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Último Passe

A ver Bruno de Carvalho e Pedro Madeira Rodrigues debaterem com vista às eleições do Sporting lembrei-me várias vezes de uma corrida de 400 metros. Os dois candidatos à presidência assemelhavam-se a dois atletas que, cada um na sua pista, iam traçando percursos paralelos, sem nunca se cruzarem. Madeira Rodrigues, o desafiante, focava-se nos aspetos que julga mais negativos no mandato do atual presidente e dizia que com ele tudo ia ser diferente. Bruno de Carvalho, por sua vez, centrava atenções no que considera serem as suas maiores vitórias e agitava documentos para as "provar", quase nunca dando respostas convincentes às críticas que lhe iam sendo lançadas. Resultado: as únicas vezes em que cruzaram argumentos foi acerca dos insultos que um e outro foram registando durante a campanha ou na questão das comissões, em que um disse uma coisa e outro disse outra. Duvido que um único sócio do Sporting tenha hoje mudado o seu sentido de voto. Depois de ver os dois candidatos, quem era de Bruno de Carvalho vai continuar a ser de Bruno de Carvalho e criticará a atuação de Pedro Madeira Rodrigues e o facto de o desafiante quase se ter limitado a despejar frases feitas acerca do que quase toda a gente vê de negativo no presidente: a obsessão com o Benfica, o culto da personalidade, a dificuldade para aceitar opiniões divergentes... Por sua vez, quem era de Pedro Madeira Rodrigues continuará a ser de Pedro Madeira Rodrigues e a reparar que em vez de dar respostas concretas às críticas que lhe eram feitas, o presidente fugia para os temas em que se sentia mais confortável, como quando ripostou ao desequilíbrio entre despesas e receitas operacionais com o saldo positivo entre vendas e compras na equipa de futebol.  A verdade é que, mesmo tendo passado todo o debate ao ataque, Madeira Rodrigues nunca disse como poderá fazer melhor aquilo que entende que Bruno de Carvalho fez mal - só que vai fazer melhor. E, mesmo tendo quase sempre dado a sensação de que estava ali apenas a cumprir um pró-forma, Bruno de Carvalho também nunca fez qualquer ato de contrição relativamente ao que lhe correu pior: a rábula de ter uma média de taças por ano superior à média geral do Sporting é um passo atrás relativamente ao discurso ambicioso de quem há quatro anos ia mudar o Mundo leonino e fazer do Sporting muito grande outra vez. Se o debate serviu para alguma coisa foi para que Madeira Rodrigues se desse um pouco mais a conhecer. De Bruno de Carvalho já todos sabem o que é - é aquilo que tem feito, com coisas positivas e outras negativas. Já o desafiante mostrou trazer o discurso preparado, os soundbytes bem alinhados e decorados e até valer mais do que aquilo que a perceção geral lhe concede em termos de reais possibilidades de vir a ser presidente do Sporting já este ano. A não ser que haja uma grande surpresa daqui até dia 4 de Março, Bruno de Carvalho vai ser re-eleito para mais um mandato à frente do Sporting. Pedro Madeira Rodrigues poderá capitalizar os votos que vier a acumular para se constituir como alternativa válida, como oposição que nenhum dos três grandes clubes portugueses verdadeiramente tem. Se quiser vir a contar, o candidato perceberá que a sua melhor aposta é no médio e no longo prazo e que a corrida que mais lhe interessa não é de 400 metros. É uma maratona.
2017-02-23
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Artigo

