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Último Passe

A Taça das Confederações é um pouco aquilo que se quiser. Com as costas protegidas, Joachim Löw quis dar férias aos titulares e trazer uma segunda equipa. Escaldado pela crítica, que olha para ele como o primo feio de Sampaoli, Juan Antonio Pizzi quis ganhá-la e mete em cada jogo toda a combatividade do futebol sul-americano, ameaçando levar toda a gente aos limites da exaustão. Os dois vão jogar a final hoje. Antes, como se fossem um prato de amendoins torrados, aparecem portugueses e mexicanos, que ficaram ali um pouco a meio-caminho. O que levam daqui? Um grupo “mais consolidado”, como disse Fernando Santos? Sim. Mas o futebol é o momento e a partir de Agosto há que desconstruí-lo de novo. Fernando Santos não veio para a Taça das Confederações nem com a displicência alemã – e palavra de honra que nunce pensei poder vir a juntar estas duas palavras na mesma frase – nem com a combatividade chilena. Trouxe os mais fortes, mas não os esticou. Nunca abusou deles. E assim que a vitória na prova deixou de ser possível libertou o melhor de todos ele por razões pessoais, que toda a gente afirma compreender mas que no final será sempre uma incómoda pedra no sapato de cada um, quanto mais não seja porque faz jurisprudência. Porque, suceda o que suceder, esta é uma sombra a pairar sobre o jogo de hoje e sobre o futuro próximo desta equipa. Com que legitimidade poderá o selecionador daqui para a frente agir de forma diferente com outro jogador da seleção num jogo oficial? O que está em causa não são o empenho ou o profissionalismo de Ronaldo. Ronaldo – ainda que outro Ronaldo, numa fase diferente da carreira – jogou aqui mesmo, na Rússia, um dia depois da morte do pai, de que teve conhecimento já em estágio. E quis jogar. Ronaldo continuou na equipa depois de saber que os gémeos tinham nascido – e isto não é um elogio, fez o que tinha de fazer, sendo ele o líder desta equipa – e se foi agora dispensado o que isso nos diz é que o jogo contra o México já não é uma prioridade para ninguém. Que apesar da cautela com que Fernando Santos e André Silva abordaram o tema na conferência de imprensa de ontem, o jogo com o México quer-se ganhar, como querem ganhar-se todos os jogos, mas o resultado não é a prioridade maior. Essa era a final e, não podendo estar lá, é pouco mais do que irrelevante ficar em terceiro ou em quarto. Joga-se porquê, então? Joga-se, primeiro, porque está no calendário. Jogar-se-á, depois, pela mesma razão pela qual se esteve nesta Taça das Confederações, aquilo a que Fernando Santos chamou “consolidar o grupo”. E isso acaba por ser o que se leva daqui, além de uma presença nas meias-finais – que em termos futuros é isso que fica e não se se obteve o terceiro ou o quarto lugar. Da Rússia, Portugal leva três jogadores com mais estatuto na seleção e uma grande preocupação a juntar à escassez de defesas-centrais capazes de substituir os trintões que aqui vieram. Os jogadores que ganharam peso foram Cédric, William e Bernardo Silva. Cédric porque foi um dos melhores e mais constantes elementos da equipa na prova, a render muito tanto defensiva como ofensivamente; William, porque a evidência da sua importância estratégica na tarefa de dar visão ao meio-campo fez com que a contestação à sua titularidade já seja sobretudo de cariz clubístico; e Bernardo Silva porque mostrou finalmente no contexto de seleção que é um jogador único, com condução de bola e criatividade juntas ao serviço do desequilíbrio e com uma escolha de caminhos em campo que permite à equipa ser mais controladora nos jogos com adversários fortes. Aliás, a preocupação prende-se também com Bernardo Silva e com o homem que está do outro lado do espelho, André Gomes. A questão é que também André Gomes é um jogador quase único no contexto do 4x4x2 da seleção. O jogador do Barça tornou-se o ódio de estimação da generalidade dos portugueses que gostam de ver futebol através das embirrações – outros candidatos são, de há muito tempo, Moutinho, Eliseu e, agora menos, William Carvalho. André Gomes não fez um mau torneio – jogou bem com a Rússia, menos mal com o México, só ficando aquém na parte final do desafio com um Chile que era demasiado rápido nos espaços curtos para ele. Mas o futuro da seleção em grandes competições passa por ter um médio como ele, alguém capaz de jogar na ala e de se juntar ao núcleo central do meio-campo. Na Rússia, como alternativa, Fernando Santos só tinha Pizzi, podendo em breve voltar a juntar-lhe João Mário, que não veio por estar lesionado. E o problema é que a Taça das Confederações pode ter sido uma das últimas oportunidades para convencer o público desta necessidade: nas eliminatórias do Mundial, com o regresso dos adversários mais fracos, os jogos vão voltar a pedir extremos puros e a solução vai voltar a parecer colada com fita-cola se e quando se chegar ao Mundial. Original escrito para a edição de 2 de Julho do Diário de Notícias
2017-07-02
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Há duas formas bem distintas de olhar para o resultado da seleção nacional frente ao México, na abertura da campanha na Taça das Confederações. Uma obriga-nos a olhar para a exibição, frouxa e descontínua, e para o resultado, que podia e devia ter sido melhor. A outra força-nos a olhar para a frente e para a vantagem que Portugal tem face a russos e mexicanos: joga com a Nova Zelândia na última jornada e, desde que não peca com os russos, na quarta-feira, fá-lo-á a saber de quantos golos precisa para se apurar para as meias-finais. Nunca mais de três, já se sabe. “Voltou a trupe dos empatas”. Era isso que se lia um pouco por todo o lado, nas redes sociais, no seguimento do Portugal-México. Os portugueses sabem tanto de futebol como de incêndios e, regra geral, não hesitaram em condenar de forma veemente o resultado contra o México. O que é estranho é que o tenham feito recorrendo ao exemplo do último Europeu, prova na qual seis empates em sete jogos – dois deles transformados em vitórias no prolongamento – valeram o troféu à equipa de Fernando Santos. A gestão calculista dos resultados e da estratégia para os alcançar tem sido uma das principais armas deste selecionador e basta fazer contas mais com a cabeça do que com o coração para perceber que o empate com o México não deixa Portugal em tão maus lençóis. Ou que, mesmo tendo ganho à Nova Zelândia por 2-0, no jogo de abertura, a Rússia entrará em campo na próxima quarta-feira tão ou até mais pressionada do que a equipa portuguesa. Como é possível? É. Porque Portugal tem a vantagem de defrontar a Nova Zelândia no último dia e acertar contas nessa altura. Imaginemos que Portugal empata com a Rússia e que o México ganha à Nova Zelândia por vários golos. Nesse caso, à entrada para a jornada das decisões, Portugal teria dois pontos, contra os quatro dos rivais, mas só precisaria de ganhar à Nova Zelândia por três golos para assegurar o apuramento. Isto, presumindo que México e Rússia empatavam, porque se um dos dois se impusesse no duelo, para ter a certeza da qualificação sem depender do que se passará à mesma hora em São Petersburgo, bastaria aos portugueses vencer os neozelandeses. Imaginemos, em contrapartida, que os mexicanos ganham à Nova Zelândia por apenas um golo – nesse caso, tudo se manteria, menos a necessidade de ganhar por três no último dia. Aí bastaria vencer os All Whites, bem menos poderosos do que os seus colegas All Blacks, do râguebi. Mas quer isso dizer que Portugal esteve bem frente ao México? Não. Portugal cometeu erros, demasiados erros. Primeiro, o selecionador adotou uma estratégia que acabou por se revelar errada – a exclusão de André Silva para permitir a entrada de Nani como tampão a Herrera não resultou bem, sobretudo por ter inibido a equipa do ponto de vista ofensivo (conforme pode ler aqui: http://bancada.pt/futebol/artigo/falta-andre-silva-a-ronaldo-para-se-ver-o-melhor-de-portugal). Depois, a equipa acumulou erros individuais, reveladores de que afinal há ali gente longe dos melhores momentos: Fonte teve dificuldades nas saídas e falhou no segundo golo mexicano, Guerreiro mostrou menos fulgor do que habitualmente, Moutinho voltou a ser uma sombra do jogador dinâmico que já se revelou, Nani não justificou nova aposta como segundo avançado… Tudo coisas que Fernando Santos pode pensar em emendar antes do jogo com a Rússia. Ainda que, bem feitas as contas, novo empate acabe por não ser assim tão mau. Foi o que o Europeu nos ensinou.
2017-06-19
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Chega-se ao dia de estreia numa grande competição e a tentação maior é a de descobrir a equipa com que Portugal vai começar. E as maiores dúvidas – únicas, na verdade – estão nas alas do meio-campo/ataque. Sem hipótese de ver os treinos, há que recorrer ao pensamento normal do selecionador, que nos conta duas histórias. Primeiro, e fundamentalmente, que com Santos costuma jogar um ala mais dado a labor de centrocampista e outro com mais caraterísticas de extremo, para que o 4x4x2 possa transformar-se com 4x3x3 sempre que a equipa assim o entender. E depois que cada um destes alas tem geralmente um corredor preferencial, sendo raramente tidos em conta para o lado oposto. É por isso que, se tivesse de responder agora, ainda sem qualquer informação privilegiada mas numa espécie de jogo do “MasterMind”, arriscaria dizer que Fernando Santos vai começar com Bernardo Silva à direta e André Gomes à esquerda. Nove-onze-avos da equipa que mais daqui a pouco vai defrontar o México está definida. São eles: Rui Patrício, Cédric, Pepe, José Fonte, Guerreiro, William, Moutinho, André Silva e, claro, Ronaldo. Restam depois os dois lugares nas alas. Aplica-se o primeiro princípio do “Santismo” e separam-se os seis jogadores que podem jogar nas alas em dois grupos. De um lado, por um dos lugares, lutam os que têm caraterísticas de terceiro médio: André Gomes, Pizzi, eventualmente Bernardo Silva. Do outro, pela outra vaga no onze, lutam os que têm caraterísticas de terceiro avançado: Nani, Quaresma, Gelson e eventualmente Bernardo Silva, que assume uma espécie de papel dúplice por força da ausência de João Mário. Quer isto dizer que, a não ser em situações de vantagem, dificilmente se verá um Portugal tão conservador que junte em campo Pizzi e André Gomes nas duas alas. Mas também será difícil que, exceção feita a momentos em que seja preciso ir à procura do golo, vejamos ao mesmo tempo uma equipa tão ofensiva a ponto de somar Quaresma e Nani nas alas, por exemplo. Aqui chegados, antes de se aplicar o segundo princípio do “Santismo” vai-se buscar o senso comum. E o senso comum diz-nos várias coisas. Que Gelson, por exemplo, ganhou o lugar à direita pelo que fez depois de entrar ao intervalo no particular contra Chipre, no qual Bernardo Silva tinha estado mais discreto, mas que depois não confirmou essa tendência de crescimento contra a Letónia em Riga. Que Quaresma entrou bem em Riga, mas que Santos gosta de o ter perto dele no banco, graças a essa capacidade rara que o extremo do Besiktas tem para entrar bem em qualquer jogo que não faz de início. E que Nani, um fixo desta equipa, estará a regressar ao melhor momento depois da lesão que lhe roubou protagonismo, mas ainda não confirmou esse crescimento em campo – e a concorrência na seleção nacional é cada vez mais dura. É à luz destes conhecimentos que deve aplicar-se então o segundo princípio do “Santismo”. E este diz que André Gomes e Nani jogam sempre à esquerda e que Pizzi, Bernardo, Quaresma e Gelson partem sempre da direita. Agora é aplicar a lógica “santista” e completar as vagas. Neste momento, antes de chegar ao estádio ou de ter contacto com alguém que saiba algo de concreto, diria que Portugal começará hoje contra o México com Bernardo Silva à direita e André Gomes na esquerda, ambos à procura do espaço interior, dando mais projeção aos dois laterais. Que, depois, se começar com Quaresma não joga Bernardo Silva. E se começar com Nani não joga André Gomes. Mas que me parece improvável que a equipa arranque na partida com dois extremos tão claramente pronunciados como são Quaresma e Nani, a somar a Ronaldo e André Silva, estes seguros na frente, pela complementaridade que asseguram e pelo rendimento que têm dado.
2017-06-18
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Se lhe pedirem uma comparação entre a seleção portuguesa que vai entrar na Taça das Confederações e a que, há um ano, se preparava para dar os primeiros passos no Europeu, a diferença é muito mais do que um estado de espírito, uma dose de confiança reforçada por um título internacional. A ideia geral – que era a minha também – é a de que a equipa chega a este ponto da temporada menos sobrecarregada em 2017 do que em 2016, quando apresentou vários jogadores “presos por arames”. Mas esta é uma teoria que não tem sustentação nos números. Fazem-se as contas e a diferença entre a utilização do plantel atual e a do de há um ano é menor do que a causada pela troca dos dois guarda-redes suplentes – além de crença e credibilidade, o que há agora é mais talento. E mais idade. Claro que as perceções gerais são sempre muito influenciadas pelos exemplos de topo. E nesta seleção não há ninguém acima de Cristiano Ronaldo, que na parte final da época em curso até foi poupado por Zidane a várias deslocações do Real Madrid, com o objetivo de poder estar em grande na fase decisiva da Liga dos Campeões. Disso poderá beneficiar também a seleção, mas a questão é que, tudo somado, entre clube e seleção, Ronaldo fez esta temporada mais um jogo competitivo – e mais 103 minutos em campo – do que os que tinha na bagagem antes de entrar no Europeu de 2016. São 51 jogos contra 50. Se há um ano tinha feito 36 jogos da Liga, 12 na Champions e dois na qualificação para o Europeu, desta vez soma 29 na Liga, 13 na Champions, dois no Mundial de clubes, outros dois na Taça do Rei e cinco na qualificação para o Mundial. Ronaldo, portanto, jogou mais este ano. Como jogaram mais Moutinho, Guerreiro, Cédric, William ou André Gomes, só para citar os que estiveram no onze inicial contra a Letónia e já tinham estado no Europeu. Entre estes, só Rui Patrício, Fonte e Bruno Alves vêm com menos competição do que há um ano, sendo que Gelson e André Silva são novidades. Tudo somado, os 23 convocados para a Taça das Confederações têm, na verdade, menos jogos na época do que os que tinham os 23 que estiveram no Europeu: são 918 jogos, contra os 948 que o plantel acumulava há um ano. Mas esta diferença – 30 jogos – é anulada se retirarmos da equação os dois guarda-redes suplentes das duas listas: há um ano, Anthony Lopes (47 jogos) e Eduardo (44) somavam 91 partidas competitivas, enquanto que este ano Beto (nove jogos) e José Sá (seis) só contabilizam 15. Quem a 91 tira 15 fica com 76, bem mais do que os 30 que são a diferença geral. O que a equipa deste ano tem é gente importante em melhor fase – Ronaldo e Moutinho não chegam em dificuldades –; mais talento no meio-campo e na frente – Pizzi, Bernardo Silva, André Silva e Gelson são acrescentos muito importantes, que permitem, por exemplo, prescindir sem grandes dramas de João Mário e Renato Sanches, um lesionado e o outro nos sub21 – e mais crença em jogadores com os quais Fernando Santos conta em absoluto mas que há um ano não eram bem vistos pela nação futebolística, como Cédric, Guerreiro ou André Gomes. E, no entanto, é preciso ter calma. No final do jogo com a Letónia, uma jornalista levou Fernando Santos a rir num misto de incredulidade e indignação quando lhe perguntou se ele estava em condições de garantir que Portugal ia ganhar a Taça das Confederações. A lógica do raciocínio parece simples, mas bem vistas as coisas é apenas simplista. Se a equipa está melhor do que a que foi campeã da Europa… Acontece que Portugal não está melhor em tudo. Precisa, por exemplo, de encontrar sangue novo para o centro da defesa, nem de propósito o setor da equipa onde os escolhidos tiveram menos competição este ano do que no anterior: Neto substituiu Ricardo Carvalho, enquanto que Pepe passou de 32 jogos para 22, José Fonte de 45 para 41, Bruno Alves de 43 para 39. Vai-se a ver e afinal o problema que esta seleção pode apresentar na Rússia não é o excesso de competição. Também não será a falta. A surgir, será antes aquilo que levou a essa diminuição: a idade de um setor ao qual a renovação vai tardando a chegar. Sim, a experiência conta muito e a Juventus fez a época que fez com três defesas centrais trintões. Mas no fim quem ganhou a Champions foi o Real Madrid.
2017-06-11
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A seleção nacional não foi brilhante em Riga, mas acabou por ganhar com naturalidade por 3-0 à Letónia, mantendo a pressão sobre a Suíça na corrida ao Mundial de 2018. A equipa não mostrou a mesma pujança que no particular frente a Chipre, por exemplo, mas a verdade é que o adversário era mais complicado, tanto por fatores ambientais como táticos. No fim, valeu a já tradicional aliança entre Cristiano Ronaldo e André Silva: dois golos do primeiro e um do segundo elevaram o total conjunto dos dois para 17 golos em cinco jogos e meio (CR7 faltou na primeira partida da qualificação), um rendimento de que não há memória em nenhuma dupla de pontas-de-lança da equipa nacional. Em Riga, Ronaldo marcou à terceira, depois de ver o guarda-redes Vanins negar-lhe o golo nos primeiros dois remates, que equivaleram às duas únicas situações de golo criadas pela equipa nacional na primeira parte. Surpreendida, não pela acumulação de gente atrás dos letões ou pela opção básica destes baterem a bola longa na frente para a corrida dos seus dois atacantes, mas mais pelo 5x3x2 do adversário, a equipa portuguesa tardou a entrar no jogo. A Letónia bloqueava bem o corredor central e, em vez de optarem pelo natural dois para um que podiam criar nas alas, os portugueses interiorizavam muitas vezes Gelson e André Gomes, abandonando os laterais à sua sorte. O resultado foi um jogo de muitos cruzamentos feitos de trás, que sem muita gente na área – o próprio Ronaldo recuava muito à procura do espaço entre linhas – eram muitas vezes pera doce para os corpulentos centrais letões. E até ao golo, quando já cheirava a intervalo, só duas iniciativas individuais de Ronaldo permitiram a Portugal ameaçar Vanins com alguma contundência. Em vantagem, Portugal tinha feito o mais difícil. Mas o jogo da primeira volta já tinha mostrado que um golo pode não chegar – nessa altura, depois de se colocar em vantagem e perder até um penalti, a equipa nacional permitiu o empate já a segunda parte ia a meio e teve até alguma fortuna na forma como respondeu tão rapidamente com o 2-1. Só o segundo golo podia evitar a administração de adrenalina a conta-gotas que este resultado ia fornecendo aos letões. E só com a entrada de Quaresma esse golo chegou: o extremo do Besiktas continua a ter essa rara capacidade para usufruir de uma festa mesmo chegando a meio e, certamente com indicações claras do treinador para abrir o jogo, ganhou a linha e, é certo que beneficiando de um desvio em Jagodinskis, deu o 2-0 a Ronaldo. A Letónia já assumira mais o 3x5x2 do que o 5x3x2, com o adiantamento permanente dos dois laterais para ir à procura do empate, e as limitações técnicas dos centrais na saída de bola acabaram por permitir a André Silva o terceiro golo, após pressão sobre Gorkss. Resultado feito, Portugal limitou-se a gerir até final. A cabeça, nessa altura, já estava na Taça das Confederações. E, vistas bem as coisas, esse decréscimo de rendimento que a equipa mostrou hoje nem terá sido assim tão mau. É que numa prova de média/longa duração jogada no final de época, como é a Taça das Confederações, entrar com muita força não costuma ser bom. Veja-se o que sucedeu há um ano no Europeu.
