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Último Passe

Chega-se ao dia de estreia numa grande competição e a tentação maior é a de descobrir a equipa com que Portugal vai começar. E as maiores dúvidas – únicas, na verdade – estão nas alas do meio-campo/ataque. Sem hipótese de ver os treinos, há que recorrer ao pensamento normal do selecionador, que nos conta duas histórias. Primeiro, e fundamentalmente, que com Santos costuma jogar um ala mais dado a labor de centrocampista e outro com mais caraterísticas de extremo, para que o 4x4x2 possa transformar-se com 4x3x3 sempre que a equipa assim o entender. E depois que cada um destes alas tem geralmente um corredor preferencial, sendo raramente tidos em conta para o lado oposto. É por isso que, se tivesse de responder agora, ainda sem qualquer informação privilegiada mas numa espécie de jogo do “MasterMind”, arriscaria dizer que Fernando Santos vai começar com Bernardo Silva à direta e André Gomes à esquerda. Nove-onze-avos da equipa que mais daqui a pouco vai defrontar o México está definida. São eles: Rui Patrício, Cédric, Pepe, José Fonte, Guerreiro, William, Moutinho, André Silva e, claro, Ronaldo. Restam depois os dois lugares nas alas. Aplica-se o primeiro princípio do “Santismo” e separam-se os seis jogadores que podem jogar nas alas em dois grupos. De um lado, por um dos lugares, lutam os que têm caraterísticas de terceiro médio: André Gomes, Pizzi, eventualmente Bernardo Silva. Do outro, pela outra vaga no onze, lutam os que têm caraterísticas de terceiro avançado: Nani, Quaresma, Gelson e eventualmente Bernardo Silva, que assume uma espécie de papel dúplice por força da ausência de João Mário. Quer isto dizer que, a não ser em situações de vantagem, dificilmente se verá um Portugal tão conservador que junte em campo Pizzi e André Gomes nas duas alas. Mas também será difícil que, exceção feita a momentos em que seja preciso ir à procura do golo, vejamos ao mesmo tempo uma equipa tão ofensiva a ponto de somar Quaresma e Nani nas alas, por exemplo. Aqui chegados, antes de se aplicar o segundo princípio do “Santismo” vai-se buscar o senso comum. E o senso comum diz-nos várias coisas. Que Gelson, por exemplo, ganhou o lugar à direita pelo que fez depois de entrar ao intervalo no particular contra Chipre, no qual Bernardo Silva tinha estado mais discreto, mas que depois não confirmou essa tendência de crescimento contra a Letónia em Riga. Que Quaresma entrou bem em Riga, mas que Santos gosta de o ter perto dele no banco, graças a essa capacidade rara que o extremo do Besiktas tem para entrar bem em qualquer jogo que não faz de início. E que Nani, um fixo desta equipa, estará a regressar ao melhor momento depois da lesão que lhe roubou protagonismo, mas ainda não confirmou esse crescimento em campo – e a concorrência na seleção nacional é cada vez mais dura. É à luz destes conhecimentos que deve aplicar-se então o segundo princípio do “Santismo”. E este diz que André Gomes e Nani jogam sempre à esquerda e que Pizzi, Bernardo, Quaresma e Gelson partem sempre da direita. Agora é aplicar a lógica “santista” e completar as vagas. Neste momento, antes de chegar ao estádio ou de ter contacto com alguém que saiba algo de concreto, diria que Portugal começará hoje contra o México com Bernardo Silva à direita e André Gomes na esquerda, ambos à procura do espaço interior, dando mais projeção aos dois laterais. Que, depois, se começar com Quaresma não joga Bernardo Silva. E se começar com Nani não joga André Gomes. Mas que me parece improvável que a equipa arranque na partida com dois extremos tão claramente pronunciados como são Quaresma e Nani, a somar a Ronaldo e André Silva, estes seguros na frente, pela complementaridade que asseguram e pelo rendimento que têm dado.
2017-06-18
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Último Passe

Chipre não é propriamente um adversário de enorme valor, o jogo era um simples particular, mas a vitória por 4-0 que Portugal conseguiu na preparação para a viagem à Letónia e para a Taça das Confederações deixou indicações positivas, algumas dúvidas e ainda uma curiosa preocupação. Os portugueses fizeram dois golos em cada parte, os dois primeiros beneficiando da inspiração de João Moutinho nos livres diretos, os dois últimos a premiar uma exibição mais bem conseguida do ponto de vista coletivo. Foi neste segundo período que a equipa mostrou coisas melhores, como a aceleração e a criatividade de Gelson, o critério de William na saída de bola ou a chegada de Pizzi à área. Tudo somado, leva à grande preocupação: é que, ao contrário do que sucedeu há um ano, a equipa está bem na entrada para a reta final da época. E, pelo menos nas competições como os Europeus e os Mundiais, isso não costuma ser bem. Falta ver como é na Taça das Confederações. Fernando Santos tinha dito que os campeões europeus não estão nunca em teste, mas a verdade é que têm de estar, quanto mais não seja por comparação com eles mesmos. Primeiro, porque é preciso deslindar a questão do onze titular. E se ao onze de hoje somarmos Pepe e Cristiano Ronaldo, já se vê que é preciso sacar de lá dois homens. Se depois verificarmos que o treinador fez algumas poupanças e muito mais experiências, não fica fácil entender quem vai começar em Riga, no final da próxima semana, ou muito menos quem vai arrancar na Taça das Confederações, daqui a duas semanas. William ou Danilo? João Moutinho ou Adrien? João Mário ou André Gomes? Nani, Bernardo Silva ou Gelson? Ou até Pizzi? Tudo questões de difícil resposta. Porque Danilo fez melhor época que William, mas a equipa respira melhor com este a pautar o jogo de ataque do que com aquele à frente dos centrais. Porque tanto Moutinho como Adrien tiveram esta época Ligas menos extenuantes, o que lhes permite chegar a Junho e disputar o lugar apenas com base na capacidade de cada um. E a coisa complica-se ainda mais quando se percebe que para Ronaldo entrar no onze, no lugar ontem ocupado por Nani – e a partir de meio da segunda parte por Pizzi – os dois terão de disputar vagas noutras posições. Se Fernando Santos persistir na ideia de compor o meio-campo a quatro com um extremo puro e um médio que permita os equilíbrios, a Nani resta disputar a vaga com Bernardo e Gelson, que foi dos três o melhor frente a Chipre, por ser capaz de ir para cima dos adversários e explorar as acelerações e o um contra um. Por outro lado, Pizzi, que foi dos médios o que evidenciou melhor chegada à área – sim, jogou no lugar que vai ser de Ronaldo e isso também conta – poderia bater-se com Moutinho e Adrien pela posição de segundo médio se Fernando Santos fosse mais arrojado, mas restar-lhe-á um lugar de suplente de luxo ou a disputa da vaga de médio-ala mais dado a cair no meio e a equilibrar atrás, em cuja órbita têm andado João Mário e André Gomes. No final do jogo, Fernando Santos dizia que não podia ter opções melhores do que as que teve no Europeu, porque Portugal ganhou o Europeu e os jogadores que lá estiveram foram “absolutamente brilhantes”. Mas a verdade é que o selecionador tem mesmo mais opções. E tem opções em melhor momento. A começar por Ronaldo, que foi poupado a muitos dos jogos do Real Madrid na ponta final da época para poder brilhar na Champions, não se veem neste grupo jogadores presos por arames, como se viam há um ano, antes do Europeu. E isso é bom. Mesmo que daqui por um mês possamos estar a dizer que a equipa chegou ao topo cedo demais para poder aguentar esse momento até à fase decisiva da Taça das Confederações.
2017-06-03
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Último Passe

Passei grande parte do Portugal-Letónia a achar que a seleção nacional estava a jogar pouco por dentro e a procurar com demasiada frequência os dois corredores laterais, onde era quase sempre travada em situações de inferioridade numérica. No final, Fernando Santos veio à sala de imprensa reclamar que a equipa insistiu demais no jogo interior e que devia ter ido mais vezes à procura dos corredores laterais. E no entanto ambos queríamos dizer o mesmo: que a seleção estava a cair onde não tinha condições para criar situações de desequilíbrio e que por isso o seu futebol entrou em bloqueio atacante. O jogo com a Letónia acabou por se resolver nos corredores laterais, com a entrada de Quaresma. Só então, com o extremo do Besiktas de um lado e Gelson do outro (e mais tarde Ronaldo, quando o capitão encostou à esquerda e mandou o ponta sportinguista mais para dentro) Portugal começou a ter presença suficiente nas alas. Porque até aí Cancelo e Guerreiro tinham estado sempre muito abandonados, em virtude dos constantes movimentos interiores de João Mário e Nani, e eram quase sempre apanhados em momentos de um para dois com as duas duplas de duplas laterais que o adversário tinha, uma de cada lado. Se a bola chegasse à ala com rapidez suficiente para apanhar os adversários ainda a bascular, a mudar de um lado para o outro, até podiam criar lances de perigo, mas isso não era a norma. Na verdade, havendo adeptos de um jogo mais interior e outros de um futebol com mais largura, não creio que seja possível estabelecer a superioridade de uma das opções sobre a outra em abstrato. O que é importante é apenas e só a coerência. E se Fernando Santos queria jogo exterior, o erro foi ter entrado com dois alas que a cada oportunidade que tinham para o fazer vinham para dentro. A equipa só começou a ser ameaçadora no momento em que teve em campo gente capaz de executar a ideia escolhida pelo treinador: extremos flanqueadores para jogo exterior. E o problema não era de Nani e João Mário - a coisa também poderia resultar com os dois, desde que se mudasse a ideia e se apostasse mais nas tabelas entre as linhas do opositor para as penetrações pelo corredor central. É essa capacidade para dançar conforme a música que torna esta equipa forte e dá ao treinador garantias de que pode bater-se com qualquer adversário com chances reais de lhe ganhar. Desde que o faça com coerência.
