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É muito complicado dizer se o interesse do Paris St. Germain é uma boa ou má notícia para o Sporting. Porque depende de muita coisa. Depende, primeiro, do grau de veracidade da informação oficial do clube, segundo a qual Jesus e o presidente Bruno de Carvalho estarão na mesma página, a trabalhar para o futuro do clube. Se isso é verdade, então a saída de Jesus será sempre uma má notícia; se for mentira, é uma porta de saída para a crise, porque não é possível duas pessoas que não se entendem construírem seja o que for com sucesso. Mas mesmo que a eventual transferência de Jesus para Paris seja a tal saída providencial, não se iludam, porque outra crise se seguirá, à qual vai ser preciso dar uma resposta rápida e, acima de tudo, certeira: é preciso encontrar um treinador. Primeiro ponto. É bom para o Sporting que Jesus saia agora? Disso não tenho dúvidas: não é bom. Jesus trabalha como poucos na Europa, conhece o futebol nacional como menos ainda e era uma mais-valia para o projeto do futebol do Sporting. Não ganhou ainda o campeonato, no primeiro ano por infortúnio e uma unha negra, no segundo por erros evidentes – dele e de quem o enquadra – que poderia sempre corrigir, mas a certeza que tenho é que quem quer que entre no caso de ele sair terá de começar tudo do zero. E isso só será positivo em dois casos. Ou no caso de se achar que entre Jesus e o presidente já não há base de entendimento para construir seja o que for, o que tem sido amplamente desmentido pela comunicação oficial do Sporting. Ou no caso de se achar que Bruno de Carvalho é absolutamente infalível, o que até encontra base de suporte nas escolhas que fez de treinadores mas está muito longe de ser verdadeiro nas operações de mercado que subscreveu, antes mesmo de Jesus ter chamado a si essa pasta tão delicada. E não há-de ser preciso falar de Shikabala, Slavchev ou no Mini-Messi para recordar isso mesmo. Mas assumamos que a questão aqui é mesmo de números e que os valores que o PSG estará a propor seriam suficientes para dar a volta à cabeça não só do treinador, mas também do clube. E se no caso de Jesus isso até se compreende, no caso do clube significará também assumir que a ideia de investir num treinador valores que poderiam servir para reforçar a equipa com bons jogadores terá sido uma ideia errada. Para Bruno de Carvalho aceitar agora de bom grado aquilo que tanto trabalhou para contrariar há dois anos – se bem se lembram, a estratégia de Luís Filipe Vieira e Jorge Mendes passava por colocar Jesus no Dubai, de passagem para o PSG, onde alargaria a rede de influência do circuito Gestifute/Benfica – é porque mudou radicalmente de ideias em relação à estratégia que quer seguir. Ou que pelo menos reconhece ser impotente para a manter, porque nada significa que a eventual passagem de Jesus para o Paris St. Germain não venha a reforçar essa mesma zona de influência de que fazem parte os tetracampeões nacionais e as suas operações de mercado. Pode até dar-se o caso de o Sporting não ter poder de evitar o que aí vem. De o treinador ter no contrato clausulado que lhe permita ir à sua vida, pagando pela sua libertação. E nesse caso, nem que quisesse manter o treinador e acreditasse que o sucesso do Sporting passava por ele Bruno de Carvalho poderia fazer o que quer que fosse. Livrar-se-ia do ato de contrição, mas não da decisão seguinte. Que treinador contratar? Digo aqui o que já disse acerca da opção de Pinto da Costa para substituir Nuno Espírito Santo. O Sporting precisa de um treinador de futebol ofensivo e espetacular, o que desde logo afasta algumas das opções que têm vindo a ser publicitadas, mas com conhecimento profundo da realidade do futebol português. Nestas condições há Paulo Fonseca – que esteve no radar leonino para entrar se Jesus tivesse saído há um ano –, Paulo Sousa ou eventualmente Vítor Pereira. O primeiro tornou-se entretanto muito caro, o segundo pode ter de o disputar ao FC Porto e o terceiro é portista profundo. Não será uma escolha fácil.
2017-05-27
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Jogou-se um Sporting-Benfica e mais do que ao futebol está a dar-se atenção ao clima de ódio e confronto permanente que rodeia o futebol em Portugal. E aqui todos temos de ter a noção de que temos de fazer mais. Têm de fazer mais os dirigentes, têm de fazer mais os jornalistas, têm de fazer mais os treinadores e jogadores para que se crie um contexto em que os adeptos façam menos. Porque a verdade é que no dia seguinte à morte de mais um adepto em confrontos potenciados por este clima de tensão permanente serve de pouco virmos todos dizer que o futebol está um lugar perigoso quando não fazemos aquilo que tem de ser feito para o evitar. E o resultado é que no seguimento dos acontecimentos trágicos da madrugada anterior, o que mais se ouve é virem de um lado dizer que se o adepto morreu atropelado foi porque não tinha nada que andar nas imediações do Estádio da Luz às tantas da manhã – coisa boa não ia fazer… – e do outro aparecerem a lembrar que os que morrem e os que matam são sempre das mesmas cores – como se a idiotice tivesse uma cor fixa. Já aqui defendi que se as coisas estão como estão é preciso procurar razões profundas e intervir nelas. Claro que era bom que se fizesse mais também no seguimento da tragédia. Era bom que Bruno de Carvalho se coibisse de fazer julgamentos morais se o que queria era ter Luís Filipe Vieira a seu lado na tribuna de honra – e provavelmente não queria. Era bom que Vieira passasse por cima desses julgamentos e não viesse depois questionar o que andava o adepto italiano a fazer nas imediações do Estádio da Luz se queria de facto contribuir para a pacificação geral, aparecendo ao lado do presidente do rival – e provavelmente também não queria. Era bom que, como cheguei a ver escrito ontem, as duas equipas se fizessem fotografar em conjunto com um apelo ao fair-play, que os dois treinadores fizessem até mais do que cumprimentar-se e dessem um forte abraço. Mas continuo a achar que tudo isso acabará por ser irrelevante se não se fizer nada no início da cadeia. E o início da cadeia passa pela tomada de decisões estratégicas, pelo reconhecimento de que o futebol é um assunto potencialmente atrativo para as massas e que se o “sistema” não permite que surjam conteúdos que o promovam, as corruptelas desse mesmo sistema acabarão por privilegiar os conteúdos que o arrastem para a lama. Como os programas televisivos de hooligans engravatados que passaram a servir de modelo para todas as conversas acerca do jogo nos cafés. Vê-se muita gente queixar-se de que o futebol está nas ruas da amargura mas depois a engrossar as fileiras de seguidores dessas discussões da intensidade do toque ou do milímetro do fora de jogo, a subscrever teorias da conspiração que fariam corar de vergonha qualquer Jerry Fletcher ou Fox Mulder dos tempos modernos. Perante os acontecimentos dos últimos dias, vê-se já muita gente a dizer que deviam acabar os programas de futebol, os jornais desportivos, os debates de rádio… Tudo! Quando, como cantava Manuel Freire, “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. O futebol estará sempre na ordem do dia, a questão é a de saber se quem manda nele consegue que seja pelas boas razões. Como? Não é permitindo – é obrigando que os seus principais protagonistas, que são os jogadores e os treinadores, apareçam. É estes meterem na cabeça que o futebol não é uma ciência oculta e que mais vale falarem dos detalhes que enriquecem mesmo o jogo em vez de se refugiarem em lugares comuns que não interessam a ninguém. É os jornalistas serem também capazes de pensar fora da caixa e levarem as suas conversas para o retângulo de jogo em vez de ser para os gabinetes da comissão de arbitragem ou do conselho disciplinar. No dia em que isso acontecer, garanto, os adeptos também vão ser capazes de falar do jogo. Claro que neste momento, fruto do que tem sido a realidade recente, da habituação dos adeptos aos conteúdos tóxicos, já transformada em dependência, seria sempre precisa uma reeducação, uma espécie de desintoxicação. A coisa nunca seria imediata. Ainda assim, estou convencido de que um programa de TV que amanhã juntasse os dois treinadores ou até dois jogadores com liberdade para falar do jogo suscitaria sempre mais interesse do que os intermináveis debates dos hooligans engravatados que enchem os serões televisivos por estes dias. Impossível, dirão alguns. Não vejo por que razão, respondo eu. Se a Liga é a dona do campeonato, se tem o poder de estabelecer um caderno de encargos para os clubes que nele querem participar, se nada a impede até de fundar uma produtora de TV que garanta que esses programas não descambam para os tais incitamentos ao ódio que estão a estragar o futebol em Portugal, se isto até já se faz no estrangeiro, não vejo por que não há-de poder ser feito em Portugal. A alternativa é virmos a breve prazo a coroar todos os anos um campeão da lixeira em que está a transformar-se o futebol em Portugal. Texto adaptado do publicado no Diário de Notícias de 23.04.2016
2017-04-23
