PESQUISA 

Último Passe

O Benfica vendeu cara a eliminação da Liga dos Campeões, forçando o Bayern Munique a um empate na Luz (2-2) que se justificou plenamente, face ao que as duas equipas fizeram em campo, e chegando a lançar a dúvida sobre o destino da eliminatória, ao adiantar-se no marcador antes da meia-hora, com um cabeceamento de Jiménez. O Bayern tem outros argumentos, tanto ao nível das individualidades como no plano tático, chegou rapidamente ao empate e até à vantagem, mas Pep Guardiola chegou a irritar-se com os seus jogadores no banco pela forma como estes permitiram que os encarnados colocassem a passagem às meias-finais em dúvida. Rui Vitória já sabia que não ia ter Jonas, que estava castigado, devido ao amarelo que viu em Munique. No dia do jogo ficou a saber também que não poderia contar com Mitroglou e Gaitán, as suas duas outras principais armas ofensivas, que se ressentiram de lesões contraídas em Coimbra, no sábado. Armou a equipa em 4x2x3x1, com Jiménez na frente, apoiado por um Pizzi que não está a viver uma fase particularmente fulgurante, e com Salvio e Carcela nas alas. Provavelmente sabendo que o Benfica ia apresentar três médios, Guardiola abdicou de um dos pontas-de-lança (no caso Lewandowski), fazendo jogar Müller sozinho em cunha, com Douglas de um lado e Ribery do outro, igualando a batalha a meio-campo com a junção de Xabi Alonso a Tiago Alcântara e Vidal. E apesar de um início forte do Benfica, aos 5’ o Bayern congelou o jogo com o seu futebol de posse e variação constante de flancos. Lahm, pela forma como aparecia sempre a aproveitar as manobras de diversão de Douglas Costa, era o principal causador de perigo para Ederson, como se viu no modo como descobriu Lahm (19’) para um volei que este fez passar rente ao poste, ou como esteve na base do lance em que Tiago Alcântara solicitou o cabeceamento de Vidal, para defesa de Ederson (22’). Só que aí o Benfica marcou. A pressão do Bayern a meio-campo falhou, a equipa portuguesa fez a bola chegar a Eliseu, que tinha espaço para correr na esquerda. Rui Vitória percebeu o que aí vinha e correu a incentivar Eliseu, que galgou campo e cruzou para Jiménez, que ganhou o sprint aos dois centrais do Bayern e aproveitou a saída sem sentido de Neuer para cabecear para o 1-0. Eliminatória igualada aos 27’, portanto. O jogo convidava à contemporização, mas três minutos depois Salvio ganhou uma bola na direita e cruzou rasteiro para uma falha de Alonso no corte e um remate fraco de Jiménez, que teve tempo e espaço para fazer mais do que entregar a bola a Neuer. Ora se o Benfica não marcou foi o Bayern que o fez, logo aos 38’, num belo lance de envolvimento na direita que terminou com cruzamento de Lahm. Ederson ainda afastou, mas aí os médios do Benfica foram batidos pela sua própria sofreguidão: acorreram à área, onde o Bayern não tinha assim tanta gente, e deixaram a meia-lua à mercê de Vidal, que fez o golo de primeira. Com 1-1, a eliminatória não ficava sentenciada -o Benfica voltava a precisar de dois golos. Mas o que a equipa sentiu foi que a montanha à sua frente tinha ficado repentinamente inultrapassável, de tão íngreme, tendo perdido concentração e permitido mais espaço às trocas de bola do Bayern. O problema, de resto, não se resolveu após o intervalo, pois foi outra vez o Bayern quem entrou melhor. E aproveitando uma desconcentração global na zona defensiva do Benfica após um canto da esquerda, o Bayern fez o 2-1, aos 52’, por Müller, o único a acorrer a uma primeira bola ganha por Javi Martínez nos ares. Foi o pior período do Benfica no jogo. Ederson teve de se esforçar para impedir o 1-3 logo aos 55’, num contra-ataque, e viu depois Douglas Costa chutar ao poste, aos 60’. Rui Vitória trocou então Pizzi por Gonçalo Guedes, procurando ganhar velocidade no corredor central, e o jovem extremo foi providencial na forma como o Benfica regressou ao jogo: travado em falta por Javi Martínez, após uma arrancada da direita para o meio, deu a Talisca – que entretanto substituíra Salvio – a possibilidade de, num livre magistral, estabelecer o empate. O golo acordou o público e a equipa do Benfica, mas só faltavam 14 minutos para o final da partida. Rui Vitória, expulso do banco por protestos, viu da bancada como o Benfica, já em 4x2x4, com Jovic a juntar-se ao ataque e Carcela a fazer de defesa-esquerdo improvisado, tentou impor ao Bayern uma derrota que talvez os alemães não merecessem. Valeu a tentativa, prova de caráter de uma equipa que fez das tripas coração para estar entre as maiores da Europa e não sai envergonhada da tentativa. Com a certeza de que para o ano haverá mais.