2016-11-13
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A equipa. Não restam muitas dúvidas nem entraves ao consenso. Portugal foi evoluindo à medida que a competição foi avançando e terá encontrado o seu onze de gala na fase decisiva. Hoje o onze titular deve ser igual ao que bateu Gales, com as entradas dos dois jogadores que nessa altura estavam impossibilitados de jogar: Pepe (lesionado) e William (castigado). A seleção deve assim entrar de início com cinco jogadores que começaram a prova como suplentes: Cédric, José Fonte, William, Adrien e Renato. Não tendo sido propositado, esse fator acaba por funcionar a favor da equipa portuguesa, que soma a esse menor peso da prova nas pernas o dia-extra de repouso que estranhamente a equipa organizadora cedeu ao adversário no desenho do calendário. A esperança portuguesa é a de que isso venha a ser decisivo. A estratégia. Portugal é uma equipa difícil de contrariar, porque é uma espécie de camaleão do ponto de vista estratégico. Nunca se sabe muito bem como a equipa vai entrar em campo, porque ela se centra tantas vezes na melhor forma de contrariar o adversário e tão poucas numa identidade própria. Foi assim nos três jogos que a seleção já fez a eliminar nesta prova. Hoje, a estratégia portuguesa pode passar por duas ideias fortes: impedir que as movimentações de Griezmann e Payet se tornem letais no espaço central e não deixar que Pogba e Matuidi empurrem o bloco para perto da baliza de Rui Patrício. Muito se vai jogar, portanto, no meio-campo, sendo que a mobilidade dos jogadores de segunda linha franceses não aconselha a que Portugal mantenha as referências individuais que tem vindo a utilizar com frequência – fê-lo, por exemplo, com a Croácia ou a Polónia. Se o que interessa é controlar as movimentações de Griezmann, há que manter William posicional à frente dos defesas, mas não lhe dar ordens para ir atrás dele, porque se o espaço vaga aparece lá Payet, vindo da esquerda. Se Payet não é tão perigoso pelas idas à linha de fundo para cruzar ou pela largura, mas sim pelas diagonais da esquerda para o meio, há que ter Renato Sanches a fechar esse espaço, permitindo-lhe até que se junte muitas vezes a Adrien mais por dentro, de forma a igualar o duelo com Pogba e Matuidi. Se Pogba e Matuidi gostam de chegar perto da área, de empurrar a equipa para a frente, há que ganhar-lhes as costas, seja através da saída de bola de William, da explosão de Renato, de tabelas com Adrien ou de desmarcações de apoio de Nani ou Cristiano Ronaldo. O jogo. A França vai ter mais bola. Isso parece evidente à partida, ainda que Portugal chegue a esta final com maior percentagem de posse que os donos da casa (53% contra 52%). A chave do jogo para Portugal vai, por isso, estar em grande parte nos comportamentos sem bola, na forma como a equipa for capaz de fechar os espaços, mas também nos momentos de transição ofensiva. A zona central da defesa francesa melhorou com a entrada de Umtiti para o lugar de Rami, mas ainda é a mais vulnerável no jogo francês, pelo que as movimentações de Ronaldo e Nani podem vir a ser fundamentais. O mais certo é Deschamps acabar por pedir aos seus laterais que joguem muito perto dos centrais, sobretudo no lado mais longínquo do campo, para evitar situações de dois para dois que podem ser potencialmente perigosas. Mas onde tudo vai decidir-se é mais atrás, na capacidade que Portugal vier a ter (ou não) de queimar as linhas francesas em contra-ataque. O favoritismo. A França entra como favorita. Fez um Europeu mais convincente, joga em casa e ganhou os dois particulares que fez contra Portugal nos últimos dois anos. O que se jogou aqui, no Stade de France, foi mesmo a estreia de Fernando Santos e começou de forma trágica para uma equipa portuguesa que foi completamente atropelada nos primeiros minutos. Mas isso não quer dizer que ganhe. Esta equipa portuguesa é muito difícil de derrotar. Basta olhar para os últimos dez anos. Em fases finais (2006, 2008, 2010, 2012, 2014 e agora 2016), descontando a meia-final de 2012, resolvida nos penaltis, Portugal só perdeu seis jogos: quatro vezes com a Alemanha (no jogo pelo terceiro lugar de 2006, nos quartos-de-final de 2008, na fase de grupos de 2012 e 2014), uma com a França (na meia-final de 2006), uma com a Espanha (oitavos-de-final de 2010) e outra com a Suíça (num jogo irrelevante de 2008, que a seleção jogou com vários suplentes). Dessas seis derrotas, duas foram contra a equipa da casa e outras duas contra o futuro campeão. Mau agoiro para o jogo de hoje? A tradição e o desdém. Diz o registo histórico que Portugal não ganha à França há 41 anos. Desde que a bateu em Paris, em 1975, num jogo particular. Mas Fernando Santos tem sido pródigo em acabar com as tradições. Foi assim quando Portugal ganhou à Itália como assim foi quando bateu a Argentina. Isso pesa zero no que há-de acontecer mais logo. Como zero pesa o facto de todos os analistas franceses acharem que Portugal não joga nada e que a França ganhará facilmente. É no campo que vai ver-se.
2016-07-10
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Último Passe

Quando Fernando Santos dizia que só voltava a casa no dia 11 de Julho, depois da final do Europeu, estava a falar a sério. Portugal assegurou a qualificação para o jogo onde vai decidir-se a prova ao bater com inteira justiça o País de Gales por 2-0, com golos de Ronaldo e Nani, a coroar um jogo que só não foi defensivamente perfeito porque a equipa abanou durante uns dez minutos da primeira parte. Mas desta vez nem os que só conseguem ver tacanhez na equipa terão grande margem de manobra, uma vez que Portugal foi claramente a melhor equipa em campo, até do ponto de vista atacante, tendo desperdiçado pelo menos cinco ocasiões claras para construir um resultado mais amplo. É verdade que o foco da equipa continuou a ser não deixar jogar o adversário. Que Fernando Santos construi o seu onze com a ideia firme de anular as principais armas de quem lhe surge pela frente. E, depois de o ter conseguido contra a Croácia, voltou a ser bem sucedido frente a Gales. O 4x4x2 de Fernando Santos, com recusa de pressionar a primeira fase de construção de Gales, tinha como maiores objetivos a anulação de Joe Allen por Adrien Silva, o médio-centro português, e o fecho das linhas de passe dos dois laterais galeses, Gunter e Taylor, através da colocação estratégica de Renato Sanches e João Mário entre eles e os jogadores dos quais mais dependia a criação, que eram Bale e King. Ora, com exceção de oito minutos da primeira parte (entre os 18’ e os 26’), nos quais os dois interiores portugueses perderam um pouco o posicionamento e Gales fez os seus três remates dos primeiros 45’, o plano resultou em pleno. O problema é que Portugal também não conseguia construir: eram raros os momentos de combinação entre os interiores e os seus laterais e os passes longos para Ronaldo esbarravam numa noite inesperadamente perfeita de Collins, que impedia a bola de lá chegar. A primeira parte foi, por isso, demasiado morna e na verdade teve apenas uma situação de perigo verdadeiro: foi quando, aos 44’, Adrien Silva se desamarrou e foi à esquerda para cruzar para um cabeceamento de Ronaldo, em boa posição, sobre a barra. O jogo precisava de um golo para mudar e foi Portugal quem o fez. Já Quaresma, Moutinho e André Gomes aqueciam para dar mais chispa no meio-campo e no ataque quando, ao terceiro canto português, João Mário bateu pela primeira vez curto, para Raphael Guerreiro. O lateral cruzou de forma perfeita e Ronaldo aproveitou o atraso da chegada da bola à zona de definição para se superiorizar à defesa galesa e cabecear para o 1-0. O jogo ia mudar, mas antes que Gales pudesse reagir, os portugueses fizeram o 2-0, após um bom movimento ofensivo, coroado com um remate de fora da área de Ronaldo. A bola parecia ir fraca e em direção às mãos de Hennessey, mas Nani apercebeu-se disso e desviou-a do alcance do guarda-redes galês, fazendo o 2-0. Havia 37 minutos por jogar, mas a urgência de Gales poderia abrir caminho ao ampliar da vantagem. Coleman meteu risco no jogo. Primeiro, trocou o médio mais defensivo, Ledley, por um segundo ponta-de-lança, Vokes, que foi jogar para perto de Robson-Kanu, transformando o sistema num 3x4x1x2, com Bale atrás dos dois avançados. A ideia manteve-se após a troca de Robson-Kanu por Church e acentuou-se a 25 minutos do final, quando Collins deu o lugar a Jonathan Williams. Aí, Gales passou a um 4x4x2, com Allen e Bale a pegarem no jogo alternadamente, Vokes e Church na frente e King e Williams nas alas. Santos, porém, não mudou a estrutura e limitou-se a refrescá-la: Renato Sanches cedeu a vaga a André Gomes, mais contido; Adrien foi trocado por Moutinho, que manteve a posição ao meio; e Nani abriu caminho à entrada de Quaresma. Portugal resistiu sempre a fazer entrar um terceiro central ou até a baixar Danilo no campo e continuou a ter as melhores situações para marcar. Primeiro, num contra-ataque aos 65’, no qual Nani forçou Hennessey a uma defesa incompleta e João Mário recargou de primeira rasar o poste, já com o guarda-redes caído. Depois, aos 70’, quando José Fonte cabeceou um canto de João Mário para nova defesa do guardião galês. Renato Sanches ainda perdeu esse mesmo 3-0 num contra-ataque em que Portugal teve superioridade numérica, mas no qual optou por chutar de fora da área (aos 73’, imediatamente antes de sair). Danilo, aos 78’ podia também ter ampliado a margem, quando aproveitou uma situação de pressão para se isolar na cara do guardião galês e o viu deter-lhe o remate à segunda, já em cima da linha de golo. E por fim Ronaldo, isolado por André Gomes na meia-direita, viu a receção prejudicar-lhe a finalização, que saiu à rede lateral (aos 86’). Nessa altura, porém, já os portugueses viam St. Denis ao longe. Gales caía muito no jogo direto para os pontas-de-lança, ganhando algumas bolas aéreas mas perdendo outras, e só se tornava perigoso quando Bale conseguia espaço. Dois remates de longe da estrela galesa (aos 77’ e aos 80’), ambos defendidos por Rui Patrício, representaram o último estertor de uma equipa que saiu deste Europeu merecidamente aplaudida de pé pelos adeptos mas que não chegou para contrariar a superioridade técnica, tática e sobretudo estratégica de Portugal.
