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O futebol português vive numa conjuntura em que, independentemente de onde esteja o poder de direito, o importante é entender onde está o poder de facto e fazê-lo funcionar, doa a quem doer. Há já alguns meses que venho escrevendo e dizendo a quem está, por exemplo, na Federação Portuguesa de Futebol, que só da Cidade do Futebol podia vir uma ação contundente para acabar com a podridão que está a gangrenar todo o futebol nacional. Sempre me respondiam que não podia ser, porque o poder de direito é da Liga e só a Liga podia meter-se no caso. Só que a Liga está fraca, a entrada de Pedro Proença não a revitalizou suficientemente e o poder de facto está noutro lado. Portugal foi campeão europeu e, inevitavelmente, a liderança da FPF recolheu daí muitos benefícios em termos de imagem pública. Independentemente disso – mas também por isso –, Fernando Gomes acaba de ser nomeado para substituir Angel Maria Villar na Comissão Executiva da FIFA, sendo neste momento evidente que é, em termos internacionais, o mais poderoso dirigente da história do futebol nacional. Mais do que Antero da Silva Resende, cuja presença nos principais areópagos internacionais era vista como uma vitória para o Portugal dos Pequenitos mas significava pouco. Mais do que João Rodrigues, a cuja presença significativa nos corredores das mais altas instâncias faltava o correspondente reconhecimento público. Além disso, mesmo antes do Europeu de 2016, Tiago Craveiro já era um dos homens mais tidos em conta, quer pela liderança da FIFA quer pela liderança da UEFA. O primeiro abraço de Gianni Infantino depois de ter sido eleito presidente da FIFA foi dado a Onofre Costa, o homem que muita gente em Portugal julga que se limita a sentar-se ao lado de Fernando Santos nas conferências de imprensa e a escolher os jornalistas que têm o direito de fazer perguntas, mas cuja importância transcende em muito esses momentos – por alguma razão era ele quem estava ao lado direito de Infantino na plateia. O verdadeiro poder para influenciar as coisas no futebol português está na Federação Portuguesa de Futebol e não na Liga, até pelo simples facto de não ser a FPF quem mais se envolve diretamente nos assuntos acerca dos quais os clubes mais discutem. Quando foi preciso instituir o vídeo-árbitro foi a FPF quem avançou. A Liga, além de estar a recuperar de um estado de pré-falência, nunca conseguirá – ou pelo menos não o conseguirá nos tempos mais próximos – pairar acima de qualquer suspeita para clubes cuja atividade vive precisamente da criação dessa mesma suspeita. Por isso, sim, embora não tivesse a obrigação de o fazer, só a Federação Portuguesa de Futebol e o seu presidente podiam encabeçar a tentativa de pacificação iniciada com o texto assinado esta semana por Fernando Gomes. Só mesmo o presidente da FPF podia escrever o que escreveu e recolher aplausos de todo o lado – tivesse sido Pedro Proença a fazê-lo e imediatamente choveriam acusações de favorecimento à esquerda e à direita, que é como quem diz a um e a outro dos grandes. E, no entanto… E, no entanto, ainda que toda a gente tenha concordado e aplaudido as palavras de Fernando Gomes, os principais clubes fizeram delas chão raso quando se tratou de as comentar, todos a apontar o dedo uns aos outros, como se as culpas do que se passa fosse apenas e só dos rivais. É por isso que digo que Fernando Gomes deu o pontapé de saída, exercendo aquilo que pode exercer, que é um magistério de influência para tentar colocar as coisas nos eixos, mas que vai ser preciso haver mais gente a fazer mais. Se o que se quer é acabar com o corrente estado de podridão – e não se julgue que isso vai acabar de um dia para o outro, porque foram anos e anos a espalhar ódio, que já se entranhou nas mais diversas camadas da sociedade e leva o comum adepto a ser mais ativo quando se trata de menorizar as conquistas dos adversários do que quando pode festejar as vitórias dos seus – é preciso fazer mais. E o mais, já o disse e escrevi, não passa por enquadrar disciplinarmente os ilícitos, porque isso haverá sempre forma de contornar, seja através de meros adeptos famosos cujo discurso não é imputável aos clubes, seja através de simples funcionários. O mais que é preciso fazer passa por ocupar o espaço mediático. Passa por, como se faz nas Ligas que deviam ser modelo para nós, forçar os clubes a permitirem que os verdadeiros protagonistas – jogadores, treinadores – apareçam nas TVs, nas rádios, nos jornais ou nos sites de informação, com simples declarações ou em entrevistas. E aqui, sim, tem de ser a Liga a chegar-se à frente e a perceber que, por muito que queira manter este equilíbrio precário em que o futebol se está a afundar, não pode manter mais o alibi segundo o qual só faz aquilo que os clubes querem. Os clubes não podem querer a auto-destruição do futebol português. Não têm nada a ganhar com isso.