2017-06-09
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Chipre não é propriamente um adversário de enorme valor, o jogo era um simples particular, mas a vitória por 4-0 que Portugal conseguiu na preparação para a viagem à Letónia e para a Taça das Confederações deixou indicações positivas, algumas dúvidas e ainda uma curiosa preocupação. Os portugueses fizeram dois golos em cada parte, os dois primeiros beneficiando da inspiração de João Moutinho nos livres diretos, os dois últimos a premiar uma exibição mais bem conseguida do ponto de vista coletivo. Foi neste segundo período que a equipa mostrou coisas melhores, como a aceleração e a criatividade de Gelson, o critério de William na saída de bola ou a chegada de Pizzi à área. Tudo somado, leva à grande preocupação: é que, ao contrário do que sucedeu há um ano, a equipa está bem na entrada para a reta final da época. E, pelo menos nas competições como os Europeus e os Mundiais, isso não costuma ser bem. Falta ver como é na Taça das Confederações. Fernando Santos tinha dito que os campeões europeus não estão nunca em teste, mas a verdade é que têm de estar, quanto mais não seja por comparação com eles mesmos. Primeiro, porque é preciso deslindar a questão do onze titular. E se ao onze de hoje somarmos Pepe e Cristiano Ronaldo, já se vê que é preciso sacar de lá dois homens. Se depois verificarmos que o treinador fez algumas poupanças e muito mais experiências, não fica fácil entender quem vai começar em Riga, no final da próxima semana, ou muito menos quem vai arrancar na Taça das Confederações, daqui a duas semanas. William ou Danilo? João Moutinho ou Adrien? João Mário ou André Gomes? Nani, Bernardo Silva ou Gelson? Ou até Pizzi? Tudo questões de difícil resposta. Porque Danilo fez melhor época que William, mas a equipa respira melhor com este a pautar o jogo de ataque do que com aquele à frente dos centrais. Porque tanto Moutinho como Adrien tiveram esta época Ligas menos extenuantes, o que lhes permite chegar a Junho e disputar o lugar apenas com base na capacidade de cada um. E a coisa complica-se ainda mais quando se percebe que para Ronaldo entrar no onze, no lugar ontem ocupado por Nani – e a partir de meio da segunda parte por Pizzi – os dois terão de disputar vagas noutras posições. Se Fernando Santos persistir na ideia de compor o meio-campo a quatro com um extremo puro e um médio que permita os equilíbrios, a Nani resta disputar a vaga com Bernardo e Gelson, que foi dos três o melhor frente a Chipre, por ser capaz de ir para cima dos adversários e explorar as acelerações e o um contra um. Por outro lado, Pizzi, que foi dos médios o que evidenciou melhor chegada à área – sim, jogou no lugar que vai ser de Ronaldo e isso também conta – poderia bater-se com Moutinho e Adrien pela posição de segundo médio se Fernando Santos fosse mais arrojado, mas restar-lhe-á um lugar de suplente de luxo ou a disputa da vaga de médio-ala mais dado a cair no meio e a equilibrar atrás, em cuja órbita têm andado João Mário e André Gomes. No final do jogo, Fernando Santos dizia que não podia ter opções melhores do que as que teve no Europeu, porque Portugal ganhou o Europeu e os jogadores que lá estiveram foram “absolutamente brilhantes”. Mas a verdade é que o selecionador tem mesmo mais opções. E tem opções em melhor momento. A começar por Ronaldo, que foi poupado a muitos dos jogos do Real Madrid na ponta final da época para poder brilhar na Champions, não se veem neste grupo jogadores presos por arames, como se viam há um ano, antes do Europeu. E isso é bom. Mesmo que daqui por um mês possamos estar a dizer que a equipa chegou ao topo cedo demais para poder aguentar esse momento até à fase decisiva da Taça das Confederações.
2017-06-03
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A lista de convocados de Fernando Santos para a jornada dupla que a seleção nacional vai viver na primeira semana de Junho, contra Chipre e a Letónia, mas já com vista panorâmica para a Taça das Confederações, não saiu da linha habitual neste selecionador. Foi uma lista que pode ser vista como conservadora, com poucas mudanças relativamente à convocatória de Março, onde até a ausência de Éder é mais notícia no plano das emoções do que das razões meramente futebolísticas. Houve surpresas, sobretudo na baliza, mas a principal novidade do dia na Cidade do Futebol, onde Rui Jorge também anunciou a convocatória para o Euopeu de sub21, será em torno das dores de cabeça que os treinadores dos grandes terão quando quiserem começar a trabalhar a nova época. Mas olhemos primeiro para os AA. Comparando a lista hoje revelada por Santos com a que o selecionador nacional produzira para o último jogo competitivo da equipa, a receção à Hungria em Março, há apenas quatro ausentes: Marafona, que está lesionado, Varela, que na altura foi chamado de recurso para render o lesionado Anthony Lopes, Renato Sanches e Éder. Parte da explicação para estas alterações terá a ver com a recuperação de Nani e Adrien, que naquele mês estavam lesionados e agora recuperam o estatuto. Como alguém tinha de sair, acabaram por cair Éder (dois golos no campeonato francês desde o Ano Novo são ainda assim diferentes dos seis que fez na reta final da época passada e que o levaram ao Europeu) e Renato Sanches (apenas duas vezes titular do Bayern desde o Ano Novo, que dará o seu contributo aos sub21). O resto tem a ver com o regresso de Neto, defesa-central do Zenit com quem Santos quererá contar na Rússia, quando se jogar a Taça das Confederações. De ordem diferente serão as explicações para as alterações na baliza. Sem Marafona (lesionado) e Anthony Lopes (dispensado por motivos pessoais graves), Santos optou por recuperar Beto, que passou grande parte da época no banco do Sporting, e José Sá, que a fez no banco do FC Porto. À partida, ambos terão larga experiência recente naquilo que vão fazer, que é ocupar o banco, na reserva de Rui Patrício. Mas se é verdade que é possível encontrar uma lógica nestas chamadas – Beto já esteve em grandes competições internacionais, chegou mesmo a jogar no Mundial de 2014, e José Sá foi internacional sub21 e jogou um Mundial de sub20 – ela vem num sentido inverso ao de outras feitas pelo selecionador. E sobretudo vem acentuar o problema como que vão deparar-se os treinadores dos três grandes na altura de começar a trabalhar a nova época. Jorge Jesus, por exemplo, começará a treinar a 26 de Junho, porque o Sporting tem o play-off da Champions como data decisiva de toda a temporada, com os seus dois guarda-redes na Taça das Confederações. E os problemas de Jesus não acabam aí. Na medida em que é possível antever o plantel do Sporting para 2017/18, ele terá Rui Patrício, Beto, William, Adrien e Gelson na Taça das Confederações (possivelmente até 2 de Julho), Ruben Semedo, Francisco Geraldes, Podence, Iuri Medeiros e até possivelmente Tobias Figueiredo no Europeu de sub21 (até 30 de Junho) e ainda eventualmente Bryan Ruiz na Copa de Oro da Concacaf durante o mês de Julho. Como todos voltarão e ainda terão de gozar férias, isso quererá dizer que Jesus vai começar a trabalhar com mais de meia equipa que depois acabará por ter de ser colocada no mercado. Como será difícil a tarefa de quem quer que o FC Porto venha a escolher para suceder a Nuno Espírito Santo: José Sá, Danilo, André Silva, Corona, Herrera e Layún estarão na Taça das Confederações (e os três mexicanos poderão ainda jogar a Copa de Oro a seguir), da mesma forma que Ruben Neves estará nos sub21, acompanhado de jogadores sem presença garantida no plantel, como Tomás Podstawski, Fernando Fonseca e Gonçalo Paciência. Tendo menos gente envolvida, Rui Vitória não passa ao lado desta problemática, com Nélson Semedo, Pizzi, Jiménez e (se renovar) Eliseu na Taça das Confederações e João Carvalho no Europeu de sub21.
2017-05-25
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A consagração de Cristiano Ronaldo na Gala da FIFA, destinada a premiar o melhor jogador do Mundo em 2016, fez mais que confirmar uma supremacia do português sobre Messi no último ano, que a conquista da Bola de Ouro do France-Football, em Dezembro, já tinha antevisto. Em 2016, Cristiano não se limitou a reduzir o score, que ainda é favorável a Messi, por 5-4. Cristiano conquistou o terceiro troféu de melhor do Mundo nos últimos quatro anos, deixando bem evidente que, apesar de ser mais velho que o argentino, é ele quem está a envelhecer melhor. Apesar de jogar um futebol mais físico. Tendo em conta que os últimos nove anos só viram estes dois vencedores e que Ronaldo até chegou lá primeiro, sendo depois arrasado por quatro troféus consecutivos de Messi, esta retoma é mais do que parece. Argumentarão de um lado que as conquistas de CR7 se devem a momentos físicos menos conseguidos do argentino, mas isso não é forma de menorizar aquilo que Cristiano tem conseguido. Pelo contrário. Também ele tem tido lesões, mas a forma como trabalha permite-lhe superá-las, o seu espírito de sacrifício chega para que jogue e renda mesmo diminuído. E, ainda que a ausência de todo o grupo do Barcelona na gala de hoje não seja vista com o mesmo olhar crítico de que se revestiram as reações às faltas de Ronaldo e Mourinho na cerimónia de há cinco anos (quando as razões são as mesmas), o célebre “mau feitio” do português não o impede de fazer balneário e assegurar que as suas equipas ganham sem ele em campo – veja-se, a título de exemplo, o que se passou na final do Europeu. Sacrificado na gala foi Fernando Santos, cuja vitória com Portugal no Europeu teve muito de treinador, não só na estratégia que foi desenhando para cada jogo como ainda (e sobretudo) na forma como foi capaz de unir os 23 jogadores convocados em torno de um ideal, em tempo de extremismo faccioso no país. Fernando Santos acabou por ser apenas terceiro na votação para os treinadores, mas até isso pode ser compreendido. É que Zidane ganhou a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes depois de ter pegado nos cacos que Rafa Benítez deixara no Real Madrid. E Ranieri protagonizou apenas a maior surpresa do século no futebol mundial. Dir-me-ão que Ranieri não tem uma ideia, que não é treinador para estes palcos, que é muito mais o homem despedido da Grécia do que o campeão com o Leicester e eu até concordo. Mas aquilo que o homem fez com o Leicester merece ser assinalado.
2017-01-09
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A imagem de Cristiano Ronaldo de pé junto à linha lateral, ao lado de Fernando Santos, ambos a gritar instruções para dentro do campo, na final do Europeu, era uma espécie de prenúncio da presença de ambos na gala da FIFA, como candidatos a vencedores dos prémios de melhor jogador e treinador de 2016. Os méritos de cada um para lá chegar são, contudo, muito diferentes.A presença de Ronaldo a este nível é habitual e é seguro dizer que ele lá estaria na mesma se Portugal não tivesse ganho a final contra a França. A vitória nesse jogo, mesmo tendo em conta que, lesionado desde cedo, nesse dia ele pouco contribuiu em campo, será o empurrão final para que o português possa somar mais um título de melhor do Mundo à Bola de Ouro da France-Football, mantendo acesa a disputa com Messi para definir qual dos dois extra-terrestres é mais alienígena. O que Ronaldo ganhou nesse dia afasta-o do argentino num particular: mesmo jogando numa seleção potencialmente mais fraca, já a conduziu a um título internacional, coisa que Leo ainda não fez com a bem mais poderosa Argentina.A reeleição de Ronaldo como melhor do ano, porém, não se esgota ali. É feita dos números mais uma vez impressionantes de golos, da vitória na final da Liga dos Campeões com o Real Madrid e também, porque isso revelou uma dimensão diferente do craque, do que mostrou ao nível da liderança na fase final do Europeu. O incidente do microfone, no qual se viu um Ronaldo irado com críticas e a virar a ira para o lado menos produtivo – para os jornalistas – marcará uma diferença entre o Ronaldo egocêntrico e o Ronaldo coletivo. A partir daí, o que se viu foi um CR7 que não se importava de se sacrificar em prol da equipa, que colocava o resultado final da seleção à frente do seu destaque pessoal na forma de lá chegar. A presença do craque ao lado de Fernando Santos na linha lateral no calor da disputa com a França ilustra aquilo que foi bem mais profundo: o compromisso entre os dois. E aí começa a explicar-se a entrada de Fernando Santos no lote dos que vão lutar pelo título de treinador do ano.Porque há muitas formas de ter êxito como treinador. O povo fala de táticas, o analista junta a estratégia, não há quem negue que o estar rodeado dos colaboradores certos tem muita importância, mas não há nada mais decisivo do que ser capaz de tirar o melhor de cada jogador. Fazer que cada um assuma na primeira pessoa o compromisso com o coletivo. Foi isso que Fernando Santos teve a arte de conseguir. E foi por isso que saiu de França com o título de campeão da Europa.
2016-12-28
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A seleção nacional completou com a vitória frente à Letónia o último compromisso previsto para este ano de 2016, dando a sensação de que tem tudo para ganhar sempre até à decisiva partida com a Suíça, daqui a onze meses, na qual definirá se vai direto ao Mundial de 2018 ou se tem de passar pelo play-off. O jogo do Algarve não foi brilhante, pode até defender-se que os 4-1 finais, sendo justos, não espelham a incerteza de que o resultado chegou a rodear-se, mas basta olhar para a totalidade de recursos de que esta equipa dispõe para se entender que ela nunca pode ficar fora do Mundial. Não é por ser campeã da Europa. É por ter tantas e tão boas soluções para quase todos os problemas que possa vir a enfrentar. Todos menos um: a necessidade de se transformar numa equipa avassaladoramente ofensiva quando a oposição baixa de nível mas é, mesmo assim, suficientemente competitivo para criar problemas, como a Letónia ou a Hungria. O jogo com a Letónia, quem acabou por ajudar mais a resolvê-lo foi Quaresma, com os dois cruzamentos para os dois golos com que a equipa respondeu de imediato ao problemático empate dos letões, a 20 minutos do fim. Mas é inevitável reparar que a seleção acabou o jogo com João Cancelo, André Silva e Gelson, todos eles jovens que não estiveram no Europeu de França e que demonstram que a renovação continua a ser feita e está assegurada pelo filão permanente que são os sub21 de Rui Jorge. Além disso, em campo também estiveram Guerreiro, William, André Gomes, João Mário ou Renato Sanches, todos eles ainda com muitos anos pela frente na equipa nacional. Ronaldo pode até ter noites menos felizes – e apesar dos dois golos e das duas bolas nos ferros o jogo de ontem esteve longe de ser perfeito para ele – que a equipa acaba por encontrar o caminho e chegar às vitórias. Pela frente, Fernando Santos tem agora quatro meses sem competição até ao jogo com a Hungria, uma espécie de primeira pré-eliminatória para definir em que condições a equipa chega à decisão final com a Suíça (a segunda será a viagem a Budapeste, que os suíços até já venceram). E apesar de eu estar convencido de que os suíços ainda vão escorregar pelo menos uma vez até ao último dia (e tanto a receção à Hungria como as duas saídas às Ilhas Faroé e à Letónia podem servir), o fundamental mesmo é a equipa nacional entender que não pode falhar e precisa de repetir o percurso sem faltas que completou na última qualificação depois do arranque em falso que foi a derrota com a Albânia. Desta vez a derrota foi frente ao outro candidato à qualificação e isso complica as contas, mas a maior preocupação do selecionador nem será provavelmente essa. Será sim o facto de esta equipa nem sempre estar a conseguir jogar coletivamente com a qualidade que os seus componentes poderiam justificar e de numa fase de qualificação nem sempre poder impor a estratégia do contra-futebol que lhe valeu na fase final do Europeu. Olhando para o plantel jogador a jogador, Fernando Santos tem mais de duas soluções de qualidade para cada posição e poderia até sentir-se tentado a construir uma equipa com uma filosofia diferente. Uma equipa mais dominadora, que soubesse corresponder aos pedidos de maior “velocidade” e predominância atacante, seria seguramente mais eficaz numa fase de qualificação. E a verdade é que Portugal tem jogadores para a construir. Depois corria era o risco de se transformar numa espécie de Inglaterra, a melhor equipa do Mundo em fases de apuramento e uma desilusão permanente nas fases finais, porque não sabe mudar o chip quando a oposição sobe de nível. E isso também não seria nada bom.
2016-11-14
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Passei grande parte do Portugal-Letónia a achar que a seleção nacional estava a jogar pouco por dentro e a procurar com demasiada frequência os dois corredores laterais, onde era quase sempre travada em situações de inferioridade numérica. No final, Fernando Santos veio à sala de imprensa reclamar que a equipa insistiu demais no jogo interior e que devia ter ido mais vezes à procura dos corredores laterais. E no entanto ambos queríamos dizer o mesmo: que a seleção estava a cair onde não tinha condições para criar situações de desequilíbrio e que por isso o seu futebol entrou em bloqueio atacante. O jogo com a Letónia acabou por se resolver nos corredores laterais, com a entrada de Quaresma. Só então, com o extremo do Besiktas de um lado e Gelson do outro (e mais tarde Ronaldo, quando o capitão encostou à esquerda e mandou o ponta sportinguista mais para dentro) Portugal começou a ter presença suficiente nas alas. Porque até aí Cancelo e Guerreiro tinham estado sempre muito abandonados, em virtude dos constantes movimentos interiores de João Mário e Nani, e eram quase sempre apanhados em momentos de um para dois com as duas duplas de duplas laterais que o adversário tinha, uma de cada lado. Se a bola chegasse à ala com rapidez suficiente para apanhar os adversários ainda a bascular, a mudar de um lado para o outro, até podiam criar lances de perigo, mas isso não era a norma. Na verdade, havendo adeptos de um jogo mais interior e outros de um futebol com mais largura, não creio que seja possível estabelecer a superioridade de uma das opções sobre a outra em abstrato. O que é importante é apenas e só a coerência. E se Fernando Santos queria jogo exterior, o erro foi ter entrado com dois alas que a cada oportunidade que tinham para o fazer vinham para dentro. A equipa só começou a ser ameaçadora no momento em que teve em campo gente capaz de executar a ideia escolhida pelo treinador: extremos flanqueadores para jogo exterior. E o problema não era de Nani e João Mário - a coisa também poderia resultar com os dois, desde que se mudasse a ideia e se apostasse mais nas tabelas entre as linhas do opositor para as penetrações pelo corredor central. É essa capacidade para dançar conforme a música que torna esta equipa forte e dá ao treinador garantias de que pode bater-se com qualquer adversário com chances reais de lhe ganhar. Desde que o faça com coerência.
