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Último Passe

O vídeo-árbitro foi risível no Mundial de clubes e a experiência serviu aos que sempre se opuseram à sua utilização para provarem uma razão que na verdade não têm. Não tivesse Gianni Infantino, presidente da FIFA, vindo reiterar que o caminho é para ser percorrido e até me ocorreria pensar que foi para adiar a discussão por mais uns anos que serviu esta experiência. Como assim não é, importa aprender com os erros que foram cometidos para que o futebol possa centrar-se no que é fundamental. E o que é fundamental não é abolir o erro ou a componente subjetiva que preside a cada decisão. É dar aos árbitros os melhores meios de diagnóstico possíveis. E isso não foi feito no Mundial de clubes. Aquilo que foi experimentado no Mundial de clubes é, em si, ridículo. Pedir a um árbitro que dê uma corridinha até um monitor colocado na linha lateral para ver uma repetição de um lance é apenas idiota, porque aumenta a pressão mediática sobre o decisor, com toda a gente a olhar para ele e para aquele pequeno monitor, porque não lhe dá todos os meios possíveis para esclarecer e trava na mesma o fluir o jogo. O que defendo não é isso. O que defendo há anos é a existência de um árbitro de régie, de um especialista treinado para tomar decisões rápidas com base em imagens televisivas, que tenha acesso imediato às imagens de todas as câmeras disponíveis para o realizador televisivo e que esteja em comunicação permanente por circuito áudio com os outros árbitros de campo. A entrada em vigor deste sistema teria de pressupor alguma abertura por parte das instâncias que regem a arbitragem e o futebol em geral. Ganhar-se-ia, por exemplo, com uma explicação por parte do árbitro no sistema sonoro do estádio a cada decisão do vídeo-árbitro, para que todos os espectadores percebessem o que estava a passar-se. É o que se faz no râguebi, por exemplo. E quando se ativaria o vídeo-árbitro? Simples. O vídeo-árbitro poderia ser ativado de duas formas. Quando os clubes, pela voz do seu treinador ou do seu capitão de equipa, desafiassem a decisão do árbitro central (e perderiam esse direito após duas oportunidades em que não lhes fosse dada razão), nunca sendo o jogo interrompido para tal – a consulta seria feita após a interrupção normal seguinte. Ou então quando o árbitro central, por ter dúvidas ou por ter sido para tal alertado pelo árbitro de régie, quisesse, por si só, pedir uma segunda opinião a quem pudesse rever as imagens de vários ângulos. É aqui que começam as objeções. Já ouvi muitas diferentes, mas todas são rebatíveis. Que o jogo perderia a fluidez, permitindo, por exemplo, a uma equipa pedir a intervenção do vídeo-árbitro só para impedir um contra-ataque perigoso após a perda da bola. Errado, pois nenhuma jogada seria interrompida, já que só após a interrupção normal de jogo se pediria a intergvenção do vídeo-árbitro. Que o árbitro-central perderia a sua capacidade de decisão, tendo de a delegar noutro elemento da equipa de arbitragem. Mas isso já acontece com os árbitros auxiliares, que se tornaram muito mais do que simples fiscais de linha. Ou algum árbitro central manda seguir o jogo depois de um seu auxiliar agitar a bandeira como se não houvesse amanhã para assinalar uma falta? Que levaria uma eternidade até se ter uma decisão. Outra vez errado. Basta perguntar a qualquer realizador quanto tempo leva a ter acesso a todas as imagens de todas as câmeras. Menos de um minuto, garanto. A minha objeção preferida, porém, é a de que o vídeo-árbitro não anula o erro, como é evidente pela consulta a diferentes opiniões de ex-árbitros dadas em painéis de jornais ou sites de internet, e que por isso não vale a pena tê-lo. Claro que não anula o erro. Primeiro porque o erro, como se sabe, é humano. Não é o sal ou a alma do futebol, como já ouvi dizer, mas infelizmente faz parte. Depois, porque em todas as tomadas de decisão há uma componente subjetiva, que depende da opinião de quem está a decidir. O objetivo, porém, não é nem nunca pode ser anular o erro. Tem de ser, isso sim, auxiliar o diagnóstico de quem tem o dever de decidir. Impedir que quem decide tenha menos meios que qualquer tele-espectador sentado no conforto do seu sofá. Impedir que eu em casa veja com os dois olhos aquilo que quem tem de decidir só vê com aquele onde necessita de mais dioptrias. O objetivo do vídeo-árbitro não tem de ser eliminar o erro. Tem de ser clarificar as coisas e, como disse Infantino, impedir que “uma equipa seja eliminada por causa de um erro dos árbitros”. Só por causa disso, serei sempre a favor.  