Os resultados da equipa de futebol serão evidentemente um aspeto a ter em conta pelos sócios do Sporting quando forem chamados a eleger os corpos sociais do clube, em Março. O quarto lugar na Liga, somado à eliminação prematura em todas as outras competições, tem sido a maior arma potencial à mercê da oposição a Bruno de Carvalho. No entanto, os sócios não vão votar em jogadores nem em treinadores – vão eleger quem acharem mais capaz de liderar o clube num rumo que lhe permita ter bons jogadores, bons treinadores e, em resultado disso, bons resultados. Nesse aspeto, Bruno de Carvalho soube dar a volta à má situação desportiva que a equipa vive: ao arregimentar Jorge Jesus para o seu lado da barricada – o que também tem o seu quê de discutível… – expôs Madeira Rodrigues a uma contradição que certamente não ajuda nada o candidato nos esforços para convencer quem pudesse estar insatisfeito com a atual liderança. O que está aqui em causa não é Jorge Jesus. Haverá quem concorde com Bruno de Carvalho, que continua a dizer que o treinador é fundamental para o projeto, como haverá quem veja nele a causa de todos os males e queira vê-lo pelas costas como condição imprescindível para um Sporting ganhador. Isso, para o caso, é irrelevante. O que está aqui em causa é a estratégia de cada candidato para o futuro do clube e sobretudo a perceção que os sócios têm dela. Bruno de Carvalho foi inteligente e conseguiu anular um pouco do efeito dos maus resultados nesta campanha eleitoral. Foi desses maus resultados que nasceram as notícias em torno do afastamento entre presidente e treinador – as primeiras páginas dos dois maiores jornais desportivos de anteontem, com o Record a anunciar a união e A Bola a decretar a distância entre os dois são antológicas – e as consequentes reflexões, que levaram a oposição a acusar Bruno de Carvalho de querer sacrificar Jesus para salvar a pele. Ora, pelo menos publicamente, aquilo que o presidente fez foi exatamente o contrário: chamou Jesus para o seu lado, convidou-o para a Comissão de Honra e passou para a opinião pública a ideia de que está com os seus até ao fim. Sendo que Jesus passou oficialmente a ser um dos dele. Colocado perante este cenário, o que podia fazer Jorge Jesus? Ora aqui há vários planos possíveis de análise. O mais normal era que o treinador, funcionário pago do clube, se recusasse a fazer parte de qualquer candidatura. Isso, porém, era supondo que vivíamos uma situação normal. Esta não é uma situação normal, fruto dos tais maus resultados e das notícias em torno dos desencontros entre presidente e treinador. Se recusasse o convite público de Bruno de Carvalho, Jesus estaria a assumir em nome próprio o ónus da separação e a legitimar desde logo qualquer iniciativa de rutura que nascesse na outra parte. Assim sendo, só restava a Jesus aceitar. Ele até é sócio do Sporting há décadas, sempre se soube que era sportinguista, mesmo quando treinava o rival Benfica, pelo que puxou do seu direito a ter algo a dizer sobre o futuro do clube e juntou-se ao rol dos apoiantes da reeleição de Bruno de Carvalho. Jesus defendeu a sua posição e deu ao presidente-candidato um ás para jogar na próxima puxada: este pode assim alegar que é coerente, que defende o seu treinador, chamando-o para o seu regaço mesmo num momento como este, que é de dificuldades. A questão é que Bruno de Carvalho estava, neste caso, numa situação “win-win”: a alternativa deixava-o com razão para romper a aliança quando quisesse (e ainda há vários jogos até às eleições, onde, assumindo o pior cenário, isso podia dar-lhe jeito). Já Pedro Madeira Rodrigues, pelo contrário, ficou numa situação “loose-loose”. E só porque se precipitara ao anunciar, logo na apresentação da sua candidatura, em Dezembro, que contava com Jorge Jesus. “É o nosso treinador”, dissera na altura, apenas para agora se ver forçado a dizer que não contará com ele caso ganhe as eleições. Face à integração de Jesus na Comissão de Honra de Bruno de Carvalho, podia Madeira Rodrigues fazer outra coisa? Creio que não. Mas a ideia que passa é a de uma estratégia de cata-vento ou pelo menos a de alguém que não equacionou todas as variáveis possíveis antes de anunciar uma medida programática como é sempre a da escolha do treinador da equipa de futebol. Mas isto, afinal, é só política.
2017-01-22
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Último Passe

No dia em que se apresentou um novo – e até ver primeiro – candidato à presidência do Sporting, a tentação será a de se olhar para a lista de Pedro Madeira Rodrigues e procurar entre os seus apoiantes um grupo de adeptos “notáveis” que garanta credibilidade e uma boa hipótese de sucesso na ida às urnas. O Sporting, porém, mudou muito desde que o grupo que o liderou nas últimas décadas caiu em desgraça, levando à eleição de Bruno de Carvalho. E as eleições nos maiores clubes nacionais também.No Sporting, que ainda assim é o único dos três grandes onde as eleições vão para além de um formalismo (e a isso não é estranho o facto de ter ganho muito menos do que os rivais nos últimos anos), o apoio desses tais “notáveis” seria mais um empecilho do que uma real vantagem. Foi em boa parte esse beijo da morte que custou a José Couceiro, uma das melhores e mais modernas cabeças do futebol português, a derrota nas eleições que conduziram Bruno de Carvalho ao trono do leão. A última coisa que poderá acontecer nas eleições de Março é, por isso, vermos um candidato saído do grupo de herdeiros do roquetismo, o movimento que mandou no clube entre meados dos anos 90 – com Pedro Santana Lopes – e a demissão de Godinho Lopes, há três anos. Mesmo que nesse lote de presidentes tenha havido homens tão diferentes como o impulsivo Dias da Cunha, o mais fleumático Soares Franco ou até o patriarca Roquete.O peso dessa liderança e a revolução que foi a sua queda, para abrir caminho a Bruno de Carvalho, faz com que neste momento não se discutam tanto ideias e projetos, mas sim a figura do atual presidente. Talvez ainda seja cedo, mas a Madeira Rodrigues ainda não se ouviu grande coisa acerca do que pretende fazer, mas sim sobre aquilo que o líder atual tem feito de errado: as fugas para a cabina em noites de derrota, as voltas olímpicas em dias de vitória e até a forma dissimulada de falar da obsessão de Bruno de Carvalho com o Benfica, referindo que os anos que este já leva à frente do clube foram de títulos, sim, mas para os encarnados. No fundo, Pedro Madeira Rodrigues e quem está com ele já perceberam uma coisa: nas eleições de Março, mais do que o Sporting, vai discutir-se Bruno de Carvalho. O que ele fez bem – renegociação com a banca, mais dureza nas negociações de jogadores, apoio ao vídeo-árbitro e combate aos fundos – e o que ele fez mal – posições que estão muito perto da irresponsabilidade na relação com outros clubes, radicalismo excessivo naquilo que defende. Até por isso, o candidato diz que espera um combate a dois. É que já sabe que quanto mais gente aparecer a querer discutir Bruno de Carvalho, menos hipótese terá cada um de convencer os votantes dos seus méritos particulares. Até por isso, sem ter ainda desfeito o tabu que evidentemente levará à sua recandidatura, o presidente já veio dizer que todos os candidatos serão bem vindos. Quantos mais, melhor.
2016-12-27
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