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Último Passe

A presença do presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, no programa “Prolongamento”, da TVI24, onde tem cadeira o adepto benfiquista Pedro Guerra, agitou o panorama futebolístico nacional mas não por ali terem sido feitas revelações bombásticas ou por se terem esclarecido casos importantes. Na verdade também ninguém estava à espera que isso acontecesse. Nem Bruno de Carvalho, que aceitou sentar-se a debater com o mais retorcido dos “adeptos públicos” do rival, só para o menosprezar, excluindo-o várias vezes da conversa; nem Pedro Guerra, que sabia que entrava num combate desigual, por estatuto e até por deferência da estação televisiva para com o convidado, no qual o mais que podia fazer era agitar os braços atrás de resmas de papel e gritar as frases de propaganda com que tem feito carreira mediática; nem a própria TVI, que tinha a obrigação de saber que isto ia acontecer e apenas terá visto no programa a aproximação mais próxima possível aos “reality shows” com que tomou de assalto as tabelas de audiências. Uma “Quinta dos Presidentes”. A motivação de Bruno de Carvalho para estar ali era clara. Defender o Sporting, defender-se a ele próprio do ataque que tem vindo a ser conduzido pelo site “Football Leaks” – e nunca como hoje o Sporting e o seu presidente são tantas vezes confundidos, pelo uso repetido da primeira pessoa do singular por parte deste quando fala do clube – e meter na ordem o agitador Pedro Guerra. Podemos achar que um presidente do clube não devia colocar-se a este nível e ir debater com alguém que nem sequer é dirigente mas sim assalariado do rival, mas na verdade tanto Pinto da Costa como Luís Filipe Vieira o fizeram em tempos, antes de assumirem a atual pose de estadistas. Já várias vezes disse que o que me separa de Bruno de Carvalho não são tanto as ideias – já defendo o vídeo-árbitro e considero os fundos de investimento uma ameaça à transparência do futebol muito antes de Bruno de Carvalho ter sido eleito – mas sim o estilo, a forma populista como o presidente do Sporting usa a linguagem mordaz e desrespeitosa para garantir o apoio das faixas mais radicais de adeptos do clube. E ao aceitar sentar-se num programa onde está Pedro Guerra, Bruno de Carvalho não podia presumir que ia falar apenas com o moderador, Joaquim Sousa Martins. Como não presumia, de facto. Bruno de Carvalho foi ao prolongamento para esvaziar Pedro Guerra – e nisso esteve o seu equívoco. Porque os sportinguistas acharão hoje que o fez muito bem – com o bónus do seu próprio momento Football Leaks, que foi a caixa com as ofertas do Benfica aos árbitros, vindo de um remetente “anónimo” – e os benfiquistas acharão que o fez muito mal. Os neutros é que ficaram todos na mesma. Já Pedro Guerra tinha razões para sentir orgulho no que estava a acontecer-lhe. A atualidade colocou-o para Bruno de Carvalho como em tempos esteve João Malheiro para Pinto da Costa, com a vantagem de poder debater cara a cara, coisa que sempre esteve vedada àquele. Ao contrário de Malheiro, Guerra é um super-preparado obsessivo, faz-se acompanhar de dezenas de dossiers, conhece-os a todos com minúcia, mas a verdade é que nem o curso de direito e a oratória de tribunal lhe garantem o apoio popular entre benfiquistas que tinha o diretor de comunicação da voz de trovão. De Pedro Guerra separa-me muita coisa, das ideias ao estilo. A começar pelo facto de já ter mentido a meu respeito na televisão sem eu lá estar para me defender e a terminar na constatação de que a dureza das suas certezas absolutas não tem correspondência na facilidade com que as altera: basta uma visita rápida à internet para ver o que disse em momentos diferentes acerca de Jorge Jesus, desde a sua não-aposta na formação até ao seu comportamento enquanto cidadão. Guerra não ganhou o debate, mas também nunca poderia ganhá-lo, porque o campo estava naturalmente inclinado a favor do convidado, que era quem tinha de falar e cedo se recusou a falar com ele diretamente. O mais que podia fazer era o que fez e que faz sempre: levantar suspeitas e depois, impedido que estava de as concretizar por respeito do moderador do programa ao convidado, queixar-se dele, do árbitro, que o impedia de se adiantar no marcador. No fundo, Pedro Guerra esteve para o “Prolongamento” como os sportinguistas estão para o “sistema” quando perdem jogos no campo. Quem já lhe apreciava o estilo vai achar que ele fez bem o seu papel, quem não se revê nele encontrou ali mais do mesmo. Por fim, a TVI queria audiências e certamente deve tê-las tido, pois o programa foi “trending topic” nas redes sociais. Alegarão os mais puritanos que não houve esclarecimento, mas contar com isso era um pouco como ver a “Casa dos Segredos”, o “Big Brother” ou “A Quinta das Celebridades” em busca de elementos credíveis para uma tese acerca de comportamento humano. Não era esclarecimento que estava prometido. Era confronto, era um “reality show”. E qualquer telespectador que venha agora fingir que não sabia disso está a ser tão retorcido como os participantes naqueles programas de adeptos, para quem a verdade é uma coisa manejável. Porque, como dizia o Dr. House acerca dos religiosos fervorosos, “se fosse possível discutir razoavelmente com adeptos radicais, não haveria adeptos radicais”.
2015-10-06
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