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Último Passe

Rui Vitória explicou a fraca exibição do Benfica contra o FC Arouca com a rotatividade, ao falar em “jogadores que ainda não têm muito jogo” como justificação. Na verdade, a rotatividade é um chapéu que cabe em muitas cabeças: o segredo é usá-lo na medida adequada e nas alturas exatas. Porque se numas vezes é um erro crasso, noutras é a fórmula mágica de que se fazem os campeões, através de uma gestão inclusiva do grupo. A rotatividade não é coisa de hoje. Quando comecei no jornalismo e tinha a mania que sabia tudo de futebol internacional, a ponto de manter atualizadas as fichas de utilização de todas as equipas dos principais campeonatos europeus, ficava abismado com a gestão de plantel que era feita por Luis Fernández no Cannes, clube no qual começou a carreira de treinador com uma subida de divisão e um sexto lugar na Liga francesa, o que lhe permitiu saltar para o banco do PSG, em 1994. Rara era a semana em que Fernández não trocava mais de meia equipa, o que vinha em contra-ciclo com aquilo a que estávamos habituados num futebol português onde ainda era muito forte a influência conservadora dos treinadores britânicos. Uma influência que ainda recentemente pude recordar ao ver o excelente documentário “I Believe in Miracles”, acerca da condução que Brian Clough impôs no Nottingham Forest, no final d década de 70 do século passado. No Forest, Clough nunca teve mais de 14 ou 15 jogadores. Abusava sempre dos mesmos, mas mesmo assim conseguiu subir de divisão num ano, ganhou a Liga inglesa na segunda época e a Taça dos Campeões Europeus nas duas que se seguiram. A dada altura é contada a razão pela qual o mítico treinador se incompatibilizou com o médio escocês Archie Gemmil: tirou-o do onze, bem como a Martin O’Neill, na primeira final europeia; Gemmil não gostou, disse-o e foi vendido logo a seguir, ao passo que O’Neill acatou e ainda foi bicampeão europeu. O que chama a atenção para dois aspetos fundamentais na questão da rotatividade. Primeiro, a questão física: a ciência do treino evoluiu muito – e todos os entrevistados, incluindo alguns que mais tarde deram treinadores, concordavam que o que se fazia naquele Nottingham Forest não era bem treinar – e já se entende que há muito a ganhar em dosear o esforço durante os jogos, não só para os habituais titulares, como também para os outros. Depois, a questão mental: qualquer equipa tem a ganhar com aquilo a que gosto de chamar “gestão inclusiva” dos recursos, isto é, com o facto de conseguir manter focado todo um plantel e não apenas aqueles que sabem que em condições normais jogam sempre. Acontece que fazer uma “gestão inclusiva” não é chegar a um jogo da Taça de Portugal contra uma equipa de um escalão secundário e mudar mais de meia equipa. Que o digam, por exemplo, Fernando Santos, que dessa forma viu o seu FC Porto ser eliminado em casa pelo Torreense e o seu Sporting ser afastado por um então secundário Vitória FC, ou Jesualdo Ferreira, que dessa forma perdeu em casa, pelo Benfica, com o FC Gondomar. Ao mudar tanto, num momento em que não tem as bancadas com ele, Vitória correu riscos demasiados e desnecessários. Fazer uma “gestão inclusiva” é dar a entender a todos que contam e é exatamente o contrário do que se faz numa situação dessas. Não se diz a um jogador que nunca é utilizado que também conta chamando-o num jogo que à partida não tem grau de dificuldade elevado. Aí, a mensagem que se está a passar é a de que o jogo é tão fácil que até aquele poderá jogar e o efeito psicológico arrisca-se a ser devastador no resto da equipa, que normalmente perde intensidade e concentração. “Gestão inclusiva” foi o que fez, por exemplo, Sérgio Conceição no FC Porto na época passada, quando apostou em José Sá em vez de Casillas no jogo com o Lusitano de Évora, mas depois o manteve, quatro dias depois, em Leipzig, na Champions. Ou quando deu a primeira titularidade da época a Sérgio Oliveira na visita ao Mónaco, também na Liga dos Campeões. Essa é a forma correta de fazer rotatividade, porque além de permitir que todos doseiem o esforço, “diz” aos consagrados que têm de se aplicar para jogar e aos menos utilizados que têm de estar focados, porque podem entrar em qualquer momento. Conceição nunca chegou ao cúmulo do que fazia Fernández, porque é evidente que a estabilidade também é importante nas rotinas de jogo – e a verdade é que Fernández nunca deu treinador de topo, apesar do início promissor – mas é para mim evidente que foi graças a essa gestão que ampliou na prática a força de um plantel que no início da época era inferior aos de Sporting e Benfica.  
2018-11-23
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