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Último Passe

Começa a ser um clássico que Cristiano Ronaldo se veja metido em grandes novelas por altura das grandes competições. Agora, garante a Marca, através do seu enviado a Kazan, o jogador já terá garantido a colegas de seleção que se vai embora do Real Madrid. Razão? Sente-se “maltratado em Espanha”, na sequência da investigação a que foi submetido e da posterior acusação de fuga ao fisco. Ora se nestas coisas entre o cidadão comum e a máquina fiscal a simpatia da quase todos nós está quase sempre com o cidadão comum, quando o cidadão é, digamos, menos comum, como é o caso de Cristiano Ronaldo, convém distinguir os factos do que é comunicação. E descansar os adeptos: não será por causa disto que Ronaldo vai render menos na Taça das Confederações. Bem pelo contrário. Vamos a factos. Em Dezembro, o Der Spiegel obteve documentos via Football Leaks indicando que Ronaldo teria recebido parte substancial das verbas de direitos de imagem através de paraísos fiscais, fugindo à tributação devida. Soube-se então que a Fiscalía espanhola ia abrir – ou já teria até aberto – um expediente de investigação à conduta do jogador do Real Madrid. Duas semanas depois, Jorge Mendes, o agente de Ronaldo, declarou à Sky Itália que havia propostas da China pelo jogador: 300 milhões de euros para o Real Madrid e 150 milhões anuais para Ronaldo. Nunca se soube que clube fez a oferta – nem tinha de se saber, na realidade, pelo que esse facto tanto poderia servir para evitar um desmentido formal como para preservar o natural secretismo do negócio. Ato contínuo, foi dito que as propostas foram recusadas, porque, ainda nas palavras de Jorge Mendes, “o dinheiro não é tudo e o Real Madrid é a vida de Cristiano Ronaldo”. Passaram seis meses e A Bola foi a primeira a noticiar que ia aparecer uma oferta de 180 milhões de euros – que o As, diário de Madrid, elevou depois para 200 milhões – por Ronaldo. Não tinha aparecido, note-se: ia aparecer. Semana e meia depois, a Fiscalía de Madrid fez sair a denúncia, acusando o futebolista português de criar uma estrutura societária para defraudar o estado espanhol em 14,7 milhões de euros, de forma “consciente”. O facto pressupõe a clara escalada do conflito mas, é preciso dizê-lo, não é uma condenação. É, isso sim, uma acusação, à qual Ronaldo tem o direito a apresentar defesa, como estará a fazer. António Lobo Xavier, advogado do jogador, diz que não há fraude fiscal mas sim “diferença de critério” e que Cristiano até pagou mais impostos do que deveria. O que em si também é peculiar. Os factos são estes. As leituras, essas, podem ser diversas, dependendo do crédito que se dá às máquinas comunicacionais. Se olharmos para esta disputa como se de um jogo de póquer se tratasse, em que os jogadores vão de bluff em bluff sem que a outra parte possa saber onde está a realidade, verificamos que se há seis meses tudo se colocava no plano das relações públicas – “o Real Madrid é a vida de Cristiano” –, neste momento o conflito ameaça chegar a vias de facto – “Ronaldo quer ir embora de Espanha”. Para dizer a verdade, não me convence nem uma coisa nem a outra. Por mais que o sinta, nenhum jogador de futebol profissional pode alguma vez dizer de forma 100 por cento honesta que um clube é a sua vida, porque a este nível é o mercado que manda. E manda muito mais se, como é o caso, falamos do melhor de todos eles. Por outro lado, não vejo na ameaça de sair de Madrid muito mais do que uma forma de arregimentar para a luta os “soldados” que a máquina de Ronaldo sabe ter do seu lado – os milhões de “madridistas” que nenhuma administração fiscal ou política gostará de ver culpá-la se o clube vier a perder o jogador que deu um contributo tão decisivo para a conquista de três Ligas dos Campeões nos últimos quatro anos. Aqueles que, mais do que saber se Ronaldo paga ou não ao fisco espanhol, querem sobretudo que ele conduza a seleção portuguesa a uma Taça das Confederações repleta de glória podem neste momento ter uma certeza. É que o capitão da equipa nacional está bem, chega a Junho numa forma que há muitos anos não conhecia nesta fase da época e não só não é rapaz para deixar que estas coisas o afetem em campo como sabe que, para a estratégia comunicacional que tem em campo fazer ainda mais efeito, não haverá nada como levar a taça para casa. É nisso que ele está concentrado. E é isso que dirá aos jornalistas de todo o Mundo, se hoje for escolhido para falar à imprensa e for confrontado com as notícias da sua vontade de deixar Espanha e o Real Madrid.
