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Último Passe

Quando Julen Lopetegui disse, recorrendo à mais fina ironia que em tempos fez escola no FC Porto, que a sua equipa devia ser a única da Europa que ainda guardava em segredo o nome do seu especialista em penaltis, estava a mostrar duas coisas. Um maior conhecimento da realidade do futebol português, onde facto e opinião se misturam de forma indisfarçável, e a noção de que o vazio deixado pelo maior recato recente de Pinto da Costa tem de ser ocupado por alguém para entrar no jogo que Sporting e Benfica estão a disputar. Portugal está muito longe da realidade que serve de base aos manuais de jornalismo, onde os factos são a base de tudo e podem ser lidos de forma impoluta. Em Portugal, quem consome informação sobre futebol está amplamente colonizado pelas diatribes radicais dos programas de comentadores-adeptos e não é capaz de separar o facto da opinião. A ironia de Lopetegui tem essa noção como princípio orientador. O facto é que o FC Porto ainda não teve penaltis a favor na Liga. A opinião é a de que o FC Porto está a ser prejudicado, porque o Benfica já tem um e o Sporting soma cinco. Só que os factos não são só estes. Primeiro porque o FC Porto não é a única equipa da Liga sem penaltis a favor – há mais sete nessas condições. Depois porque FC Porto e Benfica são duas das oito equipas que também não têm nenhum penalti contra (e o Sporting, por exemplo, já tem dois) e isso não quer dizer que estejam a ser beneficiados. Porque ao contrário do que acontece nos programas de segunda-feira à noite, um facto é um facto e uma opinião, podendo ser nele baseada, é uma opinião. Nada mais… Outra questão prende-se com a razão que leva Lopetegui a entrar neste jogo – e essa tem a ver com aquilo que Rui Vitória disse no final do dérbi da Taça de Portugal. É que, tal como o técnico do Benfica, o treinador basco também não quererá “ser comido de cebolada”. Ora este é mais um plano em que o futebol nacional funciona como prolongamento dos programas de segunda-feira, onde quem fala mais alto e radicaliza mais o discurso é quem ganha. Só que aqui, até ver, FC Porto e Benfica estão a correr atrás, a reagir ao Sporting. Jorge Jesus nem precisa de falar do assunto, de se meter com o lado negro da força, porque Bruno de Carvalho e Octávio Machado têm feito todo o trabalho sujo. No Benfica, Rui Costa foi o primeiro a dizer alguma coisa, mas só o fez na viagem a Astana, depois de Rui Vitória ter sido lançado à fogueira na sequência da derrota de Alvalade. No FC Porto, que foi onde este “jogo” foi inventado, o silêncio impera e só é rompido de quando em vez pelo boletim “Dragões Diário”. O futebol seria muito melhor sem estas guerras. Disso não tenho dúvidas, da mesma forma que não tenho certeza de que a pressão dê frutos e se reflita em benefícios. Mas que Benfica e FC Porto estão próximos do Sporting aristocrático de outrora, onde Paulo Bento tinha de fazer a guerra sozinho, ao passo que em Alvalade se recorre às armas que outrora celebrizaram Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira, disso já não me restam dúvidas nenhumas.
2015-11-27
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Último Passe

Não me espanta nada o enquadramento do processo disciplinar a Naldo após o defesa central do Sporting ter empurrado Lito Vidigal no jogo em Arouca. E nem é preciso descodificar as razoes para isso em artigos e alíneas dos regulamentos: bastam a memória e uma noção mínima do comportamento que se exige a quem anda nos estádios. As tais que no domingo à noite falharam a muito mais gente.Ver um atleta de alta competição dar um empurrão daqueles num treinador que, mesmo tendo sido futebolista e, tendo a constituição robusta de sempre, não tem a obrigação de estar em forma e suportar este tipo de cargas sem cair, é um claro e grave atropelo às regras da educação e da boa convivência num relvado. Uma coisa são as quezílias entre jogadores e outra é vê-los esbarrar com contundência em gente mais velha. E aqui, o histórico dos castigos a Vandinho ou a Luisão, por exemplo, vinha tornar impossível que Naldo escapasse com uma punição leve, como chegou a ser ventilado nos jornais de hoje. As atenuantes - como o facto de ter reagido a uma ação anterior - deverão servir para que o central do Sporting escape com a pena mínima, mas os dois meses certamente ninguém lhos tirará. O problema é que Naldo não foi o único vilão em campo. A ação de Lito Vidigal foi igualmente muito grave: num misto de irritação com uma decisão do árbitro e de falta de fair-play, tentou impedir o jogador do Sporting de marcar uma falta, entrando pelo campo a dentro e chegando a confrontá-lo fisicamente. Uma ação de que, mais calmo, Lito Vidigal não se orgulhará e que obviamente não pode ser enquadrada nos 40 euros de multa que foram aplicados ao técnico do Arouca. Por fim, mesmo ficando fora do âmbito da Comissão Disciplinar, os festejos provocatórios de Octávio Machado em direção aos adeptos da casa e as palavras desbragadas do presidente do Arouca no final do jogo não deviam passar sem uma chamada de atenção de uma qualquer Comissão de Ética. É que o diretor do Sporting arriscou-se a provocar uma onda incontrolável de protestos dos adeptos da casa, certamente mais preocupados com o seu próprio clube do que Carlos Pinho, que pareceu bem mais consternado com os dois pontos ganhos pelo Sporting do que com o ponto perdido pelo Arouca. É que em vez de se centrar na luta do Arouca pela manutenção, o que se lhe ouviu foram queixas acerca da forma como o Sporting poderá ganhar a Liga. E para isso já há muita gente encartada.
2015-11-10
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