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Último Passe

Quando a Islândia ganhou à Inglaterra logo saíram da multidão uns quantos “especialistas” a dizer, com um sorriso irónico: “ah, e tal, afinal Portugal até fez um grande resultado com os islandeses”. Pois bem: isso é mentira. Portugal tem muito melhor equipa do que a Islândia e devia ter ganho à Islândia. Tal como a Inglaterra, aliás. Não ganharam, nem uns nem outros, por várias razões, quase todas relacionadas com a realidade islandesa. Porque a Islândia pode ser um país pequeno, com recursos muito limitados, desde logo no campo de recrutamento, mas tem uma grande vantagem sobre outras nações mais poderosas: sabe ao que joga. Portugal, já o escrevi aqui, não tem a certeza acerca disso. Vive dividido entre realidades, uma da mais pura megalomania, que manda que queiramos impor o nosso jogo a quem quer que seja, outra de uma pequenez irritante, que nos conduz para um jogo de submissão e cinismo. Estamos entre os dois mundos. A Inglaterra está no primeiro, mesmo que tenha uma equipa demasiado inexperiente para ter sucesso. Mesmo encerrando na sua ideia de jogo contrassensos demasiado poderosos para poder ter sucesso. Faz algum sentido, por exemplo, jogar com três avançados e um “10” à frente de Rooney, o que automaticamente, em nome do equilíbrio da equipa, afasta este também das zonas de finalização? Faz algum sentido, ainda, fazer uma arma da capacidade dos laterais Walker e Rose para correrem todo o corredor e cruzarem se depois se joga com um ponta-de-lança como Kane, que se notabiliza sobretudo pela forma como sai da área? Funciona no Tottenham? É verdade, mas o Tottenham joga na Premier League. E isto é o Europeu, onde há ideias diferentes. Como a da Islândia, por exemplo. E qual é a ideia da Islândia? A Islândia é a equipa mais coerente que está neste Europeu. Tem noção das suas debilidades e do que tem de bom. Sabe que não tem malabaristas, nem super-criativos, nem dribladores, que tem problemas até numa troca rápida de passes. Sabe também que é quase imbatível no ataque às bolas aéreas e na agressividade com que chega às segundas bolas que delas resultam. E não é preciso ser um génio de estratégia futebolística para se perceber como se deve jogar nestas condições: equipa junta atrás, duas linhas bem fechadas, bola longa para Sigthorsson e aposta na capacidade de Bodvarsson, Sigurdsson e Gunarsson para recomeçarem o processo mais à frente. Por fim, investimento total nas bolas paradas ofensivas. É minimal? Claro que sim. A Islândia nunca ganharia o prémio para a equipa com o futebol mais elaborado da competição, mas a verdade é que também nunca pensou sequer em concorrer. Aqui chegados, é preciso reconhecer que, em condições normais, isto não chegaria. Afinal de contas a Islândia jogou sempre assim e nunca tinha sequer atingido uma fase final, quanto mais uns quartos-de-final, ganhando de caminho à Áustria e à Inglaterra (e eliminando a Holanda na fase de qualificação). É aqui que entra em grande força o trabalho de base. Fartos de serem os bombos da festa, os responsáveis pelo futebol na Islândia perceberam que o maior problema que tinham, maior mesmo que as limitações no campo de recrutamento, era a incapacidade para treinar e desenvolver jogadores. Pois se em oito de cada doze meses não se consegue jogar futebol, porque os campos estão gelados, como podem aparecer jogadores? No ano 2000, a Islândia começou a construir pavilhões gigantes, com campos de futebol de relva artificial lá dentro. Até a mais pequena aldeia piscatória tem um, o que permite aos miúdos locais jogar e treinar durante todo o ano em vez de fugirem para modalidades mas de acordo com o meio-ambiente. Depois, o país investiu muito em formação: tem hoje 600 treinadores de elite, um a cada 550 habitantes. Por fim, foi só esperar. A Islândia vai provavelmente perder o jogo dos quartos-de-final com a França, mas a aventura que a trouxe até aqui já terá valido a pena, pela forma como alegrou tanta gente na ilha. E embora eles gostem de alimentar o mito de que só aqui chegaram porque são loucos, porque têm a atitude temerária dos vikings, há muito mais a justificar o que está a suceder. Trabalho e coerência, que se reflete em inteligência competitiva. Eis o segredo da Islândia.