2016-07-06
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Último Passe

Um jogo muito diferente dos três anteriores e até daquilo a que a seleção nacional está habituada permitiu a Portugal atingir os quartos-de-final do Europeu, mercê de uma vitória sobre a Croácia, por 1-0, com um golo de Quaresma a três minutos do final do prolongamento. O golo nasceu de um contra-ataque perfeito e coroou de sucesso a tática do esticão em que Fernando Santos apostou quando percebeu que era impossível tirar o domínio ao adversário e chegar lá através de um futebol mais consistente. Também por isso se falou tão pouco de Ronaldo: o primeiro remate do capitão aconteceu precisamente no lance do golo e exigiu uma defesa enorme a Subasic, tendo Quaresma sido o mais rápido a acorrer ao ressalto para marcar de cabeça na baliza deserta. As maiores virtudes lusitanas, no entanto, tiveram pouco a ver com brilho. Foram a exibição imperial de Pepe no comando da defesa, a disponibilidade física de Adrien para contrariar o jogo de posse do meio-campo croata, o jogo quase sem erros de Cédric e Guerreiro e, depois, quando foi preciso mudar o chip ao jogo, as arrancadas de Renato Sanches, a fustigar um adversário que apesar dos dois dias a mais de recuperação de que dispôs também não estava assim tão fresco. Entre os citados estão várias das alterações feitas por Fernando Santos no onze inicial, revelando uma avaliação perfeita do grupo e do que lhe era exigido. Um jogo não se faz com onze jogadores, mas sim com 14. Um jogo não tem de se ganhar nos primeiros minutos: pode ganhar-se nos últimos. Não costuma ser boa política esperar até lá para o ganhar, mas esta seleção tem-no feito com tanta frequência que dá que pensar. Fernando Santos optou por fazer quatro alterações ao onze que tinha defrontado a Hungria. Por três ordens de razões. Raphael Guerreiro regressou à equipa em vez de Eliseu porque é já o titular da posição e já não estava fisicamente impedido de alinhar. José Fonte ocupou a vaga de Ricardo Carvalho no centro da defesa porque os 38 anos do titular não lhe permitem já uma recuperação física tão rápida como a dos companheiros e a fadiga já se lhe notara no jogo com os húngaros, mas também porque era preciso combater o jogo físico do possante Mandzukic. Cédric e Adrien entraram em vez de Vieirinha e João Moutinho por questões ao mesmo tempo estratégicas e de análise do grupo: o lateral direito conteve bem Perisic e o médio não só inibiu Modric de exercer maior influência no jogo como conseguiu ir à frente municiar o ataque: é dele, por exemplo, a recuperação seguida de passe para Nani no lance em que o atacante sofreu uma grande penalidade não assinalada pelo árbitro. Portugal entrou na mesma em 4x4x2, com André Gomes em vez do reclamado Renato Sanches e se a opção parece revelar que Santos não quer Renato numa ala do seu 4x4x2 – e é evidente que não pode jogar com ele ao meio, só com dois médios – a forma como decorreu o jogo deu-lhe razão. Porque entrando aos 50’, Renato ainda teve tempo de se tornar uma força motriz nas chegadas de Portugal à frente. Nessa altura, com a saída de André Gomes, Portugal passou a um 4x3x3 que serve mais as caraterísticas de Renato mas sacrifica João Mário, que teve de se encostar na esquerda do ataque. E não é a mesma coisa ser ala no meio-campo de quatro ou extremo no ataque a três: João Mário, que joga melhor ao meio, pode desempenhar a primeira função mas terá sempre muitas dificuldades em dar à equipa o jogo pleno de velocidade que a segunda exige, razão pela qual foi depois naturalmente sacrificado para dar entrada a Quaresma, quando o treinador percebeu que não ia lá através do jogo consistente e mais valia apostar na tática do esticão. O 4x4x2 português tentava encaixar no 4x2x3x1 croata. Não havia marcações individuais, mas notava-se que William Carvalho se preocupava muito com as movimentações de Rakitic, o croata que jogava mais perto do ponta-de-lança, e que Adrien subia em pressão para ir buscar Modric, o principal cérebro do jogo axadrezado. O jogo era muito feito de encaixes, mas enquanto Portugal baixava para se organizar defensivamente, a equipa de Ante Cacic pressionava a saída de bola portuguesa, levando os centrais lusos a jogar mutas vezes longo e a perder a bola. Isso levou ao domínio territorial e de posse dos croatas, mas nem por isso a um jogo com ocasiões de golo. Em toda a primeira parte não houve um único remate bem enquadrado com as duas balizas e três dos quatro que saíram ao lado (três da Croácia e um de Portugal) nasceram em lances de bola parada. No segundo tempo, com a entrada de Renato Sanches e a passagem dos portugueses para um 4x3x3 que encaixava ainda melhor no 4x2x3x1 croata, só o desgaste natural das duas equipas permitiu que o jogo partisse um pouco e que começassem a entrar contra-ataques e ataques rápidos. Brozovic esteve perto do golo aos 52’, mas chutou cobre a barra da baliza de Patrício e, aos 57’, foi a vez de Renato chutar ao lado de boa posição, após uma boa tabela com João Mário. Até ao final dos 90’, só um cabeceamento de Vida, após livre de Srna, aos 62’, deixou a defesa de Portugal em cuidados. Fernando Santos atacou o prolongamento com Quaresma em vez de João Mário e percebia-se que o jogo estava para os raides do extremo do Besiktas. Ainda assim, o maior volume de jogo croata deixava Portugal em cuidado permanente. Kalinic chutou ao lado de boa posição aos 97’ e Vida voltou a ameaçar num canto, cabeceando por cima da barra aos 112’. Nessa altura já Portugal trocara Adrien por Danilo, numa tentativa de tapar a entrada da área e ganhar altura nas bolas paradas que a Croácia ia tendo com frequência e nas quais criava sempre perigo. Perdia-se a capacidade de Adrien nos penaltis, mas acabou por não ser necessário lá chegar porque a equipa fez valer os argumentos que tinha em campo. Após um cabeceamento de Perisic detido a meias por Rui Patrício e pelo poste, Quaresma desarmou Strinic perto do bico da área portuguesa, a bola sobrou para Ronaldo que a entregou de imediato a Renato Sanches, tirando a bola da zona de pressão croata. Este, com condições para correr, conduziu um contra-ataque de quatro para quatro por uns 50 metros antes de entregar a Nani na esquerda. Nani cruzou de trivela para o segundo poste onde, em boa posição, Ronaldo obrigou Subasic à primeira defesa do jogo. Quaresma, que tinha acompanhado a jogada, só teve de encostar de cabeça para enviar Portugal para os quartos-de-final.