2016-12-19
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Último Passe

Não há-de haver um adepto de futebol que não tenha gostado da resposta que a Federação de São Marino deu a Thomas Müller, depois de o craque alemão do Bayern se ter queixado da perda de tempo que é ter de defrontar equipas como aquela nas eliminatórias do Mundial. Entre os que se emocionaram com os dinheiros que vão para a construção de campos nas escolas, os que se riram com a imagem das sandálias com meias brancas, tão própria da falta de gosto dos alemães, e os ficam felizes por ser possível a amadores defrontarem os campeões do Mundo, ninguém deixou de aplaudir. Mas agora que a festa está bonita, vamos lá a pôr um pouco de bom-senso na conversa e ver o lado correto entre as duas realidades. Não tenho nada contra os jogos entre seleções como a Alemanha ou Portugal e outras como Andorra ou São Marino. Como espetáculo valem pouco mais de zero e são, como alertou Müller, um “risco idiota”, porque alguém pode magoar-se sem haver nada em disputa, mas para os representantes daquelas nações aquele é sempre um momento marcante. Nunca defrontei Bobby Fischer ou Anatoly Karpov num tabuleiro, quando era aspirante a xadrezista, nem tive alguma vez a oportunidade de placar Jonah Lomu ou Julian Savea numa das minhas incursões pelo râguebi, mas uma vez, estava eu junto ao relvado onde a seleção nacional de futebol jogava aquele meinho que se faz sempre antes do treino a sério, e a bola veio ter comigo. E não só a devolvi para o grupo onde estava Ronaldo com um toque de primeira, como o fiz de pé esquerdo. Estranhamente, nenhum dos nossos internacionais valorizou o gesto técnico que eu acabara de protagonizar: continuaram todos na galhofa. Como digo, não tenho nada contra os jogos entre seleções como a Alemanha e equipas como a de São Marino. Acho contra-producente que se joguem nesta altura do ano, na qual os jogadores de top estão demasiado concentrados em competições de clubes, e por isso já propus que as datas FIFA para os jogos de seleção se concentrassem todas no final da época, de forma a evitar estas constantes mudanças de foco com as quais ninguém ganha a não ser as companhias aéreas que fazem voos de longo curso entre a Europa e a América do Sul. De resto, sou dos que acredita na componente aspiracional dos desafios de futebol: todos devem poder jogar contra todos, desde que mostrem mérito para tal, razão pela qual nunca achei que as eliminatórias dos Mundiais ou dos Europeus devessem jogar-se com duas ou três divisões e fui e serei sempre contra Superligas fechadas, sem subidas nem descidas, sem um modelo que permita a qualquer clube lá chegar. A realidade recente, porém, com a dissolução de tantas nações e o aparecimento de seleções com pouca razão de existir – Gibraltar, Andorra, qualquer dia o Vaticano, a Madeira, os Açores ou até o Baixo Alentejo – transformou a maioria dos calendários de seleções num aborrecimento quase permanente. Porque em cada dez jogos, as seleções de top só são verdadeiramente postas à prova duas ou três vezes. E isso não só vem complicar muito a vida a quem tem por missão exigir àqueles jogadores rendimento permanente como muda radicalmente o panorama que os adeptos da minha geração viveram ao crescer, onde as datas de seleções eram uma espécie de ponto alto do calendário. É isso que importa recurperar. E não se fará com muitos jogos entre a Alemanha e São Marino.