2016-04-13
LER MAIS

Stats

O 1-0, na primeira mão de uma eliminatória europeia, é o resultado mais ambíguo que pode haver, pois mantém as duas equipas à mesma distância do apuramento. É o resultado que, por excelência, leva à menção do 50/50. Basta ver que nas oito vezes em que perdeu a primeira mão de uma eliminatória por 1-0 no terreno do adversário, o Benfica se apurou em quatro. E nas cinco em que saiu do seu estádio com esta vantagem, o Bayern seguiu em frente por três vezes. Sempre números muito próximos do 50/50. A última vez que o Benfica entrou na Luz a precisar de recuperar de uma desvantagem de 1-0 nas competições europeias saiu-se bem. Foi em 2013, na meia-final da Liga Europa, e os encarnados tinham perdido por 1-0 com o Fenerbahçe em Istambul. Igualaram a eliminatória bem cedo, com um golo de Gaitán, os turcos fizeram o golo fora que costuma ser fatal, por Huyt, ainda na primeira parte, mas depois o Benfica chegou aos 3-1, graças a um bis de Cardozo. Antes desta proeza, porém, o Benfica já não revertia um 1-0 no terreno do adversário desde 1980, tendo sido eliminado quatro vezes consecutivas. Em 1997/98, depois de perder por 1-0 no terreno do Bastia, não foi além de um empate a zero na Luz; em 1990/91, contra a Roma, perdeu ambas as partidas pelo mesmo score (sempre 1-0, primeiro em Itália e depois em Lisboa); em 1985/86 ainda ganhou a segunda mão, ao Dukla Praga, mas por 2-1, o que permitiu o apuramento dos checoslovacos; e em 1982/83 perdeu assim a final da Taça UEFA: derrota por 1-0 com o Anderlecht em Bruxelas, empate a uma bola (golo português de Shéu) na Luz. Tirando o sucesso contra o Fenerbahçe, todas as situações em que o Benfica reverteu o 1-0 no terreno do adversário aconteceram em tempos antigos. Sucedeu pela primeira vez em Março de 1972, quando um hat-trick de Nené e um bis de Jordão resultaram num 5-1 ao Feyenoord, que se tinha imposto aos encarnados por 1-0 na primeira mão, em Roterdão. Depois disso, em Setembro do mesmo ano, Eusébio (duas vezes), Jordão e Simões marcaram num 4-1 aos suecos do Malmö, que tinham ganho a primeira mão por 1-0. E não aprenderam: em Outubro de 1980, o mesmo Malmö ganhou ao Benfica por 1-0 na Suécia, perdendo depois a segunda mão na Luz por 2-0, com um bis de Nené. Menos frequente é, na sua história, o Bayern sair da primeira mão de uma eliminatória com um 1-0 a seu favor. Mesmo assim, já sucedeu em cinco ocasiões, uma delas contra opositor português. Foi em Setembro de 2007 que um golo do italiano Toni permitiu aos bávaros ganhar a primeira mão de uma eliminatória europeia ao Belenenses, que assim entrou na segunda mão, no Restelo, com esperanças de apuramento. Só que nessa altura Toni e Altintop marcaram em nova vitória do Bayern, desta vez por mais amplos 2-0. Depois disso, o Bayern já fez valer o 1-0 caseiro da primeira mão mais uma vez: em Abril de 2010, na meia-final da Champions, começou por ganhar por 1-0 ao Lyon em casa (golo de Robben), para depois ir vencer a França por 3-0 (hat-trick de Olic). A primeira vez que o Bayern se viu metido numa situação destas também se saiu bem (1-0 e 1-1 com o Glasgow Rangers, em 1970/71). Mas depois disso foi mesmo eliminado por duas vezes. Em Março de 1977 valeu-se de um golo de Künkel para ganhar por 1-0 ao Dynamo Kiev, nos quartos-de-final da Taça dos Campeões (jogo apitado por António Garrido), mas depois perdeu por 2-0 na então URSS, com dois golos nos últimos dez minutos (Burjak e Slobodyan). Por fim, em Novembro e Dezembro de 1983, contra o Tottenham, também se deu mal: ganhou por 1-0 no Estádio Olímpico, graças a um golo tardio de Michael Rümmenigge, mas depois foi batido por 2-0 em Londres, com Archibald e Falco a qualificarem a equipa de Keith Burkinshaw para os quartos-de-final da Taça UEFA.   