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Último Passe

Quando Fernando Santos dizia que só voltava a casa no dia 11 de Julho, depois da final do Europeu, estava a falar a sério. Portugal assegurou a qualificação para o jogo onde vai decidir-se a prova ao bater com inteira justiça o País de Gales por 2-0, com golos de Ronaldo e Nani, a coroar um jogo que só não foi defensivamente perfeito porque a equipa abanou durante uns dez minutos da primeira parte. Mas desta vez nem os que só conseguem ver tacanhez na equipa terão grande margem de manobra, uma vez que Portugal foi claramente a melhor equipa em campo, até do ponto de vista atacante, tendo desperdiçado pelo menos cinco ocasiões claras para construir um resultado mais amplo. É verdade que o foco da equipa continuou a ser não deixar jogar o adversário. Que Fernando Santos construi o seu onze com a ideia firme de anular as principais armas de quem lhe surge pela frente. E, depois de o ter conseguido contra a Croácia, voltou a ser bem sucedido frente a Gales. O 4x4x2 de Fernando Santos, com recusa de pressionar a primeira fase de construção de Gales, tinha como maiores objetivos a anulação de Joe Allen por Adrien Silva, o médio-centro português, e o fecho das linhas de passe dos dois laterais galeses, Gunter e Taylor, através da colocação estratégica de Renato Sanches e João Mário entre eles e os jogadores dos quais mais dependia a criação, que eram Bale e King. Ora, com exceção de oito minutos da primeira parte (entre os 18’ e os 26’), nos quais os dois interiores portugueses perderam um pouco o posicionamento e Gales fez os seus três remates dos primeiros 45’, o plano resultou em pleno. O problema é que Portugal também não conseguia construir: eram raros os momentos de combinação entre os interiores e os seus laterais e os passes longos para Ronaldo esbarravam numa noite inesperadamente perfeita de Collins, que impedia a bola de lá chegar. A primeira parte foi, por isso, demasiado morna e na verdade teve apenas uma situação de perigo verdadeiro: foi quando, aos 44’, Adrien Silva se desamarrou e foi à esquerda para cruzar para um cabeceamento de Ronaldo, em boa posição, sobre a barra. O jogo precisava de um golo para mudar e foi Portugal quem o fez. Já Quaresma, Moutinho e André Gomes aqueciam para dar mais chispa no meio-campo e no ataque quando, ao terceiro canto português, João Mário bateu pela primeira vez curto, para Raphael Guerreiro. O lateral cruzou de forma perfeita e Ronaldo aproveitou o atraso da chegada da bola à zona de definição para se superiorizar à defesa galesa e cabecear para o 1-0. O jogo ia mudar, mas antes que Gales pudesse reagir, os portugueses fizeram o 2-0, após um bom movimento ofensivo, coroado com um remate de fora da área de Ronaldo. A bola parecia ir fraca e em direção às mãos de Hennessey, mas Nani apercebeu-se disso e desviou-a do alcance do guarda-redes galês, fazendo o 2-0. Havia 37 minutos por jogar, mas a urgência de Gales poderia abrir caminho ao ampliar da vantagem. Coleman meteu risco no jogo. Primeiro, trocou o médio mais defensivo, Ledley, por um segundo ponta-de-lança, Vokes, que foi jogar para perto de Robson-Kanu, transformando o sistema num 3x4x1x2, com Bale atrás dos dois avançados. A ideia manteve-se após a troca de Robson-Kanu por Church e acentuou-se a 25 minutos do final, quando Collins deu o lugar a Jonathan Williams. Aí, Gales passou a um 4x4x2, com Allen e Bale a pegarem no jogo alternadamente, Vokes e Church na frente e King e Williams nas alas. Santos, porém, não mudou a estrutura e limitou-se a refrescá-la: Renato Sanches cedeu a vaga a André Gomes, mais contido; Adrien foi trocado por Moutinho, que manteve a posição ao meio; e Nani abriu caminho à entrada de Quaresma. Portugal resistiu sempre a fazer entrar um terceiro central ou até a baixar Danilo no campo e continuou a ter as melhores situações para marcar. Primeiro, num contra-ataque aos 65’, no qual Nani forçou Hennessey a uma defesa incompleta e João Mário recargou de primeira rasar o poste, já com o guarda-redes caído. Depois, aos 70’, quando José Fonte cabeceou um canto de João Mário para nova defesa do guardião galês. Renato Sanches ainda perdeu esse mesmo 3-0 num contra-ataque em que Portugal teve superioridade numérica, mas no qual optou por chutar de fora da área (aos 73’, imediatamente antes de sair). Danilo, aos 78’ podia também ter ampliado a margem, quando aproveitou uma situação de pressão para se isolar na cara do guardião galês e o viu deter-lhe o remate à segunda, já em cima da linha de golo. E por fim Ronaldo, isolado por André Gomes na meia-direita, viu a receção prejudicar-lhe a finalização, que saiu à rede lateral (aos 86’). Nessa altura, porém, já os portugueses viam St. Denis ao longe. Gales caía muito no jogo direto para os pontas-de-lança, ganhando algumas bolas aéreas mas perdendo outras, e só se tornava perigoso quando Bale conseguia espaço. Dois remates de longe da estrela galesa (aos 77’ e aos 80’), ambos defendidos por Rui Patrício, representaram o último estertor de uma equipa que saiu deste Europeu merecidamente aplaudida de pé pelos adeptos mas que não chegou para contrariar a superioridade técnica, tática e sobretudo estratégica de Portugal.