2016-11-15
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Depois de Paolo Maldini se ter recusado a desempenhar o papel de legitimador-mor para a solução chinesa que promete devolver o Milan ao topo do mundo em cinco anos, agora foi Gianluigi Buffon, o veterano guarda-redes da rival Juventus, quem veio mostrar ira face à entrada dos investidores estrangeiros nos maiores clubes do país. "É a prova da nossa falha como país", disse Buffon. Acredito num mundo e numa economia globais, pelo que não partilho a visão de Buffon. Mas não sou tolo a ponto de acreditar que as ofensivas dos grandes grupos sejam tão boas assim para o futebol.O problema da entrada dos milhões no futebol não está na frustração que traz aos sentimentos nacionalistas de quem quer que seja. O Chelsea já pertence a um russo há muito e não creio que isso tenha sido um problema para os adeptos, que com todas as vicissitudes próprias de Abramovich, até conheceram com ele o regresso às vitórias. Os americanos já dominam o capital de Manchester Utd., Arsenal e Liverpool. O Leicester ganhou a Premier League graças à liderança de um grupo tailandês e o Manchester City fê-lo e tenciona repetir a proeza com dinheiro dos Emiratos Árabes Unidos. Na Premier League há investidores de todos o tipo: dos que acreditam no negócio aos que só buscam um brinquedo para torrar os seus milhões, com passagem pelos que (sim, também os há) pretendem apenas vincar o poder da sua nação ou das suas economias emergentes. Nada disso veio piorar a competição, que cada vez mais é a mais atrativa do Mundo.Isto, contudo, não significa que a FIFA deva assistir sentada a este fenómeno. A interferência destes grandes grupos pode levar a problemas iguais aos vividos nas outras áreas da economia global. Desde a manipulação do preço dos passes em negócios que envolvam "clubes irmãos", com propósitos nem sempre claros, até ao tráfego de informações ou mesmo à  hipótese de manipulação de resultados, esta nova realidade exige da FIFA toda a determinação possível com o intuito de desenhar uma Lei Sherman que impeça os "trusts" de desenhar a realidade global do futebol. O problema é que na FIFA se olha para as injeções de capital que estes milionários fazem no futebol e se perdoa o mal que faz pelo bem que sabe. Há um ponto, porém, onde é preciso traçar uma linha. E não pode ser daquelas com spray que desaparece, como os dos árbitros.
2016-10-20
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Que o futebol vai mudar em breve, toda a gente já percebeu. Podemos ficar à espera que os grandes agentes de mudança avancem - e nessa altura não nos restará nada a não ser aceitar o que eles terão para impor. Em alternativa, podemos tentar cavalgar essa onda de mudança e conduzi-la para um desfecho mais justo e racional. Foi isso que a UEFA fez no início da década de 90, quando travou as iniciativas de secessão com a criação da Liga dos Campeões. Isso, hoje, porém já não chega. E não chega porque nos conduziu a uma realidade em que clubes e seleções estão sempre no caminho uns dos outros (os últimos Jogos Olímpicos deviam ter sido a gota de água a fazer transbordar o copo da insanidade) e em que não se está a explorar devidamente a possibilidade de passar a competição para a escala normal dos dias de hoje, que é a continental. As alterações nos tempos mais próximos serão, como defendi no artigo da semana passada, nestes dois âmbitos. Hoje deixo a minha proposta. Não estou convencido de ser dono da razão. Mas sei que recusar o que aqui vai ler só porque "isso é impossível" ou porque muda muitas das realidades tidas por imutáveis é ficar à mercê de uma mudança que é inevitável e será então regulada apenas por interesses económicos dos mercados mais imponentes. Seria como a NBA recusar equipas de estados mais pequenos dos EUA só porque neles a TV tem menos audiência