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Último Passe

De França chegou a sugestão. De Itália, a revolta. Em Portugal fez-se eco da revolta italiana. Ao que tudo indica, nem Cristiano Ronaldo nem Messi estarão na lista de candidatos a receber a Bola de Ouro do France-Football relativa a 2018. Fim de uma era? De um duelo de titãs? Ou será antes a vingança servida a frio do lóbi do Real Madrid com a conivência dos franceses? Talvez não seja nenhuma das hipóteses acima, mas apenas a constatação de que o Mundial influiu sempre muito nestas escolhas e a base para um debate acerca de prémios individuais em jogos coletivos e do peso das conquistas da equipa nas escolhas dos jurados. Não me restam a mim grandes dúvidas de que Ronaldo e Messi continuam a ser de um planeta à parte e que ainda não houve sucessão. Neymar ficou curto, Mbappé está a caminho mas ainda tem alguns quilómetros para palmilhar. Mas aqui surge a primeira questão: a Bola de Ouro deve premiar o melhor jogador do Mundo a esta data o aquele que foi o melhor do Mundo no ano que está a terminar? Não é a mesma coisa. Messi ganhou a Liga espanhola (de que foi o melhor marcador) e a Taça do Rei; Cristiano venceu a Liga dos Campeões (sendo igualmente o melhor marcador) e o Mundial de clubes (jogado já depois da entrega da Bola de Ouro anterior), mas ambos ficaram aquém do pretendido no Mundial de seleções. E não é preciso fazer um estudo muito aprofundado para se perceber que o anormal, aqui, foi aquilo que se passou nos últimos anos, em que a Bola de Ouro não foi entregue a um jogador que tenha estado, pelo menos, na final do Mundial. Olhemos para trás. Desde que a Bola de Ouro foi criada, em 1956, ela foi entregue por 15 vezes em ano de Mundial (duas delas em parceria com a FIFA). Em seis dessas 15 ocasiões, porque a Bola de Ouro se destinava ainda apenas a jogadores europeus e o campeão mundial foi sul-americano, seria impossível premiar um jogador da seleção que ganhou o Mundial – sucedeu em 1958 (ganhou Kopa porque o campeão foi o Brasil), em 1962 (ganhou Masopust, mais uma vez em ano de Brasil campeão), em 1970 (venceu Müller, mais uma vez em ano de Brasil), em 1978 (impôs-se Keegan, com a Argentina campeã), em 1986 (Belanov foi o mais votado, mais uma vez com a Argentina a levantar a Taça) e em 1994 (a Bola de Ouro foi para Stoitchkov, com o Brasil campeão do Mundo). Em seis dos outros nove anos de Mundial, o Bola de Ouro foi também campeão do Mundo – o inglês Bobby Charlton em 1966, o italiano Paolo Rossi em 1982, o alemão Matthäus em 1990, o francês Zidane em 1998, o brasileiro Ronaldo em 2002 e o italiano Cannavaro em 2006. E alguém acha que Cannavaro alguma vez foi o melhor futebolista do Mundo? Isso quer dizer que em mais de meio século antes da emergência de Cristiano Ronaldo e Messi e da junção da FIFA ao prémio da France-Football, só por uma vez houve um Bola de Ouro que não tinha sido campeão do Mundo – aconteceu com Cruijff em 1974. E mesmo Cruijff jogou a final do Mundial. Depois, Messi ganhou em 2010 com a Espanha a ser campeã do Mundo – e muitos se insurgiram, dizendo que o prémio devia ser para Xavi ou Iniesta – e Cristiano Ronaldo venceu em 2014, depois de a Alemanha ter ganho o Mundial. O normal, portanto, é que em ano de Mundial a Bola de Ouro seja entregue a um jogador que ganhou o Mundial. O normal, este ano, é que Mbappé a vença. Sem complots nem teorias da conspiração. O que não invalida uma realidade muito simples: que Cristiano Ronaldo e Messi continuam a ser os dois melhores do Mundo.