2016-11-13
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Fernando Santos fez o seu papel ao alertar para as dificuldades que a seleção da Letónia pode vir a colocar a Portugal, mesmo (e sobretudo) tendo exagerado nas qualidades que atribuiu ao adversário. De resto, por tudo aquilo que têm dito durante a semana, também os jogadores parecem conscientes da realidade: este é um jogo que só pode ser para ganhar, tão grande é a diferença de qualidade entre as duas equipas. E mesmo tendo eu a convicção de que a Suíça acabará por perder pontos em alguma curva do caminho, a qualificação de Portugal decidir-se-á lá mais para a frente, no duplo confronto com a Hungria, marcado para Março e Setembro, antes de se jogar o fundamental Portugal-Suíça, no último suspiro da qualificação. Neste domingo, contra uma Letónia que ganhou a Andorra mas perdeu em casa com as Ilhas Faroe, uma seleção que já ficou em último lugar no seu grupo de qualificação para o Euro’2016 – ainda que empatando cinco dos dez jogos, quatro deles fora de casa, por exemplo frente a Islândia, Turquia ou Rep. Checa – Portugal tem tudo para ganhar. Não são a falta de Pepe, o desaparecimento da veia goleadora de Ronaldo no Real Madrid ou as dúvidas acerca do homem que o acompanhará no ataque que vão impedir a equipa nacional de somar mais três pontos e manter a pressão sobre a Suíça. Acredito que José Fonte e Bruno Alves chegam para o ataque letão, que a equipa pode manter dois laterais muito ofensivos, voltar a jogar sem médio centro posicional, colocar Nani numa das alas e entregar o centro de ataque a Ronaldo e André Silva e ganhar com tranquilidade mais três pontos. A batalha desta equipa, porém – e uma batalha que ela começou a ganhar no duplo confronto com Andorra e as Ilhas Faroe – é consigo mesma e passa por convencer-se que estas facilidades de calendário não podem implicar perdas de concentração ou divergências entre o discurso de empenho máximo que os jogadores vêm apregoando e a prática. Porque, repito, apesar de não acreditar que a Suíça possa chegar à última jornada com o pleno de vitórias – só a Inglaterra o fez na última qualificação, enquanto que nos grupos de apuramento europeu para o Mundial de 2014 ninguém cometeu tal proeza – aquilo que Portugal tem de fazer é repetir a caminhada 100 por cento vitoriosa que se seguiu ao arranque perdedor na última qualificação. E sobretudo tem de convencer o país de que é capaz de o fazer, para poder tê-lo às costas nos momentos decisivos. É por isso também que Fernando Santos diz o que diz. Porque isso é o que os jogadores precisam de ouvir neste momento.
2016-11-12
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A alta competição tem-se tornado tão exigente, com um ritmo alucinante de jogos, que cada vez mais me convenço que só um milagre da genética que além disso é um fanático do trabalho e da recuperação, como Cristiano Ronaldo, pode estar ao mais alto nível durante uma década e meia. Entre os outros, os “mortais”, os inícios precoces começam por trazer vantagens mas depois acabam por acarretar custos. Pode até nem ser o caso de João Moutinho, mas lá que parece, isso parece. Além do talento indesmentível, da responsabilidade e de uma capacidade de trabalho e de compromisso em campo muito acima da média dos seus colegas, uma das maiores vantagens competitivas de João Moutinho sempre foi o facto de ter entrado na equipa principal do Sporting aos 18 anos e de, logo na época de estreia, se ter convertido num dos esteios de um onze que, com José Peseiro, chegou à final da Taça UEFA. É a competir que os jovens mais crescem e muitas vezes o facto de encontrarem esse espaço competitivo desde a mais tenra idade faz toda a diferença: veja-se, a título de exemplo, a importância do regresso das equipas B para a crescente afirmação das seleções nacionais de sub21. Isso pode é pagar-se com juros, como parece estar a suceder com o médio algarvio do Mónaco, mais uma vez lesionado e por isso mesmo fora da lista de Fernando Santos para o jogo de Portugal com a Letónia. É uma fase? Talvez. Tem a ver com a estadia no Mónaco, principado cujo glamour já tem na lista de baixas uma série de outros grandes jogadores mundiais? Quem sabe… João Moutinho terá ainda muito para dar ao futebol nacional, mas a forma penosa como passou pelo último Europeu, lutando a cada jogo com dificuldades físicas que o impediam de ser o equilibrador a que a equipa estava habituada, permite que se pense nos custos a pagar por uma carreira que, apesar dos 30 anos do jogador, já vai longa. Por alguma razão, depois da época de estreia no Sporting (26 jogos, em 2004/05), Moutinho esteve sempre acima dos 40 jogos por ano até chegar ao Mónaco, em 2013. E tirando esse ano de estreia em França, com a equipa fora das competições europeias, só na época passada voltou a baixar essa barreira que separa os gigantes competitivos dos outros. É que o conta-quilómetros não pára e no panorama atual da seleção nacional, com tantos médios de grande capacidade, só o melhor Moutinho pode bater-se por um lugar no onze.
2016-11-03
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Portugal goleou Andorra por 6-0, numa noite que ficará para a história da seleção e de Cristiano Ronaldo, autor de quatro golos que igualam o recorde de concretizações num só jogo da equipa nacional, até então pertença de Eusébio, Pauleta e Nuno Gomes. A partida serviu a Fernando Santos para começar a emendar o passo em falso dado com a derrota na Suíça, na jornada inaugural, mas não chega para alimentar euforias, não só porque Andorra é uma seleção demasiado fraca para ser tida em conta, como também porque os suíços complicaram as contas nacionais, ganhando na Hungria por 3-2 e superando com o pleno de pontos o obstáculo mais complicado que tinham antes da deslocação a Portugal. O jogo de Aveiro teve pouca história, porque Portugal marcou dois golos nos primeiros quatro minutos, ambos da autoria de Cristiano Ronaldo, que assim assinou o bis mais rápido de sempre na equipa nacional. A questão da atribuição dos pontos ficou logo ali resolvida, mas para a tibieza da reação andorrenha contribuiu igualmente o facto de os visitantes terem jogado os últimos 20 minutos com nove homens, devido a duas expulsões nascidas de um jogo persistentemente faltoso com que tentaram travar a equipa lusa. Fosse por excesso de empenho físico enquanto puderam dá-lo ou devido a um atraso constante na chegada à bola quando começaram a acusar a fadiga, os pupilos de Alvarez foram sendo fustigados com amarelos que lhes retiraram qualquer hipótese de construir jogadas de ataque e permitiram a Portugal acabar o jogo com várias unidades atacantes em campo ao mesmo tempo: Ronaldo, Quaresma, Gelson, Bernardo Silva, André Silva, João Mário e João Moutinho terminaram todos o jogo em campo, numa equipa que já só tinha três defesas e podia ter dispensado o guarda-redes, tão desprovida de sentido foi a permanência entre os postes de um sempre desocupado Rui Patrício Este foi, ainda assim, um jogo com várias pequenas histórias. Foi a história do recorde de golos num só jogo da seleção, que Ronaldo igualou mas podia bem ter superado, não tivesse ele passado os últimos 20 minutos de jogo longe da área, devido a um toque mais violento que sofreu por essa altura. Mas foi também a história do primeiro golo de André Silva na seleção, uma finalização longe de ser brilhante, que beneficiou de um desvio num defesa adversário, mas que nem por isso ou por ele ter perdido antes dois cabeceamentos com selo de golo tira vontade de o ver mais vezes ao lado de Ronaldo, pela forma como trabalha para libertar o capitão de amarras e da necessidade de jogar de costas para a baliza, como referência do ataque. A primeira experiência da dupla foi boa, mas tal como acerca da titularidade de Cancelo na defesa, exige observação mais cuidada perante um adversário de um nível de exigência mais alto para se formarem opiniões mais definitivas. E foi ainda a história da estreia de Gelson na seleção principal, entrando nos últimos 20 minutos para acelerar a equipa – quis o destino que a entrada do extremo leonino coincidisse com a lesão de Ronaldo e a redução de Andorra a nove homens, o que mudou o jogo. Nesses últimos 20 minutos, contra nove, Portugal só fez um golo – o sexto, de André Silva. Até aí tinha feito cinco, que completam a história do que se passou em Aveiro. Ronaldo marcou o primeiro aos 2’, sendo mais rápido a erguer-se que Rebés após uma defesa do guarda-redes Gomez para a frente, e juntou-lhe o segundo logo aos 4’, respondendo da melhor forma a um excelente cruzamento de Quaresma. Portugal entrou nessa altura numa fase de menor fulgor, com vários passes perdidos, nascidos da desconcentração de uma equipa à qual tudo parecia demasiado fácil. João Cancelo, em lance individual, fez o 3-0 pouco antes do intervalo, mas a equipa voltou melhor para o segundo tempo, provavelmente acordada com a insatisfação de Fernando Santos. Ronaldo fez o quarto aos 47’ numa belíssima finalização em volei após cruzamento tenso de André Gomes, e o quinto aos 68’, acorrendo de pé esquerdo a um desvio de José Fonte. Igualado o recorde e com mais de 20 minutos por jogar, esperar-se-ia que ele o batesse, mas foi aí que o capitão recuou no campo e a equipa assumiu o objetivo de dar a André Silva o seu primeiro golo internacional. Fê-lo já perto do final, compondo o resultado e deixando toda a gente à espera de ver o que trará o jogo nas Ilhas Faroe. Mais dificuldades, certamente.
2016-10-08
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Portugal é campeão da Europa e ganhou o campeonato jogado em França há menos de três meses com sangue novo no onze e sobretudo nos 23, pelo que mencionar a hipótese de renovação é sempre complicado e sujeita quem levantar o dedo para falar a levar como resposta que ela já está a ser feita. Mas as equipas renovam-se. Mesmo as que ganham. E as melhores renovações são aquelas que nem precisam de debate. É por isso que nem o facto de a taça ainda não ter acumulado pó suficiente para justificar que se lhe passe o pano inibiu Fernando Santos de chamar André Silva ao grupo na viagem à Suíça. E que se tudo correr dentro da normalidade o duplo confronto com Andorra e as Ilhas Faroe pode motivar mais três ou quatro adições ao grupo: Gelson Martins, Pizzi, Ruben Semedo e Nelson Semedo. Parece-lhe demasiado? Olhe que não. Sabia por exemplo quantos jogadores Luiz Felipe Scolari mudou entre a equipa que chegou às meias-finais do Mundial de 2006 e a que foi à Suíça jogar o Europeu de 2008? Foram 12. E acha que foi porque aquela seleção já era veterana e por isso era necessário pensar em renovação? Olhe que se engana. Porque em 2010, no momento de convocar para o Mundial da África do Sul, Carlos Queiroz mudou outros 12 nomes nos 23. E em 2012, quando fez a sua lista para o Europeu da Polónia e da Ucrânia, Paulo Bento voltou a fazer muitas mudanças – se arriscou vaticinar que foram doze, acertou em cheio. O doze não é nenhuma espécie de número mágico para esta conversa, mas serve de referência para que julguemos que a partir desse momento a equipa entrou numa espécie de estagnação. Paulo Bento só mudou sete homens na lista que elaborou para o Mundial do Brasil, em 2014, e face à pobreza dos resultados todo o país passou a achar que ele foi conservador demais. Fernando Santos voltou ao ritmo anterior, mudou onze convocados para 2016 e a seleção ganhou o Europeu. Quer isto dizer que, em condições normais, André Silva não será a única novidade de Portugal na fase final do Mundial de 2018 – se, como se espera, a seleção lá chegar. Já se viu que o ponta-de-lança do FC Porto tem qualidade para a equipa nacional, embora ainda não tenha sido possível testar algo que defendo desde antes do Europeu – que ele é o parceiro ideal para o Ronaldo dos dias de hoje na frente de ataque, porque faz tudo o que o CR7 deixa por fazer. Pressiona sem bola, dá profundidade, luta no corpo-a-corpo, o que já de si vem tornar algo irrelevante se faz poucos ou muitos golos. E ele por acaso até tem feito muitos. Esta semana, Jorge Jesus veio apresentar formalmente mais uma candidatura à próxima convocatória de Fernando Santos. Disse o treinador do Sporting que não há no futebol português nenhum jogador com as caraterísticas de Gelson Martins e tem razão, porque Gelson alia a criatividade de Quaresma em situações de um para um à velocidade que já vai faltando ao Mustang do Besiktas e que entre os mais jovens atacantes nacionais só se encontra, por exemplo, em Rafa. É uma mistura de tal forma explosiva e que foi de tal modo impactante, por exemplo, no Santiago Bernabéu, quando o Sporting lá defrontou o Real Madrid, que estranho seria que Fernando Santos se privasse de a ver em ação. Acontece que não é por ter tido o seu treinador a fazer lobby por ele que Gelson terá de estar sozinho como novidade na próxima convocatória. Pizzi continua a ser, juntamente com João Mário, o melhor médio nacional a articular jogo exterior com jogo interior. Se com Jesus jogava no corredor central – foi a resposta possível à saída de Enzo Pérez a meio de uma época –, com Rui Vitória o transmontano tem sido sempre o médio-ala que mais frequentemente usa o cérebro para se juntar aos colegas do corredor central quando é necessário restabelecer equilíbrios. Entre os médios portugueses, só João Mário o faz melhor, pelo que custa a entender que continue a ser deixado de parte quando se juntam os melhores executantes nacionais. Como custará entender que Ruben e Nelson Semedo fiquem fora da próxima lista. O lateral do Benfica, vigoroso na forma como enche todo o corredor direito, pode até esbarrar no facto de haver boas opções para a sua posição entre os campeões da Europa, mas o central do Sporting, veloz e forte no desarme e na antecipação como mais nenhum outro jogador da sua geração, até ocupa a posição mais necessitada de renovação na equipa campeã europeia. Ricardo Carvalho, aos 38 anos, está sem clube; Bruno Alves (34), Pepe (33) e José Fonte (32) também já não vão para novos, pelo que parece mais ou menos evidente que em 2018 haverá pelo menos um novo central português no Mundial. A ideia é dar-lhe rodagem.
2016-09-26
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A seleção nacional falhou o regresso à competição depois de ter ganho o Europeu de França. Fez uma partida fraca e um mau resultado na Suíça, de onde saiu vergada a uma derrota por 2-0 que pode complicar bastante um grupo de qualificação onde só o primeiro classificado se apura para o Mundial. Os golos suíços surgiram separados por apenas sete minutos, entre os 23' e os 30', em dois erros individuais, que até deram força ao que Fernando Santos vinha dizendo nos últimos dias: Portugal perdeu por não ter sabido jogar feio quando isso se impunha. Na primeira parte, a Suíça não foi à baliza de Patrício vezes suficientes para justificar o 2-0 com que chegou ao intervalo. E no entanto fez os dois golos, contra zero de Portugal, fruto dos tais erros. No primeiro, o livre de Rodriguez seguiu em curva, mas nem a defesa de Patrício foi perfeita (para a frente) nem a reação de Cédric foi boa: olhou só para a bola e perdeu a referência de Embolo, que chegou à recarga mais depressa. No segundo, a desorientação foi maior: William e Moutinho permitiram que Mehmedi saísse com bola de uma situação de inferioridade numérica e lançasse na esquerda, de onde Seferovic fez uma devolução que, outra vez, William e Moutinho não impediram se tornasse em concretização fácil por parte do mesmo Mehmedi.  Os dois golos sublinharam a falha de Portugal naquilo que vinha sendo a especialidade desta seleção (o jogo de concentração defensiva, o anular das armas do adversário a que se tem chamado "feio") e punham fim a uma entrada forte da seleção. Até aos 20 minutos, altura em que baixou a intensidade de jogo, o meio-campo de Portugal tinha mandado no jogo, com jogo de posse bem conseguido e permanente disponibilização dos dois laterais. Éder e Bernardo Silva já tinham estado perto do golo, mas o 2-0 mudava tudo. Prevendo (e bem) que o adversário recuaria, Fernando Santos apostou num jogador de área (André Silva) e num médio mais dado ao jogo criativo (João Mário), em vez de Éder (que precisa de mais espaço) e William. A equipa passou para um 4x4x2 que lhe assegurou, outra vez, o domínio do campo, perante uma Suíça muito recuada, mas sofria para criar situações claras de golo. Havia sempre muitas pernas entre o remate e a baliza. Só a entrada de Quaresma forneceu à seleção capacidade para criar os necessários desequilíbrios na faixa lateral que, seguidos de cruzamento, permitiam finalizações em situações flagrantes. O extremo do Besiktas deu a Nani uma bola de golo, mas o cabeceamento deste não saiu bem e acertou no poste. Morria ali a última hipótese de Portugal pontuar no seu jogo de arranque e complicava-se o panorama da qualificação. Falta ver o que fará esta Suíça, mas o caminho não se afigura tão fácil como acabou por ser o da recuperação após a falsa partida no apuramento do Europeu de 2016. 
