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Último Passe

Qual é o ponto em em comum entre o caso Mbappé, o caso Neymar e o caso Villar? É simples: é o dinheiro. É a tendência que o futebol está a revelar para cavar cada vez mais o fosso entre muito ricos e a classe média – já para não falar nos muito pobres –, o que nem é coisa do futebol, é coisa da sociedade em geral. O que o futebol tem, mas não tem aproveitado, são os meios de regulação que travariam este processo de aglutinação de tudo por tão poucos. Talvez nem tenha que o fazer. Talvez eu esteja a agarrar-me a um passado em que havia mais do que dez clubes que interessavam no panorama internacional. Talvez o fundamental seja que a justiça funcione e ponha de parte quem pisa o risco da legalidade instituída. Mas não creio. Centremo-nos em Mbappé, o jovem prodígio do Mónaco que a maior parte dos especialistas projeta poder vir a ser o jogador mais caro do Mundo a breve prazo. O jogador tem contrato válido com o Mónaco, mas conta-se que tem sido contactado por todos os grandes colossos do futebol europeu, aqueles dez que contam verdadeiramente para o campeonato do dinheiro. Os jornais enchem-se de manchetes a falar de reuniões entre os agentes do jogador e a estrutura do Paris St. Germain; de telefonemas de Zidane, treinador do Real Madrid, a garantir-lhe que se se mudar para o Bernabéu lhe assegura minutos de competição suficientes para poder continuar a crescer; das tentativas de Arsène Wenger, treinador particularmente influente quando se trata de jovens franceses, para o convencer a escolher o Arsenal… Tudo isto é ilegal, porque o jogador não está nos últimos seis meses de contrato. E no entanto tudo isto se faz – a ponto de o comunicado do Mónaco, recorrendo a um ponto do Regulamento Administrativo da Liga Francesa e a outro do Regulamento de Transferências de Jogadores da FIFA, ser algo para o que se olha com algum desdém. “Lá estão estes a falar das leis”… O mesmo poderia ser dito de Neymar, jogador que tem contrato de longa duração – renovado há um ano – com o Barcelona, mas que alegadamente o terá feito na convicção de que Messi ia atrás de Guardiola e que ele se transformaria na estrela de primeira grandeza blaugrana. Não aconteceu. Messi renovou. E Neymar recorreu ao mesmo expediente que usara há um ano para conseguir a renovação, com passagem de cláusula de rescisão de 200 para 222 milhões de euros: deixou-se querer pelo Paris St. Germain, lançando o pânico nas hostes catalãs. Também aqui se fala de reuniões e se pedem comunicados, nem que sejam através do instagram do jogador, que tem mantido o silêncio. E a operação é apresentada não apenas como possível mas até como potencialmente lucrativa até do ponto de vista económico-financeiro, tal seria o peso que uma eventual chegada de Neymar a Paris teria na força nacional e internacional do clube parisiense. Não se põem em causa sequer as regras do “fair-play financeiro” que qualquer colosso do futebol europeu – PSG e Barcelona incluídos – sabe como driblar, seja através de contratos publicitários com o grupo que dono do clube ou da venda inflacionada de direitos televisivos ao mesmo grupo financeiro. A verdade é que se olha para o caso Neymar e conclui-se que o jogador faz mais sentido em Paris do que em Barcelona. Porque, aí está, ao contrário do caso Mbappé, a transferência do brasileiro contribuiria para aumentar o lote de clubes com estrelas de primeira grandeza – e o PSG neste momento não tem nenhuma. O que faz pouco sentido é que, fruto de um sistema que leva à concentração das grandes receitas nas mãos dos mesmos clubes – e outros a penar para conseguirem reunir as migalhas que lhes permitam cumprir orçamentos – haja clubes com dois ou três candidatos a Bola de Ouro a atropelarem-se no mesmo balneário. E é aqui que entra a ligação ao caso Villar – e se falo do caso Villar é apenas por