O Benfica ganhou os últimos quatro jogos em casa, todos desde a derrota contra o FC Porto (1-2), a 12 de Fevereiro. A equipa encarnada já foi batida três vezes na Luz esta época, por Sporting (3-0 a 25 de Outubro), Atlético Madrid (2-1, a 8 de Novembro) e pelos dragões. O jogo com os leões foi o único em que não marcou golos em casa esta época.   Jonas, que não vai jogar contra o Bayern, por estar suspenso, marcou nos últimos quatro jogos do Benfica em casa: fez o golo da vitória contra o Zenit (1-0), bisou nos 2-0 ao U. Madeira, voltou a bisar nos 4-1 ao Tondela, e fez de penalti um dos golos nos 5-1 ao Sp. Braga. Além de Jonas, o jogador com mais jogos seguidos a marcar na Luz é Mitroglou, que deixou o nome ligado às duas últimas vitórias, com um golo ao U. Madeira e dois ao Sp. Braga.   Jonas só falhou três dos 44 jogos que o Benfica já fez esta época, nenhum deles das provas mais importantes (Liga portuguesa ou Champions). Esteve de fora, por opção, na vitória por 2-1 frente ao Vianense, em meados de Outubro, para a Taça de Portugal, e voltou depois a ser poupado nos sucessos por 1-0 contra o Oriental e por 6-1 contra o Moreirense, ambos em Janeiro, para a Taça da Liga.   O Benfica ganhou três dos quatro jogos europeus feitos no seu estádio esta época: 2-0 ao Astana, 2-1 ao Galatasaray e 1-0 ao Zenit. Em contrapartida, o Bayern só perdeu um dos quatro desafios europeus que fez fora de casa esta época: 2-0 com o Arsenal. Dos outros, empatou um (2-2 com a Juventus) e ganhou dois (2-0 ao Dynamo Zagreb e 3-0 ao Olympiakos).   O Bayern entra na Luz com uma série de seis vitórias seguidas, correspondentes a todos os jogos desde o empate a zero no terreno do Borussia Dortmund, a 5 de Março, para a Bundesliga. É a melhor série de vitórias da equipa de Pep Guardiola desde o início de época, quando arrancou com 12 sucessos consecutivos, travados na derrota por 2-0 em Londres, frente ao Arsenal, a 20 de Outubro.   O Benfica procura atingir a primeira meia-final da Liga dos Campeões desde 1990, época em que ultrapassou o Dnipro para defrontar o Ol. Marseille, antes da final contra o Milan. Por sua vez, o Bayern vai tentar atingir a quinta meia-final consecutiva nesta competição. Se o fizerem, os bávaros não atingirão um recorde, mas entram no lote restrito de clubes que já o conseguiram, que para já está limitado a Barcelona e Real Madrid.   O Benfica nunca ganhou um jogo ao Bayern Munique, tendo obtido apenas dois empates em sete partidas, ambos na Luz: 0-0 em Março de 1976 e em Outubro de 1981. Empatou, curiosamente, em dois dos três jogos em que não fez golos – o terceiro foi a recente derrota por 1-0, em Munique. Na Luz, o Benfica só marcou um golo ao Bayern: foi em Dezembro de 1995, numa derrota por 3-1 que se seguiu a um desaire por 4-1 em Munique.   Nos jogos em casa contra equipas alemãs, o Benfica só perdeu duas vezes em 20, tendo ganho dez. Na Luz, só ganharam o Bayern, nesses 3-1 de 1995, e o Schalke, por 2-1, em 2010. Ali já foram batidos o Leverkusen (2-1, em 2013), o Stuttgart (2-1, em 2011), o Hertha (4-0, em 2010), o Nurnberg (1-0, em 2008, e 6-0, em 1962), o Kaiserslautern (2-1, em 1998), o Carl Zeiss (1-0, em 1981), o Fortuna Dusseldorf (1-0, em 1981), o Vorwaerts Berlin (2-0, em 1970) e o Borussia Dortmund (2-1, em 1963).   