2016-09-06
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Fernando Santos aproveitou o jogo de consagração da seleção nacional após a vitória no Europeu para fazer um treino ofensivo a que a goleada a Gibraltar (5-0) não faz justiça. Logo à partida porque os cinco golos ficam muito aquém da produção atacante da equipa nacional, que deixou pelo menos mais uns três golos cantados por marcar. E depois porque a equipa de Gibraltar se revelou tão incapaz de pôr o campeão europeu à prova, mal entrando até no meio-campo de Portugal, que o jogo não podia correr de outra forma. Mesmo assim, e mesmo tendo em conta que o jogo de terça-feira, com a Suíça, em Basileia, não terá nada a ver com este, Santos diz que tirou do que viu no relvado do Bessa algumas conclusões. Sem Cristiano Ronaldo, o selecionador abdicou do 4x4x2, indo a jogo com o 4x3x3 mais tradicional da seleção nacional, mas no final do jogo afirmou que a segunda parte, no regresso ao 4x4x2, mostrou maior diversidade de opções atacantes. É verdade que sim, mas não foi a isso que se deveu o facto de Portugal ter feito quatro dos seus cinco golos no segundo tempo. Isso teve mais a ver com o cansaço dos adversários ou a maior qualidade dos serviços feitos por Bernardo Silva face à noite mais desinspirada de Quaresma ou ainda com uma maior presença de médios na área - e aí sim pode haver alguma influência de movimentos mais bem construídos. A verdade é que o jogo de Basileia vai ser lançado em bases diferentes. Em vez de ser sujeito ao desconforto de jogar sempre dentro da área, onde se notam mais as suas dificuldades nas finalizações ao primeiro toque e sem espaço, Éder vai ter mais bolas para surgir embalado ou para ganhar num corpo-a-corpo como o que lhe deu o golo na final do Europeu. Nani, autor dos dois primeiros golos de Portugal - a passes de Bruno Alves e Bernardo Silva - estará na mesma como peixe na água, dependendo o sistema que a equipa adotará da escolha entre o jogo de linha e Quaresma ou um jogo mais interior de Bernardo. Com tudo certo a meio-campo (Moutinho está melhor que no Europeu e William em bom momento), as maiores dúvidas para terça feira estarão na posição de lateral direito, onde Cancelo marcou a estreia com um golo (o terceiro) e se chegou à frente. O problema é a propensão ofensiva do lateral direito do Valencia, adequada para a equipa de Gibraltar mas arriscada quando o adversário é a Suíça.
2016-09-01
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E agora, para algo completamente diferente... Portugal ganhou o campeonato da Europa, vencendo a França, a quem não ganhava há 41 anos, em Paris, onde nunca uma equipa portuguesa tinha ganho um jogo de competição, sem Cristiano Ronaldo em 95 dos 120 minutos, por lesão prematura, e com um golo de Éder num remate do meio da rua. Quais eram as probabilidades de isto acontecer? Mínimas. Mas a vitória, conseguida no prolongamento, depois de duas grandes mudanças no xadrez tático e no seguimento de um jogo em que a capacidade de sofrimento foi o argumento principal para contrariar um adversário sempre mais perigoso do ponto de vista ofensivo e mais possante nas manobras pelo meio do campo, acaba por premiar uma equipa que foi isso mesmo: uma equipa, um coletivo indestrutível e inexpugnável. Portugal não ganhou muitos jogos – nos 90 minutos, aliás, só ganhou um – mas não perdeu nenhum em dois anos de competição. E fê-lo utilizando sempre toda a profundidade do seu plantel, acabando por fazer de uma maior frescura física na final uma arma fundamental para melhor controlar a França. O jogo começou muito difícil para Portugal. Fernando Santos manteve o 4x1x3x2, mas o 4x2x3x1 da França deixava os médios portugueses com falta de referências para o seu habitual jogo de encaixe. William tentava preencher a área à frente dos centrais, onde caía preferencialmente Griezmann, mas depois com Renato Sanches e João Mário abertos nas alas, Adrien sofria face a Pogba e Matuidi. O médio português tentava subir em pressão, mas os seus esforços eram regra geral infrutíferos, pois mesmo que encostasse em alguém acabava atropelado pela maior pujança dos opositores. Giroud, cujo futebol dependia sempre mais dos cruzamentos, estava controlado por dois centrais intratáveis no jogo aéreo, mas a França era capaz de lançar vaga sobre vaga de ataque fruto das arrancadas dos homens que chegavam das linhas atrasadas. O primeiro remate até foi português, quando Cédric descobriu uma diagonal de Nani e este lhe deu depois de controlar no peito, mas depois a França tomou conta do campo e bem podia ter chegado ao golo. Uma recuperação alta permitiu a Griezmann chutar à rede lateral de boa posição (aos 7’) e, pouco depois (aos 10’) foi Rui Patrício que, com uma defesa magistral, impediu o Bota de Ouro da competição de marcar de cabeça. Até que se deu o golpe de teatro. Magoado numa entrada de Payet, Ronaldo teve mesmo de sair do campo aos 25’, depois de ter tentado o regresso com um joelho ligado. Fernando Santos chamou Quaresma, mas a equipa não piorou, sobretudo porque o treinador a reorganizou, trocando o 4x1x3x2 por um 4x3x3 que permitia a Portugal encaixar no meio-campo francês. Com Renato mais por dentro, a manter Matuidi em sentido, Adrien passava a ter de ocupar-se “apenas” de Pogba. E o problema aí passaram a ser as movimentações de Sissoko, um monstro de disponibilidade física, que ganhava todos os duelos que disputava. Foi Sissoko, aliás, quem voltou a estar perto do golo, quando aos 34’ se livrou de Adrien e chutou para mais uma excelente defesa de Rui Patrício, neste período o garante do zero na baliza de Portugal. A partir deste momento, porém, com o encaixe tático, a França já só ameaçava em movimentos individuais, fossem eles de Pogba, Sissoko ou Coman, que entrara para o lugar de Payet com o intuito de alargar o campo e forçar o um para um com Cédric. E apesar de Griezmann ter voltado a perder uma ocasião clara, cabeceando ao lado após centro de Coman, Portugal parecia agora mais confortável no jogo. E mais confortável foi ficando com as trocas de Adrien, esgotado, por Moutinho, e sobretudo com a saída de Renato por Éder, dando mais coerência ao 4x3x3 da seleção. Nani, que estava no centro do ataque, muitas vezes a ser alvo de impossíveis bolas aéreas, passou para a direita, deixando a Éder a missão de jogar de costas para a baliza; Quaresma mudou para a esquerda e João Mário baixou para o meio-campo, onde rende muito mais do que como extremo. E assim que chegou ao flanco direito, Nani mostrou o que podia fazer: cruzamento-remate para grande defesa de Lloris, que deteve também a recarga acrobática de Quaresma (aos 80’). A França já tinha então trocado de ponta-de-lança, inserindo em campo Gignac, que pelo jogo de pés e pela forma como defende a bola com o corpo, era muito mais difícil de controlar que Giroud. E GIgnac esteve mesmo à beira de sentenciar a final, já em período de descontos: trabalhou bem sobre Pepe e, na cara de Patrício, chutou ao poste. Aqui, foi a sorte a proteger Portugal e a levar o jogo para um prolongamento onde, no entanto, a equipa nacional já foi melhor, mostrando que a profundidade do plantel é muito importante numa competição-relâmpago como esta: não só Portugal utilizou mais jogadores (só não jogaram os dois guarda-redes suplentes), como mudou cinco titulares da abertura para o encerramento (contra apenas dois da França) e até teve onze dias para fazer os últimos três jogos, enquanto a França desenhou o calendário para os fazer em oito dias. Com Ronaldo empenhadíssimo na motivação dos companheiros antes do prolongamento, a equipa portuguesa entrou melhor nesta fase do jogo, muito fruto da capacidade de luta e de ganhar faltas mostrada por Éder. Didier Deschamps ainda não tinha feito a última substituição quando Raphael Guerreiro acertou na barra num livre direto (aos 108’) que deixara Lloris completamente batido. E já se preparava para colocar em campo Kanté, um médio de contenção, quando Éder inventou o golo da vitória: saiu da esquerda para o meio, foi ganhando espaço e acertou um pontapé forte do meio da rua que fez a bola entrar no canto inferior da baliza francesa. Com onze minutos para jogar, Portugal colocava-se em vantagem. Até final, a ideia foi resistir e vinha bem sonora do banco, onde Ronaldo estava híper-ativo, saindo frequentemente da área técnica e mais parecendo um treinador pela forma como ia gritando para dentro do campo. Deschamps emendou a substituição e fez entrar Martial, mais um homem de ataque, mas a França já não voltou a conseguir criar as situações de perigo que tivera no tempo regulamentar. E no fim foi Ronaldo quem ergueu a taça, lançando a festa em Portugal e em todo o local onde há portugueses.
2016-07-11
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A equipa. Não restam muitas dúvidas nem entraves ao consenso. Portugal foi evoluindo à medida que a competição foi avançando e terá encontrado o seu onze de gala na fase decisiva. Hoje o onze titular deve ser igual ao que bateu Gales, com as entradas dos dois jogadores que nessa altura estavam impossibilitados de jogar: Pepe (lesionado) e William (castigado). A seleção deve assim entrar de início com cinco jogadores que começaram a prova como suplentes: Cédric, José Fonte, William, Adrien e Renato. Não tendo sido propositado, esse fator acaba por funcionar a favor da equipa portuguesa, que soma a esse menor peso da prova nas pernas o dia-extra de repouso que estranhamente a equipa organizadora cedeu ao adversário no desenho do calendário. A esperança portuguesa é a de que isso venha a ser decisivo. A estratégia. Portugal é uma equipa difícil de contrariar, porque é uma espécie de camaleão do ponto de vista estratégico. Nunca se sabe muito bem como a equipa vai entrar em campo, porque ela se centra tantas vezes na melhor forma de contrariar o adversário e tão poucas numa identidade própria. Foi assim nos três jogos que a seleção já fez a eliminar nesta prova. Hoje, a estratégia portuguesa pode passar por duas ideias fortes: impedir que as movimentações de Griezmann e Payet se tornem letais no espaço central e não deixar que Pogba e Matuidi empurrem o bloco para perto da baliza de Rui Patrício. Muito se vai jogar, portanto, no meio-campo, sendo que a mobilidade dos jogadores de segunda linha franceses não aconselha a que Portugal mantenha as referências individuais que tem vindo a utilizar com frequência – fê-lo, por exemplo, com a Croácia ou a Polónia. Se o que interessa é controlar as movimentações de Griezmann, há que manter William posicional à frente dos defesas, mas não lhe dar ordens para ir atrás dele, porque se o espaço vaga aparece lá Payet, vindo da esquerda. Se Payet não é tão perigoso pelas idas à linha de fundo para cruzar ou pela largura, mas sim pelas diagonais da esquerda para o meio, há que ter Renato Sanches a fechar esse espaço, permitindo-lhe até que se junte muitas vezes a Adrien mais por dentro, de forma a igualar o duelo com Pogba e Matuidi. Se Pogba e Matuidi gostam de chegar perto da área, de empurrar a equipa para a frente, há que ganhar-lhes as costas, seja através da saída de bola de William, da explosão de Renato, de tabelas com Adrien ou de desmarcações de apoio de Nani ou Cristiano Ronaldo. O jogo. A França vai ter mais bola. Isso parece evidente à partida, ainda que Portugal chegue a esta final com maior percentagem de posse que os donos da casa (53% contra 52%). A chave do jogo para Portugal vai, por isso, estar em grande parte nos comportamentos sem bola, na forma como a equipa for capaz de fechar os espaços, mas também nos momentos de transição ofensiva. A zona central da defesa francesa melhorou com a entrada de Umtiti para o lugar de Rami, mas ainda é a mais vulnerável no jogo francês, pelo que as movimentações de Ronaldo e Nani podem vir a ser fundamentais. O mais certo é Deschamps acabar por pedir aos seus laterais que joguem muito perto dos centrais, sobretudo no lado mais longínquo do campo, para evitar situações de dois para dois que podem ser potencialmente perigosas. Mas onde tudo vai decidir-se é mais atrás, na capacidade que Portugal vier a ter (ou não) de queimar as linhas francesas em contra-ataque. O favoritismo. A França entra como favorita. Fez um Europeu mais convincente, joga em casa e ganhou os dois particulares que fez contra Portugal nos últimos dois anos. O que se jogou aqui, no Stade de France, foi mesmo a estreia de Fernando Santos e começou de forma trágica para uma equipa portuguesa que foi completamente atropelada nos primeiros minutos. Mas isso não quer dizer que ganhe. Esta equipa portuguesa é muito difícil de derrotar. Basta olhar para os últimos dez anos. Em fases finais (2006, 2008, 2010, 2012, 2014 e agora 2016), descontando a meia-final de 2012, resolvida nos penaltis, Portugal só perdeu seis jogos: quatro vezes com a Alemanha (no jogo pelo terceiro lugar de 2006, nos quartos-de-final de 2008, na fase de grupos de 2012 e 2014), uma com a França (na meia-final de 2006), uma com a Espanha (oitavos-de-final de 2010) e outra com a Suíça (num jogo irrelevante de 2008, que a seleção jogou com vários suplentes). Dessas seis derrotas, duas foram contra a equipa da casa e outras duas contra o futuro campeão. Mau agoiro para o jogo de hoje? A tradição e o desdém. Diz o registo histórico que Portugal não ganha à França há 41 anos. Desde que a bateu em Paris, em 1975, num jogo particular. Mas Fernando Santos tem sido pródigo em acabar com as tradições. Foi assim quando Portugal ganhou à Itália como assim foi quando bateu a Argentina. Isso pesa zero no que há-de acontecer mais logo. Como zero pesa o facto de todos os analistas franceses acharem que Portugal não joga nada e que a França ganhará facilmente. É no campo que vai ver-se.
2016-07-10
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Lembram-se da seleção de 2004? Pois bem, não tem nada a ver. Ou melhor: tem um ponto de contacto: ambas chegaram a uma final. Mas para se perceber por que razão aquela equipa foi capaz de convocar bandeiras nas janelas de tantos portugueses e esta continua a ser olhada de lado pela generalidade dos que julgam que sabem de futebol é preciso recorrer a mais justificações do que a capacidade de marketeer de Luiz Felipe Scolari, a abundância face à escassez atual de estrelas no onze ou o facto de aquele Europeu ter sido disputado em casa e portanto mais próximo das emoções nacionais. É, fundamentalmente, uma questão de foco. Aquela equipa começava os jogos a pensar nas maneiras de chegar ao golo, de seduzir, esta começa-os a pensar nas maneiras de evitar que os adversários lá cheguem, de anular. Mas dizer que aquela jogava enormidades e que esta não joga nada é uma parvoíce que só mesmo no país das vitórias morais pode ouvir-se e ser aplaudida. Porque como dizia Chris Coleman no final do Portugal-Gales, “há mais de uma maneira de ganhar um jogo de futebol”. Afinal de contas o que é jogar bem? Um dos primeiros que vi abordar essa questão foi Jorge Valdano, no Europeu de 1996. Escreveu-o acerca de Portugal, no “caderno” que publicava no El Pais, lançando a euforia no contingente de jornalistas portugueses ainda pouco habituados a verem a sua seleção nas fases finais. Eu sei, porque estava lá e também babei com o elogio internacional. “Jogar bem é tocar a bola, entendendo que cada lugar do campo tem a sua velocidade e a sua dificuldade. Todos a tocam e se oferecem…”, começava por definir o treinador argentino. Depois de passar detalhadamente por cada contributo, concluía. “Pode ser golo ou não, ganharão ou perderão, mas no fim dos jogos ingleses, espanhóis, italianos e búlgaros coincidem no veredito: ‘Maravilhoso!’ Ah sim? Então não me perguntem mais o que é jogar bem. É isto”. E no entanto aquele Portugal não ganhou. Ficou nos quartos-de-final. Jogava bem? Sem dúvida, mas não era eficaz. Não fazia golos que alimentassem tanto futebol. A questão em torno da equipa de Fernando Santos não é tanto a de saber se joga bem ou mal. Este Portugal joga bem, porque o faz de forma coerente com as suas ideias. Não joga é bonito. É a equipa estrategicamente mais bem montada de todo o Europeu. O que se aponta ao selecionador nacional? Que não começou com o melhor onze, guardando jogadores como Cédric, Fonte, Adrien, William ou Renato para segundas oportunidades. É verdade. Mas, mesmo sem acreditar que isso tenha sido propositado, alguém pode garantir que se eles têm entrado de início estariam agora em condições de dar à equipa o contributo decisivo que têm dado? Um Europeu é uma prova super-intensa, com sete jogos em menos de um mês, e nesse aspeto Portugal foi brilhante, arrancando lento e utilizando os 20 jogadores de campo baseado na convicção de que seria preciso fazer muita asneira para ficar eliminado na primeira fase. Mais acusações? Que Portugal joga muito em função dos adversários. Também é verdade. Mas a forma como a equipa foi montada nos jogos com a Croácia ou Gales, por exemplo, esteve perto da perfeição. Contra a Polónia esse espírito de antagonismo exacerbado foi longe demais e a ideia que ficou foi a de quem nem os próprios jogadores perceberam bem como era suposto jogarem, pelo menos até ao momento em que o treinador simplificou a fórmula em que, até pela dificuldade de pronunciar os nomes dos adversários, estes eram referenciados pelos números. Mas o modo como Adrien anulou Modric e Allen, os organizadores de jogo croata e galês; o modo como o mero posicionamento de Ronaldo impediu a Croácia de sair tantas vezes como quereria pela direita, através de Srna; o modo como João Mário e Renato Sanches fecharam as linhas de passe interior aos laterais galeses, impedindo-os de conectar com o resto da equipa quando se projetavam no ataque, tudo isso roçou o brilhantismo estratégico. Lembram-se do que disse Coleman lá mais acima? Há mais do que uma maneira de ganhar jogos de futebol. E, ao contrário do que aconteceu em 1996, agora a maneira de Portugal é esta. E atenção, que isto não quer dizer que esta seleção seja a nulidade ofensiva e de espetacularidade que os mais desatentos possam ficar a pensar. Portugal é a terceira equipa com maior média de remates por jogo: 18,6, apenas atrás da Inglaterra e da Bélgica. É a quarta com mais cantos a favor: 7,5 por jogo, mais uma vez apenas atrás de Bélgica, Inglaterra e Espanha. Está um pouco pior na percentagem de posse de bola, mas mesmo aí só há sete equipas mais agarradas à iniciativa, e nem todas são exemplos de sucesso: Alemanha, Espanha, Inglaterra, Suíça, Ucrânia, França e Hungria superaram os 53% lusitanos. Seria isto possível com uma equipa que estivesse no Europeu apenas para se defender? Não creio. O que há é uma mudança de paradigma resultante da extinção da geração de ouro, mas que já estava bem à vista de quem a quisesse observar, por exemplo, no último Europeu de sub-21. Foi a jogar assim que os portugueses ganharam por 5-0 à Alemanha, por exemplo. E o país não se queixou. É verdade que o futebol desta equipa é pouco atraente. Em comparação com o que jogava a de 2004, parece até vir de uma escola diferente. E a questão é que não vem de uma escola diferente, mas sim de uma realidade diferente, com menos jogadores de top mundial. Será preciso recordar que em 2004 a base da equipa era o FC Porto que acabara de ser campeão europeu e que o maior contingente na atual seleção vem do Sporting, que não ganhou sequer o campeonato nacional? Ou que há muito tempo que Portugal não fazia tantos jogos com tanta gente da Liga nacional em campo? Na meia-final lá estiveram Rui Patrício, Danilo, João Mário, Adrien e Renato Sanches. Nos quartos-de-final somaram-se-lhes Eliseu e William. E aqui chegados, o argumento simplifica-se. Olha-se para o sorteio e conclui-se que esta equipa tem tido é muita sorte. Pois é. Que chatice! Isso é que não é nada português. In Diário de Notícias, 08.07.2016
