PESQUISA 

Último Passe

É curioso que o golo com que o Sporting ganhou ao Belenenses no Restelo tenha nascido numa casualidade. Sim, o cruzamento de Campbell é excelente. Sim, a finalização de primeira de Bas Dost é igualmente muito boa. Sim, sem jogar uma maravilha, o Sporting já tinha feito o suficiente para se adiantar no marcador antes disso. Mas se Dost estava em posição para marcar deve-o ao facto de ter escorregado e caído, ainda a meio-campo, no momento em que dá início à jogada, num dos seus habituais momentos em que baixa para tabelar com os médios. Só esse “atraso” na chegada à jogada o impediu de estar onde é suposto e, assim, aparecer onde ninguém do Belenenses o esperava: em corrida desenfreada, solto, ao segundo poste. Dost é um jogador muito diferente de Slimani, já aqui o disse vezes sem conta. Mas nem é um jogador assim tão diferente de alguns dos avançados com quem Jesus foi trabalhando ao longo dos tempos. É pesado mas letal na área, um pouco como Cardozo, que foi sempre um jogador contra-natura em todo o jogar daquele Benfica de Jesus: toda a gente corria à volta dele mas ele aparecia a fazer os golos. Nesse aspeto, Dost faz bem o seu papel. É bom finalizador, tem tido um peso incomparável nos resultados da equipa e não é seguramente a ele que o Sporting está a dever a posição em que se encontra na tabela. O que falta fazer é casar a equipa com o avançado que tem e fazer com que ela se esqueça do avançado que deixou de ter. E é nessas contradições, tanto como na fadiga de alguns elementos, que custou ao Sporting os três pontos no jogo com o Sp. Braga, que está a resposta para as dificuldades que a equipa tem vindo a passar nas últimas semanas. O próprio Jesus, que desenha ao mais ínfimo detalhe cada momento, cada triangulação – e por isso é insuperável a treinar – parece ainda enredado nesta teia de indecisões. O que quer do segundo avançado? Alguém que dê a profundidade que Dost não procura, como Markovic ou Campbell? Alguém que traga imprevisibilidade, criatividade e soluções fora da caixa, como Bryan Ruiz ou até, em certa medida, Alan Ruiz? Alguém que seja simultaneamente um terceiro médio, capaz de auxiliar William e Adrien na tarefa de segurar o meio-campo, como Bruno César? Ou ainda alguém que assegure mais presença na área, de forma a aproveitar o facto de Dost exaurir os centrais adversários, como André ou até Castaignos, que desta vez até foi útil? O problema aqui, note-se, não está na diversidade de opções. Isso é bom. O problema está no facto de o resto da equipa não mudar o seu futebol em consonância. Está na busca insistente do espaço interior quando ele não existe fruto da perda da profundidade, por exemplo. Ou até na criação de situações de cruzamento, quando geralmente quem cruza não tem a qualidade necessária para o fazer ou depois falta presença na área (algo pouco habitual nas equipas de Jesus). Quando isto acontece, pode aparecer uma escorregadela que ajude. E isso não é mau nem sequer deslustra. Mas não pode contar-se com isso a cada jornada.
2016-12-22
LER MAIS

Último Passe

Sempre que um grande defronta um clube de muito menor dimensão em jogo da Taça de Portugal, a conversa mais frequente é acerca de motivação. Da falta de necessidade do treinador do clube mais pequeno motivar os seus jogadores, porque estes estarão já naturalmente espicaçados pela hipótese de se mostrarem a uma audiência muito mais ampla que a normal, mas também da dificuldade do responsável do clube mais forte em focar os seus homens num jogo de resultado previsível e onde estes terão muito mais a perder do que a ganhar. Essa não é, no entanto, a principal variável em campo. Muito mais importantes são a qualidade e o entendimento coletivo, já para não falar do ritmo competitivo ou da confiança que faltam quase sempre aos que aparecem ali como se aquela fosse a sua última praia. No Sporting-Praiense, o que permitiu aos açorianos ficar dentro da eliminatória durante boa parte da partida – na verdade até ao 3-1, que apareceu a meia-hora do fim – não foi a motivação por defrontar um grande ou por jogar em Alvalade. Foi o entendimento que os seus jogadores mostraram entre si, porque estão habituados a jogar uns com os outros e formam uma verdadeira equipa. Depois, o que permitiu aos leões dar a volta à eliminatória até ao 5-1 final não foi a vontade de mostrar serviço dos nove suplentes habituais chamados ao onze por Jorge Jesus, mas sim a qualidade dos dois titulares (Adrien e, sobretudo, Bruno César) que, por não terem jogado na pausa para partidas de seleções, ficaram na equipa inicial. Porque a motivação, nascida da tal vontade que os suplentes mais habituais podem ter de justificar mais chamadas à equipa, pode muito bem dar bons ou maus resultados: no Sporting, aquilo de que mais gente vai lembrar-se é de mais um jogo desastrado de Castaignos, com especial relevo para uma trivela que, a meio da segunda parte, mais pareceu saída de uma tarde de convívio entre solteiros e casados. Quer isto dizer que fazem mal os treinadores que, face a jogos desta natureza, mudam o onze de forma radical? Não. A questão é que os jogadores chamados para este tipo de jogos não são – não podem ser – tão maus como aparentam. Castaignos, por exemplo, tem uma história atrás dele e, por muito que a mais recente seja negra, tem de ser melhor do que o que se viu. Ou do que os dois golos de André, depois de o substituir, podem ajudar a fazer crer. O que lhe falta – a ele, como a Douglas, a Esgaio, a Jefferson ou a Alan Ruiz, por exemplo – é ritmo competitivo. E a confiança que nasce nele. Essa, porém, não vai aparecer por decreto.
2016-11-17
LER MAIS