ter sido o último, porque podia falar de qualquer outro caso em que haja dinheiro à solta nas margens dos negócios do futebol, que a pertinência seria a mesma. Porque o futebol continua a sofrer com uma falta de regulação que se encontra, por exemplo, nos desportos americanos, e que vem contribuir para que o dinheiro que se escapa pelas frechas dos contratos seja tanto que serviria para financiar mais clubes de alto nível e aumentar a concorrência. Lembremo-nos, por exemplo, da chegada a Portugal de Freddy Montero. Para ir contratar o colombiano, o Sporting não teve de chegar a acordo só com o Seattle Sounders, clube que era detentor do seu passe. Teve de conversar também com a Major League Soccer (MLS), que pôs em campo um regulamento de transferências de tal forma bizantino que dificilmente algo lhe escapa. E que, tal como em qualquer outra liga americana (NFL, NBA, NHL, MLB…) favorece a concorrência e impede a concentração dos melhores talentos nas mesmas equipas. Podem até alegar que o fazem para favorecer o negócio. É verdade. O propósito da coisa é esse. Mas a verdade é que com estas regras tão fechadas se impede que o dinheiro escape e, ao mesmo tempo, mantendo a concorrência em altas, se mantém mais adeptos felizes. Aquilo a que estamos a assistir no futebol europeu é precisamente o oposto – muito dinheiro a escapar e cada vez mais adeptos infelizes, porque a concentração de talentos leva à eternização dos campeões. É por isso que fenómenos como o Leicester (campeão inglês em 2016) ou o Mónaco (campeão francês em 2017) são tão bem acolhidos por quem gosta de futebol. Porque permitem agitar as águas. Porque o que mais se vê por aí são campeões eternos (cinco vezes o Bayern, seis vezes o Celtic ou a Juventus, oito vezes o Basileia) e gente a afastar-se do futebol porque este deixa de lhe dar razões de satisfação.
2017-07-23
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Último Passe

O hat-trick de Cristiano Ronaldo ao Atletico Madrid, na primeira mão das meias-finais da Liga dos Campeões, fez mais do que escancarar as portas da final de Cardiff ao Real Madrid – aquilo a que assistimos foi ao goleador português a colocar a mão em cima de mais uma Bola de Ouro e praticamente a assegurar a igualdade a cinco com Leo Messi. Argumentarão muitos que ainda é cedo, que só estamos em Maio e que o argentino até foi a estrela maior do clássico Real-Barça de há semana e meia, mas estas coisas têm timings e eventos próprios para se decidirem. E o timing e o evento exatos são estes. Ronaldo nem tem estado a fazer uma época tão boa como as anteriores, nem sequer como algumas nas quais não chegou à Bola de Ouro, sobretudo porque nessas desperdiçava muitas vezes trunfos quando eles eram menos necessários. Com menos golos, com menos jogos, com menos influência numa equipa que até já faz algumas partidas internas sem ele por opção, para Ronaldo está a aparecer nesta fase final da época cheio de energia e de capacidade para resolver os jogos mais importantes. Fez cinco golos em dois jogos ao Bayern nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, já vai com três na primeira mão das meias-finais, contra o Atlético, e ainda tem a segunda mão, provavelmente a final de Cardiff e a Taça das Confederações para dar o remate final na candidatura. Em contrapartida, o que sobra a Messi ou Neymar? Podem até ser campeões espanhóis – ainda que o Real esteja no lugar do condutor e mantenha a maior dose de favoritismo, mesmo tendo perdido o clássico – mas estão fora da Europa e nem Argentina nem Brasil vão figurar na Taça das Confederações. Messi pode até ganhar a Bota de Ouro – segue na frente, pelo menos… – e arrancar na próxima época em grande estilo e com muitos golos na fase de grupos da Liga dos Campeões. Mas o que vale uma fase de grupos? Esta Bola de Ouro, Messi já dificilmente poderá ganhá-la. Só Ronaldo é que pode perdê-la.
