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Último Passe

Uma exibição decisiva de Ronaldo, que tal como há quatro anos apareceu no Campeonato da Europa à terceira jornada, chegou a Portugal para empatar a três bolas com a Hungria e apurar-se para os oitavos-de-final do Euro’2016, onde a seleção nacional vai defrontar a Croácia. Autor de dois golos de grande execução e de uma assistência para o primeiro dos três tentos portugueses, marcado por Nani, Ronaldo fez a diferença numa tarde em que os portugueses puderam ainda ver os efeitos da sociedade entre João Mário e Renato Sanches a carrilar jogo para o meio-campo adversário, mas na qual a Fernando Santos terá sobrado uma dúvida: como poderá ter os dois miúdos ao mesmo tempo e não sofrer defensivamente? Na resolução desse dilema estará a chave de um Europeu no qual Portugal ainda não convenceu ninguém, mas onde teve a felicidade de calhar na metade certa do quadro, assegurando que só defrontará Espanha, Itália, Alemanha, França ou Inglaterra se chegar à final. Pode parecer uma loucura estar a falar de final quando a seleção nacional teve de sofrer até para ser terceira classificada num grupo que apurou diretamente a Hungria e a Islândia. Ou quando ainda não ganhou uma única das três partidas que fez. No último dia do Grupo F, porém, o jogo foi mesmo de loucos. Mesmo antecipadamente apurada, a Hungria só desistiu de tentar ganhar nos últimos 20 minutos, quando se centrou mais na vontade de acabar o grupo como primeira classificada e fugir também aos favoritos. A precisar de ganhar para ser primeiro, mas sabendo que o empate lhe dava sempre a qualificação, Portugal também só resolveu meter o jogo no bolso nos últimos dez minutos, quando Fernando Santos substituiu Nani por Danilo, na tentativa de evitar uma surpresa desagradável. É que um quatro golo da Hungria mandava a equipa nacional para casa e, além de os dois golos que os húngaros fizeram na segunda parte já terem saído de livres com desvio na barreira, Rui Patrício ainda viu uma bola tabelar-lhe no poste direito que bem podia ter forçado a equipa a recuperar por uma quarta vez. É que a história do jogo mostrou sempre a Hungria na frente e Portugal a ter de recuperar e depois a ver o seu ímpeto destruído por mais um golo húngaro. Enquanto Bernd Storck resolveu poupar os titulares que já tinham visto um cartão amarelo, assegurando dessa forma que os teria no jogo dos oitavos-de-final, Fernando Santos entrou perto daquela que tem sido para ele a equipa de gala. A exceção era a ausência de Raphael Guerreiro, que, lesionado, dava o lugar a Eliseu. André Gomes mantinha a vaga na esquerda de um meio-campo que, com a reentrada de João Mário para o lugar que tinha sido de Quaresma no jogo com a Áustria, regressava aos quatro elementos, enviando a equipa para o 4x4x2. O problema é que André Gomes pareceu limitado e nunca produziu tanto como nos primeiros jogos e William também baixou a sua influência, condenando Portugal a um jogo atacante mais lento – a isso não terá sido estranho o intenso calor de Lyon – e previsível. Daí que, apesar do domínio territorial português, não aparecessem ocasiões de golo na baliza de Kiraly. Portugal quase se limitava a rondar a área, a ganhar cantos e a chutar de fora da área. E foi a Hungria quem marcou primeiro, aos 19’, por Gera, na sequência de um canto de Dzsudzsak: Ronaldo cortou no ar, Nani completou o alívio para a entrada da área portuguesa, onde o médio húngaro apareceu a chutar sem hipóteses para Rui Patrício. O golo húngaro afetou a produtividade da equipa portuguesa, que levou uns minutos a reentrar no jogo. A reação começou num livre de Ronaldo, que Kiraly teve de se esforçar para desviar para canto, aos 29’, mas só teve continuidade já bem perto do intervalo, quando o mesmo Ronaldo