2017-09-24
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Último Passe

Tive há dias oportunidade de conversar longamente acerca da indústria do futebol com Pedro Proença, presidente da Liga Portugal – o resultado da conversa é uma entrevista publicada hoje em bancada.pt –, a propósito do início do campeonato, que esta tarde arranca com o Desp. Aves-Sporting. O momento é de preocupação global, face à louca escalada dos valores que o futebol continua a movimentar, e de que o caso-Neymar foi apenas o exemplo mais recente, tendo até levado a UEFA a uma ofensiva de relações públicas que chegou aos principais jornais desportivos europeus, mas o Pedro Proença que vi foi um homem estranhamente tranquilo e paciente, qualidades que podem facilmente ser confundíveis com desistência. Os dois anos que tem de experiência do lugar tê-lo-ão trazido até aqui, mas o que tem pela frente nos dois anos que lhe falta cumprir de mandato, até 2019, é tão difícil e exige tanto do patrão do futebol nacional que esta tentativa de mudar o sistema por dentro fica a parecer curta e corre risco de ser tão estéril como a luta de um Quixote contra os moinhos de vento. Proença revelou-se bom conhecedor daquilo a que chama as “boas práticas” internacionais, mas apesar disso fala vezes a mais daquilo que os clubes querem. Porque nesta questão há aquilo que os clubes querem, julgando que estão a defender interesses próprios, e aquilo de que o futebol nacional como um todo precisa. Exemplos? Impedidos de fazer a guerra comunicacional por regulamentos disciplinares mais apertados, os clubes passaram à guerrilha, com “pontas-de-lança” que os representam na perceção popular mas não são castigáveis por serem meros adeptos ou funcionários sacrificáveis face a um bem maior, que é o passar da mensagem bélica. A Liga quer resolver o problema apelando ao bom-senso dos presidentes, recuperando um Conselho Superior que mantenha a discussão no interior do edifício do futebol, mas apesar da vontade de exercer este magistério de influência, Proença pode debater-se com dificuldades insuperáveis. Porque, lá está, falta saber se os clubes querem. As tais “boas práticas” internacionais falam-nos de medidas mais proativas, da substituição de uma estratégia punitiva por outra, que preveja a ocupação do espaço mediático com conteúdos que privilegiem os verdadeiros artistas, os jogadores e os treinadores. Já aqui falei disso há semanas, aliás. Mas também aqui a Liga se deparou com dificuldades estranhas quando toda a gente devia querer o bem do negócio: os clubes não quiseram a centralização dos direitos televisivos, que permitiria aumentar a receita de uma forma significativa e, sobretudo, dividir esta receita de uma forma mais racional entre todos, com a diminuição do fosso entre grandes e pequenos. É assim que se faz em todo o lado, com uma implicação adicional: sendo a Liga a controlar a receita, poderia impor condições para a sua divisão; sendo a Liga a controlar os direitos, poderia impor condições benéficas para o futebol aos operadores que os quisessem retransmitir. Só que, lá está: os clubes não quiseram e, ao contrário do que sucedeu em Espanha, por exemplo, a Liga não quis pedir ajuda acima, ao governo, por exemplo, para fazer vingar aquilo que está até recomendado pela União Europeia. A única carta que a Liga tem na mão é a internacionalização, a vontade dos clubes chegarem a mercados até aqui inexplorados. Para tal, Proença conta com duas vantagens: a necessidade que os operadores terão desses mercados para rentabilizar o muito que pagaram pelos direitos televisivos dos jogos e o conhecimento do mercado asiático que terá conseguido quando foi à China buscar a Ledman para patrocinadora da II Liga. Também aqui, porém, acredito que a Liga terá de contar com o contra-vapor dos principais clubes, que a esta hora já estarão a mover-se para chegarem sozinhos a esses mercados, antes dos rivais e com mais força do que eles. Pedro Proença desvalorizou esse risco com base numa premissa que me parece não se aplicar ao futebol português: o bem geral, a noção de que juntos serão mais fortes. Claro que se forem todos em conjunto, ganharão mais. Mas se isso não foi tido em conta em nenhum dos outros aspetos, por que razão há-de ser neste? A ver vamos se, daqui a dois anos, não estaremos todos a lamentar que os clubes não tenham querido explorar aquela que parece a via de ação mais recomendável. O maior prolema que enfrenta a Liga de Pedro Proença tem a ver com o princípio filosófico de ação. Proença tem tentado ser o presidente que os clubes querem e acreditado na auto-regulação. Mas como as coisas estão, tenho dúvidas de que os clubes sejam quem melhor pode defender o futuro do futebol português. 