2017-05-02
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Cristiano Ronaldo, Messi ou Neymar. Um deles vai ganhar hoje a Bola de Ouro para o melhor futebolista do Mundo de 2015. O Mundo inteiro aposta em Messi, líder do Barcelona que ganhou tudo no ano passado e que assim poderia alargar para 5-3 a sua batalha privada com Ronaldo, que já dura desde Janeiro de 2009. Mas há nesta Bola de Ouro uma série de nuances que podem baralhar as contas, como a política do voto por blocos ou a definição do que deve ser privilegiado num prémio individual. A segunda questão já não é nova e é uma daquelas que não tem nem terá nunca resposta – só serve para entreter. A primeira é a mais interessante, porque depende dos blocos onde a solidariedade funcionar melhor. Ainda assim, nem toda a política do Mundo deve roubar a Messi mais uma consagração. Olha-se para os três nomeados e descobrem-se três máquinas de fazer golos. Ronaldo, vencedor em 2008, 2013 e 2014, fez no ano de 2015 54 golos em 52 jogos pelo Real Madrid, aos quais somou mais três em cinco jogos pela seleção portuguesa. Messi, que ganhou em 2009, 2010, 2011 e 2012, marcou 48 golos em 53 desafios pelo Barcelona, juntando-lhes mais quatro em oito partidas pela Argentina. E Neymar, que sucede a Xavi (2011), Iniesta (2012), Ribery (2013) e Neuer (2014) como desafiante do ano – todos os anos aparece um a partilhar o plateau com os dois donos da bola –, somou 41 golos em 54 jogos pelo mesmo Barcelona, mais quatro em nove jogos pelo Brasil. Logo à partida, nas estatísticas, a superioridade vai para Ronaldo. Mas os jogadores do Barcelona contrariam essa vantagem com a evidência da sua superioridade coletiva: ganharam Liga espanhola, Taça do Rei, Liga dos Campeões e Mundial de clubes contra um rotundo zero do Real Madrid de Ronaldo. É aqui que aparecem uns a dizer que este não é um prémio de goleadores – para isso está lá a Bota de Ouro – e outros a responder que também não é um prémio coletivo – que para isso existem as competições de clubes. Essa é, portanto, uma discussão estéril, porque todos têm razão e porque não é isso que está em causa. A Bola de Ouro baseia-se em votações subjetivas de jogadores, treinadores e jornalistas e se tanto os golos como os títulos coletivos ganhos são fatores capazes de influenciar a decisão de quem vota, não é menos verdade que a escolha nunca será científica e baseada em fatores mensuráveis. Há coisas a medir, mas não são essas. As influências, por exemplo. Os mais velhos lembrar-se-ão das transmissões dos festivais da Eurovisão de antigamente, onde a canção portuguesa tinha sempre uns pontinhos assegurados, vindos do júri espanhol, fosse por solidariedade geográfica ou política, quando os dois países ibéricos eram as últimas ditaduras de direita da Europa. No futebol, a coisa funciona um bocado assim também. O problema é que a globalização veio baralhar os blocos. De um lado, o bloco do Barcelona – Neymar e Messi – contra o bloco do Real Madrid – Cristiano Ronaldo. Depois, o bloco dos sul-americanos – os mesmos Neymar e Messi – contra o bloco europeu – mais uma vez representado por Ronaldo. De seguida, o bloco de idioma castelhano – Messi sozinho – contra o dos luso-falantes – aqui Ronaldo e Neymar, sendo que o português pode ter pelo seu lado os que falam inglês, por ter jogado na Premiership. E, mesmo que não se fale em verbas a circular de cá para lá e de lá para cá, algo tão em voga quando se vota pela atribuição de sedes de campeonatos do Mundo da FIFA, há ainda uma dúvida remanescente: poderão os membros de um mesmo bloco dividir os votos respetivos entre si, facilitando a vitória de quem está sozinho? É que se nas presidenciais portuguesas, por exemplo, a esquerda prefere pulverizar e dividir os votos a ver se consegue forçar uma segunda volta, na Bola de Ouro não há segunda volta. Ganha quem tiver mais um voto. Messi? Creio que sim. Mas espero para ver. In Diario de Notícias
2016-01-11
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