Por sua vez, o Bayern só perdeu uma vez em 12 visitas a Portugal: foi no ano passado, no jogo dos quartos-de-final da Liga dos Campeões contra o FC Porto, por 3-1. Soma de resto seis empates (dois com o Benfica, um com o FC Porto, um com o Boavista, um com o V. Setúbal e um com o Sp. Braga) e cinco vitórias (uma com o Benfica, duas com o Sporting, uma com o Belenenses e uma com o FC Porto).
2016-04-12
LER MAIS

Último Passe

O Benfica sobreviveu ao teste de Munique e fê-lo com personalidade e um futebol adulto que Pep Guardiola até se deu ao luxo de anunciar mas que talvez não esperasse ver tão bem interpretado em campo. É certo que a equipa portuguesa perdeu, que não fez o golo fora que tanto jeito lhe daria – e até teve oportunidades claras para o fazer –, mas conseguiu mesmo assim levar a discussão da eliminatória com o Bayern para o seu estádio, graças a uma derrota pela margem mínima (1-0). O golo de Vidal, logo aos 2’ de jogo, fez temer um descalabro, mas a pouco e pouco Rui Vitória foi juntando as peças e com isso anulando uma das máquinas atacantes mais poderosas desta Liga dos Campeões. Os encarnados tiveram um início difícil, pois Ribery e Douglas Costa, sempre muito abertos nas duas alas, causavam problemas constantes à organização defensiva benfiquista, viciada nas derivações de Pizzi e Gaitán para o espaço interior. Sempre que o Bayern virava o flanco, André Almeida e Eliseu eram apanhados em situação de inferioridade, porque aos extremos o Bayern juntava laterais sempre prontos a ajudar no ataque e médios sem medo de entrar na área. O golo nasce desse “excesso de gente” do Bayern na frente: Ribery veio para dentro, descobriu Lewandowski, que descaiu na esquerda para solicitar o cruzamento de Bernat, entretanto deixado sozinho. E quando o espanhol cruzou, havia na mesma quatro homens do Bayern em zona de finalização. Marcou Vidal, em antecipação a Eliseu. Era o pior começo possível, porque a equipa tremeu. Naturalmente. E nessa altura foi Ederson quem a segurou no jogo, com um punhado de boas intervenções a impedir um 2-0 do qual já seria muito difícil recuperar. Destacou-se o jovem guardião brasileiro em oposição a Lewandowski (16’) e a Müller (20’), mas a partir de dada altura o Benfica corrigiu. Pizzi deixou de se preocupar tanto com o corredor central, obrigando a que Renato Sanches fosse mais posicional – e com isso também menos vistoso, porque o seu futebol atacante ganha com a explosão aquilo que perde se tiver de jogar de pé para pé – e o Benfica começou a ganhar as segundas bolas que vinham de Mitroglou, partindo delas para chegar também à área de Neuer. E a verdade é que, mesmo tendo o Bayern sempre mais bola, o jogo não voltou a estar tão desequilibrado como naqueles primeiros 15 ou 20 minutos. Müller, aos 33’, e Vidal, aos 36’, ainda podiam ter ampliado o marcador, mas ao primeiro opôs-se Ederson, enquanto que o cabeceamento do segundo saiu sobre a barra. E a primeira grande ocasião da segunda parte até pertenceu ao Benfica, quando Jonas se virou bem sobre Alaba e, face a face com Neuer, não conseguiu desviar a bola do guarda-redes alemão. O brasileiro, que viu um cartão amarelo e não poderá estar na segunda mão, teve ainda mais uma situação dourada para empatar, aos 64’, quando um cruzamento de André