PESQUISA 

Último Passe

Com a habilidade que se lhe reconhece para as palavras, o poeta uruguaio Eduardo Galeano veio um dia contestar que à seleção holandesa lhe chamassem “Laranja Mecânica”. Porque aquela “obra da imaginação, que desconcertava todos com as suas mudanças incessantes” não tinha “nada de mecânico”. E não tinha, de facto. Aqueles jogadores não eram máquinas, aquele futebol não era robotizado. O que aquela equipa e aquele futebol tinham era o que Johan Cruijff podia dar: cérebro. Porque, como dizia Cruijff, “o futebol joga-se com o cérebro”. Johan Cruijff foi a mais espantosa mente que alguma vez pensou futebol. Era uma mente retorcida, que escolhia caminhos tortuosos para chegar onde queria, mas nunca deixou de ser brilhante e de “viver e morrer pelas suas próprias ideias”, como o próprio não se cansava de dizer acerca do que devia ser a cartilha maternal de um treinador. Algumas das suas ideias explicou-mas uma vez, numa rápida entrevista de uns dez minutos, feita a contragosto, quando o encostei a uma parede nas catacumbas de Camp Nou, depois de Ricard Maxencs, o já falecido ex-diretor de imprensa do Barça, me ter dito que se corresse por um certo corredor talvez ainda o apanhasse a caminho do carro. Eu lembrei-o de que estava em Barcelona há quase uma semana para falar com ele, ele acedeu e debitou aquilo que para ele deviam ser lugares-comuns mas que para mim foram os dez minutos em que mais aprendi sobre futebol até àquela data. As ideias de Cruijff eram simples. Tão simples que parece impossível nunca terem ocorrido a toda a gente. Cá vai uma: “a bola é mais rápida que qualquer jogador e ainda por cima não se cansa”. Básico? Sem dúvida. Mas como o próprio Cruijff dizia, “a solução mais simples é sempre a mais eficaz”. “E muitas vezes a mais difícil de pôr em prática” – mas aí entra a parte do cérebro. O mais simples era, tanto naquele Ajax dos inícios dos anos 70, como foi depois na seleção holandesa ou no Barcelona que ele criou e que deixou de herança a Pep Guardiola, fazer girar a bola, manter a posse, jogar a dois toques com abertura permanente de linhas de passe através da formação de vários triângulos no campo. Em tempos chamaram a isso “futebol total”, porque para o pôr em prática qualquer equipa tinha que extravasar os limites do sistema em que se dispunha no início dos jogos. E para isso era preciso criar uma dinâmica coletiva, uma dinâmica de adaptação constante, de perceção permanente do que mais convinha ao grupo. Se o mais importante era o lateral direito à procura do espaço no terreno do médio do outro lado, era isso que ele fazia. Desde que a equipa respeitasse sempre, como dizia Galeano, essa forma de “desorganização organizada” que lhe permitia ser harmoniosa. Isto é: desde que os seus componentes fossem inteligentes e que a ligá-los em campo estivesse o tal cérebro superior. E aí residia a diferença entre uma grande equipa e uma equipa armada em grande. As equipas de Cruijff foram grandes, porque Cruijff era grande. Era grande a jogar, era grande a pensar, era grande nos afetos e nos ódios, também. Escolhia o campo e ia até ao fim. Foi assim no Ajax e no Barcelona, as suas duas paixões, onde exerceu magistérios de influência quando deixou de a ter em campo, como jogador ou treinador. E com isso formou um séquito de discípulos, que tanto têm dado ao futebol nos últimos anos. Porque todos têm bem presente a mais fundamental das ideias de Cruijff: o futebol joga-se com o cérebro. E o dele já não pensa, mas deixou marcas.
2016-03-24
LER MAIS

Artigo

Nunca fui louco pelo tiki-taka, sobretudo na versão apresentada pela seleção espanhola, que a do Barcelona tinha esse upgrade fenomenal que era Messi e as suas acelerações, sempre com a bola colada aos pés. Mas uma coisa é uma preferência estética, uma opção de entretenimento – e fui sempre mais adepto de um futebol esticado do que adornado – e outra é uma avaliação acerca da eficácia que ele permite. Nesse aspeto, não tenho dúvidas: Guardiola está no top dos treinadores mundiais e mostra que não quer de lá sair pela facilidade com que se coloca em causa a cada momento. O segredo, o catalão voltou a explicá-lo hoje em Munique: “Preciso de novas críticas e de novos inimigos. São eles que nos fazem melhorar”. Isso faz toda a diferença, sobretudo para aqueles treinadores que procuram sempre silenciar os inimigos. Desde que vejo futebol, houve quatro grandes revoluções, nascidas do contributo de quatro visionários. A “zona pressing”, que terá nascido em Liedholm, mas cujo expoente máximo foi o Milan de Sacchi; o jogo de posse a dois toques com largura permanente para que evoluiu o Barcelona de Johan Cruijff, partindo do futebol total da “Laranja Mecânica” que ele comandava em campo; o jogo mais direto e muito feito do aprimorar das transições (ofensivas e defensivas) que caracterizava as equipas de José Mourinho após a chegada ao Chelsea; e o tiki-taka do Barcelona, desenvolvido por Guardiola a partir do modelo de Cruijff mas adaptado aos novos tempos. Com o tempo, depois de ter perdido a Liga dos Campeões para o Inter de Mourinho, em 2010, Guardiola subiu ao topo da hierarquia e, para lá permanecer, foi sempre à procura de novos desafios. Sem ele, o Barcelona mudou: Luis Enrique fez um bocado a ponte entre o futebol trabalhado da equipa de Guardiola e o jogo de transições de Mourinho, com três avançados capazes de esticar a equipa e um meio-campo de vistas mais largas. Mas Guardiola também evoluiu no Bayern, tirou gente de trás para meter na frente, manteve os princípios básicos de jogo triangulado e continuou a ganhar. Mais: continuou a ganhar com facilidade. É por isso que segue para Inglaterra. Porque se há coisa que distingue Guardiola é a sua inteligência superior, a inquietação que o impede de se sentir cómodo onde quer que seja. Há-de chegar o dia em que Guardiola não ganhará, mas uma coisa é certa: não será por acomodamento.
2016-01-26
LER MAIS

