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Último Passe

Quer consiga levar a bom porto a aposta em Marcel Keizer, treinador cuja carreira teve como ponto alto a condução da segunda equipa do Ajax ao melhor futebol do segundo escalão holandês e a posterior nomeação como responsável máximo do futebol do clube, quer tenha de ficar mais tempo com o jovem Tiago Fernandes, técnico vindo dos juniores com uma autoestima do tamanho da do José Mourinho dos primeiros tempos, parece evidente que Frederico Varandas quer ressuscitar a aposta na formação que torna internacionalmente reconhecida a marca Sporting mas que deu apenas dois campeonatos nos quase 30 anos desde que eclodiu na equipa principal o primeiro Bola de Ouro criado no clube. Certo? Errado? Eu diria certo, mas arriscado e a precisar de muito mais convicção e paciência do que a que novo presidente tem demonstrado desde que assumiu o cargo. Há décadas que o Sporting se debate com este dilema. Em que apostar? Numa equipa jovem, sem canalizar muitos recursos para o mercado, de forma a não roubar espaço aos jovens que saem das categorias inferiores? Ou numa equipa capaz de ganhar os campeonatos, contratando jogadores vencedores e de qualidade? Desde que apareceu na equipa o primeiro dos dois Bolas de Ouro criados em casa (Figo, no início da década de 90), o clube tanto apostou na formação (o período Paulo Bento, por exemplo, onde não havia dinheiro para reforços e se assistiu, por isso mesmo, à subida de vários miúdos ao onze) como na competição (com Jorge Jesus, onde o mercado era o primeiro recurso e esse investimento roubou naturalmente espaço à imposição da rapaziada mais jovem). Sem títulos para ostentar – apenas dois campeonatos ganhos nos últimos 30 anos – a marca Sporting é reconhecida sobretudo pela excelência de uma formação que deu ao Mundo Figo, Ronaldo, mas também Futre, Nani, Moutinho ou Rui Patrício. E a questão aqui é a de perceber o que é causa e o que é consequência. Isto é, de entender se o Sporting não ganha porque quer formar ou se forma porque não tem meios para jogar para ganhar. Ainda recentemente, no relatório do Observatório do Futebol, o Sporting surge em sexto lugar na lista dos clubes que mais jogadores dão às Ligas europeias de topo, lista essa que é liderada, precisamente, pelo Ajax, cujo modelo Marcel Keizer domina de cor e salteado. A questão é que, ao contrário do que sucede com o Ajax na Holanda – dez vezes campeão holandês nesse mesmo período, desde o início da década de 90 – os leões depois não conseguem transpor o sucesso para a equipa principal. As razões, do meu ponto de vista, são tão simples de entender como complicadas de contrariar e têm tanto a ver com a incapacidade de gerir a pressão que o mercado – e os agentes – fazem sobre os jovens jogadores, mantendo-os por tempo suficiente para que possam chegar a ganhar, como com a capacidade de lhes dar enquadramento competitivo satisfatório. E com isto quero dizer espaço de afirmação numa equipa que precisa de ser competitiva apesar de eles lá estarem mas também espaço de crescimento antes de lá chegarem, aspeto em que a extinção da equipa B foi um autêntico tiro no pé. Daí que me pareça que se a aposta de Frederico Varandas é no Sporting como marca de formação, o presidente vá precisar de convicções fortes e de paciência. Paciência, porque a formação do Sporting já não é o que era: os últimos anos viram os leões serem superados pelo Benfica não apenas a nível de títulos nas camadas inferiores como também no que respeita a presenças nas seleções jovens e até na quantidade de jovens da casa que chegam à seleção A. E não, ao contrário do que pensam os mais fanáticos, não há nisso nenhuma conspiração. É mesmo uma questão de qualidade. Depois, de convicção, porque é bem possível que, em virtude da tal quebra de qualidade que a formação leonina tem vindo a sofrer, essa aposta leve o seu tempo a colher frutos. E se a respeito de José Peseiro a aparente reação de Varandas a reboque das bancadas ainda pode ter a justificação de que aquele não era o treinador que ele teria escolhido se não o tivesse já encontrado no cargo quando assumiu a liderança, com o novo técnico será diferente: vai ser ele a escolhê-lo e terá de o assumir como parte da solução e nunca como problema.  
