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Último Passe

A alta competição tem-se tornado tão exigente, com um ritmo alucinante de jogos, que cada vez mais me convenço que só um milagre da genética que além disso é um fanático do trabalho e da recuperação, como Cristiano Ronaldo, pode estar ao mais alto nível durante uma década e meia. Entre os outros, os “mortais”, os inícios precoces começam por trazer vantagens mas depois acabam por acarretar custos. Pode até nem ser o caso de João Moutinho, mas lá que parece, isso parece. Além do talento indesmentível, da responsabilidade e de uma capacidade de trabalho e de compromisso em campo muito acima da média dos seus colegas, uma das maiores vantagens competitivas de João Moutinho sempre foi o facto de ter entrado na equipa principal do Sporting aos 18 anos e de, logo na época de estreia, se ter convertido num dos esteios de um onze que, com José Peseiro, chegou à final da Taça UEFA. É a competir que os jovens mais crescem e muitas vezes o facto de encontrarem esse espaço competitivo desde a mais tenra idade faz toda a diferença: veja-se, a título de exemplo, a importância do regresso das equipas B para a crescente afirmação das seleções nacionais de sub21. Isso pode é pagar-se com juros, como parece estar a suceder com o médio algarvio do Mónaco, mais uma vez lesionado e por isso mesmo fora da lista de Fernando Santos para o jogo de Portugal com a Letónia. É uma fase? Talvez. Tem a ver com a estadia no Mónaco, principado cujo glamour já tem na lista de baixas uma série de outros grandes jogadores mundiais? Quem sabe… João Moutinho terá ainda muito para dar ao futebol nacional, mas a forma penosa como passou pelo último Europeu, lutando a cada jogo com dificuldades físicas que o impediam de ser o equilibrador a que a equipa estava habituada, permite que se pense nos custos a pagar por uma carreira que, apesar dos 30 anos do jogador, já vai longa. Por alguma razão, depois da época de estreia no Sporting (26 jogos, em 2004/05), Moutinho esteve sempre acima dos 40 jogos por ano até chegar ao Mónaco, em 2013. E tirando esse ano de estreia em França, com a equipa fora das competições europeias, só na época passada voltou a baixar essa barreira que separa os gigantes competitivos dos outros. É que o conta-quilómetros não pára e no panorama atual da seleção nacional, com tantos médios de grande capacidade, só o melhor Moutinho pode bater-se por um lugar no onze.
2016-11-03
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