potencial. Em tempos já escrevi sobre um projeto de Superliga europeia. Acho que ela vai chegar mais cedo ou mais tarde e, francamente, quanto mais cedo melhor. Porque os campeonatos nacionais estão de tal modo desvirtuados com o dinheiro da Champions que, à exceção da Premier League, onde o dinheiro da TV pode competir com o da prova europeia, os maiores clubes passeiam impavidamente por eles. A Superliga europeia vem aí. Pode ser é de uma forma justa, em que os lugares são distribuídos de acordo com o mérito desportivo, com subidas e descidas e sem matar os campeonatos de cada país, ou à bruta, com atribuição de vagas numa Liga fechada, de acordo com a força que os clubes têm nos mercados, e sem preocupação com os campeonatos nacionais. O que vai fazer a diferença aqui é a proatividade que as federações que terão mais a perder com uma competição desenhada de acordo com os maiores interesses económicos (como a portuguesa, por exemplo) irão ou não assumir.Imaginemos então uma Superliga europeia com 24 clubes, os 16 melhores da Liga dos Campeões de um ano e os oito mais fortes da Liga Europa do mesmo ano. E imaginemos que os dividimos em dois grupos de 12, que jogariam todos contra todos a duas voltas (22 jornadas). Aqui chegados, apuramos os oito melhores para os quartos-de final (seguidos de meias-finais e final) os oito piores para a fuga à despromoção. No fim, em 27 jogos, teríamos um campeão europeu e dois despromovidos, que na época logo a seguir dariam o lugar aos finalistas da Liga Europa, que se manteria nos moldes atuais. São 27 semanas de competição, com jogos todas as semanas: supondo que se começava na terceira semana de Agosto e que se interrompia por três semanas por alturas do Natal e Ano Novo, podia jogar-se a final no primeiro domingo de Março. Ao mesmo tempo, jogar-se-iam os campeonatos nacionais, também por jornadas. Equipas haveria que teriam de jogar as duas competições, mas esse seria um problema bom. Por um lado porque o que ganhariam na Liga Europeia lhes permitiria pagar planteis com a profundidade necessária para as "duas cadeiras"; por outro porque ao terem de dividir as atenções entre ambas as provas, deixariam de ser tão dominantes dentro de portas, incrementando a competitividade. Com o tempo, o normal é os campeonatos nacionais acabarem por sofrer o mesmo destino que tiveram os regionais em meados do século passado. Mas aí morrerão de morte natural, sendo substituídos por mais escalões na competição continental. Ninguém os assassinará. E haverá tanta gente a bater-se pela sua continuidade como houve na altura gente a dizer que acabar com o campeonato de Lisboa ou do Porto era matar o futebol. Em Março, findos os campeonatos nacionais e europeus, era a altura ideal para entrarem em ação as seleções, com três ou quatro meses anuais para jogarem qualificacão e, se fosse caso disso, fases finais, sem os jogadores terem de andar a saltitar de uma realidade para a outra e de preferência dividindo as seleções em escalões, para evitar a profusão de jogos com amadores que hoje se realizam. Já sei qual é a primeira objeção: como sobreviveriam os clubes nesses meses? Os que tivessem internacionais receberiam pela cedência desses jogadores, que a FIFA e a UEFA geram receita suficiente para tal. Além disso, havia sempre a positividade de se jogarem provas de menor importância, como as Taças da Liga, disputadas sem os internacionais. Podiam organizar clínicas para jovens, porque vai caber-lhes cada vez mais a formação transformada em negócio. Podiam organizar digressões. Porque essa ideia segundo a qual os clubes têm de estar em ação permanente para serem um sucesso financeiro é desmentida, também, pela NBA. As finais de 2016 chegaram ao sétimo jogo e concluíram-se a 19 de Junho. A competição recomeça a 25 de Outubro, mais de quatro meses depois. E as equipas que não chegarem ao playoff ficam despachadas em inícios de Abril, quase seis meses antes de voltarem à competição. E não tenho ideia de as franchises andarem a perder dinheiro