Almeida o encontrou solto na área, mas o remate acertou em cheio em Javi Martínez, que Guardiola chamara ao campo para substituir Kimmisch, de modo a ganhar presença na área. O maior desafio que o Benfica tinha pela frente nessa altura era segurar os últimos minutos do Bayern, aqueles em que a Juventus, por exemplo, baqueou. Porque contrariar uma equipa que tem tanta bola cansa e a dada altura o mais natural é recolher para perto da área. Guardiola ainda tentou animar o ataque da sua equipa, com Coman e Götze, mas o Bayern nunca chegou ao segundo golo. Ribery, aos 81’, viu Ederson negar-lhe esse intento, após um raide da esquerda para a área. E Lewandowski, aos 89’, preferiu dar a bola a Lahm em vez de tentar bater o guardião brasileiro, que lhe fez a mancha para evitar o que parecia um golo certo: valeu ao Benfica que o passe saiu muito largo e o capitão do Bayern não o captou. O resultado ficava assim numa margem mínima que, não sendo excelente, permite ao Benfica opções sérias para a segunda mão.
2016-04-05
LER MAIS

Stats

A tarefa que espera o Benfica nos quartos-de-final da Liga dos Campeões é gigantesca. Pela frente, a equipa de Rui Vitória tem uma das mais poderosas formações da Europa, um Bayern Munique que procura atingir a quinta meia-final consecutiva nesta competição. Se o fizerem, os bávaros não atingirão um recorde, mas entram no lote restrito de clubes que já o conseguiram, que para já está limitado a Barcelona e Real Madrid. O Bayern esteve nas últimas quatro meias-finais da Liga dos Campeões. Em 2010/11, a última época em que lá não chegou, caiu nos oitavos-de-final, eliminado pelo Inter Milão, mas depois foi sempre a aviar: em 2011/12 eliminou o Ol. Marseille nos quartos-de-final, perdendo depois a final nos penaltis para o Chelses; em 2012/13 chegou à meia-final afastando a Juventus, vindo depois a ganhar na final ao Borussia Dortmund; em 2013/14 afastou nesta fase o Manchester United, mas caiu na meia-final face ao Real Madrid; por fim, na época passada, eliminou o FC Porto nos quartos-de-final, caindo depois na eliminatória seguinte ante o Barcelona. Ora o Barcelona é precisamente a equipa com maior número de meias-finais consecutivas na Liga dos Campões – esteve em seis, nunca falhando esta fase entre 2007/08 e 2012/13, sendo na época seguinte afastado nos quartos-de-final pelo Atlético Madrid. As quatro meias-finais consecutivas do Bayern Munique não são exclusivo europeu na atualidade, nem sequer a melhor série em curso. O Real Madrid lutará pela sexta presença seguida nos últimos quatro clubes a disputar o troféu, depois do falhanço de 2009/10, época em que foi eliminado pelo Lyon, nos oitavos-de-final. A verdade é que, com o alargamento da Liga dos Campeões a mais de um clube por país, ficou mais fácil aos mais fortes das grandes potências chegarem tão longe. Antes do novo formato da Liga dos Campeões, o recorde pertencia ao Inter Milão, que chegou à meia-final por quatro anos seguidos, de 1963/64 a 1966/67. Também a Juventus tem quatro meias-finais consecutivas, mas já com o formato “Champions”, de 1995/96 a 1998/99. Ao Benfica resta sempre o peso da história e de ser o clube português com mais meias-finais consecutivas: três, de 1960/61 a 1962/63, com duas taças para recordar.   Ponto a favor do Benfica é a sua corrente série de resultados: ganhou 19 dos últimos 20 jogos, sendo a única exceção a derrota na Luz contra o FC Porto (2-1), a 12 de Fevereiro. E nesses 20 jogos fez sempre golos: a última vez que o seu ataque ficou em branco foi a 15 de Dezembro do ano passado, no empate a zero contra o U. Madeira.   