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Último Passe

A primeira aparição do Sporting de Marcel Keizer não foi brilhante – muito longe disso – mas deu para ver aquilo que o treinador holandês quer da equipa. Um futebol de matriz-Ajax, assente no dogma do 4x3x3, na construção elaborada desde trás e na colocação de boa parte dos seus elementos em zonas avançadas do terreno, mesmo quando em ação defensiva. As dificuldades que os leões tiveram durante uma hora para se superiorizarem ao modesto Lusitano de Vildemoinhos tiveram muito a ver com esta transformação e com o tempo que ela vai levar a ser assimilada por um plantel habituado a jogar de outra forma. Numa Liga tão renhida como está a ser esta, o risco que Keizer corre é o de perder o presente para tentar ganhar o futuro. Os defeitos a apresentar ao Sporting no jogo de Viseu foram simples. Lentidão a circular a bola, própria de quem começou agora a treinar uma nova forma de o fazer, de quem trocou as verticalizações mais súbitas por um jogo mais apoiado, e que portanto não sente a segurança necessária para acelerar, e erros posicionais ou de intensidade da primeira linha de pressão, deixando as linhas recuadas mais expostas às transições ofensivas rápidas do adversário. Pode dizer-se que a estrutura não apresentou grandes diferenças, introduzindo Bruno Fernandes mais cedo no jogo para abrir vaga a Wendel como segundo avançado (e terceiro médio), restando perceber se foi o ritmo mais baixo do brasileiro a influenciar o jogo coletivo ou se ele foi vítima de uma equipa toda ela mais insegura na construção e, depois, na entrada em zonas de criação. A verdade é que durante uma hora o Sporting foi tendo quase sempre a bola mas poucas vezes a usava para desequilibrar um Lusitano bem organizado em 4x1x4x1 e sempre capaz de ocupar bem os espaços. E a questão é que se o Sporting não usava os cerca de 70 por cento de posse que tinha para criar situações de perigo, o adversário ainda ia tendo atrevimento e capacidade para ir com perigo até à área leonina, muitas vezes beneficiando do adiantamento geral do favorito. Já se sabe que a escola holandesa manda defender alto, para diminuir o espaço que há a fazer entre o momento da recuperação e a chegada à área adversária, mas o que se viu foi um Sporting pouco agressivo em transição defensiva e, depois, vulnerável sempre que o adversário esticava o jogo, com os centrais ora muito abertos ora fixos no espaço interior, com avenidas abertas nas alas por via da projeção dos dois defesas-laterais em simultâneo. É todo um novo jogar que pode fazer do Sporting uma equipa mais atrativa, mas que por enquanto apenas o transforma num coletivo mais inseguro e até um pouco incoerente. Keizer precisa de tempo. Resta perceber se o decurso normal da Liga lho dará.
2018-11-25
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Último Passe

Quer consiga levar a bom porto a aposta em Marcel Keizer, treinador cuja carreira teve como ponto alto a condução da segunda equipa do Ajax ao melhor futebol do segundo escalão holandês e a posterior nomeação como responsável máximo do futebol do clube, quer tenha de ficar mais tempo com o jovem Tiago Fernandes, técnico vindo dos juniores com uma autoestima do tamanho da do José Mourinho dos primeiros tempos, parece evidente que Frederico Varandas quer ressuscitar a aposta na formação que torna internacionalmente reconhecida a marca Sporting mas que deu apenas dois campeonatos nos quase 30 anos desde que eclodiu na equipa principal o primeiro Bola de Ouro criado no clube. Certo? Errado? Eu diria certo, mas arriscado e a precisar de muito mais convicção e paciência do que a que novo presidente tem demonstrado desde que assumiu o cargo. Há décadas que o Sporting se debate com este dilema. Em que apostar? Numa equipa jovem, sem canalizar muitos recursos para o mercado, de forma a não roubar espaço aos jovens que saem das categorias inferiores? Ou numa equipa capaz de ganhar os campeonatos, contratando jogadores vencedores e de qualidade? Desde que apareceu na equipa o primeiro dos dois Bolas de Ouro criados em casa (Figo, no início da década de 90), o clube tanto apostou na formação (o período Paulo Bento, por exemplo, onde não havia dinheiro para reforços e se assistiu, por isso mesmo, à subida de vários miúdos ao onze) como na competição (com Jorge Jesus, onde o mercado era o primeiro recurso e esse investimento roubou naturalmente espaço à imposição da rapaziada mais jovem). Sem títulos para ostentar – apenas dois campeonatos ganhos nos últimos 30 anos – a marca Sporting é reconhecida sobretudo pela excelência de uma formação que deu ao Mundo Figo, Ronaldo, mas também Futre, Nani, Moutinho ou Rui Patrício. E a questão aqui é a de perceber o que é causa e o que é consequência. Isto é, de entender se o Sporting não ganha porque quer formar ou se forma porque não tem meios para jogar para ganhar. Ainda recentemente, no relatório do Observatório do Futebol, o Sporting surge em sexto lugar na lista dos clubes que mais jogadores dão às Ligas europeias de topo, lista essa que é liderada, precisamente, pelo Ajax, cujo modelo Marcel Keizer domina de cor e salteado. A questão é que, ao contrário do que sucede com o Ajax na Holanda – dez vezes campeão holandês nesse mesmo período, desde o início da década de 90 – os leões depois não conseguem transpor o sucesso para a equipa principal. As razões, do meu ponto de vista, são tão simples de entender como complicadas de contrariar e têm tanto a ver com a incapacidade de gerir a pressão que o mercado – e os agentes – fazem sobre os jovens jogadores, mantendo-os por tempo suficiente para que possam chegar a ganhar, como com a capacidade de lhes dar enquadramento competitivo satisfatório. E com isto quero dizer espaço de afirmação numa equipa que precisa de ser competitiva apesar de eles lá estarem mas também espaço de crescimento antes de lá chegarem, aspeto em que a extinção da equipa B foi um autêntico tiro no pé. Daí que me pareça que se a aposta de Frederico Varandas é no Sporting como marca de formação, o presidente vá precisar de convicções fortes e de paciência. Paciência, porque a formação do Sporting já não é o que era: os últimos anos viram os leões serem superados pelo Benfica não apenas a nível de títulos nas camadas inferiores como também no que respeita a presenças nas seleções jovens e até na quantidade de jovens da casa que chegam à seleção A. E não, ao contrário do que pensam os mais fanáticos, não há nisso nenhuma conspiração. É mesmo uma questão de qualidade. Depois, de convicção, porque é bem possível que, em virtude da tal quebra de qualidade que a formação leonina tem vindo a sofrer, essa aposta leve o seu tempo a colher frutos. E se a respeito de José Peseiro a aparente reação de Varandas a reboque das bancadas ainda pode ter a justificação de que aquele não era o treinador que ele teria escolhido se não o tivesse já encontrado no cargo quando assumiu a liderança, com o novo técnico será diferente: vai ser ele a escolhê-lo e terá de o assumir como parte da solução e nunca como problema.  
2018-11-05
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