Último Passe

O negócio feito pelo FC Porto com a Meo tem sido visto como uma resposta ao acordo entre o Benfica e a Nos, mas francamente essa é a parte que me parece menos interessante na notícia. Ainda que a generalidade dos adeptos veja o futebol como uma simples forma de medir virtudes – para poder dizer: “a minha é maior do que a tua” – aquilo que mais me interessa no negócio entre o FC Porto e a Meo são outras coisas. É, por exemplo, perceber quanto é que os mesmos adeptos que agora se digladiam para defender o negócio feito pelo seu presidente como melhor que o do rival terão de pagar para continuar a ver o futebol. Porque há um admirável mundo novo a desembrulhar-se à nossa frente e convém percebê-lo desde os primeiros tempos. Interessa primeiro dizer que, tal como o Benfica, o FC Porto fez um excelente negócio e conseguiu assegurar uma importante fonte de financiamento para os próximos anos. Se um negócio é melhor do que o outro é difícil ou até impossível de dizer, porque o que foi vendido foram coisas diferentes e por isso mesmo incomparáveis, as do Benfica por 400 milhões, as do FC Porto por 457. Depois, interessa salientar que se confirma a entrada do futebol nacional num novo paradigma, em que o produtor de conteúdos vende diretamente às empresas aglutinadoras desses mesmos conteúdos, dispensando não apenas o intermediário que fez lei e ditou preços durante anos no futebol nacional, com isso exercendo influência política, mas fundamentalmente dispensando também os canais propriamente ditos. Porque, mais do que perceber se este negócio torna a centralização dos direitos mais próxima ou total e absolutamente inviável, como à primeira vista parece, interessa perceber algo tão simples como: onde vão os jogos ser transmitidos? Os do Benfica na Sport TV (de Oliveira, portanto)? E os do FC Porto, onde? E o que quer a Meo? Melhorar a posição negocial? Quer os direitos para revender? Para lhe servirem de moeda de troca? E poderá a Sport TV aumentar o valor da assinatura sem ter os jogos do FC Porto em casa, mesmo que ganhe o Benfica e a Liga inglesa? E será que a Liga de Proença, que vai somando punhaladas nas costas, pode ainda vir à tona no final desta guerra? Vêm aí tempos animados.
2015-12-27
LER MAIS

Último Passe

O negócio do Benfica com a Nos, para a venda dos direitos televisivos dos jogos do campeão nacional àquela operadora, por valores que podem chegar aos 400 milhões de euros, veio abalar os panoramas audiovisual e futebolístico portugueses. Prefigura uma vitória clara da estratégia secessionista de Luís Filipe Vieira, no que a televisão diz respeito, mas encerra em si mais do que uma dimensão. Primeiro, a óbvia e evidente dimensão financeira. Mesmo descontando os custos de produção do canal de televisão, com os quais não teria de arcar na ligação anterior com a Sport TV, os 400 milhões que o Benfica pode vir a receber pelos dez anos de direitos televisivos dos seus jogos da Liga em casa representam uma grande vitória da estratégia montada pela direção de Luís Filipe Vieira na questão dos direitos de TV. O Benfica viu de facto mais longe que toda a gente, pois conseguiu valorizar os conteúdos relativamente àquilo que a Sport TV pagava, percebendo que o futuro não estava nos canais mas sim nas operadoras. Depois, há a dimensão política. Com a opção pela criação do seu próprio canal, em detrimento da associação à Sport TV, o Benfica passou a ter uma arma de arremesso político – e há mesmo quem acredite que os títulos ganhos recentemente nasceram aí. A Nos não é de Joaquim Oliveira (ainda que este seja administrador não executivo da operadora), mas tem 50 por cento da Sport TV, cujo capital partilha com a Controlinveste. E para quem andou tanto tempo a pregar contra os malefícios da associação ao “Império do Mal”, como o fizeram os ideólogos do Benfica, este contrato parece uma cedência. Se o inimigo do meu inimigo meu amigo é, o que é que isso faz do sócio do meu inimigo? Há ainda que tomar atenção ao que isto representa no edifício do futebol português. É evidente que os direitos televisivos do Benfica valem muito mais do que os dos outros clubes, como é claro que os dos três grandes representam 95 por cento do mercado nacional. Mas a tendência europeia é a da centralização dos direitos nas Ligas, de forma a assegurar uma repartição de receita que potencie a competitividade – o segredo de qualquer campeonato – e impedir que surjam tentações de manipulação por parte dos clubes-detentores de direitos. O contrato do Benfica com a Nos parece ser um passo no sentido contrário, o que seguramente devia motivar pelo menos um esclarecimento por parte da Liga. Por fim, ainda que esse seja o sonho do Tribunal da Concorrência, a entrada das operadoras no negócio dos conteúdos pode complicar muito a vida aos consumidores. Porque uma coisa é ter de pagar a mensalidade da Sport TV e a da Benfica TV para poder ver os jogos do seu clube e outra, completamente diferente e impossível de concretizar, é viver com um cenário em que uns clubes assinam com a Nos, outros com a Meo e outros ainda com a Vodafone. Ninguém terá mais de um operador de TV por cabo em casa e os únicos caminhos serão então o pay per view no computador ou a pirataria pura e simples. E nenhum justifica tão avultados investimentos num mercado como o português.
2015-12-02
LER MAIS