2017-06-17
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Artigo

Em semana de Congresso dos Jornalistas, o documento “The European Football Landscape”, lançado pela UEFA, veio ajudar um pouco à reflexão em torno do jornalismo que se faz. Sei por experiência própria que os jornalistas de hoje não são piores do que os de há 30 anos. Pelo contrário: são melhores. Têm é problemas diferentes para ultrapassar, o maior dos quais é o mundo que os rodeia e que conspira para lhes roubar um bem precioso, que é o tempo. A forma como foi tratado o documento da UEFA vem provar isso mesmo. Sem tempo, o que se faz? Primeiro, não se lê, treslê-se. Olha-se para aquilo e rapidamente se descobre que o Benfica é a segunda equipa mais endividada da Europa. Já há título, porque é esse tipo de comportamento extremo que os leitores procuram. E depois, seguindo outro aspeto particular da sociedade de hoje, onde todos se sentem informados e com opiniões definitivas sobre tudo, que lê divide-se em dois grupos: o dos que acham que é uma vergonha e o dos que sabem que é uma cabala. Não é uma coisa nem a outra. É assim mesmo. Não é uma cabala porque o Benfica tem de facto uma dívida monstruosa, bem maior que as de FC Porto e Sporting. Não é uma vergonha porque o clube também tem uma receita muito superior aos rivais e faz dessa dívida e da sua gestão quotidiana uma forma de vida nos limites que lhe permite andar de mãos dadas com o sucesso. É essa forma de vida que ajuda a entender, por exemplo, a parceria com Jorge Mendes e o ocaso a que tem estado a ser vetado Raul Jiménez, que Luís Filipe Vieira já vem dizendo há muito tempo – há mais de um ano, creio… – que vai ser a maior venda da história do clube. Como se já tivesse visto o guião escrito em algum lado. Transpondo a história para a nossa vida real de todos os dias, imaginemos que temos um vizinho que é futebolista num clube de meio da tabela, mas que de repente atinge os píncaros do sucesso e assina um novo contrato por um dos grandes, a ganhar 100 mil euros por mês. O rapaz ganhava uns dois mil no contrato anterior e estava a pagar uma casa ao banco que lhe tinha custado 250 mil euros. Uma casa sobre a qual penderia a normal hipoteca. De repente, com o aumento da receita garantido, abalançou-se a comprar uma vivenda de luxo numa zona mais rica da cidade e pediu um empréstimo de quatro milhões de euros. Tecnicamente, ficará com uma das maiores dívidas da rua, talvez mesmo a maior. Mas na prática tem condições de a pagar e ninguém tem nada a ver com isso. A gestão do Benfica tem vindo a ser feita assim há anos, mesmo que Luís Filipe Vieira ande há anos também a dizer que quer passar a apostar na formação, porque quer manter a receita e reduzir a despesa. A narrativa que passa para o exterior é muito a de que isso não foi feito mais cedo porque Jorge Jesus não permitia e que com Rui Vitória, de facto, aumentou muito a aposta nos rapazes do Seixal. Se a segunda parte desta história bate certo com a realidade, já em relação à primeira tenho muitas dúvidas, porque para a relação com Mendes poder funcionar na perfeição as movimentações têm de ser para lá e para cá. A própria posição do agente no mercado internacional poderia ficar comprometida se só fizesse negócios mega-inflacionados num sentido. Porque a questão aqui não é a de o dinheiro ser verdadeiro ou em notas de Monopólio, como muitos se atrevem a dizer. Não me passa pela cabeça que o dinheiro não seja real. Mas que todo o esquema se monta na capacidade para vender bens muito acima – nem é só acima, é muito acima – do seu real valor de mercado, isso parece evidente. Ora centremo-nos em Jiménez, que não ocupou a sua posição no banco de suplentes ontem com o Boavista porque Luís Filipe Vieira está a tentar vendê-lo para o futebol chinês. As notícias que circulam dão conta de propostas de 50 milhões de euros, mas que o presidente encarnado só aceita libertar o jogador pelos 60 milhões de que fala há meses. 