2016-10-17
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Citius, altius, fortius! Há alguma coisa na vida de um atleta que seja mais importante do que uns Jogos Olímpicos? Aparentemente não, a não ser que estejamos a falar de futebol. E a razão para esta diferença pode custar muito a muita gente, mas está na cara de quem quer vê-la: é que os Jogos Olímpicos são importantes sobretudo na medida em que garantem contratos milionários a quem leva medalhas de ouro para casa. Citius, altius, fortius? Ditius! Quem é como quem diz: mais rápido, mais alto, mais forte? Mais rico! É por isso que andarmos agora a carpir desgostos porque a seleção olímpica de futebol vai viajar para o Rio de Janeiro sem boa parte das suas estrelas soa tanto a hipocrisia. A grande diferença entre o futebol e a generalidade das outras modalidades é que no futebol quem vai aos Jogo Olímpicos são os sub23. Cada seleção pode até reforçar aquela categoria etária com um trio de estrelas, mas o que vai jogar-se não deixa de ser um torneio que não é bem um Mundial de sub20 ou um Europeu de sub21, mas também não é um Mundial absoluto. Se o atletismo tem os seus campeonatos do Mundo e depois, de quatro em quatro anos, os Jogos Olímpicos, para celebrar os melhores, o futebol optou por uma via diferente. Porquê? Para não estragar o negócio que é o Mundial, um dos poucos eventos com mais visibilidade planetária do que os próprios Jogos Olímpicos. A FIFA, portanto, nunca quis dar ao Comité Olímpico Internacional a possibilidade de organizar um torneio verdadeiramente importante e o desprezo a que vota os Jogos Olímpicos vai ao ponto de nem sequer ter colocado as datas do torneio de 2016 na sua calendarização. O que no imediato vem provocar um conflito entre os que levam o olimpismo a sério e os que, olhando para a realidade, percebem que mais importante é um qualquer Benfica-V. Setúbal, um Tondela-FC Porto ou um Sporting-Chaves que venha a jogar-se naquele período. O torneio olímpico de futebol começa, para os homens, a 4 de Agosto. Três dias depois joga-se a Supertaça entre Benfica e Sp. Braga. A 12 deve começar o campeonato nacional. A 16/17, o FC Porto terá a primeira mão da decisiva pré-eliminatória da Liga dos Campeões, jogando a segunda a 23 ou 24. E a 20, horas antes de no Rio se jogar pela medalha de ouro, os clubes portugueses estarão envolvidos na segunda jornada da Liga. Como a FIFA não incluiu os Jogos Olímpicos no calendário oficial, nenhum clube será obrigado a ceder jogadores, havendo neste momento na Federação Portuguesa de Futebol a ideia de chamar um lote restrito de cada clube, provavelmente nem os que mais jeito dariam à equipa, mas aqueles que os clubes não se importarão de ceder. Olhemos para o onze que esteve na final do último Europeu de sub21: José Sá; Esgaio, Illori, Paulo Oliveira e Guerreiro; William, Sérgio Oliveira e João Mário; Cavaleiro, Bernardo Silva e Ricardo. Agora juntemos-lhes nomes que nessa tarde estavam no banco, como Rafa, Iuri Medeiros, Cancelo, Ruben Neves ou Carlos Mané. E ainda valores entretanto revelados, mais jovens e por isso dentro da idade regulamentar, como Renato Sanches ou André Silva. Uma super-seleção, mesmo sem contar com a possibilidade de reforço com os tais jogadores extra-contingente sub23. Neste momento, Rui Jorge não pode saber muito bem quem vai ter ou o que vai fazer quando tiver que convocar os homens que leva aos Jogos. Porque o trabalho fundamental não será dele, mas sim das relações públicas da FPF, dos dirigentes que hão-de conversar. O percurso desta equipa merecia outro tratamento, mas não é dos clubes portugueses. É da FIFA, que continua a não saber fazer uma coisa tão simples como um calendário.