2018-11-05
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Último Passe

O despedimento oficiosamente anunciado de José Peseiro do Sporting era uma inevitabilidade que já estava inerente no momento da sua contratação, ainda que o momento em que se concretiza deixe sinais deveras preocupantes acerca da liderança de Frederico Varandas. Peseiro foi contratado numa conjuntura de crise em nome de uma competência que de facto possui e apesar de uma imagem negativa que dele tem a maioria dos adeptos leoninos, ainda por cima ampliada pela resistência dos saudosos do regime de Bruno de Carvalho, que em nome do líder até estavam prontos a endeusar Sinisa Mihajlovic. Desde sempre se percebeu que Peseiro resistiria no fio da navalha enquanto os resultados o permitissem e que teria de optar entre seguir as suas convicções mais profundas ou deixar-se enredar num instinto de sobrevivência que talvez lhe permitisse aguentar mais algum tempo mas nunca faria dele solução de futuro, como o próprio Frederico Varandas já deixara bem claro. Acho que Peseiro cometeu um erro estratégico profundo, ao optar por construir um modelo de jogo de risco zero em termos ofensivos, muito em contraciclo com aquilo que marcou a sua primeira passagem por Alvalade. Uma vez, há mais de dez anos, foi o próprio quem me explicou a metamorfose que vivera como treinador: alegou que a equipa do Sporting de 2004/05 se baseava tanto em movimentos de envolvimento coletivo que se desequilibrava a atacar e não era depois capaz de fazer uma boa transição defensiva, por ser apanhada com muita gente fora de posição. Olhando para o plantel que tinha ao dispor no Sporting de 2018/19 e, mais ainda, para a conjuntura de animosidade entre jogadores e adeptos, Peseiro optou por reforçar esta identidade securitária e por montar a equipa em cima de valores como a união, personificada na solidariedade defensiva. Do meu ponto de vista, fez mal. Fez mal, porque embora tivesse razão acerca da perda de qualidade do plantel – passou os primeiros meses da época sem sete dos onze titulares de Jesus e só teve um real acrescento de qualidade em Nani – alienou a única coisa boa que os adeptos prontos a defendê-lo recordavam a seu respeito: o bom futebol. Porque, sendo verdade que este Sporting de 2018/19 é bem mais fraco do que o de 2017/18, não é potencialmente tão fraco como o revelam a sua confrangedora produção ofensiva – esta equipa não é capaz de construir por dentro, por exemplo – ou a regularidade com que comete erros defensivos. A verdade é que, apesar de tudo, para este Sporting, têm sido melhores os resultados do que as exibições – e isso até poderá ser um ponto a favor de Peseiro, que consegue chegar a Novembro em condições muito razoáveis em todas as competições. Tal como há um ano, o Sporting está a dois pontos do líder na Liga – e já visitou dois dos três primeiros. Além disso, está em prova na Taça de Portugal, tem boas condições de seguir em frente na Liga Europa e até na Taça da Liga não deve precisar de mais do que uma vitória no terreno do Feirense para chegar ao “final four”. Porque falhou, então, o regresso de Peseiro a Alvalade? Falhou por três razões, a primeira das quais o facto de o presidente-eleito depois da sua contratação não o ter visto nunca como solução: só assim se compreende uma decisão tão populista como o despedimento de um homem que está em todas as competições. Mas falhou, também, porque o próprio Peseiro foi pouco perspicaz na gestão da perceção que dele tinham os adeptos. Manda qualquer manual de liderança que se há dúvidas acerca da capacidade de uma equipa se aproveite qualquer bom sinal para reforçar essa mesma qualidade. Ora, depois da boa exibição conseguida frente ao Boavista e perante um jogo de risco elevado e motivação-zero, como era a receção ao Estoril, Peseiro não devia ter dado o toque a desmobilizar, mudando quase todo o onze, com o acréscimo da perda evidente de qualidade. Devia, pelo contrário, reforçar os laços entre titulares, que certamente não estarão tão fatigados que não aguentassem três jogos numa semana. Neste aspeto, o ideal está entre a aposta sucessiva nos mesmos onze que foi feita por Jesus na época passada e a rotatividade total preconizada por Peseiro esta época, ainda por cima com um plantel mais fraco. Falhou, por fim, porque o treinador deixou a frustração e a sabatina levarem a melhor sobre a lucidez no final do jogo com o Estoril. Por mais frustrado que esteja com um resultado, quem pede aglutinação, como tem pedido Peseiro, não pode depois pregar a divisão, dizendo que “quem quer apoiar apoia e quem não quer está no seu direito”. E, por outro lado, tem de ter a noção de que há limites para o politicamente correto na forma como fala da equipa após os jogos. Dizer, depois da derrota em casa com o Estoril, que a equipa “jogou bem” não é aceitável. Sobretudo porque não é minimamente verdade.
2018-11-01
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