Consequência dessa série extraordinária, o Benfica está a atravessar a melhor sequência de jogos fora de casa em toda a sua história. Quando entrar no relvado do Allianz Arena fá-lo-á com o peso de onze vitórias consecutivas fora do seu estádio: 1-0 ao V. Guimarães, 4-1 ao Nacional, 2-1 ao Estoril, 1-0 ao Oriental, 6-1 e 4-1 ao Moreirense, 5-0 ao Belenenses, 3-1 ao Paços de Ferreira, 1-0 ao Sporting, 2-1 ao Zenit e 1-0 ao Boavista.   Jonas marcou nas últimas três partidas do Benfica. Bisou nos 4-1 em casa ao Tondela, fez o golo solitário no sucesso no Bessa ante o Boavista (1-0) e voltou a marcar nos 5-1 ao Sp. Braga, na Luz. Naquela que já é a sua melhor época europeia de sempre (já leva 32 golos), o brasileiro fez dois tentos na Liga dos Campeões, ainda assim aquém dos cinco que marcou nesta mesma competição pelo Valencia em 2012/13. Nessa temporada, marcou a todos os adversários europeus do Valencia (Lille, Bate Borisov e Paris Saint Germain) à exceção do Bayern Munique, que defrontou duas vezes, na fase de grupos.   Ribery fez no sábado o golo da vitória do Bayern sobre o Eintracht Frankfurt (1-0). Foi o primeiro golo do francês em 2016: não marcava desde 5 de Dezembro, quando regressou de lesão e ajudou à vitória sobre o Borussia M’Gladbach, por 3-1.   Quem anda de pé quente é o polaco Lewandowski, que ficou em branco contra o Eintracht mas já leva 36 golos esta época, oito dos quais na Liga dos Campeões, competição na qual marcou em todos os jogos do Bayern em casa: assinou um hat-trick nos 5-0 ao Dynamo Zagreb, marcou uma vez nos 5-1 ao Arsenal, outra nos 4-0 ao Olympiakos e ainda mais uma nos 4-2 (após prolongamento) à Juventus.   Esse jogo com a Juventus foi o primeiro em casa na Liga dos Campeões que o Bayern não ganhou em 90 minutos desde 29 de Abril de 2014, quando foi batido em casa pelo Real Madrid, por contundentes 4-0. Depois desse descalabro, a equipa bávara alinhou dez vitórias seguidas no Allianz Arena: 1-0 ao Manchester City, 2-0 à Roma, 3-0 ao CSKA Moscovo, 7-0 ao Shakthar Donetsk, 6-1 ao FC Porto, 3-2 ao Barcelona, 5-0 ao Dynamo Zagreb, 5-1 ao Arsenal, 4-0 ao Olympiakos e 4-2 (o tal, ganho no prolongamento) à Juventus.   O Benfica nunca ganhou um jogo ao Bayern Munique, tendo obtido apenas dois empates em seis partidas, ambos na Luz: 0-0 em Março de 1976 e em Outubro de 1981. Empatou, curiosamente, nos dois únicos jogos em que não fez golos, porque sempre que jogaram no velho Estádio Olímpico de Munique os encarnados acabaram por marcar uma vez. Ali perderam por 5-1 em Março de 1976 (o golo de Nené não chegou para os bis de Dürnberger e Müller, aos quais se somou mais um de Karl Heinz Rummenigge), por 4-1 em Novembro de 1981 (mais uma vez Nené a amenizar um hat-trick de Dieter Höness e um golo de Breitner) e outra vez por 4-1 em Novembro de 1995 (golo de Dimas face ao histórico póquer de Klinsmann).   Ainda assim, mesmo só tendo ganho duas vezes em 20 visitas à Alemanha, o Benfica pode gabar-se de o ter feito recentemente: bateu o Stuttgart por 2-0 em Fevereiro de 2011 e o Leverkusen por 1-0 em Fevereiro de 2013. O paraguaio Cardozo foi o ponto em comum às duas vitórias em solo alemão, pois marcou em ambos os jogos.   