2016-07-08
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Portugal entra na meia final do Europeu, contra Gales, na condição de favorito mas com a noção das dificuldades que terá de enfrentar. A poucas horas do jogo, Fernando Santos já terá escolhido a equipa que vai fazer jogar, tendo para isso superado algumas dúvidas que a mim ainda me assaltam. Têm a ver com gestão física do plantel, com escolhas técnico-táticas e até com a estratégia a adotar face às particularidades do adversário. As respostas à frente são as minhas. As de Fernando Santos ficam para mais perto do jogo. O que fazer se não houver Pepe? Evidentemente, terá de avançar outro defesa-central. A escolha mais óbvia pode ser Bruno Alves, por várias razões. Porque é um jogador tão impetuoso como Pepe (até mais, provavelmente) e isso não é de desprezar face a uma equipa como Gales. Porque depois da asneira que fez em Wembley também ele sente que deve alguma coisa a esta equipa e isso poderá reforçar-lhe o empenho e a concentração. E finalmente porque esta é a forma de o selecionador provar uma coisa que já afirmou vezes sem conta: que esta equipa não são onze, são 23. Ora além dos dois guarda-redes suplentes, é Bruno Alves o único que ainda não jogou neste campeonato. Quem substitui William Carvalho? Vai ser Danilo. Aqui não há grandes dúvidas. Será um estereótipo – ainda por cima errado – dizer que Gales joga como a Inglaterra ou como a Islândia. Não joga. Esta não é uma equipa de “kick and rush”. Aliás, a Inglaterra não joga como a Islândia e isso percebeu-se na forma como Danilo fez uma exibição excelente em Wembley mas depois isso não lhe chegou para ser mais do que sofrível contra os islandeses. De qualquer modo, mesmo sem a capacidade de William para lançar jogo, para arriscar nos primeiros passes, Danilo é quem melhor cumpre a posição de pêndulo à frente da defesa na ausência do titular. E sim, em caso de necessidade, pode aparecer melhor como auxiliar dos centrais de forma a condicionar os movimentos sem bola de Bale. Se o tiver em condições, Fernando Santos deve arriscar Raphael Guerreiro? Sim. Mesmo que perceba que se o colocar a jogar hoje corre riscos elevados de não o ter na final. É verdade que a gestão da condição física de Raphael Guerreiro tem levado o treinador a alterná-lo entre a relva e a bancada e que basta somar um mais um para perceber que esse risco existe. E que qualquer adversário que Portugal venha a ter numa eventual final colocará problemas mais difíceis de resolver que Gales na meia-final. Tudo isso poderia levar o treinador a pensar em poupar o titular da posição no lado esquerdo da defesa. Mas a única realidade que Portugal tem certa pela frente neste momento é a meia-final. Para haver final, é preciso lá chegar. E para isso há que colocar em campo os que mais garantias derem hoje. Qual é o melhor meio-campo para o jogo de hoje? Esta é a pergunta de mais difícil resolução, uma vez que todos os jogadores que têm vindo a ser chamados em vez dos titulares têm dado boas respostas. Havendo André Gomes e João Moutinho em condições, não deixa de haver Adrien Silva, João Mário e Renato Sanches. Certo é que só há três lugares disponíveis para estes cinco jogadores. Aqui, Fernando Santos tem de tomar decisões com base no que viu nos últimos jogos e nas caraterísticas da equipa adversária. Ora, com estes jogadores, dificilmente Portugal pode apresentar um meio-campo em 4x4x2 clássico, porque além de João Mário não tem quem seja capaz de jogar como médio-ala clássico. A questão é que, como Gales procura sobretudo os laterais na profundidade, isso pode acarretar um problema defensivo na largura para qualquer meio-campo em losango, sobretudo se nas alas estiverem jogadores de menor predisposição defensiva, como Renato Sanches e João Mário. Ainda assim, a melhor opção parece-me ser o regresso ao losango, com uma alteração: com Danilo atrás e Renato à frente, na posição que Santos costuma entregar a João Moutinho, dando-lhe indicações para investir na pressão sobre a saída de bola adversária. Assim, Portugal poderia manter Adrien como interior, a tentar condicionar Joe Allen, e João Mário (ou Moutinho, se preferir um jogador mais forte defensivamente) do outro lado. E como é que isso afeta a dinâmica de Gales? A saída de bola de Gales é geralmente feita por Ashley Williams ou com recurso à baixa de Joe Allen, mas com os dois laterais projetados nas alas, à procura de situações de dois para um com os laterais adversários potenciadas pelo apoio de um dos médios. Com a pujança de Renato na pressão ao central responsável pela saída de bola e Adrien Silva a condicionar Allen, como fez com Modric, Santos obrigaria os galeses a mudar: ou Allen baixava demasiado para pegar no jogo e depois faltava na frente, ou a saída teria de ser mais segura, com os laterais menos projetados no ataque. Aí, Nani e Ronaldo também têm uma palavra a dizer. Não se desgastando em infrutíferas (ainda que vistosas) ações de pressing, mas ocupando o espaço de forma a condicionar o jogo do adversário, como Ronaldo fez, por exemplo, contra a Croácia, quando conseguiu impedir as saídas pelo lado de Srna simplesmente procurando a meia esquerda em momentos de transição defensiva. E Quaresma? Que papel tem reservado? É verdade que o facto de Gales jogar com três centrais poderia levar Portugal a apostar num 4x3x3, deixando-os sem referências óbvias e condicionando também assim a ação dos laterais. Aí, Chris Coleman teria de optar: ou transformava o seu habitual 3x4x2x1 em 5x2x2x1 e perdia força ofensiva nas alas ou arriscava mantê-lo e quase jogava um para um na última linha defensiva. Só que isso também teria implicações na estratégia de Portugal. Quem jogaria no “três” de meio-campo? Danilo, Adrien e Renato? E quem sobraria no banco para dar uma volta ao jogo se isso vier a ser necessário? Só Rafa? Quaresma tem funcionado melhor a sair do banco que a jogar de início. E fazê-lo compreender isso, que as equipas não têm só onze titulares, tem sido uma das maiores vitórias de Fernando Santos.
2016-07-06
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Gerir uma equipa, todos o sabem mas muitos tendem a esquecê-lo, é mais do que escolher um onze e decidir as substituições. Muito mais do que isso. Gerir uma equipa é sobretudo gerir os egos que coexistem num balneário, aspeto que ganha ainda mais preponderância quando se joga uma fase final de um Europeu ou de um Mundial, no qual 23 jogadores com pretensão a estrelas e centro do Mundo em que vivem têm de viver em conjunto dia e noite. E ainda que nem sempre tenha estado de acordo com as opções de Fernando Santos na escolha dos onzes, na sua arrumação em campo, nas substituições que foi fazendo, neste particular tiro o chapéu ao selecionador nacional e à sua navegação à vista. Portugal não joga um futebol espetacular do ponto de vista atacante, não é sequer uma equipa defensivamente coriácea como era a Grécia de 2004, mas tem grupo. E isso nota-se tanto mais quanto mais se radicalizam as críticas aos que esperavam ver Ronaldo decidir os jogos e entendem mal o Europeu que ele está a fazer. Quando Cristiano Ronaldo falhou o penalti que podia ter dado a Portugal a vitória contra a Áustria, passou-me pela cabeça que o facto não tinha necessariamente de ser mau para a seleção nacional. O apuramento para os oitavos-de-final haveria de se conseguir com mais ou menos brilho, com maior ou menor dificuldade, e aquele momento era o que faltava para equilibrar a relação de poderes no balneário. A partir daquele penalti, Ronaldo desceu à Terra e passou a sentir-se em débito para com os colegas. Algo a que ele não está habituado na seleção, porque do que se fala sempre é de Ronaldo-dependência, é de uma equipa que ele carrega aos ombros com o seu brilho individual. E se a melhor coisa para a seleção numa fase final seria, de longe, ter o Ronaldo de Outubro/Novembro, meses em que ele se apresenta no auge do seu rendimento desportivo, a segunda melhor é ter um Ronaldo consciente de que tem de ser mais um a empurrar quando o coletivo disso necessitar. E aquilo que se viu daí para a frente foi diferente. Contra a Hungria, preocupado em ser mais coletivo, em decidir mais em prol do grupo que do seu próprio protagonismo, Ronaldo foi premiado com dois golos. Frente à Croácia, trabalhou sempre para o grupo: pressionou, prendeu os centrais e não pôde rematar senão aos 117’, no lance que acabou por dar o golo a Quaresma. Finalmente, no jogo com a Polónia, não tendo decidido sempre bem – ainda chutou uma vez de ângulo apertado quando podia facilmente ter dado o golo da vitória a João Mário – voltou a ser o primeiro defesa e a sacrificar-se na posição central de que tão pouco gosta porque era disso que a equipa precisava. No final, Fernando Santos dedicou-lhe algumas palavras, destacando o papel que ele desempenhou. O selecionador sabe que tem ali um caso especial, que precisa de afagar o ego a Ronaldo quando antevê esses carinhos não chegarão da comunicação social ou de adeptos mal habituados, mas daí não vem nenhum mal ao Mundo nem ao grupo. E a diferença entre este comportamento do CR7 e o “Perguntem ao Carlos!” com que ele pontuou a deprimente prestação portuguesa no Mundial de 2010 é por demais evidente e sintomática de como a gestão de um grupo é mais importante numa fase final do que a tomada de decisões táticas. Não foi por acaso que, mesmo nunca lhe tendo dado muitas oportunidades, o selecionador falou também do tempo que passou com o ainda adolescente Ricardo Carvalho no FC Porto quando agora o relegou para o banco. Ou que a estrutura da seleção tanto se esforça para controlar danos na comunicação com os jornalistas sempre alguém sai da equipa. Faz parte. Porque a verdade é que esta seleção é mais limitada do que muitas das suas antecessoras, mas para quem vê de fora parece ter mais grupo. Tem um Quaresma que aceita o seu papel de joker com um sorriso nos lábios e não deixa de ser decisivo. Tem um Renato Sanches que não deixa que o “hype” à volta das suas prestações lhe destrua a vontade de aprender. Tem um Adrien Silva que mesmo depois da excelente prestação contra a Croácia vem dizer que não ficaria surpreendido se voltasse ao banco. A foto de Renato e Adrien abraçados no seguimento do golo de Quaresma à Croácia é um exemplo daquilo que deve ser o espírito de seleção, indiferente às tonterias de radicalismo clubista que vêm sendo ditas e escritas um pouco por todo o Portugal. E se muitas vitórias são alcançadas graças a momentos de inspiração individual de alguns jogadores, nesse resultado o papel de quem gere este grupo não é irrelevante. In Diário de Notícias, 02.07.2016
2016-07-02
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Quando Portugal dominou a Islândia e a Áustria e viu as hipóteses de vitória esbarrar nas deficiências de finalização, a reação do país foi mais ou menos esta: "que nabos! Nem sequer sabem chutar à baliza!" Agora que a seleção teve menos bola e menos remates que a Croácia mas acabou por ganhar o jogo, o país também não gostou: "que nabos! Jogaram como uma equipa pequena e tiveram uma sorte monumental!" Na verdade, este debate não interessa a ninguém. Portugal nunca foi tão mau como querem fazer crer estes radicais da análise ou os que se lhes opõem, vendo sempre o copo meio cheio. Mas há no desafio com a Croácia, o jogo em que Portugal teve menos bola e fez menos remates nos últimos dois anos, base para se lançar outro debate: qual é o futebol que mais convém a esta seleção de Portugal? Porque até é muito possível que seja este jogo mais passivo que se viu frente à Croácia.Tradicionalmente, o futebol português dos últimos 40 anos evoluiu a partir da escola pedrotiana, privilegiando a posse mas sofrendo para entrar nos 30 metros finais. Por causa disso ou da timidez de alguns treinadores, criou-se a convicção de que Portugal tinha de jogar sobretudo em contra-ataque, condenando toda uma geração bastante talentosa a um futebol pequenino que teve como expoente o massacre a que a seleção foi submetida em Estugarda, onde ganhou à RFA e se apurou para o Mundial de 1986. A ideia de que Portugal tinha de jogar assim, lá atrás, só foi posta em causa mais tarde, pela geração de ouro. Os Figos, os Ruis Costas, os Paulo Sousas, os Baías ou os Joões Pintos perceberam que não só podiam como deviam mandar nos jogos. E criou-se a ideia oposta, segundo a qual Portugal tinha de mandar nos jogos, ter sempre uns 60 por cento de posse e ser esmagador na estatística de remates. A equipa do Europeu de 2000, mais tarde aperfeiçoada até se chegar a 2006, com Cristiano Ronaldo, foi o melhor exemplo deste novo paradigma do futebol nacional.A questão é que não só o futebol mudou como mudaram os melhores jogadores portugueses. O futuro, com a tomada do poder pelas gerações que têm brilhado nas seleções de sub21, pode até devolver a seleção nacional a uma realidade com mais posse - ainda que o futebol da equipa que perdeu o último Europeu da categoria nos penaltis não pareça indicar essa direção - mas o presente é o de uma equipa que sofre para transformar um jogo mais dominador em vitórias por falta de um ponta-de-lança que liberte Ronaldo e ao mesmo tempo garanta golos com regularidade. Acaba por ser isso que leva os observadores a falar em Ronaldo-dependência ou na obsessão do capitão pelos golos, o que ao mesmo tempo é a razão que permite que esta equipa consiga algum sucesso com táticas assim tão conservadoras. Tivesse a equipa de 1984 um Ronaldo para jogar com Jordão e Chalana e seria campeã a jogar maioritariamente em ataque organizado ou em contra-ataque sem grandes problemas. Tivesse a equipa atual a profundidade de escolhas para a posição de ponta-de-lança que tinha a de 1984 (Jordão, Gomes, Nené e ainda Manuel Fernandes, que ficou em casa) e também poderia dar-se ao luxo de optar por uma ideia ou outra em vez de ouvir Ivkovic dizer que Portugal não tem uma ideia de jogo.Na verdade, a seleção de Portugal vive numa dúvida permanente. Deve ouvir os otimistas que não se cansam de dizer que temos uma seleção de enorme qualidade e que "ganhar a jogar à Grécia" é uma vergonha? Ou deve reconhecer que, por falta de um atacante que sirva de referencia e por ser forçada a jogar ali com o CR7, tirando-o do jogo, precisa de unir o bloco, baixar linhas e aproveitar os momentos de contra-ataque que os jogos (todos os jogos) oferecem? O que está a dizer-nos este Europeu é que mais vale a segunda opção. Com a Croácia, Ronaldo, que tinha sido o mais rematador dos portugueses nos três desafios anteriores, teve de esperar 117 minutos para ter a primeira oportunidade de visar a baliza adversária. Mas ao contrário do que sucedeu contra a Islândia ou a Áustria, quando a teve foi decisivo. O que nos disse o jogo de Lens foi que, com este Ronaldo, sem ter um ponta-de-lança que permita fixar o futebol da equipa mais à frente, e mesmo sabendo-se que isso não traz um crescimento tão consolidado a nenhuma equipa como um futebol mais burilado e envolvente, Portugal parece condenado ao um modelo mais baseado no agrupamento atrás e na rapidez e profundidade nas suas transições. O problema é que a Polónia também gosta de jogar assim.
