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Último Passe

Leonardo Jardim está entre os nomeados para o troféu de melhor treinador de França e não tenho dúvidas de que vai levar o prémio para casa, porque é ele, de facto, quem está a fazer o melhor trabalho entre os treinadores dos clubes franceses. Aliás, se há uma coisa a distinguir Jardim dos demais é que ele é tão metódico que não surpreende nem engana. Basta olhar para o percurso que tem feito no clube do principado: foi terceiro na época de estreia, segundo ex-aequo com o Lyon no ano de sequência e vai ser campeão esta época, aos comandos de uma das mais excitantes equipas de futebol da Europa. Até a isto Jardim estende o método, um percurso por etapas que na próxima época o levará até um clube com outras ambições no plano internacional. E no entanto, alturas houve em que se pensaria que o passo para França tinha sido um passo em falso. Jardim chegou ali em 2014 e começou por perder James Rodríguez e Falcao. Parecia que o poço que era a capacidade de investimento do clube monegasco tinha afinal um fundo, porque ao investimento desmesurado e nem sempre inteligente dos tempos do renascimento do clube seguia-se uma atuação bem mais ponderada. Só que desde essa altura muita coisa aconteceu – entre elas, até Falcao regressou, para recuperar do desastre que foi a passagem por Inglaterra. Os jovens no qual o Monaco foi apostando foram crescendo, comandados pelo treinador português, outros jogadores chegaram, cuidadosamente recrutados, e hoje formam a equipa mais demolidora de toda a Europa, com 143 golos marcados em 56 jogos. Além disso, o Monaco está na frente da Liga francesa, nas meias-finais da Liga dos Campeões e possui alguns dos jogadores mais requisitados do mercado que aí vem. Logo a começar por Mbappé, que possivelmente será o mais caro do Verão e se verá se não bate o recorde louco fixado pela entrada de Pogba no Manchester United. Depois, basta olhar para a carreira de Jardim para ver que para ele as coisas são sempre por etapas. Que não as queima, mas também não estagna. Jardim passou quatro anos e meio no Camacha a lutar pela subida à II Liga. Não a conseguiu, mas a qualidade do trabalho valeu-lhe a entrada no Chaves, que jogava a mesma Série A da II Divisão B e onde, um ano depois, lá obteve a tão desejada subida. A segunda etapa foi mais rápida: foi para a II Liga liderar o Beira Mar e subiu logo à primeira tentativa, em 2010. A terceira falava de manutenção e, apesar de ter deixado o clube em Março, num respeitável 10º lugar, ele aguentou-se na 13ª posição final e essa mesma manutenção foi assegurada. Para Jardim seguia-se, por isso, a quarta etapa, em Braga, e o objetivo era a luta pela qualificação europeia – também a conseguiu à primeira, levando os arsenalistas ao terceiro lugar do campeonato de 2012. A quinta etapa foi a única em que houve alguma confusão: o título grego no Olympiakos consta do palmarés do treinador, mas ele não acabou a época em Atenas; no Sporting, a um excelente ano de estreia – segundo lugar, na sequência da época horrível que deixou os leões fora da UEFA – seguiu-se a saída que bem pode dizer-se prematura, se se tiverem em conta os interesses do clube, que entretanto ainda não foi campeão. O título francês com o Mónaco, se o conseguir, será o primeiro em que Jardim lidera a equipa do início ao fim e, não se enganem, marcará o fim de mais uma etapa. Em 2017/18, Jardim não deverá estar no Monaco, porque a etapa que se segue, a sexta, fala do domínio em termos europeus. E isso, apesar de tudo o que tem sido feito esta época, o Monaco não pode dar-lhe. Inglaterra ou Espanha esperam por ele.
2017-04-27
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