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Em semana de Congresso dos Jornalistas, o documento “The European Football Landscape”, lançado pela UEFA, veio ajudar um pouco à reflexão em torno do jornalismo que se faz. Sei por experiência própria que os jornalistas de hoje não são piores do que os de há 30 anos. Pelo contrário: são melhores. Têm é problemas diferentes para ultrapassar, o maior dos quais é o mundo que os rodeia e que conspira para lhes roubar um bem precioso, que é o tempo. A forma como foi tratado o documento da UEFA vem provar isso mesmo. Sem tempo, o que se faz? Primeiro, não se lê, treslê-se. Olha-se para aquilo e rapidamente se descobre que o Benfica é a segunda equipa mais endividada da Europa. Já há título, porque é esse tipo de comportamento extremo que os leitores procuram. E depois, seguindo outro aspeto particular da sociedade de hoje, onde todos se sentem informados e com opiniões definitivas sobre tudo, que lê divide-se em dois grupos: o dos que acham que é uma vergonha e o dos que sabem que é uma cabala. Não é uma coisa nem a outra. É assim mesmo. Não é uma cabala porque o Benfica tem de facto uma dívida monstruosa, bem maior que as de FC Porto e Sporting. Não é uma vergonha porque o clube também tem uma receita muito superior aos rivais e faz dessa dívida e da sua gestão quotidiana uma forma de vida nos limites que lhe permite andar de mãos dadas com o sucesso. É essa forma de vida que ajuda a entender, por exemplo, a parceria com Jorge Mendes e o ocaso a que tem estado a ser vetado Raul Jiménez, que Luís Filipe Vieira já vem dizendo há muito tempo – há mais de um ano, creio… – que vai ser a maior venda da história do clube. Como se já tivesse visto o guião escrito em algum lado. Transpondo a história para a nossa vida real de todos os dias, imaginemos que temos um vizinho que é futebolista num clube de meio da tabela, mas que de repente atinge os píncaros do sucesso e assina um novo contrato por um dos grandes, a ganhar 100 mil euros por mês. O rapaz ganhava uns dois mil no contrato anterior e estava a pagar uma casa ao banco que lhe tinha custado 250 mil euros. Uma casa sobre a qual penderia a normal hipoteca. De repente, com o aumento da receita garantido, abalançou-se a comprar uma vivenda de luxo numa zona mais rica da cidade e pediu um empréstimo de quatro milhões de euros. Tecnicamente, ficará com uma das maiores dívidas da rua, talvez mesmo a maior. Mas na prática tem condições de a pagar e ninguém tem nada a ver com isso. A gestão do Benfica tem vindo a ser feita assim há anos, mesmo que Luís Filipe Vieira ande há anos também a dizer que quer passar a apostar na formação, porque quer manter a receita e reduzir a despesa. A narrativa que passa para o exterior é muito a de que isso não foi feito mais cedo porque Jorge Jesus não permitia e que com Rui Vitória, de facto, aumentou muito a aposta nos rapazes do Seixal. Se a segunda parte desta história bate certo com a realidade, já em relação à primeira tenho muitas dúvidas, porque para a relação com Mendes poder funcionar na perfeição as movimentações têm de ser para lá e para cá. A própria posição do agente no mercado internacional poderia ficar comprometida se só fizesse negócios mega-inflacionados num sentido. Porque a questão aqui não é a de o dinheiro ser verdadeiro ou em notas de Monopólio, como muitos se atrevem a dizer. Não me passa pela cabeça que o dinheiro não seja real. Mas que todo o esquema se monta na capacidade para vender bens muito acima – nem é só acima, é muito acima – do seu real valor de mercado, isso parece evidente. Ora centremo-nos em Jiménez, que não ocupou a sua posição no banco de suplentes ontem com o Boavista porque Luís Filipe Vieira está a tentar vendê-lo para o futebol chinês. As notícias que circulam dão conta de propostas de 50 milhões de euros, mas que o presidente encarnado só aceita libertar o jogador pelos 60 milhões de que fala há meses. 60 milhões de euros. Por um suplente. A concretizar-se – e não tenho muitas dúvidas de que acontecerá, se não já em Janeiro, no mercado de Verão – é caso para se dar uma nova perspetiva à expressão “negócio da China”. Só que basta andar um pouco para trás para perceber que o circuito é bi-direcional. Jiménez saiu do México para o Atlético de Madrid por 11 milhões de euros. Foi suplente em Espanha e saiu para o Benfica por um total de 22 milhões, pagos em duas partes. Continuou a ser suplente em Portugal e está prestes a sair para a China por 50 ou 60 milhões de euros. Isto sim, e não a dimensão da dívida do Benfica, merece esclarecimentos por parte de quem sabe e o tempo dos jornalistas.
2017-01-15
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Quando Rui Vitória afirma que o Benfica “funciona como um todo e não por departamentos” está a fazer o mesmo que o goleador que marca um “hat-trick” e vem a seguir dizer que não o conseguiria sem a ajuda dos companheiros ou o mesmo que o defesa-central que, após uma derrota pesada, se justifica dizendo que a missão de defender é de toda a equipa e não apenas da linha mais recuada. Isto é: pode até ter alguma razão, que as lesões não são só culpa dos médicos – mesmo daqueles médicos vistos na perspetiva mais alargada em que o futebol de hoje os transformou –, mas está sobretudo a querer ser politicamente correto e provocador ao mesmo tempo. O que não é nada fácil. O rendimento de uma equipa de futebol depende de muitos fatores. Da categoria dos seus jogadores, da qualidade do treino que fazem, da capacidade do treinador para os juntar e formar um coletivo forte, obedecendo a uma ideia de jogo coerente, da forma como o mesmo treinador desenha estratégias para os levar à vitória, mas também daquilo que a estrutura auxiliar faz para que os jogadores se sintam bem, focados naquilo que importa, da capacidade de resposta de massagistas ou médicos, da perspicácia dos scouts enviados a fazer relatórios acerca dos adversários, do apoio dos adeptos, do acerto das equipas de arbitragem, das condições meteorológicas… E podia ficar aqui até amanhã, nem que fosse para dizer o seguinte: dizer que dentro de uma equipa não há departamentos é errado. Claro que há. E que uns funcionam melhor do que outros. Em todas as equipas. O Benfica não é exceção. O que Rui Vitória pensou ao dizer aquilo foi que não vai entregar na praça pública quem quer que seja nesta cadeia que não estiver a funcionar da melhor maneira. Que tudo é analisado, que ele como chefe da equipa tem a missão de assegurar a melhor forma de funcionar e lidará internamente com o que estiver a funcionar pior. Por que não o disse assim? Porque assim não passava a mensagem que queria. Aquele “eu não ando aqui há dois dias” tinha múltiplos destinatários. Os seus jogadores, que podem até perder a crença no funcionamento no departamento médico e de planificação de treino, mas sobretudo os que estão fora do clube. Foi a forma que Rui Vitória encontrou para ser, ao mesmo tempo, politicamente correto e provocador. Porque com este alívio para a bancada, lançou no ar a suspeita de que as notícias segundo as quais Luís Filipe Vieira não estaria satisfeito com o departamento médico podiam ter sido plantadas com o intuito de desunir o Benfica. Se o foram ou não, não sei dizer. Mas sei que nada funcionaria tão bem como ter o próprio Luís Filipe Vieira a dizê-lo de viva voz e a reiterar a sua confiança nos contestados. Mesmo que isso fosse assim como ver Pinto da Costa renovar nesta altura contrato com Nuno Espírito Santo. E se não o fazem, um nem o outro, por alguma razão será.
2016-12-01
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A mais do que certa reeleição de Luís Filipe Vieira para um quinto mandato como presidente do Benfica não é sequer notícia. Seja porque o trabalho já feito na devolução do clube aos patamares de exigência competitiva no futebol – que é o que interessa aos sócios – está à vista de todos; seja também porque, em consequência disso, Vieira passou pelo segundo ato eleitoral sem qualquer oposição. Nesse aspeto, aliás, Vieira e o Benfica estão a fazer um percurso muito igual ao de Jorge Nuno Pinto da Costa e do FC Porto. E é nisso, mais do que nas “admiráveis manifestações de fervor clubístico” que os presidentes agradecem sempre aos sócios que se dão ao trabalho de ir votar em dias de eleições de lista única, que vale a pena debater em plebiscitos como o de hoje. Porque no futebol, nem a política é política. Vieira, que já era o presidente mais durável no comando do Benfica – completará 17 anos no final do mandato para que será hoje eleito – foi cinco vezes a votos, duas delas sem oposição. Nas três ocasiões em que alguém lhe disputou o cargo, no entanto, as suas votações foram arrasadoras: 90% contra Jaime Antunes e Guerra Madaleno em 2003; 91% contra Bruno de Carvalho em 2009; e 83% contra Rui Rangel em 2012. É uma realidade muito próxima da experimentada por Pinto da Costa, que no final da época passada foi eleito para um 13º mandato consecutivo à frente do FC Porto, os últimos nove sem qualquer oposição nas urnas. Aliás, o lendário presidente portista só teve um adversário em 34 anos: Martins Soares concorreu em 1988 (menos de 5% dos votos) e em 1991 (20% dos votos). E desapareceu de circulação até que, já neste século, a TSF o descobriu e lhe recolheu declarações de apoio ao trabalho feito pelo atual presidente Em comum, Pinto da Costa e Vieira têm a recuperação competitiva dos seus clubes. Mais completa a do presidente portista, que cinco anos depois de ser eleito estava a sagrar-se campeão europeu e mundial e a dar entrada em década e meia de hegemonia indiscutível no espaço nacional; mais restrita ao panorama interno a do líder benfiquista, que depois de um título atribulado ao segundo ano de presidência, ganhou quatro Ligas e esteve em duas finais europeias nos últimos sete anos. Fizeram um excelente trabalho, tanto um como o outro, e isso ajuda a perceber como se foram eternizando nos cargos. O mais difícil de entender, porém, é que mesmo assim não apareça ninguém com uma ideia diferente e disponível para se bater por ela. Sim, boa parte dessa abrangência tem a ver com a integração das diferentes sensibilidades no bolo cozinhado para cada ato eleitoral. Vieira, por exemplo, já o tinha feito com José Eduardo Moniz e voltou a fazê-lo agora com Fernando Tavares; Pinto da Costa ter-lo-á feito em tempos com Adelino Caldeira, o aliado que quis aproveitar das candidaturas de Martins Soares. E é aqui chegado que qualquer teorizador político pode alertar para o perigo que é a falta de massa crítica, o desaparecimento da oposição em qualquer organização. Mas o contraponto, fornecido a cada eleição pelo Sporting, não tem sido o mais feliz. Em 2011, as eleições mais disputadas na história recente do clube, com cinco listas concorrentes e vitória de Luís Godinho Lopes, com apenas 36% dos votos, deram lugar à maior crise competitiva de que o futebol leonino tem memória. E o facto de João Rocha (1973 a 1986) ter sido o último presidente a durar pelo menos uma década poderá ser apresentado como justificação para o declínio competitivo do futebol do clube, que ganhou apenas dois campeonatos nos 30 anos após a saída daquele seu importante líder. No fundo, o que falta explicar é se a falta de oposição leva às vitórias ou se são as vitórias que levam à falta de oposição. Seja como for, o fenómeno faz do futebol um palco único para os admiradores de plebiscitos e dos líderes totais a que eles dão azo.