2016-06-27
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Uma equipa nunca é um esforço acabado. É sempre um projeto em construção. Porque há sempre flutuações de forma, parcerias e incompatibilidades que convém ter em conta. Onze Maradonas não fariam uma boa equipa e esta é uma noção difícil de assimilar por quem vê futebol olhando só para os momentos em que as equipas têm a bola. No jogo contra a Hungria, muitos adeptos ficaram maravilhados com a forma como Renato Sanches e João Mário se associaram para furar as linhas adversárias. Também gostei. Mas não vi quem se preocupasse com o facto de nesse período de jogo – a segunda parte – Portugal ter permitido que o jogo partisse, que se transformasse num exercício de sucessivos contra-ataques e ataques rápidos e se tornasse absolutamente impossível de controlar. No final, Fernando Santos concordou que resolver esse puzzle é acertar na resposta à questão do milhão de euros. Olhemos para os 23 jogadores à disposição de Fernando Santos. Há ali escolhas que são tão óbvias que nem vale a pena discuti-las – ainda que também haja quem o faça. Se vamos fazer um onze, há que começar por esses. Joga Cristiano Ronaldo porque é o melhor de todos e saca truques de magia como os dois golos de quarta-feira. Joga Nani porque, ainda que me pareça que não está com 90 minutos ao mesmo nível, é o mais inteligente e coletivo a jogar de todos os atacantes nacionais (só Rafa lhe pede meças neste particular). No jogo com a Hungria, quem sabe se por sentir o peso da responsabilidade do penalti falhado no jogo anterior, Ronaldo também pareceu menos ansioso, vendo mais a equipa, como se prova no facto de ter feito a assistência para o primeiro golo nacional em vez de ter procurado a solução individual. Olhando mais para trás, joga Rui Patrício porque é o melhor dos guarda-redes presentes, jogam Pepe e Ricardo Carvalho porque formam uma dupla complementar, experiente e de qualidade (ainda que Rircardo me tenha parecido menos fresco no último jogo e talvez seja exigir demais dele que faça mais uma partida já no sábado). Presumindo que se joga com quatro defesas, à esquerda era bom que pudesse jogar Raphael Guerreiro, que fez dois jogos bem melhores do que o de Eliseu ante a Hungria. E à direita, francamente, não tenho desgostado assim tanto de Vieirinha a ponto de justificar a mudança. Não é um lateral de grande brilho, mas ocupa a posição e no que mais sofre é quando caem bolas aéreas na sua zona. Se podia jogar Cédric? Creio que sim, também. Mas não vejo nenhuma razão forte que justifique a sua entrada para enfrentar o croata Perisic, apenas um dos melhores médios-esquerdos deste Europeu. Desde logo se percebe que o busílis da questão é o meio-campo. Mas também aqui o rendimento dos jogadores não deixa muita margem de manobra a Fernando Santos. Tem de jogar William porque é o único médio-centro que dá saída de bola à equipa. Tem de jogar João Mário, porque tê-lo em campo é garantia de posse de bola inteligente e desequilibradora ao mesmo tempo. E o que já vi de Renato leva-me a crer que tem de jogar também ele, porque é o único médio nacional capaz de meter explosão desde trás. A questão é que, como já se viu frente à Hungria, William, João Mário e Renato não podem jogar os três no meio-campo em 4x3x3 – o que desde logo remete Quaresma, por exemplo, para o papel de arma secreta que ele tão bem desempenha. E não, a solução não passa por trocar William por Danilo, porque não é sequer claro que este defenda melhor do que aquele: o que faz, isso sim, é encostar mais aos centrais e protegê-los, mas isso deixa Portugal sem o volume de jogo necessário quando a equipa tem a bola. Jogar em 5x5 (cinco a defender e cinco a atacar) não se usa em lado nenhum no futebol moderno. Além disso, esse tal futebol explosivo – “selvagem”, como dizia Rui Vitória – de Renato Sanches é uma fonte permanente de desequilíbrios ofensivos e defensivos, razão pela qual ele só apareceu ao meio em situações nas quais Portugal procurava desesperadamente o golo. Para já, o lugar dele é na ala. O lugar ao meio só pode ser de dois jogadores: Moutinho ou Adrien. E aqui Fernando Santos tem de procurar o equilíbrio. Moutinho ataca melhor que Adrien; Adrien defende melhor que Moutinho. Não sou eu que o digo. São as estatísticas. Se Portugal joga com André Gomes, que ocupa melhor o espaço defensivo que Renato Sanches, deve jogar com Moutinho, para que este chegue mais à frente. Se isso não está a funcionar e chama Renato Sanches, que estica mais o jogo e sai mais da posição, tem de chamar Adrien, que equilibra melhor atrás. Não sei se é esta a resposta à pergunta do milhão de euros, mas pelo menos ela ainda não foi tentada. In Diário de Notícias, 24.06.2016
2016-06-24
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O complicado esquema que desenha o calendário deste Europeu leva ao calculismo. Se procuram as razões para os jogos estarem a ser tão pouco espetaculares, aí a têm: fazem-se muitas contas. Hoje, por exemplo. Quando entrar em campo, a Hungria já está qualificada. Portugal sabe que lhe basta empatar a zero. Mais. Portugal sabe que se empatar a zero tem a certeza de se qualificar em terceiro lugar e calhar na metade mais favorável do quadro daqui para a frente, com a Croácia nos oitavos-de-final, o vencedor do Suíça-Polónia nos quartos e Gales, a Hungria, a Bélgica (em princípio, ainda que também possa ser a Suécia) ou um dos terceiros classificados da primeira fase nas meias-finais. Se ganhar, em contrapartida, corre o risco de a Islândia também ganhar e acabar o Grupo F em segundo lugar, entrando na metade do quadro que tem a Itália, a França, a Alemanha e a Espanha. Perante isto, a tentação de fazer contas deve ser grande, mas francamente preferia que Portugal entrasse no jogo para ganhar. Ainda assim, percebo que haja quem pense de outra forma. Recordo as histórias que se contam acerca do Mundial de 1986. Na altura os Mundiais também se jogavam com 24 equipas e apuravam os quatro melhores terceiros classificados para os oitavos-de-final (um sistema que já se provou ser prejudicial para a qualidade dos jogos). À entrada para a última jornada, um empate qualificava Portugal e Marrocos e, diz-se, da comitiva marroquina, cujo treinador era brasileiro, tinha chegado uma mensagem a apelar ao empate e não se falava mais disso. José Torres, conta-se, terá feito o que tinha de fazer e disse que não senhores, que Portugal ia entrar para ganhar. No fim, a seleção perdeu por 3-1 e voltou a casa imediatamente. Pessoalmente, entre histórias tristes, prefiro recordar outra. Em 2002, Portugal jogava com a Coreia do Sul em Incheon e, face aos dois golos que a Polónia fez nos primeiros cinco minutos aos Estados Unidos, ficou desde logo mais ou menos claro que o empate qualificava as duas equipas, mas os coreanos nunca desistiram de procurar uma vitória que satisfizesse o seu público. Acabaram por conseguir o golo que eliminou Portugal a 20 minutos do fim, por Park-Ji Sung, já com os portugueses reduzidos a nove jogadores. Claro que todas estas conjeturas vêm reforçar a tentação de fazer contas à medida que se retira a carga dramática de que um jogo deste cariz deveria estar revestido. A saber que precisa apenas de empatar, o que deve fazer Fernando Santos? Um onze mais recatado, com regresso ao 4x4x2 e sacrifício de uma das unidades da frente? Isso, creio, sucederia fosse qual fosse a história deste jogo. Um onze sem os jogadores que já viram o cartão amarelo no jogo com a Áustria – Quaresma e Pepe – de forma a garantir que estarão aptos para os oitavos-de-final? Tenho mais dúvidas, porque creio que Quaresma sairia do onze de qualquer modo e é difícil à seleção abdicar de Pepe, o mais reputado dos seus defesas-centrais? Um onze no qual não se arrisca a utilização dos jogadores que sofrem de mazelas físicas – Raphael Guerreiro e André Gomes – de forma a não correr riscos de as agravarem? Julgo que sim, que se aplicará o mesmo princípio que já foi válido com Quaresma na partida inaugural. De qualquer modo, a composição do onze depende muito do que Fernando Santos quiser do jogo. E isso, repito, não é claro.
2016-06-22
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Há uma razão acima de todas as outras para que o futebol seja muito baseado em triângulos: é que quando estamos num dos vértices, podemos desenhar o triângulo independentemente do lado que escolhermos. Uma das justificações fundamentais para a melhoria do futebol da seleção nacional no jogo contra a Áustria foi a construção de um triângulo a meio-campo. Outra foi o facto de a Áustria ter dado um pouco mais de espaço. Outra ainda foi a entrada no onze de William Carvalho. Querer atribuir a apenas uma das justificações a melhoria global da equipa é como dizer que o mais alto aí em casa só chega à prateleira de cima do armário porque se põe em cima de um banco ou porque estica o braço, quando na verdade, mesmo esticando-se ou subindo para cima de um banco ele não chegaria lá se não fosse o mais alto. Os “mapas de calor” da equipa portuguesa nos dois primeiros jogos não deixam dúvidas acerca do que foi visível a olho nu. Avaliando o preenchimento do campo pelos jogadores colocados em campo por Fernando Santos é evidente que o selecionador trocou o 4x4x2 por um 4x3x3, com Moutinho e André Gomes à frente de William Carvalho. Desenhou ali o tal triângulo, que ajudou a modificar o futebol da equipa e a que esta conseguisse meter mais gente dentro do bloco defensivo adversário, podendo assim causar mais desequilíbrios atacantes. É por causa desta evidência geométrica que o 4x3x3 é muito mais fácil de interpretar do que o 4x4x2. Mas será o melhor para a equipa? Isso é discutível: Ronaldo pode render mais ofensivamente solto na frente, alternando entre o meio e a esquerda com uma referência frontal, mas cria mais problemas defensivos à própria equipa se lhe for atribuído o fecho de um dos corredores laterais e depois raramente lá estiver no momento de perda da bola. Isso, porém, nunca foi posto à prova por uma Áustria que raramente conseguiu sair com perigo para o ataque. Mas centremo-nos nos momentos ofensivos, para entender o que mudou em Portugal do jogo com a Islândia para o jogo com a Áustria. A análise do circuito preferencial de jogo da equipa de acordo com a estatística oficial fornecida pela UEFA vem confirmar a ideia de que as coisas mudaram. Selecionando o companheiro a quem cada jogador português deu mais passes certos, contra a Islândia a equipa jogou preferencialmente de Rui Patrício para Pepe (oito passes), deste para Ricardo Carvalho (18 passes, contra nove para Danilo), depois para Raphael Guerreiro (17 passes, com onze para Danilo), do lateral esquerdo para Moutinho (15 passes) e desde de volta a Guerreiro (outros 15 passes). Nani (25 passes) e Ronaldo (44 passes) foram os menos solicitados da equipa, tendo Portugal feito chegar apenas 69 passes aos jogadores de ataque. No jogo com a Áustria, o circuito mudou. Rui Patrício fez os mesmos oito passes para Pepe, que no entanto entregou 19 bolas a William Carvalho e apenas oito a Ricardo Carvalho. Teve instruções para isso ou simplesmente passou a ter um médio que se ofereceu mais frequentemente para dar seguimento à construção? Provavelmente as duas coisas. Depois, há outra alteração importante: enquanto no jogo com a Islândia os destinatários preferidos de Danilo foram Pepe e Ricardo Carvalho (doze passes para cada um), frente à Áustria William escolheu João Moutinho (16 passes) e André Gomes (11 passes). Efeitos da criação do triângulo ou uma maior predisposição de William relativamente a Danilo para jogar para a frente? Mais uma vez, provavelmente as duas coisas. O circuito português no jogo com a Áustria prosseguiu com Moutinho a dar onze passes a Quaresma, que por sua vez jogou sobretudo com o mesmo Moutinho (quatro passes) e André Gomes (outros quatro passes). Portugal fez chegar mais bolas ao ataque (91 contra 69), envolveu mais gente no seu circuito preferencial, mas Ronaldo esteve menos em jogo (recebeu só 33 passes, aos quais há a somar 24 para Nani e 34 para Quaresma). Ainda assim, Portugal voltou a não ganhar e, apesar de ter mais bolas na frente, até rematou menos: 23 tiros, contra os 27 totalizados ante a Islândia. A questão é que rematou de melhores posições e em condições normais teria feito mais golos. O que faltou foi o acerto normal de Ronaldo: olhando para as médias de toda a época, entre o Real Madrid e a seleção nacional, Ronaldo faz seis remates a cada 90 minutos, marcando 0,9 golos por jogo: a média dá um golo a cada 6,6 remates. Nos dois jogos do Europeu que já disputou, Ronaldo tentou 22 remates. Em condições normais, já teria feito pelo menos três golos. É isso que é preciso melhorar para Portugal poder ter futuro neste Europeu além da final de quarta-feira próxima contra a Hungria. In Diário de Notícias, 20.06.2016
2016-06-20
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Último Passe

Portugal melhorou do primeiro para o segundo jogo do Europeu, mas voltou a não conseguir ganhar. Desta vez, nem com 23 finalizações e um penalti, nem com duas bolas nos postes da baliza de Almer, nem com uma mudança de sistema que lhe permitiu fazer os médios jogar com mais frequência dentro do bloco adversário os portugueses conseguiram fazer um único golo à Áustria, saindo do Parque dos Príncipes com um 0-0 que é ao mesmo tempo frustrante e pressionante. Frustrante porque a equipa fez mais por ganhar e em condições normais teria ganho, pressionante porque o resultado deve obriga-la a vencer o último jogo, frente à Hungria, na quarta-feira, para seguir para os oitavos-de-final. No fundo faltou à seleção aquilo que Cristiano Ronaldo pode dar-lhe: golos. O capitão teve tudo para os fazer, mas nem de penalti lá chegou: a 11 minutos do fim, ganhou uma grande penalidade, na sequência de um raid de Raphael Guerreiro na esquerda, mas apesar de ter enganado o guarda-redes, fez a bola esbarrar no poste. O segundo penalti consecutivo falhado por Cristiano Ronaldo na seleção – já tinha permitido a defesa do guarda-redes contra a Bulgária, em Março – pode nem levar o selecionador a mudar a hierarquia dos marcadores, mas terá seguramente levado o capitão de equipa a aproximar-se dos restantes “humanos” e procurar tirar mais de si mesmo daqui para a frente. Além de que enfatizou a falta que os golos dele fazem a uma equipa que já na primeira parte tinha acertado no poste, num cabeceamento de Nani, após cruzamento de André Gomes. E essas nem foram as únicas ocasiões flagrantes desperdiçadas por Portugal, o que justifica a forma efusiva como os adeptos austríacos festejaram o empate no final: ficaram a cantar nas bancadas, apesar de a equipa de Koller continuar em último lugar no Grupo F e sem depender apenas de si própria para se apurar. Ao empate não é alheia também a forma como Fernando Santos geriu a equipa no banco. De início, o técnico corrigiu bem os erros táticos cometidos ante a Islândia mas mexeu mal durante o jogo. A entrada de William para o comando do meio-campo trouxe a Portugal a capacidade de afastar a bola das zonas de pressão, graças à sua maior agilidade no passe longo e à capacidade que tem para ganhar terreno com bola, ao passo que passagem para o 4x3x3 também ajudou João Moutinho e André Gomes a entrarem com bola entre as linhas defensivas adversárias: Moutinho foi mesmo designado pela UEFA, com exagero, é verdade, como o melhor em campo (ainda que tenha estado abaixo do rendimento de William e dos dois laterais). A questão é que, com Portugal a encostar a Áustria às cordas, Fernando Santos demorou a mexer. E quando mexeu permitiu que se instalasse a confusão na equipa. Nunca foi claro o que o treinador quis obter, por exemplo, com a entrada de João Mário: impunha-se que ele (ou Renato Sanches) entrasse até antes do minuto 71, mas para jogar em vez de um dos médios-interiores, de forma a dar mais criatividade naquela zona, mas ao fazê-lo entrar para o lugar de Quaresma na direita e mandá-lo explorar o jogo interior, Santos perdeu o flanco. André Gomes acabou por sair, mas apenas a sete minutos do fim, quando o desespero levou o selecionador à entrada de Éder para jogar ao lado de Cristiano no centro do ataque. E Rafa, o último a ser chamado, acabou por ser quem mais trouxe ao jogo – percebeu-se no final que devia ter ocupado a vaga de um Nani que já estava esgotado muito antes do minuto 89, que foi quando ele entrou no relvado. Ainda assim, em condições normais, Portugal devia ter ganho o jogo. Apesar da largueza que os dois centrais portugueses foram dando a Harnik, o ponta-de-lança solitário dos austríacos, para este poder combinar com os médios, a Áustria só chegou três vezes à baliza de Rui Patrício. Logo aos 3’, de cabeça, Harnik soltou-se atrás da defesa portuguesa para cabecear um cruzamento de Sabitzer, mas fê-lo ao lado. O ponta-de-lança voltou a ameaçar aos 41’, na sequência de um livre lateral que Alaba bateu direto à baliza, mas nessa ocasião Vieirinha evitou que ele fizesse a finalização e cortou junto ao poste. E a abrir a segunda parte Rui Patrício fez a sua única defesa, detendo um remate de longe de Illsanker. Até final, com Alaba (que jogou atrás do ponta-de-lança, a ser completamente dominado por William e a ser substituído) os austríacos limitaram-se a conter as ofensivas de Portugal, que só ficou a dever a si próprio a vitória. E aqui Nani e Ronaldo terão de dividir responsabilidades, pois foram perdendo golos à vez. Aos 12’, Nani ganhou um ressalto e isolou-se face a Almer, mas não conseguiu evitar a mancha do guarda-redes. Dez minutos depois, foi Ronaldo quem teve a bola à frente para marcar, após trabalho de Raphael Guerreiro, mas chutou de pé direito ao lado. Nani acertou no poste aos 29’, de cabeça, após cruzamento de André Gomes e aos 38’ foi outra vez Ronaldo quem cabeceou para o guarda-redes, no seguimento de um canto de Quaresma. Na segunda parte, Nani foi-se apagando e teve de ser Ronaldo a assumir as responsabilidades: chutou de longe para grande defesa de Almer aos 55’, cabeceou para o guarda-redes após o canto de Quaresma aos 56’, bateu um livre em boa posição por cima da barra aos 65’ e acertou no poste com o penalti que ganhou aos 79’. Tanto fogo, sem um único tiro certeiro acaba por deixar a equipa numa posição desconfortável e sem o direito a errar de novo no jogo com a Hungria. Santos parece ter acertado no regresso ao 4x3x3, seja com Nani ou Ronaldo ao meio, mas o pouco que se viu neste jogo parece impor a entrada de Rafa na equipa para o último jogo, onde João Mário e Renato Sanches também podem ter um papel a desempenhar – nem que seja saindo do banco – mas para jogar ao meio. 