2018-11-22
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Último Passe

Qual é o ponto em em comum entre o caso Mbappé, o caso Neymar e o caso Villar? É simples: é o dinheiro. É a tendência que o futebol está a revelar para cavar cada vez mais o fosso entre muito ricos e a classe média – já para não falar nos muito pobres –, o que nem é coisa do futebol, é coisa da sociedade em geral. O que o futebol tem, mas não tem aproveitado, são os meios de regulação que travariam este processo de aglutinação de tudo por tão poucos. Talvez nem tenha que o fazer. Talvez eu esteja a agarrar-me a um passado em que havia mais do que dez clubes que interessavam no panorama internacional. Talvez o fundamental seja que a justiça funcione e ponha de parte quem pisa o risco da legalidade instituída. Mas não creio. Centremo-nos em Mbappé, o jovem prodígio do Mónaco que a maior parte dos especialistas projeta poder vir a ser o jogador mais caro do Mundo a breve prazo. O jogador tem contrato válido com o Mónaco, mas conta-se que tem sido contactado por todos os grandes colossos do futebol europeu, aqueles dez que contam verdadeiramente para o campeonato do dinheiro. Os jornais enchem-se de manchetes a falar de reuniões entre os agentes do jogador e a estrutura do Paris St. Germain; de telefonemas de Zidane, treinador do Real Madrid, a garantir-lhe que se se mudar para o Bernabéu lhe assegura minutos de competição suficientes para poder continuar a crescer; das tentativas de Arsène Wenger, treinador particularmente influente quando se trata de jovens franceses, para o convencer a escolher o Arsenal… Tudo isto é ilegal, porque o jogador não está nos últimos seis meses de contrato. E no entanto tudo isto se faz – a ponto de o comunicado do Mónaco, recorrendo a um ponto do Regulamento Administrativo da Liga Francesa e a outro do Regulamento de Transferências de Jogadores da FIFA, ser algo para o que se olha com algum desdém. “Lá estão estes a falar das leis”… O mesmo poderia ser dito de Neymar, jogador que tem contrato de longa duração – renovado há um ano – com o Barcelona, mas que alegadamente o terá feito na convicção de que Messi ia atrás de Guardiola e que ele se transformaria na estrela de primeira grandeza blaugrana. Não aconteceu. Messi renovou. E Neymar recorreu ao mesmo expediente que usara há um ano para conseguir a renovação, com passagem de cláusula de rescisão de 200 para 222 milhões de euros: deixou-se querer pelo Paris St. Germain, lançando o pânico nas hostes catalãs. Também aqui se fala de reuniões e se pedem comunicados, nem que sejam através do instagram do jogador, que tem mantido o silêncio. E a operação é apresentada não apenas como possível mas até como potencialmente lucrativa até do ponto de vista económico-financeiro, tal seria o peso que uma eventual chegada de Neymar a Paris teria na força nacional e internacional do clube parisiense. Não se põem em causa sequer as regras do “fair-play financeiro” que qualquer colosso do futebol europeu – PSG e Barcelona incluídos – sabe como driblar, seja através de contratos publicitários com o grupo que dono do clube ou da venda inflacionada de direitos televisivos ao mesmo grupo financeiro. A verdade é que se olha para o caso Neymar e conclui-se que o jogador faz mais sentido em Paris do que em Barcelona. Porque, aí está, ao contrário do caso Mbappé, a transferência do brasileiro contribuiria para aumentar o lote de clubes com estrelas de primeira grandeza – e o PSG neste momento não tem nenhuma. O que faz pouco sentido é que, fruto de um sistema que leva à concentração das grandes receitas nas mãos dos mesmos clubes – e outros a penar para conseguirem reunir as migalhas que lhes permitam cumprir orçamentos – haja clubes com dois ou três candidatos a Bola de Ouro a atropelarem-se no mesmo balneário. E é aqui que entra a ligação ao caso Villar – e se falo do caso Villar é apenas por ter sido o último, porque podia falar de qualquer outro caso em que haja dinheiro à solta nas margens dos negócios do futebol, que a pertinência seria a mesma. Porque o futebol continua a sofrer com uma falta de regulação que se encontra, por exemplo, nos desportos americanos, e que vem contribuir para que o dinheiro que se escapa pelas frechas dos contratos seja tanto que serviria para financiar mais clubes de alto nível e aumentar a concorrência. Lembremo-nos, por exemplo, da chegada a Portugal de Freddy Montero. Para ir contratar o colombiano, o Sporting não teve de chegar a acordo só com o Seattle Sounders, clube que era detentor do seu passe. Teve de conversar também com a Major League Soccer (MLS), que pôs em campo um regulamento de transferências de tal forma bizantino que dificilmente algo lhe escapa. E que, tal como em qualquer outra liga americana (NFL, NBA, NHL, MLB…) favorece a concorrência e impede a concentração dos melhores talentos nas mesmas equipas. Podem até alegar que o fazem para favorecer o negócio. É verdade. O propósito da coisa é esse. Mas a verdade é que com estas regras tão fechadas se impede que o dinheiro escape e, ao mesmo tempo, mantendo a concorrência em altas, se mantém mais adeptos felizes. Aquilo a que estamos a assistir no futebol europeu é precisamente o oposto – muito dinheiro a escapar e cada vez mais adeptos infelizes, porque a concentração de talentos leva à eternização dos campeões. É por isso que fenómenos como o Leicester (campeão inglês em 2016) ou o Mónaco (campeão francês em 2017) são tão bem acolhidos por quem gosta de futebol. Porque permitem agitar as águas. Porque o que mais se vê por aí são campeões eternos (cinco vezes o Bayern, seis vezes o Celtic ou a Juventus, oito vezes o Basileia) e gente a afastar-se do futebol porque este deixa de lhe dar razões de satisfação.
2017-07-23
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