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Tive a oportunidade de fazer, para o Bancada.pt, a primeira entrevista a Fernando Santos depois de Portugal ter conseguido a qualificação para o Mundial. E o selecionador que me apareceu à frente era um homem não apenas solto, como incrivelmente confiante. É verdade que muito do que Santos disse pode ser entendido como parte de uma estratégia de comunicação, até para dentro do balneário, mas houve uma frase que me fez pensar: “Neste momento, ninguém quer defrontar Portugal”, disse Fernando Santos. E há uma probabilidade elevada de andar muito próxima da realidade, porque, como também me disse o selecionador, “é muito difícil ganhar à seleção portuguesa”. De facto, a seleção nacional, que muitos por cá consideram aborrecida, é monótona sobretudo numa coisa: não perde jogos. Em 29 jogos de competição com Fernando Santos, Portugal venceu 22 – sim, metade foram pela margem mínima, mas também convém perceber que desses 11 ganhos à justa, só um aconteceu na qualificação para este Mundial – empatou seis e perdeu apenas um. Essa derrota, contra a Suíça, pode ter feito disparar os índices de “mau feitio” que o próprio Santos reconhece ter, porque foi concedida no primeiro jogo competitivo após a conquista do Europeu, por uma equipa em alguns pontos demasiado importada em “jogar bonito”, em deixar brilhar a estrela de campeão que cada um dos seus membros levava ao peito. Esse Suíça-Portugal de Basileia teve coisas muito boas e outras que, parecendo más, também podem ter sido muito boas. Teve brilhantismo ofensivo, o que é muito bom, e sobranceria, que também pode ter sido muito boa, se a derrota tiver servido para a erradicar. Já o disse: não creio que Portugal tenha, neste momento, a terceira melhor seleção do Mundo, conforme diz o ranking da FIFA. Chega a parecer estranho que a seleção tenha já garantido um lugar de cabeça-de-série no sorteio do Mundial, ao lado da Rússia (anfitriã), Alemanha, Brasil, Argentina, Bélgica, Polónia e França, e que a Espanha, por exemplo, vá parar ao Pote 2. O próprio Fernando Santos reconhece debilidades na equipa portuguesa e fala de uma forma aberta de algumas delas, as que identificou no centro ou no lado esquerdo da defesa. Olha-se para o lote de jogadores à disposição dos selecionadores da Alemanha, do Brasil, e mesmo da Argentina, da França e da Espanha e não se pode dizer que os portugueses estejam ao mesmo nível. Porque não estão. Mas a verdade é que só jogam onze de cada vez. E em 90 minutos. Ou em 120. E se neste seu percurso competitivo de três anos, a seleção de Fernando Santos só defrontou uma daquelas cinco potências (a França), o que é indesmentível é que lhe ganhou. E ganhou-lhe onde e quando lhe doía mais: no Stade de France, na final do Europeu. Esta seleção de Portugal não é, de facto, uma maravilha de se ver em todos os jogos. Às vezes, também a mim me parece que arrisca pouco: em Andorra, por exemplo, num jogo contra um adversário que não sabia nem queria jogar e se limitava a acantonar-se à frente da área para aproveitar as dificuldades que o sintético provocava aos portugueses, manteve muitas vezes seis jogadores atrás da linha da bola e fora do bloco opositor. Contra a Suíça, mesmo com algumas exibições brilhantes (William, Bernardo, João Mário, a mostrarem que há Portugal para lá de Ronaldo…), nunca se deixou inebriar pelo barulho das luzes e preferiu sempre exercer o controlo a ir à procura do elogio. Terá aprendido a lição de Basileia. A questão é que Portugal acabou por ganhar os dois jogos e não foi pela margem mínima com que ganhava na qualificação do Europeu. E em ambos se viu que a ligação entre as ideias do selecionador e os jogadores está ativa. Porque a razão por trás do controlo do jogo contra a Suíça é a mesma que explica a incapacidade ofensiva no jogo de Andorra. É a urgência de ter segurança. O receio de falhar, de expor a equipa. Após a entrevista, enquanto fumava um cigarro, Fernando Santos perguntava-me: “Mas isto agora mudou? Já não é importante uma equipa ser compacta? Ser segura?” Era uma pergunta retórica. E é tão claro que é importante como é claro que não mudou. Mas também não mudou a insatisfação dos analistas e dos adeptos. Porque se tivéssemos uma equipa a jogar bonito e a perder jogos, a questão iria colocar-se ao contrário. Lembrei-me do que me disse Carlos Queiroz há uns dois meses, a propósito das alterações que fez na seleção depois de um dos melhores jogos que vi fazer a uma seleção nacional ter redundado numa derrota, contra a Dinamarca, em Alvalade (2-3). Passou a privilegiar a segurança, a equipa deixou de sofrer golos, e ainda chegou ao Mundial. Na África do Sul, é verdade, as coisas não correram bem. Mas aquele Portugal não tinha nem a profundidade de escolhas que tem este nem um Cristiano Ronaldo maduro e capaz de aceitar que pode ter na equipa um papel mais importante que o de marcar golos: o de capitão de equipa.
2017-10-15
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