2016-07-06
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Último Passe

A Inglaterra melhorou muito da vitória no particular contra Portugal para o empate com a Rússia, mas continua a sofrer de um problema: tem um treinador que acha que a sua missão não passa por intervir no jogo. A passividade de Roy Hodgson no jogo com os portugueses, no qual nunca reagiu ao facto de o adversário ter ficado reduzido a dez homens, repetiu-se na partida contra os russos, em que primeiro abusou da paciência dos adeptos, não mexendo uma palha até Dier desbloquear o resultado num livre, e depois se recusou a compreender que o jogo tinha mudado. A Rússia, que foi a maior desilusão dos primeiros dois dias de competição – nunca meteu a cabeça de fora até estar a perder – subiu as linhas, deixou mais espaço atrás, mas a resposta de Hodgson foi substituir dois jogadores que até faziam sentido naquele momento. Rooney saberia como aproveitar o maior distanciamento dos setores russos, enquanto Sterling podia explorar o adiantamento de uma última linha genericamente lenta, mas em vez deles apareceram Wilshere e Milner, homens que só são melhores do ponto de vista defensivo. É verdade que o golo de Berezutski caiu literalmente do céu aos trambolhões, já em período de compensação, mas a ideia que ficou foi a de que com mais treinador a Inglaterra teria ganho tranquilamente.   O 9 visto como manobra de diversão. Grande parte do empate entre ingleses e russos explica-se, no entanto, pela incapacidade dos atacantes ingleses para usarem aquilo que antigamente era uma das armas tradicionais dos futebolistas britânicos: a objetividade que os levava a meter a bola na baliza. Porque, na verdade, Hodgson montou bem a equipa inicial, trocando o 4x4x2 por um 4x3x3 servido por laterais muito ofensivos (Walker e Rose) e que por isso mesmo permitia a entrada de Lallana e Sterling no espaço interior, criando a confusão entre os centrais e os laterais russos. O 9 era Kane e na verdade nem foi ele quem perdeu mais lances de finalização, o que confirma a teoria segundo a qual, depois de terem desaparecido os 10 puros, agora são os 9 que estão a desaparecer. A França usou Giroud, é verdade, mas só porque perdeu Benzema, um jogador que corre toda a frente de ataque e que no Real Madrid justifica a sua utilidade pela forma como sai tão bem da frente de Ronaldo. E se, mesmo tendo talentos como Stanciu ou Hamsik para os servir, tanto a Roménia (Andone) como a Eslováquia (Duris) escolheram os homens de referência pela forma como eles sabem converter-se no primeiro defesa em momento de perda de bola, Gales entrou em campo com a solução portuguesa: três homens móveis, todos com mais caraterísticas de médio que de avançado. A Rússia chamou um avançado à antiga (Dziuba), mas não soube nunca levar o jogo até ele. Este pode vir a ser o Europeu do ponta-de-lança como manobra de diversão.   O que vale (e exige) o 3x4x3 de Gales. A proposta tática de Gales é diferente e bem mais exigente do que a mostrada pela maioria das equipas presentes neste Europeu. Chris Coleman escolheu entrar com três defesas-centrais e três homens soltos na frente, deixando o meio-jogo a uma linha formada por dois laterais a quem cabe fazer todo o corredor e por dois médios: Edwards tenta equilibrar sem bola, Joe Allen fá-lo em posse. No papel, a coisa tem muito para funcionar, mas só enquanto toda a gente estiver bem viva nas fases defensivas. Assim que a elevadíssima exigência do sistema tira disponibilidade física ou concentração aos jogadores, levando à diminuição da intensidade do pressing na frente e ao alargamento do espaço entre setores, o resultado são lances como o que motivou o golo de Duda. Para já, Gales está a meio-caminho entre duas realidades: faltou-lhe sempre contundência na frente enquanto manteve o sistema a funcionar e parece estar condenado a perder consistência atrás quando ele deixa de ser eficaz.
2016-06-11
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