2016-10-27
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Há duas constantes nas entrevistas de Luís Filipe Vieira. Uma é a comparação com o que era o Benfica antes de ele e Manuel Vilarinho lá chegarem – e essa chega para que o presidente saia a vencer de goleada, porque a recuperação está à vista de todos e não pode ser negada. Outra são as promessas irreais, que nunca cheguei a perceber se são feitas fruto do entusiasmo e de uma crença que depois os actos acabam por contrariar ou se são mesmo programadas para afastar a conversa de áreas mais sensíveis. Na entrevista que deu à TVI – que não pude ver em direto porque estava a viajar de Basileia para Lisboa – Vieira voltou a referir muitas vezes o que mudou no Benfica nesta década e meia. Desde as taças que desapareciam ao estado caótico em que Vale e Azevedo deixou o clube, tudo serve para caucionar uma liderança que voltou a fazer do Benfica um clube ganhador e financeiramente estável – a questão da dívida que aumenta é outra. Só por isso, nenhum benfiquista pode deixar de agradecer a Vieira e Vilarinho o terem-se disponibilizado a abraçar a tarefa de tomar conta do clube. Mas isso, francamente, já foi conversa para outras entrevistas e ao longo de muitos anos. Neste momento, muito mais interessante é falar do futuro, dos desafios que se colocam ao clube e da relação de parceria que este mantém com Jorge Mendes, não no sentido de a assumir mas sim de a clarificar em termos que todos a entendam. Vieira, é bom que se dia, não se negou a falar do futuro. E fê-lo com entusiasmo, não só afirmando que neste momento tem um Plano B para tudo – treinador ou jogadores que venham a sair – como indo ao ponto de dizer que após o que gastou neste defeso, “nos próximos três ou quatro anos” o clube “pouco ou nada terá de investir” no mercado, ou que vai ter uma equipa quase toda fornada por "jogadores feitos no Seixal”. E é aqui que me apetece dizer como a menina do anúncio dos iogurtes: “nisso eu não acredito”. E não acredito por duas razões. Primeiro, porque me parece difícil manter a tal parceria com Jorge Mendes apenas num sentido – quando falham as hipóteses de saída, é preciso alimentá-la também com entradas, mesmo que sejam excessivamente inflacionadas, como foram as de Pizzi, Jiménez ou Rafa, por exemplo. Aliás, serão sempre inflacionadas, mesmo que Mendes consiga depois servir-se da sua influência para os vender por mais dinheiro ainda. Depois, também não acredito porque, mesmo admitindo que seria possível ganhar em Portugal com a aposta na formação – e já isso acho muito complicado, como se vê pela última década do Sporting – o mais difícil será sempre manter os jogadores excecionais por tempo suficiente para fazer uma equipa consolidadamente ganhadora. É que os Renatos Sanches, quando aparecem, são extraordinariamente difíceis de segurar. E os outros, só por si, sem os que fazem a diferença, não ganham campeonatos. O Barcelona pode ter uma equipa baseada na formação porque os Xavis e os Iniestas não querem sair dali para lado nenhum. O Benfica ou o Sporting até podem formar a “espinha dorsal da seleção nacional” – promessa antiga de Vieira, agora recauchutada – mas dificilmente a manterão por tempo suficiente para ganhar de forma repetida. Acreditar nisso equivale a acreditar que é Jesus o culpado por o Benfica ter usado poucos jogadores da formação. Como se acima dele não estivesse uma estrutura que lhe dava os Di Marias, os Gaitáns, os Matic, os Enzos Perez ou os Rodrigos, os Garays e os Ramires.
2016-09-08
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Cresci na década de 70, quando o Benfica ganhava três campeonatos em cada quatro. A chave dessa hegemonia era sobretudo uma: o controlo do único mercado que estava à mercê, que era o nacional. Por esses tempos, o Benfica tentava contratar todos os jogadores promissores que aparecessem, conseguindo fazê-lo com a maioria, tendo por isso equipas de reservas que se bateriam com qualquer outro emblema do campeonato. Mas por muito que alguns saudosistas vejam na contratação de Rafa a reedição dessa época, há diferenças evidentes entre o presente e esse passado – e não passam apenas pela globalização e por esta ter tornado impossível gizar uma estratégia tão hegemónica com base num mercado limitado. Por outro lado, não acredito que o Benfica tenha aceite pagar 15 milhões de euros (mais Rui Fonte) por Rafa só para chatear Pinto da Costa ou impedir que o FC Porto se reforce com um jogador que o seu treinador queria. Porque nem a fartura financeira na Luz é assim tão grande – que o diga a dimensão do passivo, por mais controlado que esteja – nem os seus dirigentes são loucos ao ponto de gastarem tanto dinheiro por jogadores de que o seu treinador não precise. Rafa é um excelente atacante, com argumentos extraordinários na mudança de velocidade e na tomada de decisão. É jogador de seleção, que pode atuar como extremo ou como segundo avançado, posição na qual o Benfica não tem assim tantas alternativas a Jonas. Portanto, começam logo por se enganar os que se centram na abundância de extremos atualmente existente no plantel do Benfica para defender a irrelevância da contratação do bracarense. Há mais formas de ser útil. Além de que, mesmo para esse lugar, a entrada de Rafa deve ser lida numa base global, onde entram também a contratação – e provável revenda – de Carrillo e a vontade de transferir Salvio. No entanto, a contratação de Rafa extravasa em muito a dimensão puramente futebolística. Aqui, pelo menos tão relevante é a componente do negócio, a estratégia gizada por Luís Filipe Vieira e Jorge Mendes, neste caso com o acordo de António Salvador, presidente do Sp. Braga, cujo objetivo último passa pela valorização do jogador e pela sua entrada num carrossel onde já estão jogadores como Bernardo Silva ou André Gomes, que rendem a cada mudança de clube. Mesmo que seja em circuito mais ou menos fechado, a máquina rende e é preciso continuar a alimentá-la.