2016-06-26
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Uma exibição decisiva de Ronaldo, que tal como há quatro anos apareceu no Campeonato da Europa à terceira jornada, chegou a Portugal para empatar a três bolas com a Hungria e apurar-se para os oitavos-de-final do Euro’2016, onde a seleção nacional vai defrontar a Croácia. Autor de dois golos de grande execução e de uma assistência para o primeiro dos três tentos portugueses, marcado por Nani, Ronaldo fez a diferença numa tarde em que os portugueses puderam ainda ver os efeitos da sociedade entre João Mário e Renato Sanches a carrilar jogo para o meio-campo adversário, mas na qual a Fernando Santos terá sobrado uma dúvida: como poderá ter os dois miúdos ao mesmo tempo e não sofrer defensivamente? Na resolução desse dilema estará a chave de um Europeu no qual Portugal ainda não convenceu ninguém, mas onde teve a felicidade de calhar na metade certa do quadro, assegurando que só defrontará Espanha, Itália, Alemanha, França ou Inglaterra se chegar à final. Pode parecer uma loucura estar a falar de final quando a seleção nacional teve de sofrer até para ser terceira classificada num grupo que apurou diretamente a Hungria e a Islândia. Ou quando ainda não ganhou uma única das três partidas que fez. No último dia do Grupo F, porém, o jogo foi mesmo de loucos. Mesmo antecipadamente apurada, a Hungria só desistiu de tentar ganhar nos últimos 20 minutos, quando se centrou mais na vontade de acabar o grupo como primeira classificada e fugir também aos favoritos. A precisar de ganhar para ser primeiro, mas sabendo que o empate lhe dava sempre a qualificação, Portugal também só resolveu meter o jogo no bolso nos últimos dez minutos, quando Fernando Santos substituiu Nani por Danilo, na tentativa de evitar uma surpresa desagradável. É que um quatro golo da Hungria mandava a equipa nacional para casa e, além de os dois golos que os húngaros fizeram na segunda parte já terem saído de livres com desvio na barreira, Rui Patrício ainda viu uma bola tabelar-lhe no poste direito que bem podia ter forçado a equipa a recuperar por uma quarta vez. É que a história do jogo mostrou sempre a Hungria na frente e Portugal a ter de recuperar e depois a ver o seu ímpeto destruído por mais um golo húngaro. Enquanto Bernd Storck resolveu poupar os titulares que já tinham visto um cartão amarelo, assegurando dessa forma que os teria no jogo dos oitavos-de-final, Fernando Santos entrou perto daquela que tem sido para ele a equipa de gala. A exceção era a ausência de Raphael Guerreiro, que, lesionado, dava o lugar a Eliseu. André Gomes mantinha a vaga na esquerda de um meio-campo que, com a reentrada de João Mário para o lugar que tinha sido de Quaresma no jogo com a Áustria, regressava aos quatro elementos, enviando a equipa para o 4x4x2. O problema é que André Gomes pareceu limitado e nunca produziu tanto como nos primeiros jogos e William também baixou a sua influência, condenando Portugal a um jogo atacante mais lento – a isso não terá sido estranho o intenso calor de Lyon – e previsível. Daí que, apesar do domínio territorial português, não aparecessem ocasiões de golo na baliza de Kiraly. Portugal quase se limitava a rondar a área, a ganhar cantos e a chutar de fora da área. E foi a Hungria quem marcou primeiro, aos 19’, por Gera, na sequência de um canto de Dzsudzsak: Ronaldo cortou no ar, Nani completou o alívio para a entrada da área portuguesa, onde o médio húngaro apareceu a chutar sem hipóteses para Rui Patrício. O golo húngaro afetou a produtividade da equipa portuguesa, que levou uns minutos a reentrar no jogo. A reação começou num livre de Ronaldo, que Kiraly teve de se esforçar para desviar para canto, aos 29’, mas só teve continuidade já bem perto do intervalo, quando o mesmo Ronaldo solicitou uma diagonal de Nani e este bateu Kiraly com um remate seco para o ângulo mais próximo. Com 45 minutos por jogar, Fernando Santos decidiu assumir o risco de ir à procura da vitória que garantisse o primeiro lugar do grupo e trocou Moutinho por Renato Sanches, mas antes que a alteração pudesse ter efeito, a Hungria voltou a marcar. Dzsudzsak bateu um livre perto da área, a bola desviou em André Gomes e traiu Rui Patrício, deixando Portugal outra vez fora dos oitavos-de-final. A reação portuguesa, desta vez, foi mais rápida. Três minutos depois, aos 50’, João Mário arrancou pela direita e cruzou para o ataque de Ronaldo à bola. Lang acompanhou bem o capitão português e ter-lhe-ia blocado o remate não tivesse Ronaldo inventado uma solução genial: deixou a bola passar e deu-lhe com o calcanhar do pé direito, deixando Kiraly colado ao solo. A espetacularidade do golo, somada à forma como João Mário e Renato Sanches combinavam na direita, parecia poder carregar a seleção para a vitória. Só que, cinco minutos depois, deu-se mais um episódio da Lei de Murphy: Dzsudzsak voltou a ter um livre, desta vez chutou contra a barreira, mas recuperou o ressalto e deu-lhe com alma, fazendo a bola resvalar em Ricardo Carvalho e trair o desamparado Rui Patrício. O 3-2 anulava o efeito do golo de Ronaldo e da substituição e deixava Portugal outra vez a precisar de recuperar. Fernando Santos chamou então Quaresma, para o lugar do fatigado André Gomes e, com o segundo toque na bola – o primeiro tinha sido para marcar o canto – Quaresma cruzou para o bis de Ronaldo, desta vez de cabeça. Faltava meia-hora para o final da partida e Portugal lançou-se à procura da vitória. A ocasião mais flagrante de golo, porém, pertenceu à Hungria, quando Elek se isolou pela esquerda e chutou violentamente contra o poste da baliza de Rui Patrício. Se antes tivera azar na forma como sofreu os dois golos, desta vez a equipa nacional foi sortuda por não ter de procurar a recuperação por uma quarta vez. A jogar em 4x3x3, com Renato Sanches e João Mário à frente de William, e com Quaresma e Nani a ladear Ronaldo na frente, Portugal apresentava o seu onze mais ofensivo imaginável. O empate no outro jogo mandava os portugueses para o segundo lugar e a metade errada do quadro do sorteio e por isso a equipa ainda procurava o quarto golo. Ronaldo esteve por duas vezes perto do hat-trick, mas o que se via também era alguma tremedeira sempre que a Hungria subia até ao ataque. Por isso, mesmo já com os húngaros a jogar com uma linha de cinco atrás, Fernando Santos resolveu tapar o jogo à frente da sua área e substituir Nani por Danilo a nove minutos do fim. O jogo acabou com os húngaros a recusarem sair para o meio-campo adversário e com a notícia do golo islandês na outra partida, a chutar Portugal do segundo para o terceiro lugar e para a metade mais desejada do quadro. Fernando Santos terá gostado do envolvimento atacante que a equipa conseguiu na segunda parte, com a associação de João Mário a Renato Sanches, mas não pode ter ficado satisfeito com os buracos que a equipa abriu a defender. A solução para o jogo com a Croácia terá de ser outra, provavelmente com Renato e João Mário nas alas, sacrificando André Gomes, e João Moutinho ou até Adrien à frente de William (caso o selecionador desista de recuperar Moutinho, como a substituição ao intervalo pode fazer prenunciar). Dúvidas haverá também acerca da condição de Ricardo Carvalho para um jogo que terá lugar já daqui a três dias – ele que já pareceu menos seguro hoje – como na lateral-esquerda, onde Eliseu não fez esquecer Raphael Guerreiro. O tempo para pensar e recuperar não é muito, mas uma coisa é certa: a Croácia é forte e será preciso muito mais Portugal do que o que se viu na primeira fase para seguir em frente.