2017-08-06
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Último Passe

Pedro Proença assumiu hoje uma posição pública de condenação do estado atual do futebol português, em artigo de opinião assinado no jornal A Bola. O presidente da Liga disparou acusações certeiras em todas as direções, falou em “comportamentos bélicos e de guerrilha”, pediu “bom senso e fair-play” e rematou sugerindo a realização de “cimeira ao mais alto nível”. Ora esse é o tipo de coisa que nunca vai acontecer – nem faz falta. Proença gostaria de aparecer como pacificador, como responsável pela união dos irmãos desavindos, não só porque isso seria bom para o futebol mas também porque daí retiraria algum crédito para ele e para a Liga a que preside. A questão é que estes irmãos não querem ser reunidos. Isto não vai lá com cimeiras – é preciso agir. A leitura da situação, o presidente da Liga fê-la bem. Há falta de bom-senso, há falta de fair-play, há excesso de vontade de ganhar a qualquer preço. O problema é que o que aqui nos trouxe continua a estar na ordem do dia. Todos os anos, há apenas um campeão e três clubes capazes de apostar a vida para o serem. E esses três clubes já entenderam que no faroeste em que se transformou o futebol em Portugal vale de facto tudo. Luís Filipe Vieira teve razão quando apontou excesso de demagogia e populismo a Bruno de Carvalho. Este, por sua vez, também teve razão quando mencionou o terrorismo comunicacional do Benfica. O problema é que ambos podiam, no caso, estar a referir-se à atuação dos seus clubes também. Com as mesmas palavras. Para já, os três candidatos ao título estão concentrados na necessidade de ganhar e foi para isso que delinearam estratégias comunicacionais que passam pela destruição moral dos opositores. O Sporting fá-lo através do presidente, às vezes do diretor de comunicação; o Benfica fá-lo através dos seus comentadores televisivos e por vezes do próprio presidente; o FC Porto começou recentemente a fazê-lo através do diretor de comunicação, depois de o fazer por intermédio do Dragões Diário, já que o presidente anda mais arredado destes palcos do que no tempo em que assumia a guerrilha em nome pessoal e de peito aberto. Se isto resulta ou não, depende. Resulta para quem ganhar o campeonato. E não é de um dia para o outro – nem muito menos numa cimeira pública e de perfil elevado – que se lhes explica, ao que ganhar mas também aos que perderem, que todos juntos estão a transformar o futebol português numa lixeira e que o campeão da lixeira será isso mesmo também: lixo. O que pode então fazer a Liga? Não pode controlar os meios de comunicação – ainda que isso devesse ser mais bem feito por uma ERC que tem pecado por total e absoluta ausência de regulação. Não pode de repente juntar os três clubes à mesma mesa, porque eles não querem estar sequer na mesma bancada. A única saída da crise, já o disse, passa pela ação. Não dá as mesmas chances de fotografia que uma cimeira de presidentes sorridentes, mas apresentará muito mais resultados a médio e longo prazo. Proença tem duas armas terríveis nas mãos: a gestão da disciplina, pela qual pode punir os prevaricadores, mas sobretudo os direitos sobre o futebol em Portugal. Como sou liberal por natureza, não acredito em proibições – não se pode proibir as pessoas de falar e, se o que elas têm para dizer é mau, não se pode proibi-las de falar mal. Mas acredito na ocupação desse espaço mediático com aquilo que o futebol tem de bom para oferecer: treinadores, jogadores, árbitros, adeptos verdadeiros. E isso, a Liga pode fazer. É só querer.