60 milhões de euros. Por um suplente. A concretizar-se – e não tenho muitas dúvidas de que acontecerá, se não já em Janeiro, no mercado de Verão – é caso para se dar uma nova perspetiva à expressão “negócio da China”. Só que basta andar um pouco para trás para perceber que o circuito é bi-direcional. Jiménez saiu do México para o Atlético de Madrid por 11 milhões de euros. Foi suplente em Espanha e saiu para o Benfica por um total de 22 milhões, pagos em duas partes. Continuou a ser suplente em Portugal e está prestes a sair para a China por 50 ou 60 milhões de euros. Isto sim, e não a dimensão da dívida do Benfica, merece esclarecimentos por parte de quem sabe e o tempo dos jornalistas.
2017-01-15
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Último Passe

Cresci na década de 70, quando o Benfica ganhava três campeonatos em cada quatro. A chave dessa hegemonia era sobretudo uma: o controlo do único mercado que estava à mercê, que era o nacional. Por esses tempos, o Benfica tentava contratar todos os jogadores promissores que aparecessem, conseguindo fazê-lo com a maioria, tendo por isso equipas de reservas que se bateriam com qualquer outro emblema do campeonato. Mas por muito que alguns saudosistas vejam na contratação de Rafa a reedição dessa época, há diferenças evidentes entre o presente e esse passado – e não passam apenas pela globalização e por esta ter tornado impossível gizar uma estratégia tão hegemónica com base num mercado limitado. Por outro lado, não acredito que o Benfica tenha aceite pagar 15 milhões de euros (mais Rui Fonte) por Rafa só para chatear Pinto da Costa ou impedir que o FC Porto se reforce com um jogador que o seu treinador queria. Porque nem a fartura financeira na Luz é assim tão grande – que o diga a dimensão do passivo, por mais controlado que esteja – nem os seus dirigentes são loucos ao ponto de gastarem tanto dinheiro por jogadores de que o seu treinador não precise. Rafa é um excelente atacante, com argumentos extraordinários na mudança de velocidade e na tomada de decisão. É jogador de seleção, que pode atuar como extremo ou como segundo avançado, posição na qual o Benfica não tem assim tantas alternativas a Jonas. Portanto, começam logo por se enganar os que se centram na abundância de extremos atualmente existente no plantel do Benfica para defender a irrelevância da contratação do bracarense. Há mais formas de ser útil. Além de que, mesmo para esse lugar, a entrada de Rafa deve ser lida numa base global, onde entram também a contratação – e provável revenda – de Carrillo e a vontade de transferir Salvio. No entanto, a contratação de Rafa extravasa em muito a dimensão puramente futebolística. Aqui, pelo menos tão relevante é a componente do negócio, a estratégia gizada por Luís Filipe Vieira e Jorge Mendes, neste caso com o acordo de António Salvador, presidente do Sp. Braga, cujo objetivo último passa pela valorização do jogador e pela sua entrada num carrossel onde já estão jogadores como Bernardo Silva ou André Gomes, que rendem a cada mudança de clube. Mesmo que seja em circuito mais ou menos fechado, a máquina rende e é preciso continuar a alimentá-la.