2016-06-18
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Último Passe

Portugal vai enfrentar a Áustria numa situação que não é brilhante mas também não é desesperada. Saiu com um ponto do primeiro jogo, precisará de fazer mais três – em dois jogos – para se qualificar, uma vez que os quatro pontos darão quase de certeza para se ser um dos quatro melhores terceiros. Contra a Áustria, a obrigação é a mesma que já era ante a Islândia: ganhar. A forma de procurar essa vitória será, no entanto, diferente, porque as circunstâncias próprias e alheias são diferentes. Na conferência de imprensa no Parque dos Príncipes, Fernando Santos não deu muitas respostas que permitam adivinhar o que lhe vai na mente, ao que o próprio diz para não mostrar o jogo todo ao treinador adversário, mas ainda assim é possível fazer sem ele um exercício de pergunta-resposta no qual se colocam as principais dúvidas e se fornecem alguns esclarecimentos com base no mero senso-comum. Pergunta 1: Fernando Santos vai fazer uma revolução no onze? Resposta: Não. Aliás, o próprio o disse na conferência de imprensa. “Revolução foi em 1974”, brincou. Em Portugal muito se tem falado da falsa partida do Europeu de 2004, quando após a derrota com a Grécia no Dragão, Scolari teria feito uma revolução, indispensável para que a equipa chegasse à final. Mas depois olha-se com mais atenção e verifica-se que, do jogo com a Grécia para a segunda partida, frente à Rússia, que Portugal ganhou por 2-0, Felipão só mudou quatro jogadores: Paulo Ferreira por Miguel, Rui Jorge por Nuno Valente, Fernando Couto por Ricardo Carvalho e Rui Costa por Deco. Ronaldo, por exemplo, continuou no banco e só no terceiro jogo, contra a Espanha, ganhou o lugar a Simão. Por isso, desenganem-se os que querem ver muito sangue antes do jogo com a Áustria. No máximo, Fernando Santos mudará quatro jogadores. Mas o mais provável é que só troque dois ou três. Pergunta 2: Portugal pode jogar com Quaresma, Nani e Ronaldo no onze? Resposta: Pode. Aliás, Fernando Santos já o fez em alguns momentos, embora não de início. Na conferência de imprensa, o selecionador limitou-se a dizer que isso “era uma possibilidade”, o que à saída da sala era interpretado de duas formas diferentes pelos vários jornalistas presentes. Uns diziam terem ficado convencidos de que os “três reis magos” iam jogar desde o início, outros que aquilo que Fernando Santos disse veio apenas engrossar o que acham que é um bluff para assustar os austríacos. A questão deve, por isso ser colocada de uma outra forma. Portugal vai jogar com Quaresma, Nani e Ronaldo no onze? Não me parece a hipótese mais provável, sobretudo por duas razões. A primeira – e fundamental – é que essa alteração deixava a equipa com três jogadores que pouco participam no processo defensivo e que veem o jogo sobretudo de uma forma individual. Olhando para os números de toda a época, Ronaldo soma uma média de 1,8 recuperações ou interceções por jogo, Quaresma tem 4,1 e Nani soma 4,6, enquanto que os dois potenciais sacrificados estão acima: André Gomes com 5,9 e João Mário com 6,2. Depois, porque esse onze não deixaria a Fernando Santos muitas hipóteses de reforçar o ataque se as coisas começassem a correr mal. Acresce a isso, para os defensores da disciplina de caserna, que a alteração iria premiar as declarações “fora da caixa” de Quaresma, que de certa forma desautorizou o treinador ao dizer que estava em condições de ter sido titular contra a Islândia, quando Fernando Santos disse que se o tivesse colocado a jogar corria o risco de ter de o tirar aos 40 minutos. Pergunta 3: Se ainda assim Quaresma entrar, qual será o esquema de Portugal? E quem sai? Resposta: O facto de Quaresma entrar não significa que a equipa mude para o 4x3x3, porque com ele não fica resolvido o problema da colocação de Ronaldo, que ainda hoje Fernando Santos voltou a dizer que “nunca será um avançado-centro” na perspetiva de jogar sozinho na frente. A equipa continuará por isso a jogar em 4x4x2, ainda que a presença em simultâneo dos três atacantes permita uma série de alternativas. Até aqui, o extremo do Besiktas tem alinhado sempre numa das alas do meio-campo, deixando na mesma Ronaldo e Nani no centro do ataque, mas pessoalmente acho que faz mais sentido ter Quaresma e Ronaldo na frente, com Nani a ocupar uma posição no meio-campo, seja como “10” num losango ou como ala esquerda no 4x4x2 mais clássico. Mais difícil é definir quem pode sair. E isso depende muito da arrumação inicial dos jogadores. Em condições normais, seja com Nani e Ronaldo na frente e Quaresma numa ala ou com Ronaldo e Quaresma na frente e Nani numa ala, sairia André Gomes, porque além de ter uma melhor percentagem de passe (84% para 83% em termos médios durante a época), João Mário faz mais passes de rotura (3,1 para 2,7 por jogo) e aparece mais na área (sete passes por jogo contra 2,7 são dentro da área). A questão é que com tanta gente que só vê baliza na frente, Fernando Santos pode sentir-se tentado a manter quem pense o jogo mais atrás, e aí André Gomes ganha algum avanço. Até porque os números defensivos dos dois são muito semelhantes. Diferente será se Santos optar por colocar Nani como “10”: aí sairia Moutinho. Pergunta 4: Quem pode então ser sacrificado nas alterações que Fernando Santos anunciou? Resposta: Fernando Santos disse claramente que ia fazer algumas alterações “para refrescar a equipa”. Uma delas será a troca de médio mais recuado, posição que Danilo dificilmente ocupará. A sua entrada contra a Islândia tinha a ver com um aspeto muito específico do jogo islandês, que era o jogo aéreo. Sem essa ameaça, certamente nem seria necessária a lesão de Danilo para que a equipa passasse a apresentar ali um jogador que arrisca mais nos momentos atacantes, como é o caso de William. As outras alterações não são claras. A não ser que queira colocar Nani a “10”, Santos dará provavelmente pelo menos mais um jogo a Moutinho para que ele possa reganhar o ritmo que lhe vem faltando mas que, assim que o recuperar, fará a diferença nos oitavos-de-final, porque é o jogador mais coletivo desta seleção. Adrien e Renato continuarão certamente à espera. Depois, o jogo de Vieirinha contra a Islândia não foi assim tão mau a ponto de justificar uma alteração na hierarquia – e se o facto de o lateral do Wolfsburg ter estado no golo islandês contribui para algo é para que Fernando Santos não o deixe cair em nome da mera rotatividade que noutras circunstâncias talvez até se justificasse. Pergunta 5: O que precisa Portugal de mudar para ter mais garantias de obter um resultado positivo? Resposta: Primeiro que tudo, tem de melhorar a finalização. A seleção nacional foi a que mais rematou na primeira jornada do Euro, mas só fez um golo, que lhe valeu apenas um ponto. As ocasiões de golo, porém, abundaram – e é bom que todos se consciencializem que contra a Áustria não vão ser tantas, porque os austríacos vão querer jogar mais do que os islandeses. Ainda assim, há que perceber que boa parte do baixo índice de certeza na finalização teve a ver com as condições não tão favoráveis em que muitos dos remates foram feitos. E isso já tem a ver com todo o processo de construção de jogo de Portugal. Por raramente ter conseguido meter gente entre as duas linhas defensivas da Islândia, faltou a Portugal o necessário ponto de apoio nas suas jogadas, de onde pudesse partir um passe de rotura para as alas ou para deixar um dos avançados na cara do guarda-redes. Não apareceram ali Nani nem Ronaldo, da mesma forma que nem João Mário nem André Gomes procuraram o corredor central com a frequência recomendada. João Moutinho também andou sempre mais longe da baliza islandesa do que seria desejável, o que pode ter a ver com o facto de Danilo não assumir tanto a construção. O ataque ao espaço central terá de ser uma das prioridades da equipa no jogo de amanhã, o que pode levar à adoção da solução com o meio-campo em losango. Da mesma forma que terá de o ser a agilidade na transição ofensiva. Pergunta 6: E Ronaldo, o que tem de fazer diferente? Resposta: Ronaldo tem sobretudo que compreender que o futebol é um jogo coletivo e que o facto de ser o melhor finalizador do Mundo não recomenda que seja sempre ele a chutar. A luta do CR7 contra os recordes tem destas coisas: se anda obcecado com os golos que lhe permitam ser o melhor marcador da história dos Europeus, acaba por secar tudo à sua volta, não tomando as decisões que seriam mais recomendáveis em benefício da equipa. E nem falo de livres ou de falta de empenho no processo defensivo: isso já faz parte do pacote. Contra a Islândia, no entanto, Ronaldo optou várias vezes por rematar em situações nas quais havia companheiros melhor colocados para dar seguimento a lances que podiam ter tido outro final. Mas este é um problema que só se resolverá quando Ronaldo marcar o primeiro golo e aliviar um pouco a ansiedade que o come por dentro em cada grande competição internacional.
2016-06-17
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Um dia, quando se aproximava um jogo contra um adversário que abusava do jogo aéreo, sempre direto para o ponta-de-lança, Johan Cruijff surpreendeu Guardiola dizendo-lhe expressamente que não o queria a saltar com o gigante, mas sim colocado uns metros mais atrás, para se concentrar na tarefa de recolher a bola que iria sobrar do duelo que alguém iria disputar – e quase sempre perder – com ele. Ali, o que importava não era saltar mais alto que o armário, não era ser mais forte do que ele no choque: era só atrapalhá-lo o suficiente para que ele não pudesse escolher o local para onde ia dirigir a bola que lhe caía dos ares. O jogo começaria a seguir e aí estaria Guardiola para lhe dar início. Depois de ver o Portugal-Islândia e de analisar todas as estatísticas do jogo, fiquei convencido de que foi um erro a opção por Danilo em detrimento de William Carvalho, porque ao assumi-la o selecionador nacional estava a escolher as batalhas erradas, aquelas que nunca poderia ganhar, face à qualidade de Sigthorsson no jogo aéreo. Acredito que Fernando Santos concordará e que será ali que começarão as alterações na equipa que empatou com a Islândia quando for preciso ganhar à Áustria. Resta perceber se ficarão por aí. “Se uma batalha não pode ser ganha, não a traves”. Este era o conselho de Sun Tzu, na velha “Arte da Guerra”. Ora a batalha corpo a corpo com os possantes islandeses – não era só uma questão de estatura, mas também de peso e sobretudo de predisposição para aquele tipo de futebol – era das que não podia ser ganha. Depois do jogo, olhando para os números é fácil de entender que esta era uma das batalhas que não devia sequer ser travada. Todos os jogadores baixaram a percentagem de duelos corpo-a-corpo ganhos em comparação, por exemplo, com o jogo ante a Inglaterra. Só na linha defensiva, Vieirinha caiu de 71% para 56%, Ricardo Carvalho de 75% para 64%, Pepe ficou pelos 65% e portanto abaixo dos 66% da soma de Bruno Alves com José Fonte em Wembley, e Raphael Guerreiro conseguiu 43% face aos 50% de Eliseu em Inglaterra. A maior diferença, contudo, esteve em Danilo, que tinha ganho 60% dos duelos em Wembley e se ficou agora por uns 32% que são o seu pior número desde Setembro. É claro que um onze não deve ser escolhido com base nos jogadores que ganham mais duelos corpo-a-corpo… a não ser que a base do jogo da equipa seja essa. A de Portugal não é e não será nunca, o que transformou a escolha de Danilo numa contra-medida paradoxal para a ideia de jogo da equipa. O problema não foi Danilo mas sim o facto de ele estar em campo com base em argumentos que são os da Islândia e não os de Portugal. Em vez de travar a batalha das lutas corpo-a-corpo, Portugal devia ter-se concentrado nas que podia vencer, com bola no chão, triangulações para envolver o adversário e ganhar o espaço entre as linhas defensivas do adversário, de onde poderia solicitar os avançados com muito maior perigo. Pois isso raramente foi conseguido: Portugal só criou perigo a jogar por fora e isso teve muito a ver com a forma como priorizou os valores errados no primeiro momento de construção. Será, evidentemente, impossível definir agora se a incapacidade da equipa nacional para meter gente entre linhas teve a ver com uma má gestão da transição ofensiva – o primeiro passe –, com o facto de tanto João Mário como André Gomes estarem demasiado abertos junto às linhas e procurarem pouco as diagonais para dentro ou ainda com um menor rendimento de Moutinho face ao que o treinador dele espera. Olhemos para João Moutinho, por exemplo. Acabou o jogo com uma boa percentagem de passes certos: ficou-se pelos 91%, acima até da sua média do último mês (que é de 89%) e bem acima da média para toda a época, que é de 84%. Ora este é o primeiro dado que pode fazer-nos desconfiar. A olho nu parece que ele está a jogar menos, mas apresenta uma percentagem de passe melhor do que a sua própria média? Provavelmente porque está a proteger-se mais: desde o jogo com a Noruega que Moutinho não tenta sequer um passe de rotura – daqueles que deixam os companheiros com espaço para correr atrás do bloco adversário – quando a sua média para a temporada é de 2,5 por jogo e fechou os meses de Janeiro e Fevereiro com três tentativas por cada 90 minutos. As médias ofensivas da temporada de Moutinho são de longe as melhores entre os candidatos ao lugar de médio-centro: soma 7,0 passes na área por jogo contra 2,3 de Renato e 1,9 de Adrien; 2,5 passes de rotura contra 2,0 de Renato e 1,6 de Adrien. Defensivamente, o melhor é Adrien, com 6,0 interceções contra 4,2 de Moutinho e 3,5 de Renato; e 6,0 recuperações, contra 4,2 de Renato e 3,7 de Moutinho. Adrien tem ainda a melhor percentagem de passe: 88% de entregas certas, contra 85% de Renato e 84% de Moutinho. Aqui, no entanto, começa aquela área da decisão que tem a ver com as convicções. A aposta de Fernando Santos em João Moutinho tem a ver com o facto de querer devolver-lhe o ritmo que ele perdeu com a lesão a tempo de o ter a carburar nos oitavos-de-final. Neste momento a questão que se coloca é: haverá condições para continuar a assumir o risco? Este é um daqueles momentos em que o treinador é o homem mais só do Mundo.
2016-06-16
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Último Passe

Pouco Ronaldo, um meio-campo incapaz de entrar nas linhas do adversário, a incapacidade para ganhar uma bola aérea que fosse a Sigthórsson e falta de concentração e agressividade no ataque às segundas bolas levaram Portugal a uma falsa partida no Europeu de 2016. O empate com a Islândia, fruto de um golo de Nani e de outro de Birkir Bjarnason, não é grave, porque ainda há mais duas jornadas para trabalhar para a qualificação, mas veio deixar a nu algumas carências da equipa de Fernando Santos. A emendar já frente à Áustria, em Paris, num jogo que até face à derrota dos austríacos, de repente ganhou preponderância. A questão Ronaldo não é das fáceis de resolver, porque não se trata de o trocar ou de o fazer jogar noutras funções. Ronaldo não jogou mal, simplesmente não fez a diferença: não conseguiu fazer uma arrancada imparável, não fez golo nos dois cabeceamentos perigosos de que dispôs nem nos livres que marcou. Fez um jogo de esforço, de entrega, mas sem brilho, com exceção talvez do lance em que, ainda com 0-0, trabalhou em cima de Saevarsson e cruzou para um remate de cabeça de Nani que o guarda-redes Halldórsson deteve. E isso o selecionador não só tem de aceitar como por certo o aceitará até melhor que o próprio Ronaldo. Mesmo estando sempre em jogo, o capitão português não só não assinalou o dia em que igualou as 127 internacionalizações recorde de Figo com uma vitória, como viu Nani suplantá-lo na luta pelo título de melhor em campo. O autor do golo português respondeu da melhor forma à oportunidade que Fernando Santos voltou a dar-lhe face à lesão de Quaresma e foi quem mais perto esteve de ampliar a marca, pelo que dificilmente perderá o lugar frente à Áustria. Já quanto à incapacidade do meio-campo entrar nas linhas islandesas haverá certamente algo a fazer, tanto do ponto de vista tático como até da mudança de elementos. É verdade que a Islândia, até por força do futebol direto que praticava, pouco ou nada se desposicionava: no final, os portugueses tentaram 617 passes, contra 221 do adversário, o que significa que se empenhavam em combinações e jogadas de envolvimento, enquanto a Islândia se limitava a jogar direto em Sigthórsson, subindo depois como um bloco de concreto para atacar as sobras. A questão é que se a primeira bola, a que ia para o gigante número 9 do adversário, era inatingível – creio que ele terá ganho todas as bolas aéreas que disputou –, a segunda já não dependia de estatura: dependia de concentração e agressividade. E aí nem os quatro defesas de Portugal, nem Danilo – que Santos preferiu a William Carvalho, por dar mais capacidade no jogo aéreo e combatividade no ataque às segundas bolas – souberam impor-se aos islandeses. Mesmo tendo feito uma primeira parte de nível médio-alto, Portugal nunca contou com todos os jogadores ao mesmo nível. O melhor período da equipa começou logo a seguir a uma primeira desatenção defensiva, aos 3’: Vieirinha estava projetado no ataque, Pepe foi disputar uma bola perto da linha lateral na zona de meio-campo sem a ganhar, o mesmo aconteceu a Danilo face a Gudmundsson já perto do bico da área, tendo que ser Rui Patrício a impedir que a Islândia fizesse logo ali um golo. A partir daí, porém, mesmo sem ter os dois laterais em noite-sim Portugal assentou o seu jogo. É verdade que Moutinho, não conseguia ganhar as costas a Gunnarsson e Sigurdsson, os dois médios-centro islandeses, e que João Mário, demasiado aberto na esquerda, também não era capaz de ganhar aquele espaço interior, mas os lances mais perigosos passaram a surgir na baliza islandesa. Nani, de cabeça, após o tal trabalho individual de Ronaldo, viu Haldorsson tirar-lhe o golo aos 21’; Ronaldo, também de cabeça, falhou o alvo aos 23’ e não acertou sequer na bola aos 26’, quando Pepe viu a aberta e o isolou face ao guarda-redes num passe longo. E quando Nani marcou, aos 31’, na sequência de uma boa combinação entre Vieirinha e André Gomes na direita, o problema parecia resolvido. Mas não. O intervalo voltou a trazer a desconcentração à defesa portuguesa e, logo aos 50’, duas divididas seguidas perdidas pelos portugueses na direita do ataque islandês resultaram num cruzamento de Gudmundsson. O desentendimento entre Pepe – que seguiu Sigthorson – e Vieirinha, que estava demasiado dentro e não intercetou a bola, resultou num volei de Bjarnasson para dentro da baliza de Patrício. João Mário começava a entrar no jogo e a ativar as subidas de Raphael Guerreiro, mas apesar de voltar a ter quase sempre a bola, Portugal não conseguia criar tantos lances de perigo como na primeira parte. Só aos 63’, quando Vieirinha ganhou a linha de fundo e cruzou rasteiro, Nani esteve perto de marcar, não chegando a conseguir antecipar-se a Ragnar Sigurdsson no ataque à bola. Oito minutos depois, já com Renato Sanches em campo, na tentativa de ocupar o tal espaço entre as linhas defensivas islandesas, foi outra vez Nani quem, desviando de cabeça um livre, fez a bola passar a centímetros do poste. À procura do golo, Santos chamou então Quaresma para ocupar o lugar de João Mário. Até final ainda substituiu André Gomes por Éder, colocando a equipa num 4x2x4, com Ronaldo e Éder ao meio, servidos por Nani e Quaresma nas alas. Mas nem assim, nem com a Islândia a abdicar até de jogar no ponta-de-lança, Portugal chegou ao golo. Quaresma (aos 78’), Pepe (após um canto, aos 82’) e Ronaldo (na sequência de um cruzamento de Nani, aos 85’) ainda ameaçaram, mas o empate já não se desfez, punindo o jogo menos conseguido do meio-campo português e algumas apostas perdidas: Danilo nunca impediu a construção direta da Islândia e pode ceder a vaga a William, que faz a equipa jogar mais; Moutinho e João Mário apareceram pouco entre as linhas islandesas e também não têm o lugar assegurado. Certo é que se Fernando Santos optar por chamar Quaresma à partida de Paris, o sacrificado não será certamente Nani, o melhor dos portugueses em Saint-Etiènne.  