2017-04-25
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Último Passe

Os mais mil e trezentos milhões de euros injetados em três clubes de futebol pelas principais operadoras de TV por cabo nas últimas semanas vieram agitar o futebol nacional e merecem uma explicação. Ao mesmo tempo que os adeptos querem sobretudo ver escrito que o seu clube fez o melhor negócio dos três - seja ele qual for -, essa medição é o que menos me interessa, porque só é feita por quem vê o futebol como um exercício de culto da personalidade, seja ela a de Luís Filipe Vieira, de Pinto da Costa ou de Bruno de Carvalho. Mais interessante é perceber como é que isto foi possível e o que vai acontecer daqui para a frente.É verdade que o panorama de rivalidade fortíssima entre os clubes, que está na génese das tais atitudes de confronto do adepto comum, ajudou a potenciar todos os negócios, porque contribuiu para o crescimento da concorrência: todas as operadoras temem o efeito de rejeição dos adeptos de um clube excluído. Mas a chave destes negócios esteve na decisão tomada há tempos pela autoridade da concorrência, quando impediu a entrada da PT no capital da Sport TV e impôs que os contratos existentes expirassem em 2018, matando a cláusula de preferência que eternizava o domínio exercido pela PPTV de Joaquim Oliveira no direitos de TV do futebol.Se o aparecimento da concorrência e o desaparecimento do intermediário ajuda a explicar de onde veio o dinheiro, já me parece impossível definir quem dos três fez o melhor negócio, porque fruto da tal predisposição para o culto do líder, todos os clubes acabaram por meter mais e mais coisas nos contratos para poderem subir o montante final de cada contrato, que é o que faz manchetes nos jornais e motiva a discussão dos adeptos. Creio que os tempos da gestão irresponsável ds operadoras estão bem lá atrás e que tanto a Nos como a Altisse pagaram um justo valor, não pelo que os direitos valem agora mas sim pelo que poderão valer nos próximos dez anos, com a criação de novas plataformas e o aparecimento em Portugal de realidades como o Pay Per View.Aliás, essa é uma das inquietações que me assaltam neste momento. É que se é mais ou menos claro que até 2018 - até os jogos do FC Porto passarem para a Altice - o futebol vai ficar concentrado na Sport TV, onde a Nos deverá querer meter o Benfica, a dúvida é acerca do que acontecerá depois. Quererá a Altice criar um novo canal de desporto - diz-se até que já está a negociar com outros clubes nesse sentido - para concorrer com a Sport TV? E com os valores que ambos estão a pagar aos clubes, poderão estes dois canais ser rentáveis a médio prazo, tendo só metade do futebol? É que, ainda por cima, apesar de a Liga de Proença estar a falhar o encontro com a história ao perder a oportunidade de centralizar pelo menos as negociações dos clubes além dos três grandes - se 17 jogos de um dos grandes em casa valem 400 milhões por dez anos, 45 jogos dos três fora de casa valerão seguramente mais de mil milhões - ainda há muito dinheiro a gastar para assegurar todo o futebol. E os pequenos têm de entender que nesta guerra não são de todo um verbo de encher.