2016-05-31
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A eleição de Gianni Infantino como presidente da FIFA, batendo com alguma surpresa o cheque Salman al-Khalifa, tem sido vista como uma vitória do primeiro mundo futebolístico sobre a multidão de federações periféricas que ameaçavam com a tomada do poder. Essas, porém, são as razões erradas para rejubilarmos. Como o serão o orgulho patriótico de vermos Onofre Costa e Tiago Craveiro no lado dos vencedores ou começarmos desde já a pensar que proveitos esta vitória pode acarretar para a FPF ou o futebol português. E, no entanto, estou convencido de que, apsar de ter nascido a meia dúzia de quilómetros de Sepp Blatter e de ser antigo braço direito de Michel Platini, o italo-suíço de Brig era a melhor escolha para a FIFA. As bandeiras eleitorais de Infantino dizem-me pouco. O alargamento de participantes no Mundial de 32 para 40 até me parece um exagero popularucho – já os 32 me pareceram demais – e os cinco milhões de dólares que promete dar por federação a cada quatro anos, ao abrigo de um plano de apoio ao desenvolvimento global do futebol, são uma gota de água no oceano do negócio global em que se transformou o futebol. Ou melhor, em que João Havelange e Sepp Blatter transformaram o futebol nos últimos 40 anos. Mas Infantino é um tipo jovem, de apenas 45 anos, com ideias claras e modernas, nas quais se enquadram a luta pelo fair-play financeiro ou a abertura à introdução das novas tecnologias no apoio às decisões de arbitragem. A luta de Infantino, para já, passa por uma só frente de batalha. Dizer que tem de credibilizar a FIFA é pouco mais do que um verbo de encher, mesmo tendo em conta que se houve coisa que Havelange e Blatter não fizeram nos 40 anos em que dominaram o futebol mundial foi preocupar-se com essa credibilização. Mas o que se pede a Infantino não é que renegue 40 anos em que a FIFA se tornou um dos grupos empresariais mais prósperos do Mundo. Os dois últimos presidentes desenvolveram o negócio – e de caminho ter-se-ão aproveitado disso à grande em proveito próprio –, mas aquilo que tem sempre faltado é alguém que perceba esse mesmo negócio, que olhe para ele com outros olhos e lhe compreenda os cancros, de forma a extirpá-los de forma rápida. O que interessa não é a visão quixotesca segundo a qual o futebol não pode ser um negócio. É a visão moderna que aceite esse mesmo negócio e o faça crescer ainda mais dentro da legalidade.
2016-02-26
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A validação e posterior anulação de um ensaio a Matawalu, porque as imagens de TV mostraram que o médio de formação das Ilhas Fiji tinha deixado cair a bola para a frente antes de a recuperar e de a pousar na zona de ensaio, e a anulação e posterior validação de outro ensaio a Nadolo, porque as imagens provaram que o salto do ponta fijiano era regular, trouxeram até muita animação ao jogo de abertura do Mundial de râguebi. O público ouve o árbitro na instalação sonora do estádio, vê as imagens dos lances nos ecrãs gigantes e vibra com o sistema a funcionar. Mas, mais do que animação, as duas decisões do árbitro sul-africano trouxeram justiça. E essa devia ser sempre a função de um árbitro em campo. No caso do Inglaterra-Fiji nem era o resultado que estava em causa: os dois lances ocorreram num período de cinco minutos – se o primeiro tivesse sido validado, o segundo provavelmente não teria acontecido – e foram ambos no ataque das Ilhas Fiji. Portanto, mais cinco pontos, menos cinco pontos, para quem gosta destas realidades contra-factuais o resultado seria até o mesmo. Mas haverá casos em que jogos se decidem por causa de uma decisão arbitral e condenar os árbitros a decidirem com muito menos meios do que quem está em casa a ver no sofá é tudo menos defender o futebol. Os árbitros não erram hoje mais do que antigamente: os adeptos é que têm muito mais meios para avaliar os erros que sempre se cometeram. Cada vez há menos argumentos razoáveis a favor do arcaísmo que regula a tomada de decisões dos árbitros no futebol. O argumento tantas vezes do tempo que se perde não colhe. O Inglaterra-Fiji começou às 20 horas, teve vários lances de consulta vídeo pelo árbitro, e acabou antes das 22 horas, cumprindo-se as duas partes de 40 minutos num período semelhante ao que leva uma partida de futebol. O argumento de o erro ser o sal do futebol só pode ser assumido por quem passa o tempo em gabinetes, mesmo que em tempos tenha pisado a relva. Defendo o direito dos árbitros ao erro, condeno os hooligans encartados que assumem que os erros dos árbitros são propositados ou os que só sabem explicar os jogos de futebol através dos erros de arbitragem (e só os que são contra as suas cores, que para os outros arranjam sempre uma explicação), mas acho que os árbitros deviam ser os primeiros a revoltar-se contra este estado de coisas, que os condena a demonstrações de inépcia a um ritmo diário. Ontem já era tarde.
2015-09-18
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