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Artigo

Ontem de manhã, no carro, a caminho do mercado, ouvi parte da reposição de uma entrevista radiofónica [de Inês Meneses, na Radar] a Daniel Sampaio, em que o psiquiatra falava dos riscos de diabolização da internet na educação das crianças, da mesma forma como há uns anos se diabolizava a televisão. Não ouvi a entrevista até ao fim, mas como pai tenho opinião formada sobre o assunto. O que importa não é diabolizar, é ocupar. O que importa não é proibir, mas sim preencher. E o mais extraordinário é que isto é válido para a educação dos nossos filhos como é para as suspeitas de corrupção no futebol português: o que importa não é diabolizar o jogo online, não é proibi-lo ou limitá-lo à espécie de oligopólio que o explora, é compreendê-lo e regulá-lo de forma a que todos possam ganhar. Daniel Sampaio defendia uma coisa muito simples: que se fale com os adolescentes, que se reserve o tempo da família. Porque de nada serve proibir-lhes a internet e as redes sociais se depois os “abandonamos” para estarmos nós próprios… na internet. Também é assim com o jogo online, que nem é diabólico em si nem deixa de o ser para ser beato se for explorado pela Santa Casa da Misericórdia. Perante as suspeitas de viciação de resultados, que já tinham manchado jogos da II Liga e agora há quem estique até ao campeonato principal e até a jogos do topo da tabela, mais vale pensar da mesma forma: de nada serve proibir o jogo, porque ele encontrará sempre uma forma de aparecer à superfície, nem que seja clandestina; o que importa é perceber por que razão ele encontra campo fértil num campeonato que devia ser dos mais invulneráveis à viciação da Europa, por ser um dos mais fortes do continente. Estamos ou não estamos no top 10 dos campeonatos melhor posicionados no ranking? Porque, sim, as coisas estão ligadas. Quem me lê não sabe provavelmente quanto ganha em média um jogador de futebol de primeira ou, ainda pior, de segunda divisão em Portugal. Ou, mais grave, quando ganha – porque os meses para quem trabalha no futebol, além de serem dez e não 14, como na maioria dos empregados por conta de outrem, têm muitas vezes 60 ou 90 dias e tendem a atrasar-se mais à medida que as provas se aproximam do fim e os objetivos ficam mais distantes. Quem já andou pelos fóruns dedicados ao tema na internet sabe bem de onde apareciam mais resultados viciados há um par de anos. A Letónia era um maná. A segunda divisão da Geórgia um banquete. A Bulgária ou os campeonatos de reservas da Ucrânia um festim. E de repente aparece a II Liga portuguesa. E depois, pasme-se, até a primeira, que todos queríamos julgar acima de qualquer suspeita de um cancro que, acreditávamos, só atacava no terceiro mundo. A razão é muito simples e tem a ver com duas coisas. Primeiro, é evidente, desonestidade de quem compra e de quem se vende. Mas isso é da natureza humana: em todas as profissões haverá quem se venda desde que haja quem queira comprar. Jogadores, árbitros, médicos, jornalistas, caixas de banco ou de supermercado… São, felizmente, uma anomalia no sistema, porque a maioria de nós não está à venda. É, por isso, a segunda razão que importa entender: desadequação da receita real face à receita potencial. Um campeonato que gera um nível de interesse – e portanto de receita potencial – elevado, mas paga muito abaixo disso torna-se mais vulnerável à corrupção. No caso de Portugal, que é isso que me importa agora, é evidente que se reduz a permeabilidade à corrupção se se passar a premiar melhor a honestidade. Porque ninguém gosta de ganhar a perder se puder ganhar a ganhar. Tal como com os miúdos e a internet, a questão não passa por diabolizar ou proibir o jogo. Passa, isso sim, por enquadrá-lo e por permitir que as receitas que ele gera sirvam a todos e não apenas a uns quantos. Passa por uma série de medidas inteligentes não só na criação de receita – uma das fontes de receita dos clubes ingleses são as casas de apostas, por exemplo – como na sua posterior distribuição. Passa por uma reflexão que o poder político ainda não soube ou não quis fazer acerca da carga fiscal perfeitamente idiota que está a impor ao jogo online em Portugal, permitindo a criação de um “cartel” de casas autorizadas que, para serem viáveis, têm de mexer no bolso dos apostadores com odds surreais – e menos imposto sobre maior investimento seria bem melhor para todos, como já se provou por toda a Europa onde não são conhecidos casos de resultados combinados. Obrigaria os que estão praticamente sós no meio a enfrentar maior concorrência, mas seria melhor para os apostadores, para os clubes e para a administração fiscal. Por que não se faz, então? A alternativa é continuarmos a diabolizar a internet e a incentivar que os miúdos fiquem isolados no quarto, sem acesso ao mundo exterior e sem falarmos com eles – porque estamos no Facebook ou no Instagram ou no Twitter. E quando alguns deles acabarem por seguir maus caminhos, poderemos aparecer com um moralismo bacoco e dizer: “Estes tempos de hoje são terríveis”. A questão é que nós é que falhámos rotundamente na nossa missão de educadores ou reguladores.
