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Último Passe

  Há um ano, a explosão no autocarro do Borussia Dortmund, no seguimento do qual o espanhol Bartra ficou ferido, veio a revelar-se obra de um especulador financeiro, que só queria mesmo era ganhar dinheiro no mercado de capitais. Não foram terroristas. Ontem, apesar dos cuidados da polícia, foi a vez de o autocarro do Manchester City ser selvaticamente atacado à chegada a Anfield Road. E a culpa também não foi dos terroristas – a não ser que no mundo de hoje os terroristas sejamos todos nós. Foi em Inglaterra que o hooliganismo primeiro ganhou raízes. E muito por causa disso também, foi igualmente em Inglaterra que começaram a surgir as medidas para o combater. E não falo só do esquema de cartões de identidade imposto pelo governo de Margaret Thatcher ou do plano de remodelação dos estádios: muitos dos que estiveram na Assembleia da República a “combater” a violência no desporto sonhariam ter em Portugal um ambiente tão assético como o que existe no futebol inglês, onde as multas por “causar má reputação ao futebol” são verdadeiramente bíblicas. Portanto, se alguns adeptos do Liverpool FC fizeram uma espera ao autocarro do Manchester City e o inutilizaram à pedrada e com tochas, a culpa não foi certamente dos comentadores, sejam eles neutros ou engajados, dos presidentes, dos treinadores ou até dos diretores de comunicação – que em Inglaterra são isso mesmo e não diretores de propaganda. De vez em quando, incidentes como este servem para acordar o mundo do desporto para uma realidade que não é legislável. Nenhum parlamento pode legislar acerca da quantidade de ódio que um adepto pode ter pelo clube rival – e escusam de vir com falinhas mansas dizer que o que é saudável é que não se odeie o rival, porque todos sabemos como funciona a espécie humana, sobretudo quando organizada em turbas. Em Portugal, podemos até legislar, proibir, regular, mas continuo convencido que a única fórmula capaz de funcionar é a da propaganda positiva, a da ocupação do espaço mediático com conteúdos capazes de acordar o gosto pelo futebol que há – tem de haver – no adepto comum. Por cada insinuação maldosa, um momento de catarse com uma bicicleta como a de Ronaldo. E não se iludam, que esta não é uma batalha para ser ganha. É uma batalha para ser travada, porém. Vencê-la é um desígnio geracional que não creio seja passível de ser alcançado nos anos mais próximos. Porque a realidade é que tudo no Mundo puxa pelo terrorista que há em cada um de nós. E nem todos temos a justificação – pelo menos esse tinha um plano… – de Serguei, o tal especulador que ia ganhar quatro milhões de euros com a explosão do autocarro do Borussia Dortmund. A maioria fá-lo de borla. Só pelo ódio.
2018-04-05
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Último Passe

A UEFA fez a única coisa que podia fazer ao manter o Europeu de 2016 em França. E era a única coisa que podia fazer por várias razões. Porque não pode ceder ao medo instigado pelos terroristas – isso, sim, significaria a derrota total. Porque mesmo que quisesse ceder não poderia encontrar um ambiente seguro capaz de substituir os estádios e as cidades que até já estão a preparar-se para receber equipas e adeptos. E porque se há coisa em que o futebol está muito à frente de tudo nesta sociedade é na segurança. Os atentados de sexta-feira mostraram a quem quis ver que se houve local onde os terroristas não entraram foi no Stade de France, onde jogavam as seleções de França e Alemanha. É claro que, mesmo deixando toda a gente mais tranquila no que diz respeito ao sorteio de dia 12, em Paris, ou aos estádios do Europeu, no final da época, essa sensação de segurança deixa ainda tudo muito em suspenso acerca das concentrações de adeptos nas ruas ou nos cafés, muito mais difíceis – ou até impossíveis – de controlar. Mas, ainda que um hooligan não represente o mesmo nível de ameaça de um terrorista do Estado Islâmico, os mais de 30 anos de experiência no combate aos arruaceiros que se alimentam das concentrações do futebol serviu às polícias europeias para construir redes eficazes de deteção e desenvolver estratégias de combate no terreno. Ninguém pode garantir que o próximo Europeu de futebol seja livre de incidentes. Mas o que já começou a passar-se hoje em Paris, com relatos de aumento exponencial do controlo à entrada de todos os espaços públicos, provocando mesmo a revolta de alguns cidadãos menos dados, menos suscetíveis de se submeterem ao controlo policial, é um sinal do que aí vem. Exagerando um pouco, é quase caso para se dizer que poderemos começar a reler Orwell e encarar o 1984 como um manual de boas práticas. O futebol, nesse aspeto, já está na vanguarda há muito.
2015-11-16
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