2016-08-19
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Ninguém a não ser os próprios poderá dizer com toda a certeza quais são as relações entre a Gestifute de Jorge Mendes e a Doyen Sports. Um pouco por todo o Mundo se leem coisas absolutamente inconciliáveis. Lê-se em italiano que são aliados numa espécie de cartel que se destina a fazer subir os preços dos passes e aumentar a dependência financeira dos clubes face aos investidores. E lê-se em francês que são inimigos figadais desde que a Doyen se meteu no negócio Falcao, financiando a compra do jogador por parte do Atlético de Madrid, ganhando mais que o mais poderoso agente do Mundo e levando-o depois a enveredar pela opção de empréstimos onerosíssimos – nos quais todos ganham menos o fundo que só recupera o investimento na venda. Seja qual for a verdade, uma coisa é certa: se Nuno Espírito Santo entrar como treinador no FC Porto, Jorge Mendes consegue algo de absolutamente extraordinário, que é o estabelecimento de uma relação privilegiadíssima com dois dos três grandes do futebol nacional. Ainda por cima numa altura em que consta que nem está de costas viradas para o terceiro. Se olharmos para esta realidade à escala global, nem há grande novidade: a Doyen é há muito um dos parceiros prediletos do Atlético de Madrid, que ao mesmo tempo é um dos principais portos de abrigo para os jogadores que a Gestifute transfere de Portugal para o estrangeiro. Aí, ganha a tese do interesse comum. Em Portugal, porém, a radicalização de interesses entre os três grandes nunca permitiu grandes confluências. Veja-se o caso de José Veiga, o antecessor de Mendes como maior agente futebolístico nacional. Enquanto trabalhou preferencialmente com o FC Porto, na década de 90, Veiga era frequentemente verberado pelos grandes de Lisboa. Quando se zangou com Pinto da Costa, no final dos anos do “penta”, fez da vontade de ver crescer o Sporting (primeiro) e o Benfica (depois) quase uma profissão de fé, mas nunca conseguiu estar bem com os dois ao mesmo tempo: o processo que levou à autodestruição de Jardel é disso bom exemplo. Veiga conseguiu sempre algo que Mendes também já pôs em prática, que foi ter um segundo clube para os “ressaltos” – o de Veiga era o Boavista, mas Mendes até tem dois, que são o Sp. Braga e o Rio Ave. Mas foi cometendo erros que o impediram de construir aquilo que Mendes pode estar prestes a conseguir: a quase unanimidade. As boas relações de Mendes com o Benfica estão à vista. O rosto da Gestifute tem sido o operacional preferido para as grandes vendas do clube para o estrangeiro – conseguindo no processo valores absolutamente mirabolantes para jogadores que muitas vezes não tinham sequer passado da equipa B – e mantém com Luís Filipe Vieira um entendimento por sinais de fumo. Aqui convém lembrar que Mendes – um Mendes ainda muito longe da influência que tem hoje… – foi o agente escolhido por Manuel Vilarinho para fazer os primeiros negócios depois de o clube ter extirpado os efeitos da liderança de João Vale e Azevedo (os brasileiros Roger e André), mas que chegou a perder espaço no clube quando José Veiga, com quem chegou a envolver-se em lutas físicas, apareceu como “homem do futebol” de Vieira. Tudo isso, porém, são águas passadas: hoje em dia, sempre que há um problema de mercado para resolver no Benfica, Mendes faz parte da solução. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu na saída de Jorge Jesus, que tinha de Mendes uma proposta para seguir para o médio oriente enquanto esperava pelo Paris Saint Germain. No FC Porto, porém, Mendes tem enfrentado mais barreiras. É verdade que durante a passagem de Veiga pelo Benfica, já exerceu ali uma espécie de magistério de influência semelhante ao que agora pratica na Luz – ganhou muito e deu muito a ganhar ao clube depois da vitória na Champions, com a venda para o estrangeiro de jogadores como Paulo Ferreira, Deco, Costinha, Maniche ou Derlei – mas esse efeito foi-se extinguindo à medida que se reforçavam os seus laços com Vieira e com o Benfica. Agora, se Nuno Espírito Santo regressar de facto ao Dragão, como parece ser intenção firme de Pinto da Costa, pode reacender-se a chama da parceria, uma vez que além de ser amigo do técnico desde que, ainda como guarda-redes, o transferiu de Guimarães para a Corunha (foi mesmo o primeiro negócio de Mendes no futebol), o agente tem apostado firmemente no treinador, qu colocou no Rio Ave e depois no Valência. Uma parceria que exigirá de Mendes o equilíbrio no fio da navalha que Veiga, por exemplo, nunca conseguiu manter, mas que, somada ao facto de representar boa parte dos jogadores vendáveis do Sporting, a ser bem sucedida pode dar-lhe um domínio do futebol nacional nunca visto até hoje.
2016-05-31
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Acabou o campeonato e o Benfica foi campeão. Justo? Sem dúvida nenhuma. Quem faz 88 pontos em 34 jogos, quem ganha 29 das 34 jornadas, quem perde pontos contra apenas quatro das 17 equipas que tem como adversárias no campeonato, é um campeão justo em qualquer parte do Mundo. E no entanto, do lado do Sporting, o derrotado, mantem-se o discurso: “não ganhou a melhor equipa”, disseram jogadores e treinador. É verdade que, com os seus 86 pontos, com apenas duas derrotas em toda a Liga, com cinco vitórias em seis clássicos, o Sporting também teria sido um campeão justo. Os leões foram a equipa que mostrou o futebol mais bonito, mais enleante, mais coletivamente trabalhado. Mas as hipóteses de sucesso da candidatura sportinguista ao título do ano que vem dependem de os seus responsáveis perceberem por que é que o Benfica foi campeão este ano. Porque há razões para isso que vão muito para lá da sorte e do azar. O Benfica foi campeão, primeiro, porque mesmo sem ter sido a equipa com o futebol mais vistoso, foi a equipa mais eficaz, a equipa com mais qualidade dentro da área, que é onde se ganham os troféus. O Benfica teve o melhor ataque e o maior número de vitórias. Sorte? Não. Qualidade nas áreas. Os processos para chegar à frente não foram sempre os melhores, não se lhe vê um futebol tão desenhado em laboratório como aquele que Jesus colocou o Sporting a jogar em tempo recorde, aceita-se mesmo que há ali menos trabalho saído do treino, mas vê-se uma organização defensiva impecável, com dois defesas-centrais rapidíssimos, que permitem encurtar o bloco e jogar com toda a equipa subida – com Luisão, provavelmente, isso não seria possível – e uma forma despachada de chegar à frente, onde o Benfica teve três pontas-de-lança de enormíssima qualidade. Jonas, Mitroglou e Jiménez desataram muitos nós a Rui Vitória, naqueles jogos mais complicados, onde fazia falta um golo caído do céu aos trambolhões. E Jesus viu o Sporting baquear naquele momento da época em que Gutiérrez estava de baixa, Montero tinha sido despachado para a China, Barcos não respondia - se é que alguma vez responderá – e só lhe sobrava Slimani, que também tinha direito a uns dias maus. Lembram-se dos golos cantados que Bryan Ruiz falhou em Guimarães e no dérbi de Alvalade? Jesus também, por muito que prefira esquecê-los. O Benfica foi campeão, depois, porque teve nas provocações do exterior um fator que lhe permitiu fazer das fraquezas forças. As provocações vindas de Alvalade, que resultaram no início da época – Jesus levou Vitória a mudar o que tinha andado a testar antes do jogo da Supertaça, ao reclamar para si mesmo todo o ideário futebolístico do rival, e começou aí a ganhar o troféu – foram perdendo eficácia à medida que a época avançava. E a cada vez que o treinador leonino falava em cérebros, em Ferraris ou em tocas, fazia com que o adversário se unisse mais ainda. Só assim se explica, também, que uma equipa que perde cinco dos seis clássicos que joga numa temporada, uma equipa que a dada altura da época parecia em falência mental e física, tenha conseguido ir sempre buscar mais alento e ganhar cada jogo. Essa injeção de adrenalina, era sempre Jesus que a dava. Como voltou a dar ontem, ao dizer que “uns criam e outros copiam”, rematando a conferência de imprensa com um “é por isso que eu ganho” que pode ter transportado alguns adeptos para um episódio da Twilight Zone. Do outro lado, Rui Vitória optou por se apagar em prol do mérito dos jogadores e afirmou que, mais do que no título, os seus falecidos pais podiam estar orgulhosos da contenção verbal que foi sempre mantendo. O Benfica foi campeão, por fim, porque geriu melhor os aspetos laterais do jogo. Não estou a falar de arbitragem. Estou a falar de casos como o processo a Carrillo – que Jesus perdeu logo no início do campeonato – ou dos confrontos que os encarnados entregaram sempre a assalariados sem real importância, como os seus comentadores engajados ou o departamento de comunicação, e os leões não foram capazes de passar para baixo do presidente. A ponto de até quando Octávio Machado aparecia – e a função dele era essa mesmo – parecer pouco, porque o precedente de ser Bruno de Carvalho a falar tirava importância a todos os outros. Luís Filipe Vieira quase pôde aparecer apenas no fim do campeonato a passar a taça para as mãos do capitão de equipa, enquanto que a Bruno de Carvalho, que passou a época a fazer comunicados a um ritmo quase diário, não restou senão sair pela esquerda baixa, aparentemente até do Facebook. Vieira também já teve os seus tempos de “loose cannon”, mas aprendeu e vai com quatro títulos nos últimos sete anos. Carvalho tem nos meses que se seguem a oportunidade de cortar caminho: basta-lhe ter a noção de que este Sporting cresceu tanto num ano que vai ser preciso fazer muita coisa errada para não acabar por ser também campeão num futuro próximo. In Diário de Notícias, 16.05.2016
2016-05-16
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Último Passe

O Benfica comunicou à CMVM a venda dos direitos desportivos de Renato Sanches ao Bayern Munique por 35 milhões de euros, informando ainda que “estão previstos valores adicionais, num montante global de 45 milhões de euros, dependentes da concretização de objetivos” até 30 de Junho de 2021. Diz a Kicker que esses objetivos passam pela nomeação de Renato Sanches para o Onze do Ano da FIFA ou para a Bola de Ouro. Subsiste, no entanto, uma dúvida, alimentada pelo facto de estarmos todos habituados ao português insondável de quem escreve estes comunicados: são 35 milhões mais 10 ou 35 milhões mais 45? Uma vírgula, aqui, faz muita diferença. Em todo o caso, mesmo que o valor real seja o mais baixo, trata-se de um excelente negócio para o Benfica. Só divergirá quem está de tal forma iludido pelos valores das transferências de jovens da formação encarnada para os clubes do circuito-Gestifute (Mónaco, Valência…) que acha que a base de licitação de qualquer futebolista está nos 15 milhões de euros. Renato Sanches foi uma das chaves da atual situação do Benfica. Se o clube for tricampeão é em boa parte a ele que o deve, pela explosão que trouxe ao futebol da equipa. Renato já é ofensivamente um extraordinário médio, porque ao contrário do que os seus detratores repetem à exaustão não perde muitos passes (tem uma margem de acerto na ordem dos 90%) e não joga só para trás e para o lado (o destinatário preferencial dos seus passes é Jonas). Além disso tem uma mudança de velocidade que lhe permite queimar linhas em posse como poucos jogadores na Liga portuguesa. E, no entanto, não é ainda um jogador feito. É “um pouco selvagem”, como diz Rui Vitória: defensivamente apresenta lacunas de posicionamento, mesmo que seja preciso procurar bem para as descobrir (o jogo sem bola é sempre menos visível que o jogo com bola). Mas quanto vale Renato Sanches? Valerá menos que um T1 no meio do pântano do Amazonas? Claro que não. O transfermarkt dava-lhe hoje de manhã um valor de mercado de 10 milhões de euros. Acho pouco. Na verdade, o transfermarkt serve-se de um algoritmo que estabelece variações médias e Renato Sanches valorizou a um ritmo extraordinário esta época, pelo que rebenta com esse algoritmo. Eu diria que, até tendo em contra o potencial, só um valor acima dos 25 milhões seria um bom negócio. Se o Bayern já pagou pelo menos 35, esta transferência entra na categoria dos negócios extraordinários – até porque sendo a venda para o Bayern, perdem imediatamente terreno os que virão dizer que o valor está muito inflacionado pela interferência de Jorge Mendes, o empresário que conseguiu vender João Cancelo ou Ivan Cavaleiro por 15 milhões cada um. Se chegar aos 45 milhões, o negócio será ainda melhor. Se, tal como está a ser interpretado pela generalidade dos órgãos de comunicação – que, já se sabe, na área do futebol querem é ver as pessoas felizes e, em caso de dúvida, “beneficiam sempre o ataque” –, o valor por objetivos elevar a transferência para os 80 milhões, então é um negócio da China. Para isso, porém, antes de ficarmos a saber quanto vale Renato Sanches, será necessário a CMVM ter a curiosidade de saber quanto vale uma vírgula. A vírgula que define se a expressão “montante global” se aplica ao negócio em si ou à totalidade do valor por objetivos.
