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  Já todos ouvimos estes queixumes, sempre da boca de adeptos cuja equipa não ganha um jogo que era de ganhar. “O adversário chegou aqui e estacionou o autocarro à frente da sua baliza”, lamentam-se, sempre dispostos a encontrar as explicações para um resultado negativo naquilo que os outros fazem. E o pior é quando entram em comparações com aquilo que o mesmo adversário terá feito em jogos com os rivais: “quando foram jogar com o x, abriram-se todos”. Pois bem, esta é uma falsa questão. E a semana que passou encarregou-se de nos mostrar isso mesmo, bem como de desmistificar essa questão do jogar bem e do jogar mal. O que é, afinal, jogar bem? É o que faz o Rio Ave? É que durante todo o campeonato temos lido e ouvido elogios tantas vezes justificados ao futebol da equipa de Miguel Cardoso. O Rio Ave tem princípios muito sólidos, dos quais nunca abdica: constrói em posse desde trás, não vai na conversa do balão para a frente à espera de ganhar as segundas bolas com base na raça e na agressividade. Isso permite-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, lances muito bem desenhados que são um primor para os sentidos. Foram do Rio Ave algumas das mais bonitas jogadas do campeonato, algumas das quais com golo no final. E em segundo lugar a construção de um modelo de jogo – que se treina, sim, mas que se aperfeiçoa sobretudo em competição – que lhe permite ser quase sempre melhor do que os adversários do seu campeonato. É por isso mesmo que os vila-condenses estão na posição em que estão na Liga, bem dentro das contas para um lugar europeu. E, no entanto, o Rio Ave trouxe duas goleadas dos dois últimos jogos. Levou 4-1 em Portimão a meio da semana e 5-1 na Luz ontem. O que quer isto dizer? Que jogar como joga este Rio Ave, afinal, é jogar mal? Não. Aliás, não quer dizer isso nem o seu contrário: por si só, esta vontade de sair a jogar desde trás também não é jogar bem. O que isto quer dizer é que esta construção de um modelo de jogo é importante na identidade de uma equipa mas não pode ser responsabilizada por haver melhores ou piores resultados. Esses dependem de muitas outras coisas. Da operacionalização desse modelo, da sua compatibilidade com as características dos jogadores de que se dispõe e, last but not least, daquilo que o adversário for capaz de fazer nos jogos. Os últimos dois jogos do Benfica explicam bem estes três parâmetros. Tal como fez o Rio Ave ontem, também o Belenenses, na segunda-feira, escolheu sair a jogar desde trás, optando por adiantar o seu bloco e dividir a posse de bola com o Benfica. Empatou, esteve até à beira de ganhar, porque sofreu um golo no último lance do desafio, mas no fim do jogo o seu treinador, Silas, veio apontar à equipa alguns erros na gestão da bola e dizer duas coisas: que sabia porque razão esses erros tinham sucedido e que daqui a algum tempo vamos deixar de os ver. Isto é: que o Belenenses ainda não teve o tempo necessário para operacionalizar o novo modelo. Esse não será, no entanto, o problema do Rio Ave, que já treina e joga assim desde o início da época. Aliás, já foi a jogar assim que o Rio Ave empatou em casa com o Benfica e lhe ganhou na Taça de Portugal, contribuindo para este fim de época tranquilo e repousado dos campeões nacionais. Será então uma questão mais ligada à compatibilidade dos jogadores com este tipo de futebol? Não creio. O Rio Ave tem homens para jogar assim: tem bons pés atrás, tem dois cérebros a funcionar em pleno no meio. Falhou, sim, nas bolas paradas, por exemplo (três dos cinco golos sofridos ontem na Luz nasceram em pontapés de canto). Mas isso não tem nada a ver com o facto de se apostar numa construção segura e enleante, que tem naturais reflexos na forma como a equipa tem de se desorganizar a atacar – quem dá um chutão na frente não tem de desenhar os triângulos que a progressão em passes sucessivos pressupõe e, por isso, estará sempre mais organizado no momento em que perde a bola. Daqui se percebe que se o Belenenses esteve à beira de ganhar ao Benfica e o Rio Ave saiu da Luz goleado, isso também terá tido a ver com o que o próprio Benfica fez num jogo – e com o que não fez no outro. Com a competência em particular dos jogadores num momento e a sua falta noutro. E isso, repito, não tem nada a ver com o facto de o adversário estacionar o autocarro à entrada da área ou de jogar à procura de ser construtivo. Não é o que gostam de ouvir os defensores das teorias da conspiração, mas esses também não são capazes de explicar por que razão se contradizem a cada jornada. E por que razão numa semana se queixam de um adversário que joga demasiado fechado para na outra elogiarem uma equipa que soube fechar-se bem para roubar pontos a um rival. Ou por que razão numa semana se queixam de uma equipa que se abriu toda e facilitou a goleada a um rival para na outra lamentarem que apareça uma outra atrevida e capaz de testar bem os seus defesas com sucessivos ataques cheios de intencionalidade. Isso são coisas que o futebol não explica.