2016-08-19
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Último Passe

Há pelo menos duas maneiras de olhar para a possibilidade de transferência de Luisão para o Wolverhampton. Uma é fazê-lo segundo o ponto de vista do Benfica e é simples. Outra é fazê-lo segundo o ponto de vista do jogador e é muito mais complexa. Porque este é claramente um negócio mais interessante para o clube do que para o jogador, por mais zeros que tenha o salário que ele venha a receber a jogar pelo 14º classificado do último Championship, o segundo escalão do futebol inglês. Para o Benfica, o potencial negócio é simples. Tem um jogador que ganha um bom salário, mas que não é eterno e que, se querem saber a minha opinião, já não é um dos dois melhores defesas centrais do clube – Jardel e Lindelof estão acima e acho mesmo que Lisandro López também, ainda que esse não tenha nunca tido continuidade suficiente para ter acerca dele um veredicto mais avisado. Em Lisboa desde 2003, Luisão é o jogador com mais tempo de clube, terá seguramente muita influência no balneário, ou não fosse ele capitão, mas por muito que isso custe ouvir, a equipa melhorou quando ele se magoou e teve de ser substituído, na época passada. Sobretudo por uma razão. É que o veterano brasileiro é mais lento que os colegas de posição e, com ele, das duas uma: ou a equipa joga com a defesa menos subida, aumentando o espaço entre setores ou diminuindo a capacidade para pressionar o adversário, ou então passa a ter mais problemas com as bolas nas costas. E, no entanto, Rui Vitória tem feito a equipa com ele a titular… Para Luisão, tudo é mais complicado. O que se disse há tempos foi que o Benfica já lhe teria comunicado que não ia renovar-lhe o contrato no final desta época – o homem, afinal, já tem 35 anos – mas lhe ofereceu um lugar na estrutura. Oferta essa que Luisão estava inclinado a recusar, porque queria continuar a jogar. O que, visto pelos olhos dele, até se percebe. Afinal, repito, Rui Vitória tem feito a equipa do Benfica com ele a titular. O que ele perceberá pior, afinal de contas, é que, assim sendo, não lhe renovem o contrato: ao capitão de equipa, titular da equipa aos 35 anos. A não ser que a titularidade de Luisão nas primeiras partidas da época fosse simplesmente uma condição para que ele pudesse ser colocado noutro clube até ao fecho de mercado, um clube que poderia perder o interesse se soubesse que estava a levar um suplente na curva descendente e não sobretudo um ex-internacional brasileiro, capitão do tricampeão português. Não conheço as motivações de Luisão para sequer admitir sair neste momento do Benfica: se precisa de fazer um último grande contrato para assegurar o futuro da família, se desconfia das motivações de quem lhe oferece um lugar no momento em que decidir pendurar as chuteiras, se pura e simplesmente acha mesmo que precisa de continuar a jogar, mesmo que seja numa equipa muitos patamares abaixo daquele a que está habituado. Conheço e percebo as do Benfica: quer encontrar lugar e orçamento para um defesa-central que possa valorizar-se e criar sérios problemas aos melhores que por lá tem. Como ainda por cima, via Jorge Mendes, tem esta ligação recente ao Wolverhampton, onde já colocou Hélder Costa e João Teixeira, tentou encontrar aqui uma via de saída para o problema. Só que quanto mais olho para o caso, mais me parece que não estão todos na mesma página.