2016-06-23
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Portugal melhorou do primeiro para o segundo jogo do Europeu, mas voltou a não conseguir ganhar. Desta vez, nem com 23 finalizações e um penalti, nem com duas bolas nos postes da baliza de Almer, nem com uma mudança de sistema que lhe permitiu fazer os médios jogar com mais frequência dentro do bloco adversário os portugueses conseguiram fazer um único golo à Áustria, saindo do Parque dos Príncipes com um 0-0 que é ao mesmo tempo frustrante e pressionante. Frustrante porque a equipa fez mais por ganhar e em condições normais teria ganho, pressionante porque o resultado deve obriga-la a vencer o último jogo, frente à Hungria, na quarta-feira, para seguir para os oitavos-de-final. No fundo faltou à seleção aquilo que Cristiano Ronaldo pode dar-lhe: golos. O capitão teve tudo para os fazer, mas nem de penalti lá chegou: a 11 minutos do fim, ganhou uma grande penalidade, na sequência de um raid de Raphael Guerreiro na esquerda, mas apesar de ter enganado o guarda-redes, fez a bola esbarrar no poste. O segundo penalti consecutivo falhado por Cristiano Ronaldo na seleção – já tinha permitido a defesa do guarda-redes contra a Bulgária, em Março – pode nem levar o selecionador a mudar a hierarquia dos marcadores, mas terá seguramente levado o capitão de equipa a aproximar-se dos restantes “humanos” e procurar tirar mais de si mesmo daqui para a frente. Além de que enfatizou a falta que os golos dele fazem a uma equipa que já na primeira parte tinha acertado no poste, num cabeceamento de Nani, após cruzamento de André Gomes. E essas nem foram as únicas ocasiões flagrantes desperdiçadas por Portugal, o que justifica a forma efusiva como os adeptos austríacos festejaram o empate no final: ficaram a cantar nas bancadas, apesar de a equipa de Koller continuar em último lugar no Grupo F e sem depender apenas de si própria para se apurar. Ao empate não é alheia também a forma como Fernando Santos geriu a equipa no banco. De início, o técnico corrigiu bem os erros táticos cometidos ante a Islândia mas mexeu mal durante o jogo. A entrada de William para o comando do meio-campo trouxe a Portugal a capacidade de afastar a bola das zonas de pressão, graças à sua maior agilidade no passe longo e à capacidade que tem para ganhar terreno com bola, ao passo que passagem para o 4x3x3 também ajudou João Moutinho e André Gomes a entrarem com bola entre as linhas defensivas adversárias: Moutinho foi mesmo designado pela UEFA, com exagero, é verdade, como o melhor em campo (ainda que tenha estado abaixo do rendimento de William e dos dois laterais). A questão é que, com Portugal a encostar a Áustria às cordas, Fernando Santos demorou a mexer. E quando mexeu permitiu que se instalasse a confusão na equipa. Nunca foi claro o que o treinador quis obter, por exemplo, com a entrada de João Mário: impunha-se que ele (ou Renato Sanches) entrasse até antes do minuto 71, mas para jogar em vez de um dos médios-interiores, de forma a dar mais criatividade naquela zona, mas ao fazê-lo entrar para o lugar de Quaresma na direita e mandá-lo explorar o jogo interior, Santos perdeu o flanco. André Gomes acabou por sair, mas apenas a sete minutos do fim, quando o desespero levou o selecionador à entrada de Éder para jogar ao lado de Cristiano no centro do ataque. E Rafa, o último a ser chamado, acabou por ser quem mais trouxe ao jogo – percebeu-se no final que devia ter ocupado a vaga de um Nani que já estava esgotado muito antes do minuto 89, que foi quando ele entrou no relvado. Ainda assim, em condições normais, Portugal devia ter ganho o jogo. Apesar da largueza que os dois centrais portugueses foram dando a Harnik, o ponta-de-lança solitário dos austríacos, para este poder combinar com os médios, a Áustria só chegou três vezes à baliza de Rui Patrício. Logo aos 3’, de cabeça, Harnik soltou-se atrás da defesa portuguesa para cabecear um cruzamento de Sabitzer, mas fê-lo ao lado. O ponta-de-lança voltou a ameaçar aos 41’, na sequência de um livre lateral que Alaba bateu direto à baliza, mas nessa ocasião Vieirinha evitou que ele fizesse a finalização e cortou junto ao poste. E a abrir a segunda parte Rui Patrício fez a sua única defesa, detendo um remate de longe de Illsanker. Até final, com Alaba (que jogou atrás do ponta-de-lança, a ser completamente dominado por William e a ser substituído) os austríacos limitaram-se a conter as ofensivas de Portugal, que só ficou a dever a si próprio a vitória. E aqui Nani e Ronaldo terão de dividir responsabilidades, pois foram perdendo golos à vez. Aos 12’, Nani ganhou um ressalto e isolou-se face a Almer, mas não conseguiu evitar a mancha do guarda-redes. Dez minutos depois, foi Ronaldo quem teve a bola à frente para marcar, após trabalho de Raphael Guerreiro, mas chutou de pé direito ao lado. Nani acertou no poste aos 29’, de cabeça, após cruzamento de André Gomes e aos 38’ foi outra vez Ronaldo quem cabeceou para o guarda-redes, no seguimento de um canto de Quaresma. Na segunda parte, Nani foi-se apagando e teve de ser Ronaldo a assumir as responsabilidades: chutou de longe para grande defesa de Almer aos 55’, cabeceou para o guarda-redes após o canto de Quaresma aos 56’, bateu um livre em boa posição por cima da barra aos 65’ e acertou no poste com o penalti que ganhou aos 79’. Tanto fogo, sem um único tiro certeiro acaba por deixar a equipa numa posição desconfortável e sem o direito a errar de novo no jogo com a Hungria. Santos parece ter acertado no regresso ao 4x3x3, seja com Nani ou Ronaldo ao meio, mas o pouco que se viu neste jogo parece impor a entrada de Rafa na equipa para o último jogo, onde João Mário e Renato Sanches também podem ter um papel a desempenhar – nem que seja saindo do banco – mas para jogar ao meio. 
2016-06-18
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Portugal vai enfrentar a Áustria numa situação que não é brilhante mas também não é desesperada. Saiu com um ponto do primeiro jogo, precisará de fazer mais três – em dois jogos – para se qualificar, uma vez que os quatro pontos darão quase de certeza para se ser um dos quatro melhores terceiros. Contra a Áustria, a obrigação é a mesma que já era ante a Islândia: ganhar. A forma de procurar essa vitória será, no entanto, diferente, porque as circunstâncias próprias e alheias são diferentes. Na conferência de imprensa no Parque dos Príncipes, Fernando Santos não deu muitas respostas que permitam adivinhar o que lhe vai na mente, ao que o próprio diz para não mostrar o jogo todo ao treinador adversário, mas ainda assim é possível fazer sem ele um exercício de pergunta-resposta no qual se colocam as principais dúvidas e se fornecem alguns esclarecimentos com base no mero senso-comum. Pergunta 1: Fernando Santos vai fazer uma revolução no onze? Resposta: Não. Aliás, o próprio o disse na conferência de imprensa. “Revolução foi em 1974”, brincou. Em Portugal muito se tem falado da falsa partida do Europeu de 2004, quando após a derrota com a Grécia no Dragão, Scolari teria feito uma revolução, indispensável para que a equipa chegasse à final. Mas depois olha-se com mais atenção e verifica-se que, do jogo com a Grécia para a segunda partida, frente à Rússia, que Portugal ganhou por 2-0, Felipão só mudou quatro jogadores: Paulo Ferreira por Miguel, Rui Jorge por Nuno Valente, Fernando Couto por Ricardo Carvalho e Rui Costa por Deco. Ronaldo, por exemplo, continuou no banco e só no terceiro jogo, contra a Espanha, ganhou o lugar a Simão. Por isso, desenganem-se os que querem ver muito sangue antes do jogo com a Áustria. No máximo, Fernando Santos mudará quatro jogadores. Mas o mais provável é que só troque dois ou três. Pergunta 2: Portugal pode jogar com Quaresma, Nani e Ronaldo no onze? Resposta: Pode. Aliás, Fernando Santos já o fez em alguns momentos, embora não de início. Na conferência de imprensa, o selecionador limitou-se a dizer que isso “era uma possibilidade”, o que à saída da sala era interpretado de duas formas diferentes pelos vários jornalistas presentes. Uns diziam terem ficado convencidos de que os “três reis magos” iam jogar desde o início, outros que aquilo que Fernando Santos disse veio apenas engrossar o que acham que é um bluff para assustar os austríacos. A questão deve, por isso ser colocada de uma outra forma. Portugal vai jogar com Quaresma, Nani e Ronaldo no onze? Não me parece a hipótese mais provável, sobretudo por duas razões. A primeira – e fundamental – é que essa alteração deixava a equipa com três jogadores que pouco participam no processo defensivo e que veem o jogo sobretudo de uma forma individual. Olhando para os números de toda a época, Ronaldo soma uma média de 1,8 recuperações ou interceções por jogo, Quaresma tem 4,1 e Nani soma 4,6, enquanto que os dois potenciais sacrificados estão acima: André Gomes com 5,9 e João Mário com 6,2. Depois, porque esse onze não deixaria a Fernando Santos muitas hipóteses de reforçar o ataque se as coisas começassem a correr mal. Acresce a isso, para os defensores da disciplina de caserna, que a alteração iria premiar as declarações “fora da caixa” de Quaresma, que de certa forma desautorizou o treinador ao dizer que estava em condições de ter sido titular contra a Islândia, quando Fernando Santos disse que se o tivesse colocado a jogar corria o risco de ter de o tirar aos 40 minutos. Pergunta 3: Se ainda assim Quaresma entrar, qual será o esquema de Portugal? E quem sai? Resposta: O facto de Quaresma entrar não significa que a equipa mude para o 4x3x3, porque com ele não fica resolvido o problema da colocação de Ronaldo, que ainda hoje Fernando Santos voltou a dizer que “nunca será um avançado-centro” na perspetiva de jogar sozinho na frente. A equipa continuará por isso a jogar em 4x4x2, ainda que a presença em simultâneo dos três atacantes permita uma série de alternativas. Até aqui, o extremo do Besiktas tem alinhado sempre numa das alas do meio-campo, deixando na mesma Ronaldo e Nani no centro do ataque, mas pessoalmente acho que faz mais sentido ter Quaresma e Ronaldo na frente, com Nani a ocupar uma posição no meio-campo, seja como “10” num losango ou como ala esquerda no 4x4x2 mais clássico. Mais difícil é definir quem pode sair. E isso depende muito da arrumação inicial dos jogadores. Em condições normais, seja com Nani e Ronaldo na frente e Quaresma numa