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Último Passe

O FC Porto substituiu o Sporting no topo da atualidade desta semana, por ter sido anunciada a saída de Nuno Espírito Santo e por, em consequência disso, estar vaga a cadeira de treinador para 2017/18. Há muitos nomes no plateau mediático, o clube até já desmentiu alguns deles, como o de Marco Silva, por exemplo, mas a questão é mais profunda do que isso. O que está em causa aqui é a escolha de um caminho, de um treinador que comungue ideias com a SAD acerca do tipo de futebol que convém a estes jogadores, mas também a aceitação de normas que já estão definidas. Como a de um forte desinvestimento, imposto pela UEFA ao abrigo do “fair-play financeiro”. Esta segunda parte da equação é, por sinal, a fundamental. Fruto de uma aposta na valorização da equipa e na recusa assumida de alienar passes de jogadores, a SAD portista encerrou as contas de 2015/16 com 58 milhões de euros de prejuízo, ultrapassando os limites legalmente estabelecidos pela UEFA nas suas regras de “fair-play financeiro”. O resultado, por mais modos que haja – e há – de mascarar as contas, seja pela diluição de compras em várias tranches anuais ou pela venda de jogadores e posterior acolhimento por empréstimo, é que o FC Porto vai ter de vender. Mais: terá de vender rapidamente, antes do final do exercício – o que quer dizer que não pode deixar as transferências para o encerramento do mercado. Em suma, quem vier terá de fazer mais com menos. Terá de fazer uma equipa mais competitiva com menos dinheiro. E isso, mesmo que possa parecer aliciante enquanto desafio, não costuma ser a melhor forma de chamar treinadores ao mesmo tempo ambiciosos e consagrados. Como diz o ditado, “não é com vinagre que se apanham moscas”. Em consciência, não posso garantir que o FC Porto tenha tentado convencer Marco Silva a suceder a Nuno Espírito Santo, como transpirou para os jornais, as rádios e as televisões, ou se, tal como já veio dizer o diretor de comunicação do clube, não houve sequer negociações. Mas, mesmo sendo o FC Porto incomensuravelmente maior do que qualquer Watford da Premier League, não seria assim tão estranho que, podendo escolher entre um dos dois, um treinador na fase de carreira em que está Marco Silva, optasse por ficar em Inglaterra. E não seria por causa do dinheiro, que o Watford terá em mais abundância, mas sobretudo porque ali não se lhe vai pedir aquilo que é tão difícil de alcançar, que são títulos em ano de desinvestimento. Porque basta olhar para o plantel portista para perceber que para realizar milhões o clube terá de se desfazer de algumas das suas pérolas com mercado lá por fora. Alex Telles, Brahimi, Layun, Corona ou Herrera até podem ter mercado, mas os mais rentáveis poderão mesmo ser Felipe, Danilo ou André Silva, uma espinha dorsal que qualquer futuro treinador gostaria de encontrar quando chegasse ao Dragão. A segunda questão fundamental tem a ver com o que quer o clube – e para isso é importante avaliar as razões pelas quais falhou Nuno Espírito Santo. O problema esteve na compatibilização das ideias do treinador com o plantel que tinha à disposição. Quando o FC Porto apostou num plantel jovem, de jogadores que não só estão na idade dos sonhos como se destacam por um futebol excitante, parece contraproducente colocar a liderá-los um treinador que prefere um futebol mais cauteloso e direto, sem tanto desequilíbrio na construção. O futebol é uno, toda a gente ataca a pensar em como vai defender depois de perder a bola e defende a pensar em como vai atacar quando a recuperar, mas uns pensam mais numas coisas e outros mais noutras. O futebol de Nuno Espírito Santo – como antes dele o de outros treinadores com sucesso no Dragão, ainda que com plantéis diferentes – convidava mais ao equilíbrio, enquanto os seus jogadores se sentiam melhor a promover o desequilíbrio. Esta contradição matou a equipa e levou-a aos empates que a impediram de dar luta até ao último dia ao Benfica ou até de acabar a Liga no primeiro lugar. Olhando para o plantel que tem, mas também para a realidade conjuntural e para o contexto em que está inserido, o FC Porto deve pensar num treinador português, com bom conhecimento da realidade da nossa Liga, adepto de um futebol ofensivo, que não vire a cara a uma luta, mas que ao mesmo tempo esteja na firme disposição de dar tudo por uma tarefa que se apresenta como difícil. Em relação aos três de que mais se fala, não vejo Paulo Sousa nem Pedro Martins em guerras por causa das arbitragens, não vejo Sérgio Conceição ou o mesmo Pedro Martins a jogar um futebol de ataque solto. Aqui, depende do que quiser Pinto da Costa. Um treinador que seja o espelho do adepto guerrilheiro ou que sirva o futebol entusiasmante dos seus jogadores? Dentro em breve saberemos.  