2015-12-29
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Quase todos crescemos a ouvir dizer que Portugal é um país louco por futebol. Vemos os programas acerca de futebol proliferarem nas televisões, as transmissões dos jogos de futebol baterem recordes de audiências. Mas depois chega-se à altura em que percebemos que a esmagadora maioria dos negócios à volta do futebol são deficitários. Os clubes precisam de vender jogadores para pagar salários, os jogadores precisam de emigrar, há jogos com menos de mil espectadores na nossa maior Liga…. Os jornais perdem vendas, não temos uma revista de grande circulação sobre futebol. Tentei durante anos pôr de pé esse projeto, que esbarrou sempre na mesma parede: as marcas não querem associar o nome ao futebol e já se sabe que sem publicidade não há revistas. Parece um contrassenso? Mas não é. É que os portugueses não gostam de futebol. Gostam do escapismo que o futebol lhes permite, da possibilidade que têm de se insultar ao abrigo das rivalidades do futebol. Já todos ouvimos que os portugueses, na verdade, não gostam de futebol – gostam dos seus clubes, aprenderam a gostar da seleção em períodos de sucesso, mas gostam acima de tudo de odiar os clubes dos outros. Só assim se explica que passemos horas de televisão a discutir penaltis, foras-de-jogo, mãos na bola e bolas na mão, intencionalidades ou falta delas e depois não sejamos capazes de aceitar factos ou de debater técnica, tática, estratégia... Essa é, para todos nós, para todos vós, a parte aborrecida. Quando comecei a andar no futebol, antes de as televisões colonizarem as conferências de imprensa com os seus diretos, sempre na busca do “soundbyte”, ainda apareciam perguntas dessas. Depressa foram erradicadas porque não levavam a declarações bombásticas. Por isso, um dia como o de hoje, com queixas do Benfica acerca do Sporting, com queixas do Sporting acerca do Benfica, é o máximo a que podem aspirar os “adeptos” de futebol. Comunicados e contra-comunicados, tiros nos pés e momentos flagrantes de auto-flagelação. Haja animação! O problema é que esta lógica das queixas permanentes – que está no sangue dos portugueses – é a génese de todos os problemas. Do défice à falta de patrocinadores, com passagem pela falta de liquidez. Simpatizo com as ideias de Bruno de Carvalho, como o vídeo-árbitro ou o ataque aos fundos de investimento, mas desagrada-me a vitimização e a pressão permanentes. Simpatizo as atuais ideias de Luís Filipe Vieira, como a discrição em defesa do negócio do futebol, mas aborrece-me que só tenha chegado a elas quando começou a ganhar mais vezes do que as que perdia. Simpatizei com a eleição de Pedro Proença, por ser alguém que conhece o futebol profissional de altíssimo rendimento por dentro, mas chateia-me que ainda não tenha posto mão no problema. É que, no fundo, os portugueses não são loucos por futebol. São só loucos.
