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Último Passe

Já tinha escrito aqui que o problema de Nuno Espírito Santo foi a desadequação das suas ideias ao plantel que tinha à disposição no FC Porto. O plantel do FC Porto é jovem, tem sangue na guelra, pede risco, e a abordagem preferencial do treinador que acaba de deixar o Dragão é cautelosa, dá privilégio aos equilíbrios e a um jogo mais direto, sem envolvimento de tanta gente na manobra ofensiva. Por isso, na altura de escolher um substituto, no que Pinto da Costa tem de pensar é no perfil do treinador que possa tirar mais de um plantel que quer futebol de ataque e que possa funcionar no futebol português. Pode ser Marco Silva, pode ser Jorge Jesus, pode ser Luís Castro, pode ser Paulo Sousa, poderia até ser Vítor Pereira. Todos apresentam vantagens e desvantagens. Em Nuno Espírito Santo até o apelo ao sentimento, à alma profunda do clube, com expressões como o “jogar à Porto” ou a “fortaleza do Dragão” acabaram por ser contraproducentes. Porque esses sentimentos, esses estados de espírito são próprios de outras épocas, épocas de revolta contra o centralismo, em que o plantel do FC Porto era mais formado à base de arreganho do que de qualidade pura e inspiração. Não se pode jogar com Corona, Brahimi, Oliver ou até com André Silva com as ideias que serviam a André, Paulinho Santos, João Pinto ou até Kostadinov. Para jogadores diferentes, ideias diferentes. E foi aí que, mais do que Nuno Espírito Santo, que seguiu até ao fim com as suas ideias, o FC Porto falhou. Alguém se esqueceu de fazer o trabalho de casa e, antes de contratar o treinador, procurar saber afinal de contas que futebol é que o FC Porto ia jogar – sem se satisfazer com um vago “vamos jogar à Porto” que, repito o que escrevi na altura, pode servir para palestras motivacionais mas em termos estritamente futebolísticos vale pouco. Aqui chegado, entre todos os treinadores de quem se fala, quatro têm o perfil adequado. Não o têm Pedro Martins ou Sérgio Conceição – e não é por uma questão de competência, mas apenas por serem treinadores futebolisticamente mais próximos das ideias de Nuno Espírito Santo – ou de Jesualdo Ferreira, o seu maior inspirador – do que das que convêm ao plantel portista. Como não o têm quaisquer treinadores estrangeiros que venham a surgir na lista, mesmo que sejam futebolisticamente próximos daquilo que é preciso. Basta verificar que nos últimos 20 anos, só três equipas foram campeãs com um estrageiro aos comandos: o Sporting de Bölöni em 2002, o Benfica de Trapattoni em 2005 e o FC Porto de Adriaanse em 2006. Há sempre um elevado risco na contratação de um estrangeiro que não sabe muito bem aquilo que vem encontrar na Liga portuguesa, como se prova pelos sucessivos falhanços de Camacho, Koeman, Lopetegui ou Quique Flores. Marco Silva parece assentar que nem uma luva no FC Porto do futuro. É jovem, joga um futebol sedutor e ofensivo, mostrou liderança em todo o lado por onde passou, mas apresenta um problema: apesar da despromoção do Hull, saiu com a credibilidade reforçada e não quererá meter-se num desafio em que não tenha uma boa dose de garantias de vir a vencer. E a necessidade de desinvestimento no plantel que o “fair-play financeiro” da UEFA vai impor não tornam isso mais fácil – bem pelo contrário. Esse talvez não fosse um problema para Jorge Jesus, que até podia encontrar aí um modo de preencher o ego e esfregar na cara dos que o acusam de ser despesista que, com comunhão de ideias com quem dirige, conseguiria ganhar com pouco. O problema, aqui, é outro: Jesus está no Sporting e nem ele quereria sair a mal nem o FC Porto, nesta fase do relacionamento com os leões, quererá estar por trás de uma separação que deixaria o futebol nacional em guerra aberta e total. Paulo Sousa tem um cérebro futebolístico peculiar e uma personalidade vincada que sempre agradou a Pinto da Costa, viria recomendado por um futebol de ataque muito interessante, mas não sai de Florença em alta, por ter deixado a equipa roxa fora da UEFA pela primeira vez desde o 13º lugar da equipa de Mihajlovic, em 2012. Por fim, Luís Castro. Pôs o Rio Ave a jogar um futebol ofensivo de grande qualidade e conhece bem a casa, pois desempenhou funções de topo no Visão 611, o projeto de formação que está agora a começar a dar frutos com a integração de jogadores da casa no plantel principal. Como desvantagem tem o facto de ser, para muitos, um nome ligado ao passado, aos poderes que perderam espaço na SAD. Ou até de poder ser encarado como uma solução de recurso, só possível por outras terem falhado. A fotografia é esta. Da decisão final se perceberá muita coisa acerca do que pensa Pinto da Costa da equipa.
2017-05-24
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