2017-05-28
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É muito complicado dizer se o interesse do Paris St. Germain é uma boa ou má notícia para o Sporting. Porque depende de muita coisa. Depende, primeiro, do grau de veracidade da informação oficial do clube, segundo a qual Jesus e o presidente Bruno de Carvalho estarão na mesma página, a trabalhar para o futuro do clube. Se isso é verdade, então a saída de Jesus será sempre uma má notícia; se for mentira, é uma porta de saída para a crise, porque não é possível duas pessoas que não se entendem construírem seja o que for com sucesso. Mas mesmo que a eventual transferência de Jesus para Paris seja a tal saída providencial, não se iludam, porque outra crise se seguirá, à qual vai ser preciso dar uma resposta rápida e, acima de tudo, certeira: é preciso encontrar um treinador. Primeiro ponto. É bom para o Sporting que Jesus saia agora? Disso não tenho dúvidas: não é bom. Jesus trabalha como poucos na Europa, conhece o futebol nacional como menos ainda e era uma mais-valia para o projeto do futebol do Sporting. Não ganhou ainda o campeonato, no primeiro ano por infortúnio e uma unha negra, no segundo por erros evidentes – dele e de quem o enquadra – que poderia sempre corrigir, mas a certeza que tenho é que quem quer que entre no caso de ele sair terá de começar tudo do zero. E isso só será positivo em dois casos. Ou no caso de se achar que entre Jesus e o presidente já não há base de entendimento para construir seja o que for, o que tem sido amplamente desmentido pela comunicação oficial do Sporting. Ou no caso de se achar que Bruno de Carvalho é absolutamente infalível, o que até encontra base de suporte nas escolhas que fez de treinadores mas está muito longe de ser verdadeiro nas operações de mercado que subscreveu, antes mesmo de Jesus ter chamado a si essa pasta tão delicada. E não há-de ser preciso falar de Shikabala, Slavchev ou no Mini-Messi para recordar isso mesmo. Mas assumamos que a questão aqui é mesmo de números e que os valores que o PSG estará a propor seriam suficientes para dar a volta à cabeça não só do treinador, mas também do clube. E se no caso de Jesus isso até se compreende, no caso do clube significará também assumir que a ideia de investir num treinador valores que poderiam servir para reforçar a equipa com bons jogadores terá sido uma ideia errada. Para Bruno de Carvalho aceitar agora de bom grado aquilo que tanto trabalhou para contrariar há dois anos – se bem se lembram, a estratégia de Luís Filipe Vieira e Jorge Mendes passava por colocar Jesus no Dubai, de passagem para o PSG, onde alargaria a rede de influência do circuito Gestifute/Benfica – é porque mudou radicalmente de ideias em relação à estratégia que quer seguir. Ou que pelo menos reconhece ser impotente para a manter, porque nada significa que a eventual passagem de Jesus para o Paris St. Germain não venha a reforçar essa mesma zona de influência de que fazem parte os tetracampeões nacionais e as suas operações de mercado. Pode até dar-se o caso de o Sporting não ter poder de evitar o que aí vem. De o treinador ter no contrato clausulado que lhe permita ir à sua vida, pagando pela sua libertação. E nesse caso, nem que quisesse manter o treinador e acreditasse que o sucesso do Sporting passava por ele Bruno de Carvalho poderia fazer o que quer que fosse. Livrar-se-ia do ato de contrição, mas não da decisão seguinte. Que treinador contratar? Digo aqui o que já disse acerca da opção de Pinto da Costa para substituir Nuno Espírito Santo. O Sporting precisa de um treinador de futebol ofensivo e espetacular, o que desde logo afasta algumas das opções que têm vindo a ser publicitadas, mas com conhecimento profundo da realidade do futebol português. Nestas condições há Paulo Fonseca – que esteve no radar leonino para entrar se Jesus tivesse saído há um ano –, Paulo Sousa ou eventualmente Vítor Pereira. O primeiro tornou-se entretanto muito caro, o segundo pode ter de o disputar ao FC Porto e o terceiro é portista profundo. Não será uma escolha fácil.
