PESQUISA 

Artigo

A equipa. Não restam muitas dúvidas nem entraves ao consenso. Portugal foi evoluindo à medida que a competição foi avançando e terá encontrado o seu onze de gala na fase decisiva. Hoje o onze titular deve ser igual ao que bateu Gales, com as entradas dos dois jogadores que nessa altura estavam impossibilitados de jogar: Pepe (lesionado) e William (castigado). A seleção deve assim entrar de início com cinco jogadores que começaram a prova como suplentes: Cédric, José Fonte, William, Adrien e Renato. Não tendo sido propositado, esse fator acaba por funcionar a favor da equipa portuguesa, que soma a esse menor peso da prova nas pernas o dia-extra de repouso que estranhamente a equipa organizadora cedeu ao adversário no desenho do calendário. A esperança portuguesa é a de que isso venha a ser decisivo. A estratégia. Portugal é uma equipa difícil de contrariar, porque é uma espécie de camaleão do ponto de vista estratégico. Nunca se sabe muito bem como a equipa vai entrar em campo, porque ela se centra tantas vezes na melhor forma de contrariar o adversário e tão poucas numa identidade própria. Foi assim nos três jogos que a seleção já fez a eliminar nesta prova. Hoje, a estratégia portuguesa pode passar por duas ideias fortes: impedir que as movimentações de Griezmann e Payet se tornem letais no espaço central e não deixar que Pogba e Matuidi empurrem o bloco para perto da baliza de Rui Patrício. Muito se vai jogar, portanto, no meio-campo, sendo que a mobilidade dos jogadores de segunda linha franceses não aconselha a que Portugal mantenha as referências individuais que tem vindo a utilizar com frequência – fê-lo, por exemplo, com a Croácia ou a Polónia. Se o que interessa é controlar as movimentações de Griezmann, há que manter William posicional à frente dos defesas, mas não lhe dar ordens para ir atrás dele, porque se o espaço vaga aparece lá Payet, vindo da esquerda. Se Payet não é tão perigoso pelas idas à linha de fundo para cruzar ou pela largura, mas sim pelas diagonais da esquerda para o meio, há que ter Renato Sanches a fechar esse espaço, permitindo-lhe até que se junte muitas vezes a Adrien mais por dentro, de forma a igualar o duelo com Pogba e Matuidi. Se Pogba e Matuidi gostam de chegar perto da área, de empurrar a equipa para a frente, há que ganhar-lhes as costas, seja através da saída de bola de William, da explosão de Renato, de tabelas com Adrien ou de desmarcações de apoio de Nani ou Cristiano Ronaldo. O jogo. A França vai ter mais bola. Isso parece evidente à partida, ainda que Portugal chegue a esta final com maior percentagem de posse que os donos da casa (53% contra 52%). A chave do jogo para Portugal vai, por isso, estar em grande parte nos comportamentos sem bola, na forma como a equipa for capaz de fechar os espaços, mas também nos momentos de transição ofensiva. A zona central da defesa francesa melhorou com a entrada de Umtiti para o lugar de Rami, mas ainda é a mais vulnerável no jogo francês, pelo que as movimentações de Ronaldo e Nani podem vir a ser fundamentais. O mais certo é Deschamps acabar por pedir aos seus laterais que joguem muito perto dos centrais, sobretudo no lado mais longínquo do campo, para evitar situações de dois para dois que podem ser potencialmente perigosas. Mas onde tudo vai decidir-se é mais atrás, na capacidade que Portugal vier a ter (ou não) de queimar as linhas francesas em contra-ataque. O favoritismo. A França entra como favorita. Fez um Europeu mais convincente, joga em casa e ganhou os dois particulares que fez contra Portugal nos últimos dois anos. O que se jogou aqui, no Stade de France, foi mesmo a estreia de Fernando Santos e começou de forma trágica para uma equipa portuguesa que foi completamente atropelada nos primeiros minutos. Mas isso não quer dizer que ganhe. Esta equipa portuguesa é muito difícil de derrotar. Basta olhar para os últimos dez anos. Em fases finais (2006, 2008, 2010, 2012, 2014 e agora 2016), descontando a meia-final de 2012, resolvida nos penaltis, Portugal só perdeu seis jogos: quatro vezes com a Alemanha (no jogo pelo terceiro lugar de 2006, nos quartos-de-final de 2008, na fase de grupos de 2012 e 2014), uma com a França (na meia-final de 2006), uma com a Espanha (oitavos-de-final de 2010) e outra com a Suíça (num jogo irrelevante de 2008, que a seleção jogou com vários suplentes). Dessas seis derrotas, duas foram contra a equipa da casa e outras duas contra o futuro campeão. Mau agoiro para o jogo de hoje? A tradição e o desdém. Diz o registo histórico que Portugal não ganha à França há 41 anos. Desde que a bateu em Paris, em 1975, num jogo particular. Mas Fernando Santos tem sido pródigo em acabar com as tradições. Foi assim quando Portugal ganhou à Itália como assim foi quando bateu a Argentina. Isso pesa zero no que há-de acontecer mais logo. Como zero pesa o facto de todos os analistas franceses acharem que Portugal não joga nada e que a França ganhará facilmente. É no campo que vai ver-se.
2016-07-10
LER MAIS