2015-12-01
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Último Passe

O futebol português repete há décadas o mesmo padrão de comportamentos entre os três grandes, acentuado desde que passou a ter duas vagas garantidas nos milhões da Liga dos Campeões. Ao fim de muitos anos, continuo sem estar convencido que daí advenham benefícios reais, que tudo não passa de uma ilusão de controlo, mas a verdade é que um dos clubes se sente geralmente confortável, outro não tanto, e por isso agita-se, de forma a evitar perder a posição de conforto, enquanto um terceiro vai fazendo barulho no intuito de a ela aceder. Podem mudar os protagonistas – e já mudaram algumas vezes, nos últimos anos – mas não muda o cariz desta dança das cadeiras, sobretudo por duas razões. É que quem manda quer o apoio dos grandes – e com o apoio de dois deles, assegura que continua a mandar – e quem não manda continua a ser muito seletivo na perceção dos males que afetam o futebol. Neste momento, apesar de não ter ganho nada na época passada, o FC Porto ainda é quem se sente mais confortável e, seja por isso ou por já ter conseguido um estatuto europeu muito difícil de igualar nos tempos modernos, que o deixa a cobro de surpresas, vai mantendo o silêncio nos canais oficiais, limitando-se a alguns textos mais mordazes nos seus órgãos de informação. Sempre sem comprometer os seus dirigentes. O Benfica, que no final da última década, antes da chegada de Jorge Jesus ao clube, era quem mais barulho fazia – contrastando com o silêncio do Sporting, que não ganhava Ligas mas ia acumulando segundos lugares, Taças de Portugal e Supertaças – calou-se quando ganhou três campeonatos em seis anos. E o Sporting encontrou na eleição de Bruno de Carvalho o despertar que o levou a assumir a posição de principal contestatário da situação, somando intervenções que dão azo a polémicas infindas. Até aqui, nada de novo, portanto. Um dia, porém, isto vai ter de parar. Porque aquilo que o Benfica e os opinadores que o clube tem nas diversas televisões dizem agora é verdade: o ataque continuado às instituições não dá boa imagem ao setor e acaba por prejudicar o negócio como um todo. Basta seguir o exemplo inglês e ver o que acaba de acontecer a Mourinho: 40 mil libras de multa e um jogo de suspensão por confrontar um árbitro. Em Portugal, na verdade, nunca será possível encontrar um momento zero, um momento em que todos estejam iguais, a partir do qual se faça “reset” e as coisas comecem a funcionar como deve ser. O momento atual, na verdade, é tão bom como qualquer outro, pelo que o pedido de um inquérito disciplinar às declarações de Bruno de Carvalho sobre a nomeação de Jorge Ferreira para o Sporting-Estoril faz todo o sentido. Mas seria bom que aqueles que agora se queixam – Conselho de Arbitragem e APAF, acima de todos – tivessem sentido a mesma vontade de inquirir, por exemplo, quando Marco Ferreira fez as acusações que fez a Vítor Pereira. É que o momento zero exige que se vá ao fundo de todas as questões. Todas. Nem que, se fosse caso disso, sirva para se concluir que o ex-árbitro internacional estava a ser manobrado.
2015-11-02
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Luís Filipe Vieira tem razão quando pede a Pedro Proença que aja. O futebol português já tem problemas suficientes para ainda andar constantemente a dar tiros nos pés, a espantar os potenciais patrocinadores com o levantamento de suspeitas. Sei do que falo. Já há 20 anos que defendo a aplicação de uma regra semelhante à que vigora em Inglaterra muito antes da Premier League, em que quem “provoca má reputação ao futebol” é severamente punido. Já o defendo desde o meu início de carreira, ligado ao futebol internacional, ainda Bruno de Carvalho andava na Juventude Leonina, ainda Luís Filipe Vieira estagiava no Alverca para vir a ser presidente do Benfica. Bruno de Carvalho, de facto, resiste mal aos microfones, às luzes das câmaras, que o levam sempre a passar à ação. Tem abusado do tempo de antena, e isso nota-se sobretudo quando não tem nada de novo para dizer, quando vem ofuscar aquilo que os jogadores vão conseguindo no campo. Mas se lhe condeno o repisar permanente do assunto, já não posso condenar as revelações que fez. Porque não sou eu quem tem de distinguir entre a oferta dos jantares aos árbitros, a fruta e o café com leite ou as máquinas fotográficas dadas noutros tempos. Não sou eu quem tem de dizer se uns devem descer de divisão e outros não. Já aqui escrevi aquilo que acho: não me interessa se as ofertas levam diretamente a benefícios, se são mais ou menos valiosas, mas nenhum clube devia oferecer aos árbitros nada que não tenha a ver com a tarefa que eles estão a desempenhar. E por isso acho que Vieira tem razão quando pede a Proença que aja. O presidente da Liga já devia ter agido para perceber realmente o que se passa ou passou e punir os prevaricadores, se tal se revelar justo. Só a Liga, através dos seus órgãos disciplinares, poderá estipular se o que se passou agora é ou não grave e que castigos deve ou não merecer. Andar um presidente de clube constantemente a dizer que ouro deve descer de divisão não é positivo. Como o não era ter o canal de televisão de outro clube a repetir “ad nauseam” as escutas do Apito Dourado, quando o seu presidente achava que ainda era preciso credibilizar o futebol nacional. Sim: um dos problemas do futebol português é que toda a gente tem rabos-de-palha e ninguém se queixa quando ganha. E alguém tem mesmo de agir, de fazer um risco no chão e dizer: “a partir de agora, chega!” Pode ser Pedro Proença. Mas se quer mesmo conduzir esta locomotiva, tem de a pôr em andamento. E vai-se fazendo cada vez mais tarde.