Já houve duas equipas portuguesas a conseguirem um resultado positivo em Munique contra o Bayern: o FC Porto empatou, ainda no velho Estádio Olímpico, a um golo, em Março de 1991 (golo de Domingos, a responder a um primeiro, de Bender) e o Sporting levou um 0-0 já do Allianz Arena, em Outubro de 2006. Curiosamente, dragões e leões foram também as equipas submetidas às maiores goleadas do Bayern a equipas portuguesas, nas últimas duas vezes que se deslocaram a Munique: o Sporting encaixou 7-1 em Março de 2009 e o FC Porto 6-1 em Abril do ano passado.   O Bayern, de resto, só perdeu duas vezes contra uma equipa portuguesa e essa foi o FC Porto, que se impôs aos bávaros por 2-1 na final da Taça dos Campeões de 1987 (golos de Madjer e Juary, após um primeiro tento de Kögl) e depois por 3-1 nos quartos-de-final da Champions do ano passado (bis de Quaresma e golo de Jackson contra um de Thiago Alcântara). Em 24 jogos contra portugueses, o Bayern cedeu ainda oito empates, a FC Porto (dois), Benfica (dois), V. Setúbal, Boavista, Sp. Braga e Sporting.
2016-04-05
LER MAIS

Último Passe

Com a habilidade que se lhe reconhece para as palavras, o poeta uruguaio Eduardo Galeano veio um dia contestar que à seleção holandesa lhe chamassem “Laranja Mecânica”. Porque aquela “obra da imaginação, que desconcertava todos com as suas mudanças incessantes” não tinha “nada de mecânico”. E não tinha, de facto. Aqueles jogadores não eram máquinas, aquele futebol não era robotizado. O que aquela equipa e aquele futebol tinham era o que Johan Cruijff podia dar: cérebro. Porque, como dizia Cruijff, “o futebol joga-se com o cérebro”. Johan Cruijff foi a mais espantosa mente que alguma vez pensou futebol. Era uma mente retorcida, que escolhia caminhos tortuosos para chegar onde queria, mas nunca deixou de ser brilhante e de “viver e morrer pelas suas próprias ideias”, como o próprio não se cansava de dizer acerca do que devia ser a cartilha maternal de um treinador. Algumas das suas ideias explicou-mas uma vez, numa rápida entrevista de uns dez minutos, feita a contragosto, quando o encostei a uma parede nas catacumbas de Camp Nou, depois de Ricard Maxencs, o já falecido ex-diretor de imprensa do Barça, me ter dito que se corresse por um certo corredor talvez ainda o apanhasse a caminho do carro. Eu lembrei-o de que estava em Barcelona há quase uma semana para falar com ele, ele acedeu e debitou aquilo que para ele deviam ser lugares-comuns mas que para mim foram os dez minutos em que mais aprendi sobre futebol até àquela data. As ideias de Cruijff eram simples. Tão simples que parece impossível nunca terem ocorrido a toda a gente. Cá vai uma: “a bola é mais rápida que qualquer jogador e ainda por cima não se cansa”. Básico? Sem dúvida. Mas como o próprio Cruijff dizia, “a solução mais simples é sempre a mais eficaz”. “E muitas vezes a mais difícil de pôr em prática” – mas aí entra a parte do cérebro. O mais simples era, tanto naquele Ajax dos inícios dos anos 70, como foi depois na seleção holandesa ou no Barcelona que ele criou e que deixou de herança a Pep Guardiola, fazer girar a bola, manter a posse, jogar a dois toques com abertura permanente de linhas de passe através da formação de vários triângulos no campo. Em tempos chamaram a isso “futebol total”, porque para o pôr em prática qualquer equipa tinha que extravasar os limites do sistema em que se dispunha no início dos jogos. E para isso era preciso criar uma dinâmica coletiva, uma dinâmica de adaptação constante, de perceção permanente do que mais convinha ao