2016-05-10
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Quem faz o favor de me ler há tempo suficiente sabe que adotei de Sven-Goran Eriksson a teoria segundo a qual discutir arbitragens é irrelevante porque, no fim, feitas as contas, entre o deve e o haver, as coisas acabam por se equilibrar. É por isso, e também porque nunca encontrei um debate sobre penaltis ou foras-de-jogo em cujos padrões de urbanidade ou educação me reveja, que não sigo o caminho geral, o caminho que manda o adepto comum vociferar contra os árbitros nos fins-de-semana em que a sua cor saiu prejudicada e silenciar essas discussões quando são os outros a queixar-se. Mas também já ando no futebol português há tempo suficiente para acrescentar à teoria de Eriksson uma outra, à qual chamo a “teoria do remediado”. E que diz o seguinte: nos últimos dez ou quinze anos, em cada momento conjuntural do futebol português, há sempre um que ganha, um que é cúmplice porque joga na mesma na Champions e um terceiro que luta por aquilo a que chama “a verdade desportiva”, mas que não é mais do que a defesa dos seus interesses e a vontade em ocupar o lugar de um dos outros dois. Não vou ao ponto de dizer, como Jorge Jesus disse do fair-play, que a verdade desportiva seja uma treta. Não é. Sou, aliás, favorável à introdução no futebol de meios auxiliares de diagnóstico que venham ajudar os árbitros a decidir melhor. Mas não tenho a ilusão de que isso venha acabar com a discussão, porque não é preciso recorrer às hordas de fanáticos que enxameiam as redes sociais para encontrar gente que, perante as mesmas imagens, tira conclusões diferentes. Basta muitas vezes consultar ex-árbitros internacionais. Como não existe uma verdade absoluta, mas sim diferentes interpretações de um mesmo acontecimento, quando houver vídeo-árbitro – e reparem que não disse “se”, disse “quando”, porque acredito que isso é inevitável – as suspeitas de favorecimento manter-se-ão, mas mudarão de destinatário: passarão do relvado para a régie. E isso será assegurado por todos os que mantém a funcionar o sistema de acordo com a “teoria do remediado”, esse axioma nascido da evidência de que só há lugar para dois clubes verdadeiramente grandes no futebol nacional, porque são apenas duas as vagas garantidas na distribuição de milhões da Liga dos Campeões. Foi de acordo com essa evidência que as coisas mudaram. Se até há uns dez, quinze anos, o que interessava era só ganhar, depois da reforma das provas europeias, que assegurou uma segunda vaga direta de clubes portugueses na Champions, passou a interessar também ficar em segundo lugar. Chegámos, nessa altura, ao ponto de ouvir um presidente do Sporting dizer que ante dois desafios, preferia ficar em segundo no campeonato a ganhar a Taça de Portugal. Ou ser duas vezes segundo a ser uma vez primeiro e outra terceiro. Essa, já se vê, era a altura em que o Sporting era o remediado. O FC Porto ganhava – e nos últimos 30 anos nunca deixou de ganhar por mais de três anos seguidos, mantendo mesmo assim com frequência o segundo lugar – e o Sporting era segundo, o que garantia à equipa de Paulo Bento um cartão de passageiro frequente na Liga dos Campeões. E dinheiro, muito dinheiro. Quem lutava nessa altura pela “verdade desportiva”? O Benfica, pois então. Era Luís Filipe Vieira quem falava mais na regeneração do sistema. António Dias da Cunha, um voluntarioso franco-atirador que, na qualidade de presidente do Sporting, chegou a alinhar com Vieira nalgumas iniciativas, acabou por ser afastado dentro do próprio clube, pois estava a ir contra a “teoria do remediado”. Entretanto, o Benfica passou a ganhar – é neste momento favorito à conquista do tricampeonato. E da Luz passaram a chegar vozes de moderação, de crítica a quem passa a vida a falar dos árbitros. Quem passou a ser o principal crítico do sistema? O Sporting, pois então, onde Bruno de Carvalho diz tudo aquilo que Luís Filipe Vieira disse e talvez até muito mais, questionando os árbitros e clamando por injustiça em todas as jornadas e chegando mesmo ao ponto de recusar a admissão de favorecimentos quando eles acontecem – como foi o caso esta semana. O FC Porto tem sido o remediado e por isso mesmo ninguém se juntou a Lopetegui quando este criticou as arbitragens, na época passada. Veremos como passarão a comportar-se no Dragão na próxima época, quando se torna mais ou menos evidente que o FC Porto será terceiro na Liga que se aproxima do fim e tem a Liga dos Campeões em risco. In Diário de Notícias, 19.04.2016
2016-04-18
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Último Passe

Quando Jorge Nuno Pinto da Costa e Jorge Jesus estão de acordo acerca de um tema no qual quem fica a rir-se é o Benfica, é caso para se dizer que não estão a fazer favor nenhum e que o que dizem é justo. Acerca do interesse do Benfica em Carrillo, tanto o presidente do FC Porto – que o denunciou – como o treinador do Sporting – que o comentou – disseram o mesmo: Carrillo é profissional e vai para onde se sentir melhor. Mas nestas coisas do futebol-negócio há cada vez menos ingenuidades e convém todos sabermos acerca do que falamos. E do que falamos aqui é também do processo que o Benfica moveu a Jesus. Se perder Carrillo a custo zero, é evidente que o Sporting sai prejudicado pela estratégia que escolheu na abordagem ao tema. Bruno de Carvalho já fez excelentes operações em casos como este, nos quais fez da inflexibilidade negocial uma força, mas haveria de chegar o dia em que encontrava alguém igualmente inflexível do outro lado e sairia a perder. Já perdeu o contributo que o jogador podia ter dado durante a época desportiva – ainda que a sua ausência tenha sido gradualmente mitigada à medida que a equipa encontrou outras soluções – e prepara-se agora para partilhar com o investidor que ajudou a trazer Carrillo para Alvalade a perda do valor do passe. Às duas perdas, pode somar ainda uma terceira: a de ver Carrillo jogar com a camisola de um rival e, ainda, a de eventualmente vê-lo depois ser transferido por bom dinheiro. Mas é evidente que Carrillo tem todo o direito de assinar pelo Benfica. Assim como Jesus teve todo o direito de assinar pelo Sporting. A esse respeito, podemos criar todos os cenários que quisermos, mas ainda que Jesus não tenha sido convenientemente fotografado na mesma rua e no mesmo dia de Bruno de Carvalho, numa data em que já poderia assinar por um novo clube, como aconteceu com Carrillo e Luís Filipe Vieira, fará tanto sentido vir agora o Sporting processar Carrillo pela vontade que este tenha de jogar aqui ou ali como fez o Benfica processar Jesus por se ter mudado da Luz para Alvalade no verão passado. Nenhum sentido, portanto.