solicitou uma diagonal de Nani e este bateu Kiraly com um remate seco para o ângulo mais próximo. Com 45 minutos por jogar, Fernando Santos decidiu assumir o risco de ir à procura da vitória que garantisse o primeiro lugar do grupo e trocou Moutinho por Renato Sanches, mas antes que a alteração pudesse ter efeito, a Hungria voltou a marcar. Dzsudzsak bateu um livre perto da área, a bola desviou em André Gomes e traiu Rui Patrício, deixando Portugal outra vez fora dos oitavos-de-final. A reação portuguesa, desta vez, foi mais rápida. Três minutos depois, aos 50’, João Mário arrancou pela direita e cruzou para o ataque de Ronaldo à bola. Lang acompanhou bem o capitão português e ter-lhe-ia blocado o remate não tivesse Ronaldo inventado uma solução genial: deixou a bola passar e deu-lhe com o calcanhar do pé direito, deixando Kiraly colado ao solo. A espetacularidade do golo, somada à forma como João Mário e Renato Sanches combinavam na direita, parecia poder carregar a seleção para a vitória. Só que, cinco minutos depois, deu-se mais um episódio da Lei de Murphy: Dzsudzsak voltou a ter um livre, desta vez chutou contra a barreira, mas recuperou o ressalto e deu-lhe com alma, fazendo a bola resvalar em Ricardo Carvalho e trair o desamparado Rui Patrício. O 3-2 anulava o efeito do golo de Ronaldo e da substituição e deixava Portugal outra vez a precisar de recuperar. Fernando Santos chamou então Quaresma, para o lugar do fatigado André Gomes e, com o segundo toque na bola – o primeiro tinha sido para marcar o canto – Quaresma cruzou para o bis de Ronaldo, desta vez de cabeça. Faltava meia-hora para o final da partida e Portugal lançou-se à procura da vitória. A ocasião mais flagrante de golo, porém, pertenceu à Hungria, quando Elek se isolou pela esquerda e chutou violentamente contra o poste da baliza de Rui Patrício. Se antes tivera azar na forma como sofreu os dois golos, desta vez a equipa nacional foi sortuda por não ter de procurar a recuperação por uma quarta vez. A jogar em 4x3x3, com Renato Sanches e João Mário à frente de William, e com Quaresma e Nani a ladear Ronaldo na frente, Portugal apresentava o seu onze mais ofensivo imaginável. O empate no outro jogo mandava os portugueses para o segundo lugar e a metade errada do quadro do sorteio e por isso a equipa ainda procurava o quarto golo. Ronaldo esteve por duas vezes perto do hat-trick, mas o que se via também era alguma tremedeira sempre que a Hungria subia até ao ataque. Por isso, mesmo já com os húngaros a jogar com uma linha de cinco atrás, Fernando Santos resolveu tapar o jogo à frente da sua área e substituir Nani por Danilo a nove minutos do fim. O jogo acabou com os húngaros a recusarem sair para o meio-campo adversário e com a notícia do golo islandês na outra partida, a chutar Portugal do segundo para o terceiro lugar e para a metade mais desejada do quadro. Fernando Santos terá gostado do envolvimento atacante que a equipa conseguiu na segunda parte, com a associação de João Mário a Renato Sanches, mas não pode ter ficado satisfeito com os buracos que a equipa abriu a defender. A solução para o jogo com a Croácia terá de ser outra, provavelmente com Renato e João Mário nas alas, sacrificando André Gomes, e João Moutinho ou até Adrien à frente de William (caso o selecionador desista de recuperar Moutinho, como a substituição ao intervalo pode fazer prenunciar). Dúvidas haverá também acerca da condição de Ricardo Carvalho para um jogo que terá lugar já daqui a três dias – ele que já pareceu menos seguro hoje – como na lateral-esquerda, onde Eliseu não fez esquecer Raphael Guerreiro. O tempo para pensar e recuperar não é muito, mas uma coisa é certa: a Croácia é forte e será preciso muito mais Portugal do que o que se viu na primeira fase para seguir em frente.