grupo. Se o mais importante era o lateral direito à procura do espaço no terreno do médio do outro lado, era isso que ele fazia. Desde que a equipa respeitasse sempre, como dizia Galeano, essa forma de “desorganização organizada” que lhe permitia ser harmoniosa. Isto é: desde que os seus componentes fossem inteligentes e que a ligá-los em campo estivesse o tal cérebro superior. E aí residia a diferença entre uma grande equipa e uma equipa armada em grande. As equipas de Cruijff foram grandes, porque Cruijff era grande. Era grande a jogar, era grande a pensar, era grande nos afetos e nos ódios, também. Escolhia o campo e ia até ao fim. Foi assim no Ajax e no Barcelona, as suas duas paixões, onde exerceu magistérios de influência quando deixou de a ter em campo, como jogador ou treinador. E com isso formou um séquito de discípulos, que tanto têm dado ao futebol nos últimos anos. Porque todos têm bem presente a mais fundamental das ideias de Cruijff: o futebol joga-se com o cérebro. E o dele já não pensa, mas deixou marcas.
2016-03-24
LER MAIS

Artigo

Nunca fui louco pelo tiki-taka, sobretudo na versão apresentada pela seleção espanhola, que a do Barcelona tinha esse upgrade fenomenal que era Messi e as suas acelerações, sempre com a bola colada aos pés. Mas uma coisa é uma preferência estética, uma opção de entretenimento – e fui sempre mais adepto de um futebol esticado do que adornado – e outra é uma avaliação acerca da eficácia que ele permite. Nesse aspeto, não tenho dúvidas: Guardiola está no top dos treinadores mundiais e mostra que não quer de lá sair pela facilidade com que se coloca em causa a cada momento. O segredo, o catalão voltou a explicá-lo hoje em Munique: “Preciso de novas críticas e de novos inimigos. São eles que nos fazem melhorar”. Isso faz toda a diferença, sobretudo para aqueles treinadores que procuram sempre silenciar os inimigos. Desde que vejo futebol, houve quatro grandes revoluções, nascidas do contributo de quatro visionários. A “zona pressing”, que terá nascido em Liedholm, mas cujo expoente máximo foi o Milan de Sacchi; o jogo de posse a dois toques com largura permanente para que evoluiu o Barcelona de Johan Cruijff, partindo do futebol total da “Laranja Mecânica” que ele comandava em campo; o jogo mais direto e muito feito do aprimorar das transições (ofensivas e defensivas) que caracterizava as equipas de José Mourinho após a chegada ao Chelsea; e o tiki-taka do Barcelona, desenvolvido por Guardiola a partir do modelo de Cruijff mas adaptado aos novos tempos. Com o tempo, depois de ter perdido a Liga dos Campeões para o Inter de Mourinho, em 2010, Guardiola subiu ao topo da hierarquia e, para lá permanecer, foi sempre à procura de novos desafios. Sem ele, o Barcelona mudou: Luis Enrique fez um bocado a ponte entre o futebol trabalhado da equipa de Guardiola e o jogo de transições de Mourinho, com três avançados capazes de esticar a equipa e um meio-campo de vistas mais largas. Mas Guardiola também evoluiu no Bayern, tirou gente de trás para meter na frente, manteve os princípios básicos de jogo triangulado e continuou a ganhar. Mais: continuou a ganhar com facilidade. É por isso que segue para Inglaterra. Porque se há coisa que distingue Guardiola é a sua inteligência superior, a inquietação que o impede de se sentir cómodo onde quer que seja. Há-de chegar o dia em que Guardiola não ganhará, mas uma coisa é certa: não será por acomodamento.
2016-01-26
LER MAIS