2016-01-29
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Último Passe

Os mais mil e trezentos milhões de euros injetados em três clubes de futebol pelas principais operadoras de TV por cabo nas últimas semanas vieram agitar o futebol nacional e merecem uma explicação. Ao mesmo tempo que os adeptos querem sobretudo ver escrito que o seu clube fez o melhor negócio dos três - seja ele qual for -, essa medição é o que menos me interessa, porque só é feita por quem vê o futebol como um exercício de culto da personalidade, seja ela a de Luís Filipe Vieira, de Pinto da Costa ou de Bruno de Carvalho. Mais interessante é perceber como é que isto foi possível e o que vai acontecer daqui para a frente.É verdade que o panorama de rivalidade fortíssima entre os clubes, que está na génese das tais atitudes de confronto do adepto comum, ajudou a potenciar todos os negócios, porque contribuiu para o crescimento da concorrência: todas as operadoras temem o efeito de rejeição dos adeptos de um clube excluído. Mas a chave destes negócios esteve na decisão tomada há tempos pela autoridade da concorrência, quando impediu a entrada da PT no capital da Sport TV e impôs que os contratos existentes expirassem em 2018, matando a cláusula de preferência que eternizava o domínio exercido pela PPTV de Joaquim Oliveira no direitos de TV do futebol.Se o aparecimento da concorrência e o desaparecimento do intermediário ajuda a explicar de onde veio o dinheiro, já me parece impossível definir quem dos três fez o melhor negócio, porque fruto da tal predisposição para o culto do líder, todos os clubes acabaram por meter mais e mais coisas nos contratos para poderem subir o montante final de cada contrato, que é o que faz manchetes nos jornais e motiva a discussão dos adeptos. Creio que os tempos da gestão irresponsável ds operadoras estão bem lá atrás e que tanto a Nos como a Altisse pagaram um justo valor, não pelo que os direitos valem agora mas sim pelo que poderão valer nos próximos dez anos, com a criação de novas plataformas e o aparecimento em Portugal de realidades como o Pay Per View.Aliás, essa é uma das inquietações que me assaltam neste momento. É que se é mais ou menos claro que até 2018 - até os jogos do FC Porto passarem para a Altice - o futebol vai ficar concentrado na Sport TV, onde a Nos deverá querer meter o Benfica, a dúvida é acerca do que acontecerá depois. Quererá a Altice criar um novo canal de desporto - diz-se até que já está a negociar com outros clubes nesse sentido - para concorrer com a Sport TV? E com os valores que ambos estão a pagar aos clubes, poderão estes dois canais ser rentáveis a médio prazo, tendo só metade do futebol? É que, ainda por cima, apesar de a Liga de Proença estar a falhar o encontro com a história ao perder a oportunidade de centralizar pelo menos as negociações dos clubes além dos três grandes - se 17 jogos de um dos grandes em casa valem 400 milhões por dez anos, 45 jogos dos três fora de casa valerão seguramente mais de mil milhões - ainda há muito dinheiro a gastar para assegurar todo o futebol. E os pequenos têm de entender que nesta guerra não são de todo um verbo de encher.
2015-12-29
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Último Passe

O negócio do Benfica com a Nos, para a venda dos direitos televisivos dos jogos do campeão nacional àquela operadora, por valores que podem chegar aos 400 milhões de euros, veio abalar os panoramas audiovisual e futebolístico portugueses. Prefigura uma vitória clara da estratégia secessionista de Luís Filipe Vieira, no que a televisão diz respeito, mas encerra em si mais do que uma dimensão. Primeiro, a óbvia e evidente dimensão financeira. Mesmo descontando os custos de produção do canal de televisão, com os quais não teria de arcar na ligação anterior com a Sport TV, os 400 milhões que o Benfica pode vir a receber pelos dez anos de direitos televisivos dos seus jogos da Liga em casa representam uma grande vitória da estratégia montada pela direção de Luís Filipe Vieira na questão dos direitos de TV. O Benfica viu de facto mais longe que toda a gente, pois conseguiu valorizar os conteúdos relativamente àquilo que a Sport TV pagava, percebendo que o futuro não estava nos canais mas sim nas operadoras. Depois, há a dimensão política. Com a opção pela criação do seu próprio canal, em detrimento da associação à Sport TV, o Benfica passou a ter uma arma de arremesso político – e há mesmo quem acredite que os títulos ganhos recentemente nasceram aí. A Nos não é de Joaquim Oliveira (ainda que este seja administrador não executivo da operadora), mas tem 50 por cento da Sport TV, cujo capital partilha com a Controlinveste. E para quem andou tanto tempo a pregar contra os malefícios da associação ao “Império do Mal”, como o fizeram os ideólogos do Benfica, este contrato parece uma cedência. Se o inimigo do meu inimigo meu amigo é, o que é que isso faz do sócio do meu inimigo? Há ainda que tomar atenção ao que isto representa no edifício do futebol português. É evidente que os direitos televisivos do Benfica valem muito mais do que os dos outros clubes, como é claro que os dos três grandes representam 95 por cento do mercado nacional. Mas a tendência europeia é a da centralização dos direitos nas Ligas, de forma a assegurar uma repartição de receita que potencie a competitividade – o segredo de qualquer campeonato – e impedir que surjam tentações de manipulação por parte dos clubes-detentores de direitos. O contrato do Benfica com a Nos parece ser um passo no sentido contrário, o que seguramente devia motivar pelo menos um esclarecimento por parte da Liga. Por fim, ainda que esse seja o sonho do Tribunal da Concorrência, a entrada das operadoras no negócio dos conteúdos pode complicar muito a vida aos consumidores. Porque uma coisa é ter de pagar a mensalidade da Sport TV e a da Benfica TV para poder ver os jogos do seu clube e outra, completamente diferente e impossível de concretizar, é viver com um cenário em que uns clubes assinam com a Nos, outros com a Meo e outros ainda com a Vodafone. Ninguém terá mais de um operador de TV por cabo em casa e os únicos caminhos serão então o pay per view no computador ou a pirataria pura e simples. E nenhum justifica tão avultados investimentos num mercado como o português.
2015-12-02
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Último Passe

Quase todos crescemos a ouvir dizer que Portugal é um país louco por futebol. Vemos os programas acerca de futebol proliferarem nas televisões, as transmissões dos jogos de futebol baterem recordes de audiências. Mas depois chega-se à altura em que percebemos que a esmagadora maioria dos negócios à volta do futebol são deficitários. Os clubes precisam de vender jogadores para pagar salários, os jogadores precisam de emigrar, há jogos com menos de mil espectadores na nossa maior Liga…. Os jornais perdem vendas, não temos uma revista de grande circulação sobre futebol. Tentei durante anos pôr de pé esse projeto, que esbarrou sempre na mesma parede: as marcas não querem associar o nome ao futebol e já se sabe que sem publicidade não há revistas. Parece um contrassenso? Mas não é. É que os portugueses não gostam de futebol. Gostam do escapismo que o futebol lhes permite, da possibilidade que têm de se insultar ao abrigo das rivalidades do futebol. Já todos ouvimos que os portugueses, na verdade, não gostam de futebol – gostam dos seus clubes, aprenderam a gostar da seleção em períodos de sucesso, mas gostam acima de tudo de odiar os clubes dos outros. Só assim se explica que passemos horas de televisão a discutir penaltis, foras-de-jogo, mãos na bola e bolas na mão, intencionalidades ou falta delas e depois não sejamos capazes de aceitar factos ou de debater técnica, tática, estratégia... Essa é, para todos nós, para todos vós, a parte aborrecida. Quando comecei a andar no futebol, antes de as televisões colonizarem as conferências de imprensa com os seus diretos, sempre na busca do “soundbyte”, ainda apareciam perguntas dessas. Depressa foram erradicadas porque não levavam a declarações bombásticas. Por isso, um dia como o de hoje, com queixas do Benfica acerca do Sporting, com queixas do Sporting acerca do Benfica, é o máximo a que podem aspirar os “adeptos” de futebol. Comunicados e contra-comunicados, tiros nos pés e momentos flagrantes de auto-flagelação. Haja animação! O problema é que esta lógica das queixas permanentes – que está no sangue dos portugueses – é a génese de todos os problemas. Do défice à falta de patrocinadores, com passagem pela falta de liquidez. Simpatizo com as ideias de Bruno de Carvalho, como o vídeo-árbitro ou o ataque aos fundos de investimento, mas desagrada-me a vitimização e a pressão permanentes. Simpatizo as atuais ideias de Luís Filipe Vieira, como a discrição em defesa do negócio do futebol, mas aborrece-me que só tenha chegado a elas quando começou a ganhar mais vezes do que as que perdia. Simpatizei com a eleição de Pedro Proença, por ser alguém que conhece o futebol profissional de altíssimo rendimento por dentro, mas chateia-me que ainda não tenha posto mão no problema. É que, no fundo, os portugueses não são loucos por futebol. São só loucos.