2016-06-28
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Último Passe

Pouco Ronaldo, um meio-campo incapaz de entrar nas linhas do adversário, a incapacidade para ganhar uma bola aérea que fosse a Sigthórsson e falta de concentração e agressividade no ataque às segundas bolas levaram Portugal a uma falsa partida no Europeu de 2016. O empate com a Islândia, fruto de um golo de Nani e de outro de Birkir Bjarnason, não é grave, porque ainda há mais duas jornadas para trabalhar para a qualificação, mas veio deixar a nu algumas carências da equipa de Fernando Santos. A emendar já frente à Áustria, em Paris, num jogo que até face à derrota dos austríacos, de repente ganhou preponderância. A questão Ronaldo não é das fáceis de resolver, porque não se trata de o trocar ou de o fazer jogar noutras funções. Ronaldo não jogou mal, simplesmente não fez a diferença: não conseguiu fazer uma arrancada imparável, não fez golo nos dois cabeceamentos perigosos de que dispôs nem nos livres que marcou. Fez um jogo de esforço, de entrega, mas sem brilho, com exceção talvez do lance em que, ainda com 0-0, trabalhou em cima de Saevarsson e cruzou para um remate de cabeça de Nani que o guarda-redes Halldórsson deteve. E isso o selecionador não só tem de aceitar como por certo o aceitará até melhor que o próprio Ronaldo. Mesmo estando sempre em jogo, o capitão português não só não assinalou o dia em que igualou as 127 internacionalizações recorde de Figo com uma vitória, como viu Nani suplantá-lo na luta pelo título de melhor em campo. O autor do golo português respondeu da melhor forma à oportunidade que Fernando Santos voltou a dar-lhe face à lesão de Quaresma e foi quem mais perto esteve de ampliar a marca, pelo que dificilmente perderá o lugar frente à Áustria. Já quanto à incapacidade do meio-campo entrar nas linhas islandesas haverá certamente algo a fazer, tanto do ponto de vista tático como até da mudança de elementos. É verdade que a Islândia, até por força do futebol direto que praticava, pouco ou nada se desposicionava: no final, os portugueses tentaram 617 passes, contra 221 do adversário, o que significa que se empenhavam em combinações e jogadas de envolvimento, enquanto a Islândia se limitava a jogar direto em Sigthórsson, subindo depois como um bloco de concreto para atacar as sobras. A questão é que se a primeira bola, a que ia para o gigante número 9 do adversário, era inatingível – creio que ele terá ganho todas as bolas aéreas que disputou –, a segunda já não dependia de estatura: dependia de concentração e agressividade. E aí nem os quatro defesas de Portugal, nem Danilo – que Santos preferiu a William Carvalho, por dar mais capacidade no jogo aéreo e combatividade no ataque às segundas bolas – souberam impor-se aos islandeses. Mesmo tendo feito uma primeira parte de nível médio-alto, Portugal nunca contou com todos os jogadores ao mesmo nível. O melhor período da equipa começou logo a seguir a uma primeira desatenção defensiva, aos 3’: Vieirinha estava projetado no ataque, Pepe foi disputar uma bola perto da linha lateral na zona de meio-campo sem a ganhar, o mesmo aconteceu a Danilo face a Gudmundsson já perto do bico da área, tendo que ser Rui Patrício a impedir que a Islândia fizesse logo ali um golo. A partir daí, porém, mesmo sem ter os dois laterais em noite-sim Portugal assentou o seu jogo. É verdade que Moutinho, não conseguia ganhar as costas a Gunnarsson e Sigurdsson, os dois médios-centro islandeses, e que João Mário, demasiado aberto na esquerda, também não era capaz de ganhar aquele espaço interior, mas os lances mais perigosos passaram a surgir na baliza islandesa. Nani, de cabeça, após o tal trabalho individual de Ronaldo, viu Haldorsson tirar-lhe o golo aos 21’; Ronaldo, também de cabeça, falhou o alvo aos 23’ e não acertou sequer na bola aos 26’, quando Pepe viu a aberta e o isolou face ao guarda-redes num passe longo. E quando Nani marcou, aos 31’, na sequência de uma boa combinação entre Vieirinha e André Gomes na direita, o problema parecia resolvido. Mas não. O intervalo voltou a trazer a desconcentração à defesa portuguesa e, logo aos 50’, duas divididas seguidas perdidas pelos portugueses na direita do ataque islandês resultaram num cruzamento de Gudmundsson. O desentendimento entre Pepe – que seguiu Sigthorson – e Vieirinha, que estava demasiado dentro e não intercetou a bola, resultou num volei de Bjarnasson para dentro da baliza de Patrício. João Mário começava a entrar no jogo e a ativar as subidas de Raphael Guerreiro, mas apesar de voltar a ter quase sempre a bola, Portugal não conseguia criar tantos lances de perigo como na primeira parte. Só aos 63’, quando Vieirinha ganhou a linha de fundo e cruzou rasteiro, Nani esteve perto de marcar, não chegando a conseguir antecipar-se a Ragnar Sigurdsson no ataque à bola. Oito minutos depois, já com Renato Sanches em campo, na tentativa de ocupar o tal espaço entre as linhas defensivas islandesas, foi outra vez Nani quem, desviando de cabeça um livre, fez a bola passar a centímetros do poste. À procura do golo, Santos chamou então Quaresma para ocupar o lugar de João Mário. Até final ainda substituiu André Gomes por Éder, colocando a equipa num 4x2x4, com Ronaldo e Éder ao meio, servidos por Nani e Quaresma nas alas. Mas nem assim, nem com a Islândia a abdicar até de jogar no ponta-de-lança, Portugal chegou ao golo. Quaresma (aos 78’), Pepe (após um canto, aos 82’) e Ronaldo (na sequência de um cruzamento de Nani, aos 85’) ainda ameaçaram, mas o empate já não se desfez, punindo o jogo menos conseguido do meio-campo português e algumas apostas perdidas: Danilo nunca impediu a construção direta da Islândia e pode ceder a vaga a William, que faz a equipa jogar mais; Moutinho e João Mário apareceram pouco entre as linhas islandesas e também não têm o lugar assegurado. Certo é que se Fernando Santos optar por chamar Quaresma à partida de Paris, o sacrificado não será certamente Nani, o melhor dos portugueses em Saint-Etiènne.  