ala ou com Ronaldo e Quaresma na frente e Nani numa ala, sairia André Gomes, porque além de ter uma melhor percentagem de passe (84% para 83% em termos médios durante a época), João Mário faz mais passes de rotura (3,1 para 2,7 por jogo) e aparece mais na área (sete passes por jogo contra 2,7 são dentro da área). A questão é que com tanta gente que só vê baliza na frente, Fernando Santos pode sentir-se tentado a manter quem pense o jogo mais atrás, e aí André Gomes ganha algum avanço. Até porque os números defensivos dos dois são muito semelhantes. Diferente será se Santos optar por colocar Nani como “10”: aí sairia Moutinho. Pergunta 4: Quem pode então ser sacrificado nas alterações que Fernando Santos anunciou? Resposta: Fernando Santos disse claramente que ia fazer algumas alterações “para refrescar a equipa”. Uma delas será a troca de médio mais recuado, posição que Danilo dificilmente ocupará. A sua entrada contra a Islândia tinha a ver com um aspeto muito específico do jogo islandês, que era o jogo aéreo. Sem essa ameaça, certamente nem seria necessária a lesão de Danilo para que a equipa passasse a apresentar ali um jogador que arrisca mais nos momentos atacantes, como é o caso de William. As outras alterações não são claras. A não ser que queira colocar Nani a “10”, Santos dará provavelmente pelo menos mais um jogo a Moutinho para que ele possa reganhar o ritmo que lhe vem faltando mas que, assim que o recuperar, fará a diferença nos oitavos-de-final, porque é o jogador mais coletivo desta seleção. Adrien e Renato continuarão certamente à espera. Depois, o jogo de Vieirinha contra a Islândia não foi assim tão mau a ponto de justificar uma alteração na hierarquia – e se o facto de o lateral do Wolfsburg ter estado no golo islandês contribui para algo é para que Fernando Santos não o deixe cair em nome da mera rotatividade que noutras circunstâncias talvez até se justificasse. Pergunta 5: O que precisa Portugal de mudar para ter mais garantias de obter um resultado positivo? Resposta: Primeiro que tudo, tem de melhorar a finalização. A seleção nacional foi a que mais rematou na primeira jornada do Euro, mas só fez um golo, que lhe valeu apenas um ponto. As ocasiões de golo, porém, abundaram – e é bom que todos se consciencializem que contra a Áustria não vão ser tantas, porque os austríacos vão querer jogar mais do que os islandeses. Ainda assim, há que perceber que boa parte do baixo índice de certeza na finalização teve a ver com as condições não tão favoráveis em que muitos dos remates foram feitos. E isso já tem a ver com todo o processo de construção de jogo de Portugal. Por raramente ter conseguido meter gente entre as duas linhas defensivas da Islândia, faltou a Portugal o necessário ponto de apoio nas suas jogadas, de onde pudesse partir um passe de rotura para as alas ou para deixar um dos avançados na cara do guarda-redes. Não apareceram ali Nani nem Ronaldo, da mesma forma que nem João Mário nem André Gomes procuraram o corredor central com a frequência recomendada. João Moutinho também andou sempre mais longe da baliza islandesa do que seria desejável, o que pode ter a ver com o facto de Danilo não assumir tanto a construção. O ataque ao espaço central terá de ser uma das prioridades da equipa no jogo de amanhã, o que pode levar à adoção da solução com o meio-campo em losango. Da mesma forma que terá de o ser a agilidade na transição ofensiva. Pergunta 6: E Ronaldo, o que tem de fazer diferente? Resposta: Ronaldo tem sobretudo que compreender que o futebol é um jogo coletivo e que o facto de ser o melhor finalizador do Mundo não recomenda que seja sempre ele a chutar. A luta do CR7 contra os recordes tem destas coisas: se anda obcecado com os golos que lhe permitam ser o melhor marcador da história dos Europeus, acaba por secar tudo à sua volta, não tomando as decisões que seriam mais recomendáveis em benefício da equipa. E nem falo de livres ou de falta de empenho no processo defensivo: isso já faz parte do pacote. Contra a Islândia, no entanto, Ronaldo optou várias vezes por rematar em situações nas quais havia companheiros melhor colocados para dar seguimento a lances que podiam ter tido outro final. Mas este é um problema que só se resolverá quando Ronaldo marcar o primeiro golo e aliviar um pouco a ansiedade que o come por dentro em cada grande competição internacional.
2016-06-17
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Pouco Ronaldo, um meio-campo incapaz de entrar nas linhas do adversário, a incapacidade para ganhar uma bola aérea que fosse a Sigthórsson e falta de concentração e agressividade no ataque às segundas bolas levaram Portugal a uma falsa partida no Europeu de 2016. O empate com a Islândia, fruto de um golo de Nani e de outro de Birkir Bjarnason, não é grave, porque ainda há mais duas jornadas para trabalhar para a qualificação, mas veio deixar a nu algumas carências da equipa de Fernando Santos. A emendar já frente à Áustria, em Paris, num jogo que até face à derrota dos austríacos, de repente ganhou preponderância. A questão Ronaldo não é das fáceis de resolver, porque não se trata de o trocar ou de o fazer jogar noutras funções. Ronaldo não jogou mal, simplesmente não fez a diferença: não conseguiu fazer uma arrancada imparável, não fez golo nos dois cabeceamentos perigosos de que dispôs nem nos livres que marcou. Fez um jogo de esforço, de entrega, mas sem brilho, com exceção talvez do lance em que, ainda com 0-0, trabalhou em cima de Saevarsson e cruzou para um remate de cabeça de Nani que o guarda-redes Halldórsson deteve. E isso o selecionador não só tem de aceitar como por certo o aceitará até melhor que o próprio Ronaldo. Mesmo estando sempre em jogo, o capitão português não só não assinalou o dia em que igualou as 127 internacionalizações recorde de Figo com uma vitória, como viu Nani suplantá-lo na luta pelo título de melhor em campo. O autor do golo português respondeu da melhor forma à oportunidade que Fernando Santos voltou a dar-lhe face à lesão de Quaresma e foi quem mais perto esteve de ampliar a marca, pelo que dificilmente perderá o lugar frente à Áustria. Já quanto à incapacidade do meio-campo entrar nas linhas islandesas haverá certamente algo a fazer, tanto do ponto de vista tático como até da mudança de elementos. É verdade que a Islândia, até por força do futebol direto que praticava, pouco ou nada se desposicionava: no final, os portugueses tentaram 617 passes, contra 221 do adversário, o que significa que se empenhavam em combinações e jogadas de envolvimento, enquanto a Islândia se limitava a jogar direto em Sigthórsson, subindo depois como um bloco de concreto para atacar as sobras. A questão é que se a primeira bola, a que ia para o gigante número 9 do adversário, era inatingível – creio que ele terá ganho todas as bolas aéreas que disputou –, a segunda já não dependia de estatura: dependia de concentração e agressividade. E aí nem os quatro defesas de Portugal, nem Danilo – que Santos preferiu a William Carvalho, por dar mais capacidade no jogo aéreo e combatividade no ataque às segundas bolas – souberam impor-se aos islandeses. Mesmo tendo feito uma primeira parte de nível médio-alto, Portugal nunca contou com todos os jogadores ao mesmo nível. O melhor período da equipa começou logo a seguir a uma primeira desatenção defensiva, aos 3’: Vieirinha estava projetado no ataque, Pepe foi disputar uma bola perto da linha lateral na zona de meio-campo sem a ganhar, o mesmo aconteceu a Danilo face a Gudmundsson já perto do bico da área, tendo que ser Rui Patrício a impedir que a Islândia fizesse logo ali um golo. A partir daí, porém, mesmo sem ter os dois laterais em noite-sim Portugal assentou o seu jogo. É verdade que Moutinho, não conseguia ganhar as costas a Gunnarsson e Sigurdsson, os dois médios-centro islandeses, e que João Mário, demasiado aberto na esquerda, também não era capaz de ganhar aquele espaço interior, mas os lances mais perigosos passaram a surgir na baliza islandesa. Nani, de cabeça, após o tal trabalho individual de Ronaldo, viu Haldorsson tirar-lhe o golo aos 21’; Ronaldo, também de cabeça, falhou o alvo aos 23’ e não acertou sequer na bola aos 26’, quando Pepe viu a aberta e o isolou face ao guarda-redes num passe longo. E quando Nani marcou, aos 31’, na sequência de uma boa combinação entre Vieirinha e André Gomes na direita, o problema parecia resolvido. Mas não. O intervalo voltou a trazer a desconcentração à defesa portuguesa e, logo aos 50’, duas divididas seguidas perdidas pelos portugueses na direita do ataque islandês resultaram num cruzamento de Gudmundsson. O desentendimento entre Pepe – que seguiu Sigthorson – e Vieirinha, que estava demasiado dentro e não intercetou a bola, resultou num volei de Bjarnasson para dentro da baliza de Patrício. João Mário começava a entrar no jogo e a ativar as subidas de Raphael Guerreiro, mas apesar de voltar a ter quase sempre a bola, Portugal não conseguia criar tantos lances de perigo como na primeira parte. Só aos 63’, quando Vieirinha ganhou a linha de fundo e cruzou rasteiro, Nani esteve perto de marcar, não chegando a conseguir antecipar-se a Ragnar Sigurdsson no ataque à bola. Oito minutos depois, já com Renato Sanches em campo, na tentativa de ocupar o tal espaço entre as linhas defensivas islandesas, foi outra vez Nani quem, desviando de cabeça um livre, fez a bola passar a centímetros do poste. À procura do golo, Santos chamou então Quaresma para ocupar o lugar de João Mário. Até final ainda substituiu André Gomes por Éder, colocando a equipa num 4x2x4, com Ronaldo e Éder ao meio, servidos por Nani e Quaresma nas alas. Mas nem assim, nem com a Islândia a abdicar até de jogar no ponta-de-lança, Portugal chegou ao golo. Quaresma (aos 78’), Pepe (após um canto, aos 82’) e Ronaldo (na sequência de um cruzamento de Nani, aos 85’) ainda ameaçaram, mas o empate já não se desfez, punindo o jogo menos conseguido do meio-campo português e algumas apostas perdidas: Danilo nunca impediu a construção direta da Islândia e pode ceder a vaga a William, que faz a equipa jogar mais; Moutinho e João Mário apareceram pouco entre as linhas islandesas e também não têm o lugar assegurado. Certo é que se Fernando Santos optar por chamar Quaresma à partida de Paris, o sacrificado não será certamente Nani, o melhor dos portugueses em Saint-Etiènne.  