2015-12-01
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Último Passe

Quando Julen Lopetegui disse, recorrendo à mais fina ironia que em tempos fez escola no FC Porto, que a sua equipa devia ser a única da Europa que ainda guardava em segredo o nome do seu especialista em penaltis, estava a mostrar duas coisas. Um maior conhecimento da realidade do futebol português, onde facto e opinião se misturam de forma indisfarçável, e a noção de que o vazio deixado pelo maior recato recente de Pinto da Costa tem de ser ocupado por alguém para entrar no jogo que Sporting e Benfica estão a disputar. Portugal está muito longe da realidade que serve de base aos manuais de jornalismo, onde os factos são a base de tudo e podem ser lidos de forma impoluta. Em Portugal, quem consome informação sobre futebol está amplamente colonizado pelas diatribes radicais dos programas de comentadores-adeptos e não é capaz de separar o facto da opinião. A ironia de Lopetegui tem essa noção como princípio orientador. O facto é que o FC Porto ainda não teve penaltis a favor na Liga. A opinião é a de que o FC Porto está a ser prejudicado, porque o Benfica já tem um e o Sporting soma cinco. Só que os factos não são só estes. Primeiro porque o FC Porto não é a única equipa da Liga sem penaltis a favor – há mais sete nessas condições. Depois porque FC Porto e Benfica são duas das oito equipas que também não têm nenhum penalti contra (e o Sporting, por exemplo, já tem dois) e isso não quer dizer que estejam a ser beneficiados. Porque ao contrário do que acontece nos programas de segunda-feira à noite, um facto é um facto e uma opinião, podendo ser nele baseada, é uma opinião. Nada mais… Outra questão prende-se com a razão que leva Lopetegui a entrar neste jogo – e essa tem a ver com aquilo que Rui Vitória disse no final do dérbi da Taça de Portugal. É que, tal como o técnico do Benfica, o treinador basco também não quererá “ser comido de cebolada”. Ora este é mais um plano em que o futebol nacional funciona como prolongamento dos programas de segunda-feira, onde quem fala mais alto e radicaliza mais o discurso é quem ganha. Só que aqui, até ver, FC Porto e Benfica estão a correr atrás, a reagir ao Sporting. Jorge Jesus nem precisa de falar do assunto, de se meter com o lado negro da força, porque Bruno de Carvalho e Octávio Machado têm feito todo o trabalho sujo. No Benfica, Rui Costa foi o primeiro a dizer alguma coisa, mas só o fez na viagem a Astana, depois de Rui Vitória ter sido lançado à fogueira na sequência da derrota de Alvalade. No FC Porto, que foi onde este “jogo” foi inventado, o silêncio impera e só é rompido de quando em vez pelo boletim “Dragões Diário”. O futebol seria muito melhor sem estas guerras. Disso não tenho dúvidas, da mesma forma que não tenho certeza de que a pressão dê frutos e se reflita em benefícios. Mas que Benfica e FC Porto estão próximos do Sporting aristocrático de outrora, onde Paulo Bento tinha de fazer a guerra sozinho, ao passo que em Alvalade se recorre às armas que outrora celebrizaram Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira, disso já não me restam dúvidas nenhumas.
2015-11-27
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Último Passe

A contestação de um grupo de adeptos à equipa do Benfica e ao treinador, primeiro no Seixal e depois no aeroporto, é fruto do início de época titubeante e das seis derrotas que os encarnados somam desde Agosto - três delas com o Sporting, o que dói ainda mais por ser a equipa de Jorge Jesus - mas deve ser relativizada. Porque não são assim tantos os adeptos contestatários; porque uma sequência de bons resultados pode mudar tudo e ainda porque Luís Filipe Vieira não tem grande margem de recuo para mudar uma ideia que assumiu contra parte relevante da SAD há cinco meses.Já se sabe que os grupos de adeptos se movem por impulso. Há os equilibrados, mas também há aqueles que varrem os problemas para debaixo do tapete que é proporcionado pelos erros de arbitragem e entendem que está sempre tudo bem e há os que vêem tudo errado e contestam até quando a equipa ganha títulos. É inquestionável que o novo paradigma do Benfica ainda não está consolidado e que tudo parece andar um pouco à deriva, desde o plano de jogo à política desportiva. O primeiro varia do 4x4x2 em ataque organizado ao 4x2x3x1 com linhas baixas e privilégio às transições. A segunda anuncia cortes e faz apostas na juventude mas conjuga-as com a compra de metade de Jiménez por nove milhões de euros. Só que, também neste caso, num instante tudo muda.O jogo de quarta-feira, com o Astana, é de enorme importância e nem é por causa da Liga dos Campeões, que acabará por se compor, nem que seja à custa do Atlético Madrid, que certamente não perderá com o Galatasaray em casa. O que está em jogo é, sobretudo, a recuperação psicológica de um grupo que precisa de ganhar o jogo em Braga se quer manter o contacto mais ou menos próximo com os rivais na classificação da Liga portuguesa. Se tudo correr mal, aí sim, haverá problemas. Aí, sim, o pequeno grupo de contestatários vai crescer a ponto de obrigar Vieira a fazer gestão de crise.A questão é que, aí, o presidente não terá grande margem de manobra (nem vontade) para mudar de treinador. A falta de vontade tem a ver com a personalidade do presidente e já se viu na forma convicta como defendeu a sua opção por manter Jesus após o catastrófico fim de época de 2013: segurou-o e não se arrependeu. A falta de espaço para recuar explica-se com a ausência de uma alternativa de peso, capaz de apagar que Vieira não quis, por exemplo, ir até ao fim no confronto com o Sporting a ponto de apostar em Marco Silva quando os leões contrataram Jesus. É também por isso que Rui Vitória não está a prazo e só sai do Benfica se claudicar e não aguentar a pressão.
2015-11-23
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Quando há dias aqui defendi um papel mais proactivo da Liga no combate aos problemas que afetam o futebol nacional estava longe de antecipar uma tarde tão intensa como a vivida hoje pela Comissão de Instrução e Inquéritos. Os visitantes foram tão ilustres e incompatíveis que só faltou transformar a sede do organismo de acordo com as normas arquitetónicas de um qualquer consultório de psicologia clínica, para evitar que eles se cruzassem. Só hoje por lá passaram Luís Filipe Vieira, Bruno de Carvalho e Jorge Jesus – e alguns outros podiam ter lá dado um salto também. A questão é que, além de ser um empecilho – Vieira, a crer nas palavras de Rui Gomes da Silva, não pôde ir à Guiné Bissau, ao passo que Bruno de Carvalho e Jesus também terão coisas mais importantes para fazer – não vai ser a ouvir que a Liga lá chega. Há questões de procedimento, nada moderno para um desporto que se considera na vanguarda, e fazer os protagonistas correr meio país para lhes fazer perguntas de resposta óbvia é uma delas. Jesus terá então dito de onde conhece o árbitro Jorge Ferreira. Dos campos de futebol? A sério? Bruno de Carvalho terá sido questionado acerca das acusações que fez ao Benfica sobre o “vouchergate”? E não adiantou mais do que tudo o que já tinha dito no programa Prolongamento há um mês – um mês, veja-se a rapidez processual… – ou nas dezenas de intervenções que se seguiram? E Vieira terá sido questionado acerca das razões que levam o Benfica a oferecer os vouchers aos árbitros? E disse que era uma questão de cortesia e de bem-receber? Palavra de honra? Para cúmulo, os árbitros ouvidos também acham que as ofertas que recebem dos clubes não lhes toldam o discernimento, nem em campo nem no momento de escrever os relatórios? E isso é a resposta de agora e também a que darão se entretanto descerem de divisão? De certeza? Nem vale a pena dizer que nada disso me conforta, porque nem assim houve um único membro da equipa de arbitragem liderada por Cosme Machado a ver Lito Vidigal confrontar Naldo antes de este o empurrar para fora de campo, o que terá estado na origem da leveza do castigo ao treinador do Arouca. E não sei o que me preocupa mais. Se é que esta Comissão se leve tão a sério que ache que tem de convocar estas mini-cimeiras para ouvir respostas óbvias, que qualquer comentador engajado das segundas-feiras à noite daria, ou se é que mais ninguém faça nada para mudar isto. Vai-se a ver e no fim ficam todos amigos e vão almoçar juntos. Seja com vouchers ou senhas de presença.
