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Último Passe

Passei grande parte do Portugal-Letónia a achar que a seleção nacional estava a jogar pouco por dentro e a procurar com demasiada frequência os dois corredores laterais, onde era quase sempre travada em situações de inferioridade numérica. No final, Fernando Santos veio à sala de imprensa reclamar que a equipa insistiu demais no jogo interior e que devia ter ido mais vezes à procura dos corredores laterais. E no entanto ambos queríamos dizer o mesmo: que a seleção estava a cair onde não tinha condições para criar situações de desequilíbrio e que por isso o seu futebol entrou em bloqueio atacante. O jogo com a Letónia acabou por se resolver nos corredores laterais, com a entrada de Quaresma. Só então, com o extremo do Besiktas de um lado e Gelson do outro (e mais tarde Ronaldo, quando o capitão encostou à esquerda e mandou o ponta sportinguista mais para dentro) Portugal começou a ter presença suficiente nas alas. Porque até aí Cancelo e Guerreiro tinham estado sempre muito abandonados, em virtude dos constantes movimentos interiores de João Mário e Nani, e eram quase sempre apanhados em momentos de um para dois com as duas duplas de duplas laterais que o adversário tinha, uma de cada lado. Se a bola chegasse à ala com rapidez suficiente para apanhar os adversários ainda a bascular, a mudar de um lado para o outro, até podiam criar lances de perigo, mas isso não era a norma. Na verdade, havendo adeptos de um jogo mais interior e outros de um futebol com mais largura, não creio que seja possível estabelecer a superioridade de uma das opções sobre a outra em abstrato. O que é importante é apenas e só a coerência. E se Fernando Santos queria jogo exterior, o erro foi ter entrado com dois alas que a cada oportunidade que tinham para o fazer vinham para dentro. A equipa só começou a ser ameaçadora no momento em que teve em campo gente capaz de executar a ideia escolhida pelo treinador: extremos flanqueadores para jogo exterior. E o problema não era de Nani e João Mário - a coisa também poderia resultar com os dois, desde que se mudasse a ideia e se apostasse mais nas tabelas entre as linhas do opositor para as penetrações pelo corredor central. É essa capacidade para dançar conforme a música que torna esta equipa forte e dá ao treinador garantias de que pode bater-se com qualquer adversário com chances reais de lhe ganhar. Desde que o faça com coerência.
2016-11-13
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Último Passe

Fernando Santos fez o seu papel ao alertar para as dificuldades que a seleção da Letónia pode vir a colocar a Portugal, mesmo (e sobretudo) tendo exagerado nas qualidades que atribuiu ao adversário. De resto, por tudo aquilo que têm dito durante a semana, também os jogadores parecem conscientes da realidade: este é um jogo que só pode ser para ganhar, tão grande é a diferença de qualidade entre as duas equipas. E mesmo tendo eu a convicção de que a Suíça acabará por perder pontos em alguma curva do caminho, a qualificação de Portugal decidir-se-á lá mais para a frente, no duplo confronto com a Hungria, marcado para Março e Setembro, antes de se jogar o fundamental Portugal-Suíça, no último suspiro da qualificação. Neste domingo, contra uma Letónia que ganhou a Andorra mas perdeu em casa com as Ilhas Faroe, uma seleção que já ficou em último lugar no seu grupo de qualificação para o Euro’2016 – ainda que empatando cinco dos dez jogos, quatro deles fora de casa, por exemplo frente a Islândia, Turquia ou Rep. Checa – Portugal tem tudo para ganhar. Não são a falta de Pepe, o desaparecimento da veia goleadora de Ronaldo no Real Madrid ou as dúvidas acerca do homem que o acompanhará no ataque que vão impedir a equipa nacional de somar mais três pontos e manter a pressão sobre a Suíça. Acredito que José Fonte e Bruno Alves chegam para o ataque letão, que a equipa pode manter dois laterais muito ofensivos, voltar a jogar sem médio centro posicional, colocar Nani numa das alas e entregar o centro de ataque a Ronaldo e André Silva e ganhar com tranquilidade mais três pontos. A batalha desta equipa, porém – e uma batalha que ela começou a ganhar no duplo confronto com Andorra e as Ilhas Faroe – é consigo mesma e passa por convencer-se que estas facilidades de calendário não podem implicar perdas de concentração ou divergências entre o discurso de empenho máximo que os jogadores vêm apregoando e a prática. Porque, repito, apesar de não acreditar que a Suíça possa chegar à última jornada com o pleno de vitórias – só a Inglaterra o fez na última qualificação, enquanto que nos grupos de apuramento europeu para o Mundial de 2014 ninguém cometeu tal proeza – aquilo que Portugal tem de fazer é repetir a caminhada 100 por cento vitoriosa que se seguiu ao arranque perdedor na última qualificação. E sobretudo tem de convencer o país de que é capaz de o fazer, para poder tê-lo às costas nos momentos decisivos. É por isso também que Fernando Santos diz o que diz. Porque isso é o que os jogadores precisam de ouvir neste momento.
2016-11-12
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