2015-10-29
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Último Passe

em os interesses globais à frente da estratégia clubística ou da vaidade. O pior é que não têm abundado.Evangelista colocou o dedo na ferida ao falar do licenciamento. Mas também o teria feito se falasse de outra questão: é que elas estão todas ligadas. A verdade é que o licenciamento para jogar na Liga tem de facto sido uma farsa. É uma farsa porque se fecham os olhos quando devia ter-se uma cultura de exigência. E não é só porque se permite que clubes paguem compromissos com o estado à custa de antecipação de receitas televisivas - algo tão próximo do tráfico de influências que assusta quem está de fora - ou porque se ignoram casos flagrantes de incumprimento simplesmente para não provocar ondas. É uma farsa porque os próprios critérios de licenciamento já são em si pouco exigentes, pois colocam a quantidade à frente da qualidade e continuam a permitir, por exemplo, que haja equipas sem adeptos a participar na prova de elite.A reforma é precisa, mas não creio que possa ser o Gil Vicente a liderá-la, conforme sugeriu Evangelista. Não só por falta de peso institucional mas acima de tudo porque os gilistas também só se queixaram quando lhes tocou a fava do bolo-rei e desceram de divisão. A reforma poderá fazê-la o sindicato, historicamente uma força progressista na realidade do futebol nacional, mas para isso precisará da Liga e que Pedro Proença seja capaz de dar um passo em frente relativamente aos interesses que o elegeram. O global sempre à frente do particular: tudo se resume a isso...
2015-08-21
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Pedro Proença é o novo presidente da Liga de clubes. Dele e de quem o acompanha espero o seguinte compromisso:1. Que seja, como já disse, o presidente de todos os clubes, quer o tenham apoiado ou não, rompendo com o passado de lobismo que só envergonha o futebol nacional;2. Que traga para a Liga o know-how e o profissionalismo com que conviveu nas grandes competições internacionais em que marcou presença;3. Que dê o contributo necessário em clareza nas decisões para se acabar com as suspeições no que toca à arbitragem e disciplina, os cavalos de batalha de todos os dirigentes antigos;4. Que consiga acabar com o feudalismo no futebol nacional, o sistema no qual quem não tem receita só sobrevive prestando vassalagem a interesses superiores, sejam eles clubes grandes ou grupos de interesse. É isso só será possível através de uma distribuição mais igualitária da receita nascida nos direitos televisivos;5. Que mantenha na presidência da Liga a atitude é o profissionalismo que teve enquanto árbitro internacional: pode errar, mas apenas se o fizer convicto de que está a fazer o mais correto.6. Que acabe de uma vez por todas com o futebolzinho pequenino que se auto-destrói em cada declaração;7. Que seja implacável com os não cumpridores, seja em pagamento de salários, impostos ou obrigações sociais. Sem subterfúgios; 8. Que crie um nível de exigência para se pertencer à elite, impedindo quem não tem público de jogar o seu campeonato.Para cumprir este compromisso é muito provável que tenha de afrontar muitos interesses, incluindo alguns de quem até hoje o apoiou em nome de interesses eles também inconfessáveis. Espero que vá até ao fim. xpto data asd asd asd asd asd asd asd asd ad asd asd ads asd ads
2015-07-28
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