2015-11-11
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Último Passe

Luís Filipe Vieira tem razão quando pede a Pedro Proença que aja. O futebol português já tem problemas suficientes para ainda andar constantemente a dar tiros nos pés, a espantar os potenciais patrocinadores com o levantamento de suspeitas. Sei do que falo. Já há 20 anos que defendo a aplicação de uma regra semelhante à que vigora em Inglaterra muito antes da Premier League, em que quem “provoca má reputação ao futebol” é severamente punido. Já o defendo desde o meu início de carreira, ligado ao futebol internacional, ainda Bruno de Carvalho andava na Juventude Leonina, ainda Luís Filipe Vieira estagiava no Alverca para vir a ser presidente do Benfica. Bruno de Carvalho, de facto, resiste mal aos microfones, às luzes das câmaras, que o levam sempre a passar à ação. Tem abusado do tempo de antena, e isso nota-se sobretudo quando não tem nada de novo para dizer, quando vem ofuscar aquilo que os jogadores vão conseguindo no campo. Mas se lhe condeno o repisar permanente do assunto, já não posso condenar as revelações que fez. Porque não sou eu quem tem de distinguir entre a oferta dos jantares aos árbitros, a fruta e o café com leite ou as máquinas fotográficas dadas noutros tempos. Não sou eu quem tem de dizer se uns devem descer de divisão e outros não. Já aqui escrevi aquilo que acho: não me interessa se as ofertas levam diretamente a benefícios, se são mais ou menos valiosas, mas nenhum clube devia oferecer aos árbitros nada que não tenha a ver com a tarefa que eles estão a desempenhar. E por isso acho que Vieira tem razão quando pede a Proença que aja. O presidente da Liga já devia ter agido para perceber realmente o que se passa ou passou e punir os prevaricadores, se tal se revelar justo. Só a Liga, através dos seus órgãos disciplinares, poderá estipular se o que se passou agora é ou não grave e que castigos deve ou não merecer. Andar um presidente de clube constantemente a dizer que ouro deve descer de divisão não é positivo. Como o não era ter o canal de televisão de outro clube a repetir “ad nauseam” as escutas do Apito Dourado, quando o seu presidente achava que ainda era preciso credibilizar o futebol nacional. Sim: um dos problemas do futebol português é que toda a gente tem rabos-de-palha e ninguém se queixa quando ganha. E alguém tem mesmo de agir, de fazer um risco no chão e dizer: “a partir de agora, chega!” Pode ser Pedro Proença. Mas se quer mesmo conduzir esta locomotiva, tem de a pôr em andamento. E vai-se fazendo cada vez mais tarde.
2015-10-29
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Último Passe

O dia seguinte ao dérbi ficou marcado por comportamentos antagónicos de Benfica e Sporting face àquilo que se passou em campo. No Benfica, a resposta dos responsáveis às inúmeras manifestações de descrença de adeptos mais ou menos ilustres foi o silêncio. No Sporting, Bruno de Carvalho não resistiu a cavalgar a onda do sucesso com uma declaração. Nada contra uma coisa nem outra. Mas eu faria tudo ao contrário. As cinco derrotas em onze jogos oficiais que o Benfica de Rui Vitória apresenta não são um bom cartão de visita. O campeonato não está perdido, mas está muito mal encaminhado. Claro que o Benfica pode arrepiar caminho, como fez o Sporting de Bölöni em 2001/02, quando perdeu três vezes nas primeiras oito jornadas e ainda chegou ao título, mas os sinais de instabilidade que a equipa apresenta não o prenunciam. E perante isto, não seria má ideia a administração vir agora reafirmar a ideia que teve para o clube, partilhar um pouco o mau momento com o treinador, de forma a diminuir a pressão em cima dele. Não falo de um voto de confiança no treinador, pois acredito que sempre que um presidente dá um voto de confiança público ao técnico é porque na verdade desconfia dele. Falo, isso sim, de uma manifestação clara do que o Benfica quer para o seu futebol e da concentração de energias no apoio à ideia que presidiu às escolhas que fez. Porque a sensação que fica é que na administração anda tudo obcecado com Jesus e que isso não só diminui Rui Vitória como leva a que ele próprio tenha de enfrentar esse fantasma no dia-a-dia, deixando de fazer aquilo em que acredita para fazer aquilo que acha que Jesus não faria. No Sporting, o momento é de euforia e o caso não é para menos. Os leões ganharam na Luz por números que já não aconteciam desde o tempo dos Cinco Violinos e voltaram à liderança da Liga de forma isolada. Jorge Jesus optou pela abordagem discreta e fez bem, ainda que boa parte do que disse e fez durante o jogo, quando evitou os festejos excessivos que podiam ser vistos como provocatórios, possa ser ameaçado por uma simples declaração: a de que podia “deixar Rui Vitória deste tamanhinho”. Os líderes querem-se discretos na hora da vitória e Jesus já foi apanhado suficientes vezes no pecado da soberba para o saber. Bruno de Carvalho é que não resistiu ao comunicado a pontuar o momento. Tê-lo-á feito apenas para agradecer o apoio dos adeptos que estiveram na Luz? É possível. E sabendo-se como a sua liderança é tão próxima das massas é até muito compreensível e defensável, por não ter ultrapassado limites e ter mantido um discurso sempre equilibrado. Ainda assim, a ideia que fica é a de quem não resistiu a chamar a atenção, a dizer “também lá estive”. Como se isso fosse preciso e se o facto de estar a endireitar o clube e a devolvê-lo às grandes decisões só valesse de alguma coisa se o mérito lhe for constantemente reconhecido.
2015-10-27
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Último Passe

O Benfica teve muita sorte na forma como viu a UEFA suspender a pena de um jogo à porta fechada devido às tochas lançadas pelos seus adeptos na direção dos espectadores do Atlético de Madrid, na segunda ronda da Liga dos Campeões, no Vicente Calderon. A opinião não é só minha: manifestaram-na ontem José Ribeiro e Castro e Gaspar Ramos. E se isso não chegar para os radicais, céleres a falar daqueles ex-dirigentes encarnados como oposicionistas, foi também o que presidiu à condenação imediata dos incidentes por parte de Luís Filipe Vieira. Uma condenação que terá sido fulcral na leveza assumida pela pena. O problema é que falar não basta. A lógica de confrontação existente no futebol nacional de há muitos anos a esta parte, e que neste momento tem o Benfica de um lado e o Sporting do outro, acabará por conduzir a novos problemas, mais cedo ou mais tarde. Do lado do Benfica acusa-se Bruno de Carvalho e o seu discurso hiper-belicista pela escalada do confronto. Com razão. Mas do lado do Sporting acusa-se a estrutura encarnada de fazer o trabalho sujo que permite a Vieira manter a pose de estadista e não se manifestar. E igualmente com razão. Nesta guerra não há quem tenha as mãos limpas. Há excesso de risco nas sucessivas intervenções de Bruno de Carvalho, muitas delas a roçar a piromania furiosa, e que pelo estilo populista têm tido o suporte da maioria dos sportinguistas. Mas tem havido também silêncio a mais de Luís Filipe Vieira na forma como, por exemplo, o Benfica é há anos convivente com a atuação das suas claques, que nunca se legalizaram no IPDJ mas nunca deixaram de ter apoio do clube, mesmo que ele não seja assumido. O derbi de domingo até pode acabar sem incidentes. Espero que sim. Mas se assim for, o mérito há-de ser da polícia ou do bom-senso de quem for ao estádio. Porque o que há por aí mais é gente a contribuir para a confusão em nome de outros interesses.
2015-10-20
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Último Passe

O Benfica não reagiu oficialmente às acusações lançadas por Bruno de Carvalho sobre as ofertas que alegadamente faria a árbitros, mas fontes do clube já se desdobraram em esclarecimentos destinados a desdramatizar a situação. Que a caixa só tem um custo de produção de 24 euros, aos quais se somam as entradas no Museu Cosme Damião e os jantares no Museu da Cerveja, mas que de qualquer modo o total respeita os limites máximos impostos pela UEFA, que é de 200 francos suíços, algo como 183 euros. Acredito. Mas não me chega. O presidente da APAF, José Fontelas Gomes, apressou-se a vir defender a classe, garantindo que nenhum dos seus membros aceitava ofertas que fossem além dos tais 183 euros. Percebo. Mas também não me chega. Porque a diferença entre cortesia e corrupção não está no valor da oferta mas sim no princípio. Nunca decidi jogos, como podem inadvertidamente fazê-lo os árbitros, mas sempre tive como muito claro que as minhas responsabilidades como jornalista não me permitiam aceitar ofertas de dirigentes de clubes, jogadores, treinadores ou empresários. E poucos saberão como me era sempre difícil explicar a familiares e amigos próximos as razões pelas quais não podia pedir sequer bilhetes para ir ver este ou aquele jogo, que já tinha lotação esgotada, mesmo que me oferecesse para os pagar – porque do outro lado podia sempre vir uma resposta como o “deixe lá estar isso: um dia destes faz-me um favor a mim”. A verdade é que nunca fiz pedidos desses e que jamais os farei. Porque a última coisa de que precisaria era de que um dia alguém me viesse recordar que uma vez lhe tinha pedido um bilhete para ir à bola, comido um almoço à conta ou aceite uma lembrança. Ora se isso é válido para mim, que – repito – não decido jogos, muito mais devia sê-lo para os árbitros, que com azar até podem fazê-lo. É verdade que, por tradição, vários clubes fazem ofertas a árbitros há décadas. É uma questão de cortesia, alegam. Mas mais do que ir buscar o limite máximo de euros que a UEFA impõe, o presidente da APAF devia ter sido claro nas indicações a dar aos seus homens: não há razão nenhuma para que essas ofertas, mesmo sendo legais, sejam aceites por agentes que já são relativamente bem pagos para cumprirem as suas tarefas de modo profissional. Da mesma forma que não há razão nenhuma para que os clubes pensem em oferecer aos árbitros presentes cujo valor se aproxima da metade de um salário mínimo. Porque ninguém oferece presentes a juízes do tribunal antes de uma audiência. E porque não se pode bradar pela verdade desportiva, condenar a “fruta” e o “café com leite” e depois ser assim tão cortez com os árbitros. É que às vezes mais vale ser bruto.
2015-10-06
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