PESQUISA 

Último Passe

Diz o provérbio que há muitas maneiras – mais de mil – de cozinhar bacalhau. E também há muitas maneiras de se ganhar no futebol. Luiz Felipe Scolari voltou a sagrar-se campeão do Brasil, onde chegou de emergência para impedir que o rico plantel do Palmeiras se afundasse pelo meio da tabela onde se encontrava à data do regresso de Felipão da China. Não perdeu um só dos 22 jogos que fez e garantiu o título a uma jornada do fim, com uma vitória no terreno do São Paulo FC. “Não sou o melhor, não sou o pior”, disse o treinador no final do jogo do título. É uma mensagem antiga e provavelmente difícil de compreender nesta era de extremos, mas é a mais pura das verdades. Quando Scolari anunciou que ia trocar a seleção portuguesa pelo Chelsea, decorria o Europeu de 2008, já era dado como ultrapassado. Os que se riram da opção de Abramovich gargalharam ainda mais quando ele fracassou em Inglaterra, mas o brasileiro também não ficou mal de vida: foi encher ainda mais a conta bancária por paraísos perdidos como o Usbequistão ou a China. De caminho conquistou mais uns troféus, mas sempre desvalorizados, porque eram naquelas paragens pouco competitivas, com as cores do Bunyodkor ou do Guangzhou Evergrande. A dar razão à tese da sua inadequação a estes tempos de futebol moderno e mais científico surgiu o “Mineirazo”, a humilhação aos pés da Alemanha, na meia-final do Mundial de 2014, prova para a qual o Brasil se lembrou de “desenterrar” o velho treinador. Parecia que a Scolari nada mais restava do que arrastar-se por campeonatos marginais, a vender sempre a mesma receita de disciplina e companheirismo, temperados com uns pozinhos de crença e a estatueta de Nossa Senhora do Caravaggio. Tal como em relação a Oscar Wilde, porém, as notícias acerca da morte de Scolari eram profundamente exageradas. Chamado a substituir Roger Machado, o “Sargentão” levou o Palmeiras do sétimo lugar ao título de campeão brasileiro. Aplicou a mesma receita de sempre: uniu o grupo num abraço coletivo, deu carinho aos jogadores, ao mesmo tempo que os enchia de exigência, misturou-se com a comunidade, abrindo-se aos adeptos daquele que acaba por ser um pouco o seu clube do coração no Brasil – já lá tinha ganho uma Libertadores e uma Taça do Brasil nas duas anteriores passagens. “Este grupo precisava de alguém que soubesse que estava lá para ser campeão com eles. Eu precisava da vontade e da determinação deles. Quando estes fatores se conjugam, acontecem coisas muito boas”, resumiu Scolari. Em futebol, treinar bem, estudar, atualizar-se é sempre fundamental. Mas Scolari teria de ser muito idiota se o não fizesse, se não tivesse com ele – podendo – gente aberta a novas áreas do conhecimento. Essa, no entanto, não é a especialidade dele. A especialidade dele é o trato com o balneário. E nisso há poucos como ele. Talvez por isso, nos cinco anos em que esteve à frente da seleção portuguesa – e nos quais chegou à final do Europeu de 2004 e à meia-final do Mundial de 2006 – só fracassou mesmo em 2008, quando caiu logo no primeiro jogo de “mata-mata”. É que por essa altura o grupo já sabia que ele ia para o Chelsea. Quando fracassou, Scolari já não era o líder daquele grupo. E isso notou-se.
2018-11-26
LER MAIS