2016-08-17
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Último Passe

Ninguém a não ser os próprios poderá dizer com toda a certeza quais são as relações entre a Gestifute de Jorge Mendes e a Doyen Sports. Um pouco por todo o Mundo se leem coisas absolutamente inconciliáveis. Lê-se em italiano que são aliados numa espécie de cartel que se destina a fazer subir os preços dos passes e aumentar a dependência financeira dos clubes face aos investidores. E lê-se em francês que são inimigos figadais desde que a Doyen se meteu no negócio Falcao, financiando a compra do jogador por parte do Atlético de Madrid, ganhando mais que o mais poderoso agente do Mundo e levando-o depois a enveredar pela opção de empréstimos onerosíssimos – nos quais todos ganham menos o fundo que só recupera o investimento na venda. Seja qual for a verdade, uma coisa é certa: se Nuno Espírito Santo entrar como treinador no FC Porto, Jorge Mendes consegue algo de absolutamente extraordinário, que é o estabelecimento de uma relação privilegiadíssima com dois dos três grandes do futebol nacional. Ainda por cima numa altura em que consta que nem está de costas viradas para o terceiro. Se olharmos para esta realidade à escala global, nem há grande novidade: a Doyen é há muito um dos parceiros prediletos do Atlético de Madrid, que ao mesmo tempo é um dos principais portos de abrigo para os jogadores que a Gestifute transfere de Portugal para o estrangeiro. Aí, ganha a tese do interesse comum. Em Portugal, porém, a radicalização de interesses entre os três grandes nunca permitiu grandes confluências. Veja-se o caso de José Veiga, o antecessor de Mendes como maior agente futebolístico nacional. Enquanto trabalhou preferencialmente com o FC Porto, na década de 90, Veiga era frequentemente verberado pelos grandes de Lisboa. Quando se zangou com Pinto da Costa, no final dos anos do “penta”, fez da vontade de ver crescer o Sporting (primeiro) e o Benfica (depois) quase uma profissão de fé, mas nunca conseguiu estar bem com os dois ao mesmo tempo: o processo que levou à autodestruição de Jardel é disso bom exemplo. Veiga conseguiu sempre algo que Mendes também já pôs em prática, que foi ter um segundo clube para os “ressaltos” – o de Veiga era o Boavista, mas Mendes até tem dois, que são o Sp. Braga e o Rio Ave. Mas foi cometendo erros que o impediram de construir aquilo que Mendes pode estar prestes a conseguir: a quase unanimidade. As boas relações de Mendes com o Benfica estão à vista. O rosto da Gestifute tem sido o operacional preferido para as grandes vendas do clube para o estrangeiro – conseguindo no processo valores absolutamente mirabolantes para jogadores que muitas vezes não tinham sequer passado da equipa B – e mantém com Luís Filipe Vieira um entendimento por sinais de fumo. Aqui convém lembrar que Mendes – um Mendes ainda muito longe da influência que tem hoje… – foi o agente escolhido por Manuel Vilarinho para fazer os primeiros negócios depois de o clube ter extirpado os efeitos da liderança de João Vale e Azevedo (os brasileiros Roger e André), mas que chegou a perder espaço no clube quando José Veiga, com quem chegou a envolver-se em lutas físicas, apareceu como “homem do futebol” de Vieira. Tudo isso, porém, são águas passadas: hoje em dia, sempre que há um problema de mercado para resolver no Benfica, Mendes faz parte da solução. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu na saída de Jorge Jesus, que tinha de Mendes uma proposta para seguir para o médio oriente enquanto esperava pelo Paris Saint Germain. No FC Porto, porém, Mendes tem enfrentado mais barreiras. É verdade que durante a passagem de Veiga pelo Benfica, já exerceu ali uma espécie de magistério de influência semelhante ao que agora pratica na Luz – ganhou muito e deu muito a ganhar ao clube depois da vitória na Champions, com a venda para o estrangeiro de jogadores como Paulo Ferreira, Deco, Costinha, Maniche ou Derlei – mas esse efeito foi-se extinguindo à medida que se reforçavam os seus laços com Vieira e com o Benfica. Agora, se Nuno Espírito Santo regressar de facto ao Dragão, como parece ser intenção firme de Pinto da Costa, pode reacender-se a chama da parceria, uma vez que além de ser amigo do técnico desde que, ainda como guarda-redes, o transferiu de Guimarães para a Corunha (foi mesmo o primeiro negócio de Mendes no futebol), o agente tem apostado firmemente no treinador, qu colocou no Rio Ave e depois no Valência. Uma parceria que exigirá de Mendes o equilíbrio no fio da navalha que Veiga, por exemplo, nunca conseguiu manter, mas que, somada ao facto de representar boa parte dos jogadores vendáveis do Sporting, a ser bem sucedida pode dar-lhe um domínio do futebol nacional nunca visto até hoje.