2016-06-14
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Quando alguém perguntou a Fernando Santos se já sabia o onze que ia colocar em jogo frente à Islândia, o selecionador nacional disse que sim. Depois de um par de segundos de pausa, corrigiu: “Quer dizer… Mais ou menos”. Mesmo que Santos a tenha justificado com o facto de ainda ter um treino pela frente, a blague diz-nos sobretudo uma coisa: que não há dúvidas na cabeça do técnico acerca da utilização de Quaresma. Ou tudo não passa de bluff, no que sinceramente não acredito, ou o facto de este ser apenas o primeiro jogo da fase final e de face às facilidades crescentes de apuramento – passam dois, eventualmente três – levará Santos a fugir do risco que ponderaria assumir se tudo se decidisse nestes 90 minutos. Sem Quaresma – é mais avisado pensar assim – reentra no onze Nani, que não oferece à equipa o brilhantismo individual do atacante do Besiktas mas até é coletiva e taticamente mais fiável. Foi com Nani e Ronaldo que o esquema dos dois atacantes móveis melhor funcionou, nos jogos com a Bulgária e a Bélgica, ainda que seja legítimo que se diga que este já não é o Nani de Março. Porque está em pior momento de forma e também porque a perda do lugar na hierarquia pode ter deixado mazelas psicológicas num jogador que, ainda por cima, é mais frágil mentalmente que o sempre crente Quaresma. A Nani resta pensar uma coisa como fator motivacional: nem sempre se tem uma segunda oportunidade de causar uma boa primeira impressão e ele vai tê-la.   Em St. Etiènne para ver o Euro? Cheguei hoje a St. Etiènne e estive já no Geuffroy-Guichard, um estádio que estava no meu imaginário desde que, em criança, quando começaram a chegar a Portugal as primeiras revistas Onze (assim mesmo, sem o sufixo Mondial), imaginava como jogaria a equipa de Robert Herbin, dito a “Esfinge”. O primeiro dia em França foi também o primeiro dia em que não vi um único jogo do Europeu. Entre a viagem, os procedimentos burocráticos para a recolha da acreditação, as conferências de imprensa de Lars Lagerback e Fernando Santos e a necessidade de sair para jantar, foram-se as três partidas do dia. Isto não é novidade para mim, ainda que fosse bem diferente há 24 anos, quando acompanhei no local o meu primeiro Europeu. Em 1992, na Suécia, havia só oito equipas, muito menos jornalistas, maior espaçamento entre os jogos e muito menos confusão para se chegar perto dos jogadores e treinadores, aos quais hoje só se chega por interposta pessoa e depois de recolher senhas para isto e passes para aquilo. Não é um lamento, é uma constatação. Quanto ao futebol, pelo resumo pareceu-me que a Espanha jogou bem e talvez seja mais favorita do que eu esperava. E que a Itália, sendo uma máquina terrivelmente concreta, é tão favorita como eu presumia – nunca se deve riscar uma seleção italiana enquanto ela não se riscar a si mesma. E, por fim, que a Bélgica é tão pouco favorita como eu calculava. Ainda que, pelo que pude ir vendo nas vezes que espreitei para o ecrã gigante no meio da confusão do restaurante em que jantei, se Marc Wilmots de repente conseguir pensar um pouco fora da caixa aquela equipa tem muito para melhorar.   E os golos que não aparecem. O Europeu tem trazido grandes golos, mas poucos golos. O resultado mais frequente é o 1-0. Reflexos de um futebol cada vez mais defensivo? Também. Mas a minha teoria é outra. É reflexo, sim, de uma preocupação excessiva da UEFA com o peso do negócio. É verdade que o alargamento da fase final para 24 países permitiu a chegada a França de mais equipas sem tanta qualidade, abrindo a porta às goleadas. Mas o facto de 16 dessas 24 equipas passarem à fase seguinte faz com que muitas das grandes nações do futebol encarem os primeiros jogos como mero aquecimento para um Europeu que, na realidade, só começa daqui a pouco mais de uma semana: há jogadores a meio-gás, outros a ganhar ritmo. A UEFA consegue assim manter mais gente ligada durante mais tempo à competição, faz crescer as audiências globais, o dinheiro gasto em tudo aquilo que anda à volta do futebol, mas está a tornar esta primeira fase um deserto em termos atacantes.
2016-06-14
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Portugal conseguiu uma boa vitória sobre a Bélgica, por 2-1, numa partida em que mostrou menos capacidade para criar desequilíbrios na frente do que tinha feito contra a Bulgária mas onde, em contrapartida, se mostrou uma equipa muito mais segura e disciplinada do que na passada sexta-feira. No último jogo antes da escolha final dos 23 convocados por Fernando Santos, o selecionador deixou algumas pistas acerca não só acerca dos homens que tenciona levar para França mas também da evolução do modelo e da organização que tenciona aplicar quando a competição começar a apertar. A aposta na mobilidade na frente manteve-se, com Nani e Cristiano Ronaldo a funcionarem como os dois elementos mais avançados do esquema. Depois, no entanto, Santos acertou um pouco os equilíbrios na forma como escolheu quatro jogadores que são tendencialmente médios para jogar atrás destes dois avançados. Uma coisa é jogar contra uma Bulgária que só ataca pela certa e outra é fazê-lo contra uma Bélgica que assume o jogo e até acabou a partida com mais posse de bola do que Portugal. No primeiro jogo, Fernando Santos soltou João Mário e Rafa, neste chamou antes André Gomes em vez do atacante bracarense, levando a que a equipa não tivesse sempre tanta gente na frente e se colocasse de forma diferente no momento defensivo. Durante o jogo, mesmo mantendo o modelo, Santos ainda experimentou o 4x3x3, quando chamou Éder ao campo, e o 4x2x3x1, quando sentiu a necessidade de fechar o espaço à frente da sua área com a utilização simultânea de Danilo e William, para controlar uma Bélgica com cada vez mais gente na frente. O jogo, em certa medida, diferiu do de sexta-feira sobretudo na eficácia das finalizações nacionais. Os portugueses não foram exemplares, porém. Após um início em que os belgas pareciam querer monopolizar a bola, Portugal começou a acertar nas combinações ofensivas e, antes de Nani abrir o marcador, aos 20’, na sequência de um bom lance de Cristiano Ronaldo e André Gomes, já o guarda-redes Courtois se tinha oposto com qualidade a remates de João Mário, Adrien, Nani e Ronaldo. E antes de Ronaldo fazer o 2-0, aos 40’, após um excelente cruzamento de João Mário, já este tinha perdido uma ocasião claríssima, traído pela forma como fez a receção a um passe do CR7 que era meio golo. O 2-0 ao intervalo justificava-se, por isso, perfeitamente. Santos trocou então Adrien e João Mário, que já tinham sido titulares na sexta-feira (e essa dupla titularidade é seguramente uma pista acerca dos 23), por Renato Sanches e Bernardo Silva. E Portugal baixou a intensidade. Não tanto pelas substituições – ainda que Renato tenha parecido muito mais tímido do que nos jogos do Benfica, ganhando em disciplina tática o que perde em capacidade de explosão atacante – mas muito pela forma como a equipa decidiu gerir a vantagem. A Bélgica voltou a pegar no jogo e a entrada de Jordan Lukaku, dando profundidade ofensiva ao corredor esquerdo, colocou Portugal em sentido. Santos continuou a sua gestão, trocou Ronaldo e Nani por Quaresma e Éder e mudou para 4x3x3, com Danilo atrás de Renato e André Gomes no meio-campo, e Quaresma e Bernardo abertos no ataque. E foi nessa altura que a Bélgica marcou, numa combinação dos irmãos Lukaku, que Romelu concluiu de cabeça. Nessa altura, com meia-hora para jogar e já sem Ronaldo em campo, Marc Wilmots quis ir à procura do empate. Chamou Batsuayi para jogar perto de Lukaku na frente e Portugal tremeu até ao momento em que Fernando Santos mudou para o 4x2x3x1, com William Carvalho ao lado de Danilo como médios mais recuados (outra pista, a indicar que é possível tê-los em simultâneo em campo). Com a troca, a equipa portuguesa fechou o jogo e segurou o 2-1 até final, vindo mesmo a ter uma ou outra ocasião para ampliar a vantagem. Ainda assim, mesmo pela margem mínima, a vitória chegou para animar um pouco os semblantes, que tão carregados tinham saído depois da derrota com a Bulgária. Afinal, mesmo tendo em conta que à Bélgica faltavam vários titulares, a seleção deixou indicações de que pode ser competitiva.
