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Último Passe

O caso Football Leaks tem abalado o futebol português – e não é caso para menos. Em menos de uma semana saltaram para a esfera pública mais documentos privados do que nas últimas três ou quatro décadas. E isso é digno de notícia. Talvez quase tanto como o é aquilo que esses documentos mostram. Salvaguardadas algumas diferenças, o football leaks é quase uma repetição do caso “off the record”, que à conta do carimbo na inscrição do zairense N’Dinga pelo V. Guimarães agitou as hostes futebolísticas nos anos 80. Com uma diferença. É que no “off the record”, toda a gente sabia quem estava atrás da divulgação da notícia: era o Record, tinha um diretor e um chefe de redação legalmente responsabilizáveis. À partida, quem tem mais a perder com tudo aquilo que o football leaks tem vindo a revelar é Bruno de Carvalho. Há ali documentos comprometedores para posições radicais assumidas pelo presidente do Sporting. Não é o ordenado de Jorge Jesus nem outras minudências da chicana político-desportiva, que serviram apenas de chamariz – o bom português saliva quando lê a palavra “milhões” – mas sim o envolvimento do Recreativo de Caala na contratação de jogadores como Bruno Paulista ou a recente troca de SMS entre Marco Silva e Augusto Inácio a propósito da reunião a que o treinador alegadamente teria faltado. Não há ali nada de ilegal, esclareça-se. Mas há posições muito próximas daquilo que Bruno de Carvalho tanto tem criticado acerca dos fundos de investimento – e de nada servirá chamar-lhes parcerias, porque aquilo que outros clubes têm com a Doyen ou a Meriton é também algo semelhante. E sobretudo há o desmoronar de muitas acusações feitas a outros agentes, contribuindo para descredibilizar a “guerra santa” que Bruno de Carvalho tem movido à esquerda e à direita. Posto isto, e não pretendendo nem por um segundo diminuir ou duvidar de tudo aquilo que o football leaks tem vindo a divulgar, a mim interessa-me também outro aspeto do terramoto, que é a origem da informação. O football leaks é um site com domínio registado na Rússia, não se sabe (possivelmente nem se saberá nunca) por quem. Quem divulga as informações não tem rosto, o que quer dizer que não pode ser responsabilizado por elas nem merece a mesma credibilidade que qualquer jornal que publique ao abrigo da lei de imprensa ou qualquer jornalista que respeite os códigos éticos da profissão. Dir-me-ão que isso é irrelevante, numa altura em que a maior parte da informação já circula através de agregadores ou das redes sociais, que promovem réplicas instantâneas de qualquer rumor. Que nestes tempos o consumidor de informação já tem de ser capaz de discernir acerca da credibilidade das fontes. É verdade. Mas o meu ponto é outro. E passa por uma pergunta que qualquer jornalista principiante tem de fazer sempre que tem uma notícia em mãos: a quem interessa a publicação? Porque se Bruno de Carvalho tem sido indiscriminado e muitas vezes injusto na sua “guerra santa” – e sei do que falo – neste caso apanha pela frente com snipers não identificados e especialistas em “guerra de guerrilha”. Em tempo de guerra vale tudo? Há quem diga que sim. Ainda assim, não duvido que ambos os lados passaram muito as marcas da beligerância aceitável.
2015-10-02
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