2016-06-23
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O complicado esquema que desenha o calendário deste Europeu leva ao calculismo. Se procuram as razões para os jogos estarem a ser tão pouco espetaculares, aí a têm: fazem-se muitas contas. Hoje, por exemplo. Quando entrar em campo, a Hungria já está qualificada. Portugal sabe que lhe basta empatar a zero. Mais. Portugal sabe que se empatar a zero tem a certeza de se qualificar em terceiro lugar e calhar na metade mais favorável do quadro daqui para a frente, com a Croácia nos oitavos-de-final, o vencedor do Suíça-Polónia nos quartos e Gales, a Hungria, a Bélgica (em princípio, ainda que também possa ser a Suécia) ou um dos terceiros classificados da primeira fase nas meias-finais. Se ganhar, em contrapartida, corre o risco de a Islândia também ganhar e acabar o Grupo F em segundo lugar, entrando na metade do quadro que tem a Itália, a França, a Alemanha e a Espanha. Perante isto, a tentação de fazer contas deve ser grande, mas francamente preferia que Portugal entrasse no jogo para ganhar. Ainda assim, percebo que haja quem pense de outra forma. Recordo as histórias que se contam acerca do Mundial de 1986. Na altura os Mundiais também se jogavam com 24 equipas e apuravam os quatro melhores terceiros classificados para os oitavos-de-final (um sistema que já se provou ser prejudicial para a qualidade dos jogos). À entrada para a última jornada, um empate qualificava Portugal e Marrocos e, diz-se, da comitiva marroquina, cujo treinador era brasileiro, tinha chegado uma mensagem a apelar ao empate e não se falava mais disso. José Torres, conta-se, terá feito o que tinha de fazer e disse que não senhores, que Portugal ia entrar para ganhar. No fim, a seleção perdeu por 3-1 e voltou a casa imediatamente. Pessoalmente, entre histórias tristes, prefiro recordar outra. Em 2002, Portugal jogava com a Coreia do Sul em Incheon e, face aos dois golos que a Polónia fez nos primeiros cinco minutos aos Estados Unidos, ficou desde logo mais ou menos claro que o empate qualificava as duas equipas, mas os coreanos nunca desistiram de procurar uma vitória que satisfizesse o seu público. Acabaram por conseguir o golo que eliminou Portugal a 20 minutos do fim, por Park-Ji Sung, já com os portugueses reduzidos a nove jogadores. Claro que todas estas conjeturas vêm reforçar a tentação de fazer contas à medida que se retira a carga dramática de que um jogo deste cariz deveria estar revestido. A saber que precisa apenas de empatar, o que deve fazer Fernando Santos? Um onze mais recatado, com regresso ao 4x4x2 e sacrifício de uma das unidades da frente? Isso, creio, sucederia fosse qual fosse a história deste jogo. Um onze sem os jogadores que já viram o cartão amarelo no jogo com a Áustria – Quaresma e Pepe – de forma a garantir que estarão aptos para os oitavos-de-final? Tenho mais dúvidas, porque creio que Quaresma sairia do onze de qualquer modo e é difícil à seleção abdicar de Pepe, o mais reputado dos seus defesas-centrais? Um onze no qual não se arrisca a utilização dos jogadores que sofrem de mazelas físicas – Raphael Guerreiro e André Gomes – de forma a não correr riscos de as agravarem? Julgo que sim, que se aplicará o mesmo princípio que já foi válido com Quaresma na partida inaugural. De qualquer modo, a composição do onze depende muito do que Fernando Santos quiser do jogo. E isso, repito, não é claro.