Artigo

Quando apareceu a treinar na I Divisão, Jorge Jesus era conhecido como o “Cruijff da Reboleira”. Era a forma depreciativa que o futebol nacional encontrava para ridicularizar um treinador de uma equipa pequena com manias de grandeza, porque lhe dava a alcunha do líder do grande Barcelona desse tempo mas juntava-lhe a origem suburbana para o diminuir. Passaram 20 anos e a maior parte dos que gozavam com Jesus nessa altura ainda acham que o decalque do “cruijffismo” passava pela tentação de colocar o Felgueiras a jogar em 3x4x3 ou que a descida de divisão naquele ano e a preferência posterior pelo 4x4x2 pressupunham o abandono do modelo do “Fininho”. Estão enganados. O futebol de Jesus continua a beber muita da sua inspiração na revolução de Cruijff porque é lá que vai buscar o seu conceito fundamental: posicionamento que permita superioridade numérica na zona da bola. Como se viu na vitória do Sporting frente ao FC Porto, anteontem, por exemplo. Cruijff era o mentor em campo daquilo a que se chamou o “futebol total”, inventado por Stefan Kovacs e aperfeiçoado por Rinus Michels. Ora, o “futebol total” nunca se definiu através de um esquema tático. Podia ser o 4x3x3 da Holanda e do Ajax da década de 70, o 3x4x3 do Barcelona do final dos anos 80 ou o 4x6x0 da Espanha de 2010 e 2012. Há quem diga até que era o 4x2x4 da Hungria dos anos 50… Pouco importa. O que mais interessa ali é a predisposição de todas essas equipas para viverem e mudarem dentro desses esquemas, de forma a criarem situações de superioridade numérica onde mais interessa. Isso, por muito que os gozões de 1995 ainda não o tenham compreendido, treina-se. E não me espantou que a primeira vez que falei com Jesus, num jantar de aniversário do Record, era ele treinador do Felgueiras e eu comentador dos jogos da Liga espanhola na TVI, tenha sido sobre os treinos de Johann Cruijff, a que ambos tínhamos assistido em Barcelona, ainda que em alturas diferentes: ele quando lá estagiou e eu quando por lá passei uma semana em reportagem ao serviço do Expresso. O que interessava ao Cruijff da Reboleira não eram esquemas táticos, não era a obsessão do verdadeiro Cruijff pelos extremos puros, pela largura das suas equipas no campo, mas sim a forma como ele treinava para garantir a progressão em triangulações e as situações de superioridade numérica na zona da bola. Ao contrário do Cruijff verdadeiro, o da Reboleira já mudou de esquema tático predileto muitas vezes. Mas se Cruijff transformou o 4x3x3 em 3x4x3 porque achou que precisava de ter mais gente no meio-campo e não tinha de sacrificar sempre quatro homens atrás contra adversários que só atacavam com um ou dois elementos, Jesus também compreendeu a importância da criação de desequilíbrios favoráveis. As contas são fáceis de fazer. Todas as equipas começam com onze em campo e para se ter mais gente numa determinada área é preciso ter menos noutras – o segredo é ter mais gente onde importa e menos onde o adversário tem menos hipóteses de fazer valer a sua superioridade parcial. Foi por isso que, sendo adepto do 4x4x2, Jesus abordou o jogo em Braga em 4x3x3, com Aquilani a fazer de segundo avançado mas muito mais predisposto a baixar para a zona do meio-campo – onde o Sp. Braga tinha apenas dois homens – e assegurar ali um desequilíbrio favorável ao Sporting. É por isso que os extremos de Jesus procuram sempre o espaço interior, de forma a assegurarem superioridade coletiva naquela zona, mesmo sacrificando a largura que é uma das ideias base do futebol de Lopetegui, por exemplo. O jogo em Braga, o Sporting perdeu-o, após 120 minutos muito divididos, com superioridade ora de uma, ora de outra equipa. Contra o FC Porto ganhou com clareza, tal como já tinha ganho os três clássicos da temporada frente ao Benfica. E sempre com a mesma filosofia – a da criação de desequilíbrios favoráveis. Foi essa a história do Sporting-FC Porto. Superioridade dos leões no corredor central, onde tinham William, um Adrien de movimentos amplos, João Mário a sair da direita e Ruiz a baixar do ataque contra Danilo e Ruben Neves muito fixos, aos quais só se juntava Herrera. A aposta do FC Porto era na largura, com Brahimi e Corona sempre abertos sem bola, ainda que procurassem o corredor central quando a tinham nos pés. Os dragões criavam perigo se conseguiam variar rapidamente o flanco no ataque, porque o Sporting jogava estreito e as costas do lateral do flanco oposto eram muito apetecíveis, mas raramente conseguiam tornar essa superioridade efetiva – era preciso fazer chegar lá a bola. A supremacia do Sporting fundou-se na superioridade no local onde a bola andava mais tempo: o corredor central. Chegou para ganhar o jogo com a clareza de um 2-0 ao qual se somaram mais duas bolas nos ferros. Pode não chegar para ganhar a Liga, tal como não chegou para ganhar em Braga, na Taça de Portugal. Mas nem isso fará com que a ideia não seja boa. In Diário de Notícias
2016-01-04
LER MAIS