2018-02-04
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Feirense e Portimonense portaram-se muito bem nos jogos com Sporting e Benfica, a contar para a quinta jornada da Liga (escrevo ainda antes do FC Porto-Chaves) e essa circunstância foi e voltará a ser aproveitada para ridicularizar os que apontam o dedo à desigualdade na distribuição da receita para falar de perda de competitividade do futebol em Portugal. Na verdade, quem o faz está a ser tão ou mais demagogo do que foi Manuel Machado quando levantou a lebre, depois de ter visto o seu Moreirense ser atropelado pelo FC Porto. Porque aqui há dois planos de realidade: a distribuição da receita devia ser mais justa, mas dentro das injustiças há quem trabalhe melhor e quem trabalhe pior. Imaginemos uma família que faz das tripas coração e consegue viver com o salário mínimo. E outra que, nas mesmas condições chega sempre a meio do mês com as contas a vermelho. O facto de existir a primeira não quer dizer que o salário mínimo seja suficiente ou que a sociedade não deva preocupar-se com as desigualdades que a assolam: significa apenas que há gente que consegue fazer mais com menos. E tanto Nuno Manta como Vítor Oliveira – ou Miguel Cardoso, que protagonizou com o Rio Ave um arranque extraordinário da Liga – são treinadores capazes de fazer muito com pouco. E parte da justificação nem está exclusivamente neles: tem a ver com a qualidade dos grupos de trabalho que lhes puseram à disposição, com uma boa escolha de jogadores, mesmo sem salários muito elevados. Depois, há as questões que têm exclusivamente a ver com os treinadores. Primeiro, as táticas ou estratégicas: o Feirense e o Rio Ave são das poucas equipas do campeonato que jogam olhos nos olhos com os grandes, que tentam sair em construção segura e que vão lá acima à procura da bola quando a não têm, ao passo que o Portimonense sabe ter a bola e jogar com as zonas em que o adversário se sente mais desconfortável. É a velha máxima: joga como os grandes se queres ser como eles. Depois, por questões de liderança: Manta é o irmão mais velho que leva a família toda atrás, Vítor Oliveira o pai em que todos no balneário acreditam e Cardoso uma espécie de jovem professor que transpira ciência e causa admiração. A liderança de Machado é mais antiga, professoral até no discurso, resulta pior, mas isso não quer dizer que ele não tenha razão na crítica que fez. Aliás, um dos problemas do futebol é não haver um sistema funcional de vasos comunicantes que permita a filtragem das reflexões e a sua chegada a quem decide já prontas a serem digeridas. E aqui, lamento, mas não me interessam as “reflexões” – assim mesmo, com aspas – que os grandes vão fazendo sore arbitragem, vídeo-arbitragem ou disciplina, porque essas têm sempre o mesmo intuito, que é tirar aos pobres para dar aos ricos. Não falo de quem só acha que o vídeo-árbitro é uma boa ideia quando ele decide de acordo com as suas conveniências, porque não só é uma boa ideia como é uma ideia fulcral. Falo, por exemplo, das críticas que o presidente do Marítimo, Carlos Pereira, fez esta semana ao modelo de organização da Taça da Liga, que é montado de forma a favorecer a chegada dos grandes à “final four”. Tem razão. E ele sabe que isso acontece porque ter os grandes na “final four” aumenta exponencialmente o interesse popular na competição e, claro, a receita. O que não se lhe ouviu – pelo menos em público – foi uma alternativa que faça da Taça da Liga uma prova mais justa sem perda de receita. Começá-la, por exemplo, logo pela fase de grupos, invertendo a ordem de benefício do fator-casa que atualmente favorece os grandes. Levar os grandes aos campos da província em fase inicial da época, quando há mais fome de bola e emigrantes em Portugal, por exemplo. Fazer mais jogos quando as equipas querem jogar e não lhes sobrecarregar Janeiro, num convite descarado a que joguem com os suplentes e aconteça o que aconteceu no ano passado: apesar de todas as tentativas de os beneficiar no modelo da competição, dos grandes só o Benfica esteve na “final four”. E houve apenas 6703 espectadores na final, entre SC Braga e Moreirense. Falo, por exemplo, das queixas de Jorge Jesus acerca do estado pouco alerta de alguns dos seus jogadores que chegaram a Portugal pouco mais de 24 horas antes do jogo com o Feirense, vindos do outro lado do Mundo. “Deixe-me dormir primeiro, que depois logo lhe digo”, terá respondido Coates ao treinador, quando este lhe perguntou se ele estava em condições de jogar. E esta questão, dos calendários, já tem merecido debates sucessivos nos fóruns de treinadores que os organismos internacionais vão organizando, mas nada evoluiu e nunca se ouviram sequer propostas para melhorar as coisas, por exemplo juntando mais datas de seleções para minimizar o efeito das viagens transatlânticas e usando os milhões que o Mundial de futebol gera para ressarcir os clubes da ausência mais prolongada dos seus jogadores e da falta de receita por interrupção das competições. Pelo contrário, o que se fez foi no sentido inverso: espalharam-se os dias em que se joga sem que se façam mais jogos, mas só para haver menos concorrência entre jogos na TV, aproximando as chegadas dos jogadores aos clubes das datas em que têm de voltar a competir. Esta incapacidade de o futebol levar o pensamento basista às cúpulas está na génese da maior parte dos problemas que o jogo tem de enfrentar. Mas em vez de se trabalhar nesse sentido, o que mais se vê é a tentativa de o menorizar com argumentos que têm sempre o mesmo intuito. O de manter tudo na mesma.
2017-09-10
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