2016-06-22
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Os resultados do Grupo C levaram à classificação da Irlanda do Norte em terceiro lugar, atrás de Alemanha e Polónia, com três pontos e uma diferença de golos neutra (2-2). Neste momento, além de alemães e polacos, porém, mais duas equipas puderam desde já festejar a qualificação para os oitavos de final: a Eslováquia, terceira do Grupo B, com quatro pontos, e a Hungria, que amanhã vai defrontar Portugal e que, mesmo perdendo, sabe que nunca será pior do que terceira colocada do Grupo F. Ora isso, aliado aos quatro pontos que já tem, garante-lhe um lugar nos 16 melhores deste Europeu. Os húngaros não quererão perder o jogo, porque se perderem e a Islândia ganhar à Áustria serão mesmo terceiros e ainda há o risco de terem de enfrentar a Espanha – se esta ganhar mesmo o seu grupo, daqui a pouco – já nos oitavos-de-final. Ora esse raciocínio também vale para Portugal, que se empatar marcando pelo menos um golo e não vir mais do que um cartão amarelo no jogo com os húngaros também garante a qualificação: seria sempre terceiro, na pior das hipóteses com o mesmo 2-2 em golos que têm os irlandeses e veria o fair-play desempatar a seu favor. Só que se Portugal passar em terceiro lugar corre mesmo o risco de ter de enfrentar a Espanha já no sábado em Lens. Em contrapartida já se sabe que se torna impossível que venha a ter de enfrentar a Alemanha no domingo em Lille. Isso só aconteceria em cenários nos quais o terceiro do Grupo A (Albânia, com três pontos e diferença de golos negativa) se qualificasse, não estando o terceiro do Grupo B (Eslováquia, com quatro pontos) ou o terceiro do Grupo C (Irlanda do Norte, com três pontos e diferença de golos neutra). É que a UEFA desenhou um esquema complicado para assegurar que as equipas não defrontam adversários do mesmo grupo antes das meias-finais e, ainda que só mesmo quando se souber quem são os quatro melhores terceiros classificados se possa definir os emparelhamentos finais, há hipóteses que já estão afastadas. Assim, se Portugal empatar mesmo e acabar em terceiro do grupo (até pode empatar e ser segundo, se o fizer com mais um golo do que os registados no Áustria-Islândia), já sabe que jogará com o vencedor do Grupo D (Espanha ou Croácia, neste momento), no sábado. Para isso acontecer, os melhores terceiros teriam de ser os dos grupos C, A, B e F; B, C, D e F; B, C, E e F e B, D, E e F. Outras três hipóteses já são impossíveis de realizar. Daqui a umas horas, assim que se souber quantos pontos fará o terceiro do Grupo D se verá se esta hipótese continua em cima da mesa.
2016-06-21
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A já proverbial sorte de Fernando Santos voltou a atacar no sorteio da fase final do Europeu de 2016, no qual a Portugal calhou o grupo mais acessível com que seria possível sonhar. É verdade que nas fases finais os portugueses até costumam dar-se melhor com os chamados “grupos da morte” do que com adversários fáceis, mas ter Islândia, Hungria e Áustria no caminho para os oitavos-de-final e ainda por cima com a noção de que até o terceiro classificado pode apurar-se não era admissível nem de encomenda. O pior mesmo pode vir depois, porque o vencedor do Grupo F apanhará logo com o segundo classificado do Grupo E, onde estão Bélgica e Itália. A Áustria não é uma equipa fácil, é verdade. Não perdeu nenhum jogo na fase de qualificação, tendo ganho o Grupo G com nove vitórias e um empate apenas. Não perde um jogo competitivo desde Outubro de 2013, quando foi batida pela Suécia por 3-1, na qualificação para o Mundial do Brasil. Tem uma série de jogadores batidos na Bundesliga, construiu uma seleção competitiva em cima da geração semi-finalista do Mundial de sub20 em 2007, mas só esteve numa fase final neste século: a do Europeu de 2008, e na qualidade de país organizador. Compará-la com outras seleções que estavam no Pote 2, como a Itália ou até a Rússia, a Ucrânia ou a Croácia, permite perceber como Portugal teve sorte. Também a Hungria regressa a uma fase final depois de décadas de ausência. Apurou-se ganhando os dois jogos do play-off à Noruega, mas era claramente a equipa mais fraca do Pote 3, muitos furoa abaixo da Rep. Checa, da Suécia ou da Polónia, por exemplo. Quanto à Islândia, um dos estreantes em fases finais, é verdade que ganhou à Holanda na qualificação, onde também ficou à frente da Turquia, e que está a crescer a olhos vistos no futebol europeu, muito graças ao investimento da federação em infra-estruturas que permitem às crianças jogar futebol durante todo o ano, mas além de já ter ficado esfusiante por entrar na fase final (perdeu os três jogos feitos desde que se qualificou), continua a ser uma seleção de terceira linha do futebol continental. Conhece Finnbogasson, suplente do Olympiakos? E Sigurdsson, do Swansea? Ou Sigborsson, do Nantes, e Bjarnason, do Basel? E Priskin, avançado do Slovan Bratislava? Ou Nikolic, do Legia Varsóvia? Ou Lovrencsics, do Lech Poznan, e Nemeth, do Kansas City? Aproveite o Europeu, porque o mais provável é que, a não ser que a seleção nacional borre seriamente a pintura, não volte a ouvir falar muito deles.
2015-12-12
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