2017-12-31
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Último Passe

Três opiniões sobre o Jogo Duplo   A operação Jogo Duplo não foi uma surpresa para mim. Não sabia que ia acontecer, como é evidente, mas suspeitava de que algumas coisas daquele género se passam em Ligas menos visíveis, como a II Liga portuguesa ou até as Ligas principais de alguns países mais recônditos. Tem tudo a ver com a necessidade de compreender o sistema  e a própria realidade, em vez de lhe fechar os olhos, como têm feito as autoridades. A esse respeito, tenho por isso três coisas a dizer. Perante a detenção de agentes e jogadores acusados de fabricar resultados, a primeira tentação será a de se dizer: “isso das apostas é um mundo podre com o qual temos de acabar”. Errado! É uma falácia achar que o problema está no jogo. O problema está no jogo desregulado. Será mil vezes mais fácil detetar irregularidades e movimentações suspeitas de dinheiro com a regulamentação e a monitorização do jogo online do que limitando o jogo a terminais físicos, como sucede neste momento em Portugal. Ao manter estas limitações, o Estado português não está a acabar com o jogo online nem com as possibilidades de corrupção: está a encaminhar os grandes jogadores para fora do país – dessa forma deixando de recolher impostos sobre os volumes apostados – através de VPN e de contas bancárias no estrangeiro. Porque com ou sem jogo online em Portugal, ele continuará a existir no estrangeiro e a abarcar jogos de equipas portuguesas. Quem me conhece melhor sabe que enquanto isso foi autorizado fiz trading em casas de apostas desportivas, como a Betfair. Nessa altura cheguei a fazer parte de um grupo de “amigos” de vários países que se entretinha a “seguir o dinheiro”. E nem imaginam como é fácil descobrir movimentações suspeitas. Como? É simples. O trading funciona com base em apostas a favor (back) e contra (lay). O jogador não joga contra a casa, mas sim contra outro jogador, que aposta contra uma posição inicial colocada a favor de um determinado evento. Através de software relativamente fácil de utilizar, como o Geek’s Toy, por exemplo, é possível ver os montantes que estão à espera de ser correspondidos, isto é, as apostas colocadas mas ainda sem ninguém do outro lado. Estes grupos de apostadores têm Ligas e equipas sinalizadas como suspeitas, tanto na Betfair como sobretudo nos mercados asiáticos. É impressionante como por vezes aconteciam entradas de volumes anormais de dinheiro num determinado acontecimento e, assim que essas verbas eram correspondidas, esse evento verificava-se. Não é um meio fácil de ganhar dinheiro, porque muitas destas apostas eram simples bluffs: haverá certamente quem faça isto para lavar dinheiro, para o mover de uns países para outros, apostando a favor de um lado e contra do outro. Mas até por isso a regulação é importante, porque permitirá às polícias saber aquilo que os grupos de curiosos não saberão – de onde vem o dinheiro e para onde ele vai. Acredito que a generalidade dos jogadores de futebol não é subornável. Mas também acredito que entre os futebolistas – como entre os jornalistas, os médicos, os arquitetos, os políticos etc. – há gente capaz de aceitar dinheiro para facilitar um acontecimento. No caso dos futebolistas o problema é suscetível de ser agravado quando as suas equipas já não têm objetivos desportivos pelos quais lutar. O que fazer para o evitar? Se não é possível acabar com as apostas no Mundo, há duas coisas a fazer. Regulá-las, primeiro. E tornar o sistema do futebol o mais invulnerável possível a este tipo de tentações. Isto para dizer que ter jogadores profissionais de futebol a ganhar menos do que o ordenado mínimo – quando o recebem, porque parte deles só recebem o primeiro mês – é vulnerabilizar o sistema. Ora se o futebol move milhões – e tanto move, que as apostas se fazem – como é possível que os clubes da II Liga portuguesa, do segundo escalão profissional nacional, de uma elite, não sejam sequer capazes de manter em dia salários de miséria? O que há a fazer é tudo o possível para trazer os milhões que o futebol move para dentro do sistema, apostando depois numa repartição mais equilibrada da receita. É regulamentar o jogo, acabar com os monopólios existentes e permitir que as casas de apostas devolvam parte do dinheiro que ganham aos agentes desportivos sob a forma de patrocínios, por exemplo, e depois ser rigoroso na inspeção das irregularidades, tanto dos jogadores que se vendem como dos clubes que não lhes pagam. É por isso que digo que os menos culpados, aqui, são os jogadores. Eles são as vítimas que se deixaram apanhar num enredo que está viciado desde o início.
2016-05-19
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