Último Passe

Payet saiu, chorou e riu, porque tinha acabado de marcar um golão e de dar à França a tão ansiada vitória no jogo de abertura, contra a Roménia (2-1). As lágrimas eram de comoção, porque aquele era um encontro com a história que ele não queria falhar e que a ovação do Stade de France não deixou passar em claro. O riso, esse, era de alívio nervoso, de descarga de adrenalina depois de ter visto o problema resolvido, mas certamente também de alegria genuína por ter percebido que é o principal criativo e um dos poucos que para a pensar o jogo numa seleção de França que para já mostrou músculo a mais e ideias a menos. O futebol de Payet, por isso, contrasta. Não tem a potência de Pogba, a geometria de Kanté, a relação frequente com o golo de Griezmann, mas tem a imprevisibilidade de quem pode sair de um drible com qualquer das pernas, de quem é capaz de inventar uma solução diferente para cada situação sem ansiedades na procura do protagonismo. No jogo inaugural cruzou para o golo de Giroud e marcou ele mesmo o segundo, numa altura em que a França já não acreditava. Foi o homem da noite.   Ganhar o ruck mas não o jogo. A França é uma nação de râguebi e é possível recorrer ao râguebi para explicar as dificuldades que esta equipa de Deschamps está condenada a sentir. Aquele meio-campo, com Kanté, Matuidi e Pogba, tem tanta abrangência, potência e amplitude, que leva muitas vezes a equipa a cair na tentação de olhar para ele como se se tratasse de um pack de avançados da seleção de râguebi de quinze. Como jogar? Bola longa na frente e carga dos médios, para ganhar a segunda bola. Com aqueles três, o ruck é sempre francês. O problema é que durante a maior parte do jogo faltou à França dar sequência a esse primeiro momento. Qualquer aficionado da oval sabe que depois é preciso um médio de formação para tirar a bola do ruck e a dar ao médio de abertura, que pensa o jogo. E durante boa parte do jogo com a Roménia, ninguém pensava o jogo da França, que só se tornava perigoso quando Pogba baixava um pouco e solicitava as desmarcações de Giroud para as costas dos centrais. Pouco para tanta expectativa.   Pintilii, um rei dos equilíbrios. Nesse período do jogo, brilharam os centrais romenos – mais Grigore que Chiriches – e sobretudo brilhou Pintilii, um médio que aparecia sempre no caminho da bola e que equilibrava em qualquer zona do campo. A Roménia tem o talento de Stanciu, uma espécie de Hagi destro, mas aplicado aos tempos de crise, só que Iordanescu colocou sempre toda a equipa demasiado longe do ponta-de-lança, o tanque Andone. Este passou o jogo a chocar e a dar luta aos centrais franceses, mas sofria depois pela imensidão de tempo que os colegas levavam a chegar perto dele. Está certo que era o jogo de abertura, que o empate era um resultado positivo, mas falta perceber o que pode fazer esta Roménia quando quiser mesmo ganhar um jogo em vez de se limitar a especular com ele.   A solução na previsibilidade. Para chegar à vantagem, Deschamps precisou de alguma criatividade tática. Para resolver o problema da falta de quem pensasse e criasse jogo no corredor central, pediu a Payet que lá caísse com mais frequência, transformando o 4x3x3 inicial num 4x4x2 em losango, no qual Matuidi assumiu a meia-esquerda e Pogba a meia-direita, avançando o estranhamente ausente Griezmann para perto de Giroud. O empate da Roménia, porém, levou o selecionador francês a abdicar do sistema e a optar pela previsibilidade do 4x2x3x1, com Coman e Martial nos dois corredores, Payet a 10 e Matuidi fazer de box-to-box face ao mais fixo Kanté. Desta forma, a França ficava mais bem distribuída pelos três corredores, mas ao mesmo tempo mais previsível e fácil de conter. Só um momento de génio ou uma falha na cobertura do espaço entre-linhas podia desbloquear o jogo. Foi o que aconteceu.
2016-06-10
LER MAIS