2016-05-31
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Último Passe

O Benfica comunicou à CMVM a venda dos direitos desportivos de Renato Sanches ao Bayern Munique por 35 milhões de euros, informando ainda que “estão previstos valores adicionais, num montante global de 45 milhões de euros, dependentes da concretização de objetivos” até 30 de Junho de 2021. Diz a Kicker que esses objetivos passam pela nomeação de Renato Sanches para o Onze do Ano da FIFA ou para a Bola de Ouro. Subsiste, no entanto, uma dúvida, alimentada pelo facto de estarmos todos habituados ao português insondável de quem escreve estes comunicados: são 35 milhões mais 10 ou 35 milhões mais 45? Uma vírgula, aqui, faz muita diferença. Em todo o caso, mesmo que o valor real seja o mais baixo, trata-se de um excelente negócio para o Benfica. Só divergirá quem está de tal forma iludido pelos valores das transferências de jovens da formação encarnada para os clubes do circuito-Gestifute (Mónaco, Valência…) que acha que a base de licitação de qualquer futebolista está nos 15 milhões de euros. Renato Sanches foi uma das chaves da atual situação do Benfica. Se o clube for tricampeão é em boa parte a ele que o deve, pela explosão que trouxe ao futebol da equipa. Renato já é ofensivamente um extraordinário médio, porque ao contrário do que os seus detratores repetem à exaustão não perde muitos passes (tem uma margem de acerto na ordem dos 90%) e não joga só para trás e para o lado (o destinatário preferencial dos seus passes é Jonas). Além disso tem uma mudança de velocidade que lhe permite queimar linhas em posse como poucos jogadores na Liga portuguesa. E, no entanto, não é ainda um jogador feito. É “um pouco selvagem”, como diz Rui Vitória: defensivamente apresenta lacunas de posicionamento, mesmo que seja preciso procurar bem para as descobrir (o jogo sem bola é sempre menos visível que o jogo com bola). Mas quanto vale Renato Sanches? Valerá menos que um T1 no meio do pântano do Amazonas? Claro que não. O transfermarkt dava-lhe hoje de manhã um valor de mercado de 10 milhões de euros. Acho pouco. Na verdade, o transfermarkt serve-se de um algoritmo que estabelece variações médias e Renato Sanches valorizou a um ritmo extraordinário esta época, pelo que rebenta com esse algoritmo. Eu diria que, até tendo em contra o potencial, só um valor acima dos 25 milhões seria um bom negócio. Se o Bayern já pagou pelo menos 35, esta transferência entra na categoria dos negócios extraordinários – até porque sendo a venda para o Bayern, perdem imediatamente terreno os que virão dizer que o valor está muito inflacionado pela interferência de Jorge Mendes, o empresário que conseguiu vender João Cancelo ou Ivan Cavaleiro por 15 milhões cada um. Se chegar aos 45 milhões, o negócio será ainda melhor. Se, tal como está a ser interpretado pela generalidade dos órgãos de comunicação – que, já se sabe, na área do futebol querem é ver as pessoas felizes e, em caso de dúvida, “beneficiam sempre o ataque” –, o valor por objetivos elevar a transferência para os 80 milhões, então é um negócio da China. Para isso, porém, antes de ficarmos a saber quanto vale Renato Sanches, será necessário a CMVM ter a curiosidade de saber quanto vale uma vírgula. A vírgula que define se a expressão “montante global” se aplica ao negócio em si ou à totalidade do valor por objetivos.