2016-03-30
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Último Passe

Uma noite memorável do guarda-redes Stoyanov e o desacerto global dos portugueses na hora da finalização levaram a seleção nacional a perder por 1-0 com uma insípida Bulgária, em Leiria, no primeiro jogo de preparação para o Europeu de 2016. O resultado foi o pior de uma noite em que foi possível perceber como quer Fernando Santos resolver a questão do enquadramento de Ronaldo no onze. O selecionador quer um ataque feito de mobilidade total, um modelo que vai precisar de trabalho de aperfeiçoamento e que terá implicações na forma como a equipa se organiza defensivamente, mas que chegou para criar ocasiões de golo mais que suficientes para ganhar este jogo com tranquilidade: Portugal acabou com 27 remates contra quatro, com 54 ataques contra doze, com 19 cantos a três. Este novo modelo prefigura ainda uma alteração identitária numa seleção que ultimamente se habituara a jogar muito atrás e que agora, talvez por ter a noção de que vai enfrentar muitas equipas com propensão para jogar na expectativa, parece querer meter mais ênfase na frente. Ronaldo e Nani, os dois pontas-de-lança móveis escalados por Santos, alternavam bem entre a busca dos corredores laterais – sempre chamando Rafa e João Mário, os dois médios-ala, a posições interiores –, a solicitação do passe em profundidade para o espaço nas costas da defesa búlgara ou o recuo em desmarcações de apoio para combinar com o meio-campo. Em resultado disso, os portugueses perderam várias ocasiões de golo cantado, incluindo um penalti, em que o CR7 permitiu a defesa de Stoyanov, a meio da segunda parte. O início de jogo, então, foi de alvoroço total, com oito situações de finalização nos primeiros dez minutos a provarem que o modelo pode funcionar. Mas da mesma forma que é importante não permitir que a depressão pelo resultado negativo tome conta da equipa, também não convém que se entre em euforia à conta do bom funcionamento do novo modelo. Porque a questão é que ele nem sempre funcionou. Por um lado, a desorganização criativa à base da qual funciona o ataque tem repercussões no modo como a equipa defende, pois muitas vezes ela está desequilibrada no momento da perda. Via-se que Portugal metia muita gente na frente, que dava liberdade total a quem por lá andava – e a própria coordenação entre todos melhorará com o tempo de trabalho e a repetição – mas que depois sofria na transição defensiva, sobretudo se falhava a primeira zona de pressão. Essa pareceu ser a preocupação principal de Santos: a seleção procurava estancar cedo a saída de bola dos búlgaros, chegou mesmo a fazer várias recuperações altas, fruto da amplitude de movimentos de William Carvalho e Adrien Silva, os dois médios-centro, mas se não conseguia ganhar a bola logo ali permitia invariavelmente que se abrissem auto-estradas para rápidos ataques do adversário. Num deles apareceu o golo de Marcelinho, a dar vantagem à Bulgária. Até final nunca mais Portugal teve momentos tão avassaladores como aqueles primeiros 15 minutos de jogo. Mas, apesar da quebra de rendimento de alguns jogadores à medida que o jogo avançava – Nani e João Mário pareceram perder concentração na segunda parte – continuou a criar várias situações para evitar a derrota. O sorriso desesperado de Ronaldo quando, já depois de ter perdido o penalti, viu Stoyanov negar-lhe mais um golo certo com uma defesa impossível, dizia tudo: não era noite de Portugal. Resta a Fernando Santos acreditar que pode ter sido a alvorada de um novo jogar.
2016-03-26
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Último Passe

A sexta vitória consecutiva da seleção nacional em jogos competitivos, obtida em Braga frente à Dinamarca (1-0), garantiu a qualificação para a fase final do Europeu e devia valer a esta equipa pouco brilhante mas sempre consistente mais confiança dos portugueses. A seleção raramente entusiasma, é verdade, mas nunca falha – e isso, no fim, é o que conta para um treinador que agora tem oito meses até à fase final do Europeu, onde a tarefa principal terá de ser a de encontrar uma dinâmica que lhe permita resolver os problemas ofensivos que tem enfrentado e o têm levado a sacrificar Ronaldo, abandonando-o aos adversários. A busca da fórmula-Euro é a prioridade, a começar já no domingo, em Belgrado, na partida frente à Sérvia, na qual até por isso convinha ter Ronaldo em campo e não a assistir pela TV, como vai suceder. Portugal voltou a ganhar pela margem mínima – as seis vitórias foram todas por um golo de diferença – mas a verdade é que nunca pairou no estádio a possibilidade de vir a perder o jogo. Fernando Santos podia jogar com a hipótese do empate, que também garantia a qualificação – aliás até a derrota a teria garantido, face à vitória da Sérvia frente à Albânia – e isso fez com que a equipa se sentisse mais em casa face a uma Dinamarca que raramente se desequilibra, mas que em contrapartida sofre horrores para fazer golos. O resultado foi um jogo sempre pouco entusiasmante, na linha, aliás, dos que sempre tem feito esta equipa, mas consistente. E com diferenças estratégicas, sobretudo na primeira parte, durante a qual se viu pela primeira vez uma coordenação muito satisfatória entre o meio-campo e as três peças móveis da frente: Ronaldo começava ao meio, com Nani à esquerda e Bernardo Silva à direita e Moutinho a aproximar-se muito, sobretudo em situações de pressão. A equipa, assim, equilibra-se, ocupa todos os corredores – ao contrário do que sucede se Ronaldo começa num corredor lateral e o deixa para aparecer no meio – e, sobretudo se resistir à tentação de jogar diretamente no CR7, construindo com mais elaboração, até cria condições para que este não fique abandonado aos centrais adversários, condenado a jogar de costas para a baliza e a anular-se em tarefas que não são as que mais o beneficiam, como se viu nas outras vezes em que jogou como 9. Notou-se essa preocupação estratégica frente à Dinamarca, com mais triangulações envolvendo os três homens da frente e os médios, com duas preocupações: a excessiva participação de Ronaldo em fases iniciais da construção e a perda de passes, fruto de alguma insegurança na posse. Ainda assim, o meio-campo mostrou que pode funcionar: Danilo foi forte defensivamente, Tiago definiu bem os momentos de surgir na área e Moutinho, condenado a ser segundo ponta-de-lança em muitos lances e primeiro a pressionar a saída do adversário noutros, acabou por resolver com um golo bem muito trabalhado. Mas pode melhorar, como podem melhorar as inserções ofensivas dos laterais – desta vez melhor Cédric que um Coentrão sempre em dificuldades para segurar Braithwaite. E é por isso que, na deslocação à Sérvia, importa não descomprimir. Portugal tem vários problemas a resolver e não pode agora dar-se ao luxo de libertar jogadores ou de encarar qualquer jogo que aí venha a não ser com uma ideia: a de aperfeiçoar o coletivo. Oito meses chegam para encontrar uma fórmula.
2015-10-08
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Último Passe

A derrota (0-1) no teste com a França não deixou as melhores indicações à seleção nacional. No final, porém, o selecionador fez uma boa leitura dos acontecimentos, ao reconhecer que faltou mais presença na área. Fernando Santos afirmou que ela seria obtida se os médios subissem mais, o que é evidente, mas também que crê na articulação de um 4x3x3 em que as três peças da frente se movem de acordo com o que decide uma delas. Ora, como diz aquela menina no anúncio dos iogurtes, "nisso, eu já não acredito". Portugal voltou ao 4x3x3, abdicando das experiências que vinham sendo feitas em torno de um 4x4x2 de difícil interpretação que se destinava a compensar a falta de um ponta-de-lança de grande qualidade e a encontrar forma de enquadrar Ronaldo ao meio sem o abandonar ao adversário como ponta-de-lança único. Em 4x3x3, no entanto, voltaram os problemas que se viam antes. Defensivamente, a saída constante de Ronaldo do corredor que lhe é destinado deixa o lateral desse lado em permanente inferioridade sempre que o adversário roda a bola e sai por ali: com a França, Adrien foi sempre a ajuda de Eliseu, o que pode explicar que não tenha aparecido com tanta frequência na frente, em apoio ao ponta-de-lança. Ofensivamente, num sistema em que Ronaldo escolhe a cada momento o seu corredor e Nani e Éder têm de perceber e ocupar os outros dois, a questão que se coloca é a da criação de rotinas que permita a coordenação efetiva dos três homens da frente. Neste jogo repetiram-se às situações em que apareceram dois deles no mesmo corredor, abandonando o terceiro a uma imensidão de espaço, sem esperança de sucesso.Esta é uma questão para a qual não há resposta evidente. Fernando Santos tem o mérito de andar à procura da solução. Ainda que, enquanto não a encontrar, Portugal esteja condenado a ser uma equipa de fraco potencial atacante, que nos jogos contra adversários a sério dependerá demasiado do contra-ataque, das bolas paradas ou da momentânea inspiração de um ou outro jogador para fazer golos. E isso não é aceitável numa equipa que tem tanta gente de qualidade do meio-campo para a frente.
2015-09-04
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