tem acerca do onze; Lagerback na tentativa de condicionar desde já o árbitro que vier a ser nomeado para a partida de St. Etiènne para aquilo a que chama os “filmes” de Cristiano Ronaldo e Pepe. “Portugal tem um dos melhores jogadores do Mundo, que também é um ator eficiente. Temos visto alguns bons filmes portugueses. Na final da Liga dos Campeões também vimos outro que podia estar em Hollywood”, disse Lagerback. É verdade que o que Pepe fez na final da Champions, tentando arrancar a expulsão de Felipe Luís com uma simulação de agressão, não beneficia em nada a sua imagem nem a do futebolista português em geral. Mas ao fazer ele mesmo essa generalização e, mais, ao juntar Ronaldo ao “filme”, o treinador sueco está a parecer-se mais com um daqueles comentadores engajados dos programas televisivos, que defendem a agenda das suas cores e têm e uma noção de vergonha tão pouco desenvolvida como a de Pepe ao ver as imagens televisivas do lance em que rebolou na relva de San Siro como se tivesse sido atingido por um direto de Muhammad Ali. É verdade que por essa altura Lagerback já tinha deixado de ser selecionador do seu país, mas Ronaldo é aquele tipo que joga com o 7 nas costas e que sozinho desfez a Suécia em Estocolmo, há dois anos e meio, carregando Portugal para o Mundial de 2014. No fundo, é também aquele tipo que Fernando Santos espera venha a resgatar Portugal do pesadelo ofensivo em que se transformou o exame de Wembley contra a Inglaterra, jogo no qual a seleção nacional parecia desconhecer que é possível fazer combinações atacantes. Tudo tem uma explicação – e a expulsão de Bruno Alves, tendo sido justa, pode ajudar a explicar a timidez ofensiva da equipa nacional – mas o Portugal que apareceu em Wembley nunca foi uma equipa completa. Foi sempre apenas meia-equipa: a metade que se esmera para impedir o adversário de marcar. E isso não se esgota no facto de Fernando Santos ter visto abatido um homem ao onze com 35 minutos de jogo. Para perceber por que razão o ataque de Portugal se resumiu a uma mão cheia de ações individuais é preciso entrar nos planos tático e estratégico. É preciso perceber que, ao adotar o esquema tático atual – o 4x4x2 – para acomodar estrategicamente Ronaldo e permitir a criação de condições para que ele se torne desequilibrador, a seleção precisa de alguém que faça uma coisa fundamental no 4x4x2, que é arranjar espaço entre linhas no corredor central para que os médios possam jogar. Vamos centrar-nos na realidade portuguesa. O Benfica joga em 4x4x2 e tem Mitroglou. O Sporting joga em 4x4x2 e tem Slimani. O que fazem Mitroglou e Slimani além de serem bons finalizadores? Dão profundidade às suas equipas, pedem a bola no espaço atrás da última linha adversária, para a forçarem a recuar e dessa forma tentarem que o espaço entre ela e a linha seguinte, a de meio-campo, aumente. É ali que jogam os médios. Quem o digam Gaitán, Renato Sanches, Pizzi, até Jonas, no Benfica. E que o digam João Mário, Adrien, Ruiz e até Gutièrrez no Sporting. O futebol é muito simples: para se jogar tem de se inventar o espaço. Agora imaginemos o Benfica e o Sporting a jogarem com dois avançados que em vez de esticarem o jogo passavam o tempo todo a baixar em desmarcações de apoio e a buscar o espaço dos médios. Pode funcionar? Pode. Mas só com outro meio-campo, com um meio-campo mais clássico, com médios-ala que procuram sempre dar largura à equipa, e preferencialmente com médios-centro capazes de aparecer na área em trocas posicionais com os tais avançados que recuam. Ora Portugal não tem uma coisa nem outra, pelo que o melhor mesmo é não complicar. A equipa que Santos está a montar ainda depende do jogo que falta fazer, com a Estónia, mas se todos já sabíamos que ela teria de ter Ronaldo, agora ficamos a saber que a suportar esta conclusão não está apenas o facto de ele ser melhor do que os outros. É que tática e estrategicamente só com ele é que este modelo pode funcionar. Depois, se o outro avançado deve ser Nani ou Quaresma, se o médio que sai da esquerda deve ser Renato, André Gomes ou até o próprio Nani, se o médio-centro deve ser João Moutinho ou Adrien Silva e se o médio-defensivo deve ser William ou Danilo, tudo está aberto a discussões. Na frente, porém, tem de estar Ronaldo. E se nalguma altura não houver Ronaldo o melhor talvez seja mesmo ter um Plano B para mudar de tática e de estratégia. In Diário de Notícias, 06.06.2016
2016-06-06
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