2016-06-14
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A já proverbial sorte de Fernando Santos voltou a atacar no sorteio da fase final do Europeu de 2016, no qual a Portugal calhou o grupo mais acessível com que seria possível sonhar. É verdade que nas fases finais os portugueses até costumam dar-se melhor com os chamados “grupos da morte” do que com adversários fáceis, mas ter Islândia, Hungria e Áustria no caminho para os oitavos-de-final e ainda por cima com a noção de que até o terceiro classificado pode apurar-se não era admissível nem de encomenda. O pior mesmo pode vir depois, porque o vencedor do Grupo F apanhará logo com o segundo classificado do Grupo E, onde estão Bélgica e Itália. A Áustria não é uma equipa fácil, é verdade. Não perdeu nenhum jogo na fase de qualificação, tendo ganho o Grupo G com nove vitórias e um empate apenas. Não perde um jogo competitivo desde Outubro de 2013, quando foi batida pela Suécia por 3-1, na qualificação para o Mundial do Brasil. Tem uma série de jogadores batidos na Bundesliga, construiu uma seleção competitiva em cima da geração semi-finalista do Mundial de sub20 em 2007, mas só esteve numa fase final neste século: a do Europeu de 2008, e na qualidade de país organizador. Compará-la com outras seleções que estavam no Pote 2, como a Itália ou até a Rússia, a Ucrânia ou a Croácia, permite perceber como Portugal teve sorte. Também a Hungria regressa a uma fase final depois de décadas de ausência. Apurou-se ganhando os dois jogos do play-off à Noruega, mas era claramente a equipa mais fraca do Pote 3, muitos furoa abaixo da Rep. Checa, da Suécia ou da Polónia, por exemplo. Quanto à Islândia, um dos estreantes em fases finais, é verdade que ganhou à Holanda na qualificação, onde também ficou à frente da Turquia, e que está a crescer a olhos vistos no futebol europeu, muito graças ao investimento da federação em infra-estruturas que permitem às crianças jogar futebol durante todo o ano, mas além de já ter ficado esfusiante por entrar na fase final (perdeu os três jogos feitos desde que se qualificou), continua a ser uma seleção de terceira linha do futebol continental. Conhece Finnbogasson, suplente do Olympiakos? E Sigurdsson, do Swansea? Ou Sigborsson, do Nantes, e Bjarnason, do Basel? E Priskin, avançado do Slovan Bratislava? Ou Nikolic, do Legia Varsóvia? Ou Lovrencsics, do Lech Poznan, e Nemeth, do Kansas City? Aproveite o Europeu, porque o mais provável é que, a não ser que a seleção nacional borre seriamente a pintura, não volte a ouvir falar muito deles.
2015-12-12
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Último Passe

Quando começou a qualificação para o Europeu de 2016, fiquei logo com a ideia de que, à conta do alargamento para 24 participantes, entrava toda a gente: os que tinham cartão, garrafa e até os que só conheciam o porteiro de forma fugaz. A derrota da Holanda frente à Islândia em Amesterdão (0-1) veio abalar esta convicção. É que os holandeses vão ainda ter de suar bastante a camisola para chegarem ao play-off (a Turquia está a um ponto e recebe a Holanda em Istambul). Mas em contrapartida a Islândia está quase lá (faltam-lhe só dois pontos e pode consegui-los já no domingo, em Reiquejavique com o Cazaquistão). O apuramento islandês enquadra-se na imagem da porta da discoteca na qual passam até os clientes menos frequentes. Mas seria um erro olhar para este milagre como se olha para um bambúrrio de sorte. Aquilo que se passa neste momento no futebol da Islândia tem uma explicação clara: a formação. Porque investir no futebol de formação não é procurar ganhar campeonatos de juniores e juvenis a todo o custo nem somar milhões em transferências de jovens craques em direção a mercados ricos. Investir na formação é fazer aquilo que começou a ser feito na Islândia no início deste século: é criar condições para que os miúdos evoluam.  Quando na Islândia se começaram a construir relvados sintéticos cobertos para que as crianças pudessem jogar futebol durante o longuíssimo inverno do Atlântico Norte; quando por lá se apostou mais na formação de jovens treinadores, não se esperava que os resultados aparecessem no dia, nem no mês ou no ano seguintes. Aquilo que se viu foi uma geração aumentar o à-vontade no trato da bola, a ponto de, década e meia depois, com Lars Lagerback aos comandos, ter ficado à porta do Mundial 2014 (eliminada no play-off pela Croácia) e estar com pé e meio na fase final do Europeu de 2016.
2015-09-03
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