2016-05-10
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Último Passe

Há quem olhe para a saída de Julen Lopetegui do FC Porto como uma manifestação da força do poder popular, julgando-a nascida dos lenços brancos que o público agitou nos últimos jogos no Dragão. Há também quem a veja como consequência da gota de água final que fez transbordar o copo da paciência de Pinto da Costa face ao futebol pobre que a equipa vinha exibindo nas últimas semanas. E há ainda quem a julgue injusta, face à evidência dos 37 pontos que os dragões têm ao fim de 16 jornadas, exatamente os mesmos 37 pontos que tinham na época passada, na qual se mostraram capazes de se manter vivos na luta pelo título até bem perto do fim da competição. A mim, a demissão do treinador basco parece-me sobretudo a falência de uma ideia de jogo e vem motivar-me uma curiosidade acima de todas: quem vem a seguir e em que medida é que isso vai influenciar a gestão que Jorge Mendes faz da balança de poderes no futebol nacional? A demissão do treinador basco é um rude golpe na ideia de jogo que o FC Porto vinha professando há ano e meio. O culto da posse, a largura na construção e a presença permanente de extremos tinham como objetivo a implementação de uma espécie de “tiki-taka” à portuguesa, algo que, porém, nunca teve resultados a condizer devido a fatores tão diversos como a falta de maleabilidade tática do treinador, o desinvestimento de alguns jogadores em partidas de menor visibilidade ou a ausência de um finalizador de excelência capaz de colocar o ponto final em tanto jogo pelas alas. A verdade é que, mesmo tendo o FC Porto perdido Jackson Martínez – e há muito que venho dizendo que o futebol de Aboubakar pede outro tipo de construção – o plantel à disposição de Lopetegui continua a ser o mais forte da Liga portuguesa. E mesmo assim tem zero títulos para apresentar e apenas duas vitórias em sete clássicos disputados. Com Lopetegui posto de parte, os nomes dos potenciais sucessores já estão a dançar na agenda mediática. Pinto da Costa tem duas opções: ou aposta num interino até poder contratar o técnico que quer, no final da época, como fez há dois anos, entre Paulo Fonseca e Lopetegui (e muito se tem falado de André Villas-Boas, que no entanto ainda não está disponível); ou avança já para uma solução de futuro. Neste caso, estranhamente, nem se tem falado de Marco Silva, treinador ligado à Doyen que está a arrasar na Grécia. Mas fala-se de Paulo Bento (o que é estranho, porque o ex-selecionador teve vários atritos com Pinto da Costa) e de Nuno Espírito Santo, um treinador do topo da agenda nacional de Mendes, que o super-agente português faria tudo para ajudar. Até equacionar a parceria com Luís Filipe Vieira e o Benfica, que tem sido o aliado preferencial nos negócios portugueses da Gestifute? Essa é a parte mais interessante do problema, a parte que pode afastar Nuno do Dragão.