2017-05-27
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Já tinha escrito aqui que o problema de Nuno Espírito Santo foi a desadequação das suas ideias ao plantel que tinha à disposição no FC Porto. O plantel do FC Porto é jovem, tem sangue na guelra, pede risco, e a abordagem preferencial do treinador que acaba de deixar o Dragão é cautelosa, dá privilégio aos equilíbrios e a um jogo mais direto, sem envolvimento de tanta gente na manobra ofensiva. Por isso, na altura de escolher um substituto, no que Pinto da Costa tem de pensar é no perfil do treinador que possa tirar mais de um plantel que quer futebol de ataque e que possa funcionar no futebol português. Pode ser Marco Silva, pode ser Jorge Jesus, pode ser Luís Castro, pode ser Paulo Sousa, poderia até ser Vítor Pereira. Todos apresentam vantagens e desvantagens. Em Nuno Espírito Santo até o apelo ao sentimento, à alma profunda do clube, com expressões como o “jogar à Porto” ou a “fortaleza do Dragão” acabaram por ser contraproducentes. Porque esses sentimentos, esses estados de espírito são próprios de outras épocas, épocas de revolta contra o centralismo, em que o plantel do FC Porto era mais formado à base de arreganho do que de qualidade pura e inspiração. Não se pode jogar com Corona, Brahimi, Oliver ou até com André Silva com as ideias que serviam a André, Paulinho Santos, João Pinto ou até Kostadinov. Para jogadores diferentes, ideias diferentes. E foi aí que, mais do que Nuno Espírito Santo, que seguiu até ao fim com as suas ideias, o FC Porto falhou. Alguém se esqueceu de fazer o trabalho de casa e, antes de contratar o treinador, procurar saber afinal de contas que futebol é que o FC Porto ia jogar – sem se satisfazer com um vago “vamos jogar à Porto” que, repito o que escrevi na altura, pode servir para palestras motivacionais mas em termos estritamente futebolísticos vale pouco. Aqui chegado, entre todos os treinadores de quem se fala, quatro têm o perfil adequado. Não o têm Pedro Martins ou Sérgio Conceição – e não é por uma questão de competência, mas apenas por serem treinadores futebolisticamente mais próximos das ideias de Nuno Espírito Santo – ou de Jesualdo Ferreira, o seu maior inspirador – do que das que convêm ao plantel portista. Como não o têm quaisquer treinadores estrangeiros que venham a surgir na lista, mesmo que sejam futebolisticamente próximos daquilo que é preciso. Basta verificar que nos últimos 20 anos, só três equipas foram campeãs com um estrageiro aos comandos: o Sporting de Bölöni em 2002, o Benfica de Trapattoni em 2005 e o FC Porto de Adriaanse em 2006. Há sempre um elevado risco na contratação de um estrangeiro que não sabe muito bem aquilo que vem encontrar na Liga portuguesa, como se prova pelos sucessivos falhanços de Camacho, Koeman, Lopetegui ou Quique Flores. Marco Silva parece assentar que nem uma luva no FC Porto do futuro. É jovem, joga um futebol sedutor e ofensivo, mostrou liderança em todo o lado por onde passou, mas apresenta um problema: apesar da despromoção do Hull, saiu com a credibilidade reforçada e não quererá meter-se num desafio em que não tenha uma boa dose de garantias de vir a vencer. E a necessidade de desinvestimento no plantel que o “fair-play financeiro” da UEFA vai impor não tornam isso mais fácil – bem pelo contrário. Esse talvez não fosse um problema para Jorge Jesus, que até podia encontrar aí um modo de preencher o ego e esfregar na cara dos que o acusam de ser despesista que, com comunhão de ideias com quem dirige, conseguiria ganhar com pouco. O problema, aqui, é outro: Jesus está no Sporting e nem ele quereria sair a mal nem o FC Porto, nesta fase do relacionamento com os leões, quererá estar por trás de uma separação que deixaria o futebol nacional em guerra aberta e total. Paulo Sousa tem um cérebro futebolístico peculiar e uma personalidade vincada que sempre agradou a Pinto da Costa, viria recomendado por um futebol de ataque muito interessante, mas não sai de Florença em alta, por ter deixado a equipa roxa fora da UEFA pela primeira vez desde o 13º lugar da equipa de Mihajlovic, em 2012. Por fim, Luís Castro. Pôs o Rio Ave a jogar um futebol ofensivo de grande qualidade e conhece bem a casa, pois desempenhou funções de topo no Visão 611, o projeto de formação que está agora a começar a dar frutos com a integração de jogadores da casa no plantel principal. Como desvantagem tem o facto de ser, para muitos, um nome ligado ao passado, aos poderes que perderam espaço na SAD. Ou até de poder ser encarado como uma solução de recurso, só possível por outras terem falhado. A fotografia é esta. Da decisão final se perceberá muita coisa acerca do que pensa Pinto da Costa da equipa.
2017-05-24
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