2016-01-07
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Último Passe

Podemos achar o que quisermos sobre o facto de haver um documentário acerca de Cristiano Ronaldo destinado ao ecrã grande do cinema, mas uma coisa não pode ser ignorada: a indiferença com que toda a gente no Real Madrid encarou a cerimónia de lançamento da obra. Se lá esteve Ancelotti, se lá esteve Ferguson, se lá esteve até José Mourinho, o técnico com quem o CR7 não mantém relações propriamente efusivas, não se vê na falta de Rafa Benítez, de Florentino Pérez ou de algum representante seu mais do que uma declaração. Uma declaração acerca do futuro, à qual me custa a entender que Jorge Mendes, pelo poder que tem, seja alheio.O clima anda tenso, como era inevitável que viesse a acontecer a partir do dia em que a aposta do Real Madrid foi em Rafa Benítez, um treinador com tanta vontade de deixar marcas no clube que precisava de pôr tudo em causa. Incluindo a forma de funcionar com e para Ronaldo. Seja por razões táticas, seja devido à falta que lhe faz Benzema - aproximando Ronaldo dos problemas que enfrenta no ataque móvel e sem referências da seleção nacional - seja por ter deixado de sentir o afeto entretanto partilhado com outros, a verdade é que Ronaldo não está a gosto e tanto ele como os que o rodeiam fazem questão de que isso se saiba sem terem de o dizer. Porque não podem dizê-lo, como é evidente.Foi a entrevista à Kicker, a admitir que há-de sair de Madrid um dia; foi o segredo a Laurent Blanc, no jogo contra o PSG, a abrir caminho a especulações; foi agora a discussão com Sérgio Ramos, no final da derrota em Sevilha, a primeira da época. Tudo achas para uma mesma fogueira, a fogueira que vinha sendo alimentada por meia dúzia de exibições tristes, para as quais as táticas de Benítez contribuem com frequência. E exatamente a mesma fogueira que foi mais inflamada ainda por Florentino Pérez, quando confrontou o jogador à frente das câmaras de TV após as declarações à Kicker ou não se fez sequer representar a si ou ao clube no lançamento do documentário sobre a vida do seu jogador bandeira, do seu Bola e Bota de Ouro.  Ora se Florentino não é idiota - e eu acho que não é - e sabe bem o que vai dizer-se neste tipo de circunstâncias, não creio que esteja a ser surpreendido pelo que está a passar-se. Como todos os bons gestores, tê-lo-á mesmo antecipado. Tê-lo-á feito ele, como certamente podem tê-lo Ronaldo ou Jorge Mendes, que esteve bem à vista de todos na cerimónia de Londres, como o esteve também José Mourinho, treinador estrela da Gestifute cuja presença foi o sublinhado a grosso da ausência do Real Madrid. Novidades? Lá para o fim da época veremos.
2015-11-09
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Último Passe

Raul Jimenez é um excelente jogador. Não foi muito feliz no ano de estreia no futebol europeu, no Atlético Madrid, porque a transição do futebol mexicano para a Europa não é fácil e nem toda a gente a consegue fazer como Jackson Martínez: Jimenez fez apenas um golo na Liga espanhola. De qualquer modo, deixar a prova espanhola, mais exigente, e entrar na portuguesa, onde Jackson se impôs, pode muito bem ser o passo atrás de que ele precisa para depois dar dois em frente. O que me inquieta na transferência do atacante mexicano para o Benfica não são as suas hipóteses de sucesso, que é evidente que as tem. Com ele e Mitroglu associados a Jonas e ao promissor Jonathan, o Benfica fica com quatro pontas de lança de grande qualidade. O que me inquieta é ver tamanha diferença no valor da transferência anunciado pelos jornais, entre os três e os nove milhões de euros pela metade do passe que não fica nas mãos de Jorge Mendes. É evidente que as fontes de informação não são as mesmas e que parte delas está enganada. Ou a enganar, que é o mais provável. A verdade é que Jimenez custou há um ano 10,5 milhões de euros ao Atlético Madrid (pela totalidade do passe) e não vejo como é que um golo em 28 jogos na Liga espanhola pode tê-lo valorizado para o dobro. Mas a verdade também é que esta não seria a primeira vez que o super-agente português conseguia aplicar uma lente de aumento aos valores praticados em transferências de jogadores envolvendo clubes nacionais. E estes já tantas vezes disso beneficiaram: Bebé é o caso mais flagrante, mas também João Cancelo, Ivan Cavaleiro e até Bernardo Silva ou André Gomes (embora estes tenham já justificado o que por eles pagaram) pareceram hiper-inflacionados. A questão é que com Jimenez a lupa está virada ao contrário.
2015-08-11
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