2016-06-14
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Último Passe

Quando alguém perguntou a Fernando Santos se já sabia o onze que ia colocar em jogo frente à Islândia, o selecionador nacional disse que sim. Depois de um par de segundos de pausa, corrigiu: “Quer dizer… Mais ou menos”. Mesmo que Santos a tenha justificado com o facto de ainda ter um treino pela frente, a blague diz-nos sobretudo uma coisa: que não há dúvidas na cabeça do técnico acerca da utilização de Quaresma. Ou tudo não passa de bluff, no que sinceramente não acredito, ou o facto de este ser apenas o primeiro jogo da fase final e de face às facilidades crescentes de apuramento – passam dois, eventualmente três – levará Santos a fugir do risco que ponderaria assumir se tudo se decidisse nestes 90 minutos. Sem Quaresma – é mais avisado pensar assim – reentra no onze Nani, que não oferece à equipa o brilhantismo individual do atacante do Besiktas mas até é coletiva e taticamente mais fiável. Foi com Nani e Ronaldo que o esquema dos dois atacantes móveis melhor funcionou, nos jogos com a Bulgária e a Bélgica, ainda que seja legítimo que se diga que este já não é o Nani de Março. Porque está em pior momento de forma e também porque a perda do lugar na hierarquia pode ter deixado mazelas psicológicas num jogador que, ainda por cima, é mais frágil mentalmente que o sempre crente Quaresma. A Nani resta pensar uma coisa como fator motivacional: nem sempre se tem uma segunda oportunidade de causar uma boa primeira impressão e ele vai tê-la.   Em St. Etiènne para ver o Euro? Cheguei hoje a St. Etiènne e estive já no Geuffroy-Guichard, um estádio que estava no meu imaginário desde que, em criança, quando começaram a chegar a Portugal as primeiras revistas Onze (assim mesmo, sem o sufixo Mondial), imaginava como jogaria a equipa de Robert Herbin, dito a “Esfinge”. O primeiro dia em França foi também o primeiro dia em que não vi um único jogo do Europeu. Entre a viagem, os procedimentos burocráticos para a recolha da acreditação, as conferências de imprensa de Lars Lagerback e Fernando Santos e a necessidade de sair para jantar, foram-se as três partidas do dia. Isto não é novidade para mim, ainda que fosse bem diferente há 24 anos, quando acompanhei no local o meu primeiro Europeu. Em 1992, na Suécia, havia só oito equipas, muito menos jornalistas, maior espaçamento entre os jogos e muito menos confusão para se chegar perto dos jogadores e treinadores, aos quais hoje só se chega por interposta pessoa e depois de recolher senhas para isto e passes para aquilo. Não é um lamento, é uma constatação. Quanto ao futebol, pelo resumo pareceu-me que a Espanha jogou bem e talvez seja mais favorita do que eu esperava. E que a Itália, sendo uma máquina terrivelmente concreta, é tão favorita como eu presumia – nunca se deve riscar uma seleção italiana enquanto ela não se riscar a si mesma. E, por fim, que a Bélgica é tão pouco favorita como eu calculava. Ainda que, pelo que pude ir vendo nas vezes que espreitei para o ecrã gigante no meio da confusão do restaurante em que jantei, se Marc Wilmots de repente conseguir pensar um pouco fora da caixa aquela equipa tem muito para melhorar.   E os golos que não aparecem. O Europeu tem trazido grandes golos, mas poucos golos. O resultado mais frequente é o 1-0. Reflexos de um futebol cada vez mais defensivo? Também. Mas a minha teoria é outra. É reflexo, sim, de uma preocupação excessiva da UEFA com o peso do negócio. É verdade que o alargamento da fase final para 24 países permitiu a chegada a França de mais equipas sem tanta qualidade, abrindo a porta às goleadas. Mas o facto de 16 dessas 24 equipas passarem à fase seguinte faz com que muitas das grandes nações do futebol encarem os primeiros jogos como mero aquecimento para um Europeu que, na realidade, só começa daqui a pouco mais de uma semana: há jogadores a meio-gás, outros a ganhar ritmo. A UEFA consegue assim manter mais gente ligada durante mais tempo à competição, faz crescer as audiências globais, o dinheiro gasto em tudo aquilo que anda à volta do futebol, mas está a tornar esta primeira fase um deserto em termos atacantes.
2016-06-14
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Último Passe

A goleada de 7-0 que Portugal aplicou à Estónia na despedida do público nacional rumo ao Europeu espalhou a euforia entre os adeptos, que já começam a acreditar no sonho de Fernando Santos. Um dos maiores responsáveis pelo clima de euforia é Quaresma, que com dois golos e duas assistências encheu as medidas a quem viu o jogo e ganhou o lugar ao lado de Ronaldo no ataque ao primeiro jogo de competição, frente à Islândia, na terça-feira. Fernando Santos tentará assim tornar-se o primeiro selecionador nacional a resolver a questão da compatibilidade entre Ronaldo e Quaresma, valendo-se da maturidade que os dois não tinham, por exemplo, quando Luís Felipe Scolari o tentou – e desistiu, por perceber que não tinha uma bola para dar a cada um. Para a coisa resultar em jogos a sério – que esta Estónia saiu bem pior do que a encomenda – há ali muito trabalho a ser feito pelo treinador. Ronaldo e Quaresma são incrivelmente talentosos, ainda por cima são amigos e entendem-se bem – o que desde logo resolve a questão de um eventual choque de egos – mas caberá ao treinador fazer-lhes perceber que o facto de possuírem armas individuais muito acima da média não faz com que o jogo deixe de ser um processo coletivo. Contra a Estónia, tanto Ronaldo (ainda que só num lance, na primeira parte, com 0-0 no marcador, quando procurou o remate, tendo colegas melhor colocados) como Quaresma (este por procurar passes ou remates de letra quando a solução simples prometia bastante mais) foram responsáveis pela perda de jogadas que podiam ter causado mais problemas ao adversário. A questão é que é mais fácil fazer estes dois génios evitar os excessos do que dar a jogadores banais a capacidade de resolver jogos, pelo que o risco valerá sempre a pena. Com a Estónia, valeu. Portugal entrou com mais bola mas sem grande capacidade de entrar na área adversária, na maior parte das vezes por causa da timidez do meio-campo: Danilo muito atrás, João Moutinho melhor mas ainda longe do ideal, André Gomes e João Mário sem chegada à área para compensar as constantes derivações para os corredores laterais. Depois de um início mais intenso, o jogo já começava a adormecer, a Estónia segurava a bola por mais tempo entre cada vaga de ataque português, até que Quaresma tirou um coelho da cartola: cruzamento milimétrico de trivela na esquerda para um cabeceamento de Ronaldo e 1-0. Faltavam nove minutos para o intervalo, mas até lá resolver-se-iam o jogo e a corrida do CR7 para o golo: Quaresma fez o 2-0, concluindo com um belo remate em arco um passe simples de João Mário e, mesmo sobre o apito para o descanso, foi outra vez João Mário quem, entendendo aquilo de Fernando Santos queria, pressionou alto, recuperou uma bola e tabelou duas vezes com Ronaldo para dar a este o 3-0. Ronaldo já não voltou para a segunda parte, dando lugar a Nani, mas depressa Fernando Santos emendou a mão e chamou Éder para garantir a presença na área que, sem o CR7, ficava ao abandono. Quaresma passou então para a direita e dali voltou a dar expressão ao marcador: marcou o canto no qual Danilo fez o 4-0; fez o cruzamento do qual nasceu o quinto golo, marcado na própria baliza por Mets e marcou ele mesmo o 6-0, após aceleração de Renato Sanches. O sétimo, obtido por Éder, após cruzamento de André Gomes, completou o ramalhete e mandou a equipa para França no meio da euforia popular, mas não terá resolvido já todas as dúvidas de Fernando Santos. Após os três jogos de preparação, percebe-se que o selecionador está inclinado para Danilo em vez de William, que vai continuar a apostar em Moutinho em vez de Adrien ou Renato, na esperança de que a fase de grupos chegue ao “motorzinho” para recuperar o seu ritmo natural, e que para já prefere Guerreiro a Eliseu e a dupla de centrais formada por Pepe e Ricardo Carvalho. Mas não creio que tenha certezas acerca do defesa-direito (Cédric ou Vieirinha?) ou, sobretudo, do médio-esquerdo. André Gomes é mais consistente mas nunca encheu as medidas, Renato pode aparecer ali e dar ao meio-campo a explosão que lhe tem faltado, Nani ou Rafa verão a candidatura prejudicada pelos excessos individualistas dos dois da frente. Os seis dias que aí vêm darão a resposta.
2016-06-08
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Fernando Santos e Lars Lagerback já estão a preparar o Portugal-Islândia com que as duas equipas vão abrir a respetiva caminhada no Europeu. A questão é que ambos estão centrados na equipa de Portugal. Santos nas dúvidas que certamente tem acerca do onze; Lagerback na tentativa de condicionar desde já o árbitro que vier a ser nomeado para a partida de St. Etiènne para aquilo a que chama os “filmes” de Cristiano Ronaldo e Pepe. “Portugal tem um dos melhores jogadores do Mundo, que também é um ator eficiente. Temos visto alguns bons filmes portugueses. Na final da Liga dos Campeões também vimos outro que podia estar em Hollywood”, disse Lagerback. É verdade que o que Pepe fez na final da Champions, tentando arrancar a expulsão de Felipe Luís com uma simulação de agressão, não beneficia em nada a sua imagem nem a do futebolista português em geral. Mas ao fazer ele mesmo essa generalização e, mais, ao juntar Ronaldo ao “filme”, o treinador sueco está a parecer-se mais com um daqueles comentadores engajados dos programas televisivos, que defendem a agenda das suas cores e têm e uma noção de vergonha tão pouco desenvolvida como a de Pepe ao ver as imagens televisivas do lance em que rebolou na relva de San Siro como se tivesse sido atingido por um direto de Muhammad Ali. É verdade que por essa altura Lagerback já tinha deixado de ser selecionador do seu país, mas Ronaldo é aquele tipo que joga com o 7 nas costas e que sozinho desfez a Suécia em Estocolmo, há dois anos e meio, carregando Portugal para o Mundial de 2014. No fundo, é também aquele tipo que Fernando Santos espera venha a resgatar Portugal do pesadelo ofensivo em que se transformou o exame de Wembley contra a Inglaterra, jogo no qual a seleção nacional parecia desconhecer que é possível fazer combinações atacantes. Tudo tem uma explicação – e a expulsão de Bruno Alves, tendo sido justa, pode ajudar a explicar a timidez ofensiva da equipa nacional – mas o Portugal que apareceu em Wembley nunca foi uma equipa completa. Foi sempre apenas meia-equipa: a metade que se esmera para impedir o adversário de marcar. E isso não se esgota no facto de Fernando Santos ter visto abatido um homem ao onze com 35 minutos de jogo. Para perceber por que razão o ataque de Portugal se resumiu a uma mão cheia de ações individuais é preciso entrar nos planos tático e estratégico. É preciso perceber que, ao adotar o esquema tático atual – o 4x4x2 – para acomodar estrategicamente Ronaldo e permitir a criação de condições para que ele se torne desequilibrador, a seleção precisa de alguém que faça uma coisa fundamental no 4x4x2, que é arranjar espaço entre linhas no corredor central para que os médios possam jogar. Vamos centrar-nos na realidade portuguesa. O Benfica joga em 4x4x2 e tem Mitroglou. O Sporting joga em 4x4x2 e tem Slimani. O que fazem Mitroglou e Slimani além de serem bons finalizadores? Dão profundidade às suas equipas, pedem a bola no espaço atrás da última linha adversária, para a forçarem a recuar e dessa forma tentarem que o espaço entre ela e a linha seguinte, a de meio-campo, aumente. É ali que jogam os médios. Quem o digam Gaitán, Renato Sanches, Pizzi, até Jonas, no Benfica. E que o digam João Mário, Adrien, Ruiz e até Gutièrrez no Sporting. O futebol é muito simples: para se jogar tem de se inventar o espaço. Agora imaginemos o Benfica e o Sporting a jogarem com dois avançados que em vez de esticarem o jogo passavam o tempo todo a baixar em desmarcações de apoio e a buscar o espaço dos médios. Pode funcionar? Pode. Mas só com outro meio-campo, com um meio-campo mais clássico, com médios-ala que procuram sempre dar largura à equipa, e preferencialmente com médios-centro capazes de aparecer na área em trocas posicionais com os tais avançados que recuam. Ora Portugal não tem uma coisa nem outra, pelo que o melhor mesmo é não complicar. A equipa que Santos está a montar ainda depende do jogo que falta fazer, com a Estónia, mas se todos já sabíamos que ela teria de ter Ronaldo, agora ficamos a saber que a suportar esta conclusão não está apenas o facto de ele ser melhor do que os outros. É que tática e estrategicamente só com ele é que este modelo pode funcionar. Depois, se o outro avançado deve ser Nani ou Quaresma, se o médio que sai da esquerda deve ser Renato, André Gomes ou até o próprio Nani, se o médio-centro deve ser João Moutinho ou Adrien Silva e se o médio-defensivo deve ser William ou Danilo, tudo está aberto a discussões. Na frente, porém, tem de estar Ronaldo. E se nalguma altura não houver Ronaldo o melhor talvez seja mesmo ter um Plano B para mudar de tática e de estratégia. In Diário de Notícias, 06.06.2016
2016-06-06
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Último Passe

O Inglaterra-Portugal foi um confronto entre duas meias-equipas no qual ganhou a que esteve mais tempo com onze jogadores em campo. O cartão vermelho a Bruno Alves, logo aos 35 minutos de jogo, ajuda a explicar o facto de Portugal quase só ter defendido e de a Inglaterra ter passado tanto tempo no meio-campo ofensivo, mas as limitações de ambas as seleções não se esgotaram nas implicações desse momento de vigor excessivo do central português. Mesmo antes disso, se via que a Inglaterra tinha avançados mas falta de criativos e Portugal anulava os seus criativos por conta da falta de avançados que lhes encontrassem espaço para ter a bola. O golo da vitória inglesa (1-0), marcado por Smalling aos 86 minutos de jogo, na segunda vaga de um canto, a aproveitar um erro de cobertura dos defensores portugueses, nem foi o mais relevante da noite. O jogo era particular e o resultado importava menos do que as ilações a tirar da forma como se chegava a ele. E, além de ter permitido tirar conclusões acerca de algumas exibições individuais – bem Ricardo Carvalho, Rui Patrício e Danilo, íngreme o caminho de Moutinho em direção à recuperação da rotatividade que fez dele o jogador que é – o jogo de Wembley permitiu ver que o modelo de jogo criado para Ronaldo tem dificuldades em subsistir sem ele. A utilização do 4x4x2 com dois avançados móveis, que permite potenciar as caraterísticas do CR7 sem deixar a equipa vulnerável do ponto de vista defensivo, exige que pelo menos um deles dê à equipa alguma profundidade – quando isso falta, quando em vez disso Portugal usa dois avançados que baixam em apoio mas não esticam o jogo, quem mais sofre são os médios criativos. Que em Wembley foram uma sombra do que podem render. Enquanto teve onze jogadores, Portugal não deixou a Inglaterra criar lances de perigo mas também não foi capaz de os criar. Chegou pela primeira vez à baliza num livre lateral ao qual acorreu Ricardo Carvalho. Depois da expulsão de Bruno Alves, sem Rafa para poder enquadrar José Fonte no onze, Portugal baixou as linhas e desistiu de atacar. Metia duas linhas de quatro homens à frente da área e beneficiava da falta de criativos atrás de Kane, Rooney e Vardy, que aliada à timidez atacante dos laterais ingleses e à pouca versatilidade de Dier tornava a equipa de Hodgson mais do que previsível. Os ingleses, aliás, nem cruzavam bolas para a área. Numa das primeiras vezes que o fizeram, deu golo. Mas isso nem foi o mais importante da noite.
2016-06-02
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O Inglaterra-Portugal de hoje pode contribuir muito para se perceber o que as duas equipas valem tendo em vista o Europeu que aí vem. É um particular de perfil elevado, contra um adversário que, tal como a equipa de Fernando Santos, se conta entre os outsiders no alinhamento de favoritos, e ainda que a ausência de Ronaldo e Pepe possa funcionar como dissuasor para os que pretendem fazer do jogo um teste realista, há aspetos que podem ser medidos. Como por exemplo um dos dois que, a par da dependência de Ronaldo, mais preocupa os observadores nacionais: o peso da experiência. Adequado ou excessivo? Uma eventual vitória de Portugal em Wembley – seria a primeira da história, mais um “borrego a matar” por Fernando Santos – 50 anos depois da derrota ali sofrida pela equipa de Eusébio, no Mundial de 1966, poderá significar que a experiente seleção nacional aguenta ritmos elevados, como aqueles que os ingleses por si só já costumam imprimir aos seus jogos. Mais importante ainda se torna medir isso se tivermos em conta que Roy Hodgson juntou a equipa mais jovem que a Inglaterra leva a uma fase final desde o Mundial 1958, o que pressupõe que a Inglaterra deverá apostar ainda mais do que habitualmente nessa elevada intensidade. Se compararmos os 23 de Inglaterra com os 23 de Portugal, as diferenças são grandes. Não tanto em termos de idades (25,3 anos de idade média dos ingleses para 27,8 anos de idade média dos portugueses), mas mais em termos de internacionalizações (22,0 de Inglaterra contra 35,3 de Portugal) e, sobretudo, de presenças em fases finais (um total de 20 nos jogadores ingleses para 36 dos portugueses). É esta experiência de competição internacional ao mais alto nível que Portugal leva para França, seja como um dos seus maiores atributos ou um dos seis maiores defeitos. E no entanto, quando se olha para o onze que Portugal fez alinhar no domingo no Dragão frente à Noruega, a realidade parece bem diferente. Fernando Santos começou esse jogo com seis sub-25 (Anthony Lopes, Cédric, Guerreiro, William e João Mário), tendo chegado a ter sete em campo, entre os 60 e os 79 minutos de jogo (quando Rafa e Danilo substituíram Quaresma e Ricardo Carvalho). Esse elevado contingente saído da geração que foi vice-campeã europeia de sub21 faz depois com que a idade média da seleção nacional não seja assim tão elevada, quando o verdadeiro problema é o hiato entre a geração campeã europeia de sub17 em Viseu (em 2003) e estes jogadores mais novos. Olha-se para o grupo de Santos e descobrem-se onze jogadores com pelo menos 29 anos, mas depois há um buraco enorme até ao contingente de oito elementos que ainda são sub24 e à partida seriam convocáveis para a equipa que vai estar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em Agosto. Dos quatro anos intermédios, aparecem apenas quatro homens: Antony Lopes (25 anos), Adrien Silva (27), Rui Patrício (28) e Éder (28). Tendo em conta que esta é a idade associada ao pico de carreira de um futebolista, é caso para se tentar perceber o que se fez em Portugal com estas gerações, de forma a evitar repetir. A Inglaterra, por exemplo, tem nove jogadores entre os 25 e os 28 anos: Henderson, Rose e Clyne têm 25, Sturridge, Smalling, Walker e Bertrand têm 26, Lallana e Forster têm 28. Depois, o que é diferente é que enquanto Portugal tem os tais onze jogadores mais velhos, na Inglaterra aparecem apenas seis: Hart (29), Vardy (29), Heaton (30), Cahill (30), Milner (30) e Rooney (30). Há oito portugueses mais velhos que o mais antigo dos ingleses. Não espanta, por isso, a diferença abismal no total de internacionalizações (nove portugueses contra cinco ingleses acima dos 30 jogos pela seleção, para uma média que dá mais 13 jogos a cada português) e, sobretudo, nas presenças em fases finais. É verdade que onze dos jogadores chamados agora por Hodgson já estiveram no Mundial de 2014, prova da qual a Inglaterra não pode orgulhar-se. Esse contingente é igual ao total de elementos que Santos leva agora a França e já estiveram com Paulo Bento no Brasil. Só que há depois duas diferenças. Primeiro, Quaresma e Ricardo Carvalho não estiveram no Brasil mas já tinham sido convocados para mais provas antes disso. Depois, se entre os ingleses só Rooney (cinco), Hart (três), Milner (três) e Henderson (duas) foram a mais de uma fase final, na equipa de Portugal há bem mais repetentes: Ronaldo tem seis fases finais, Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Pepe foram a quatro, Rui Patrício, Eduardo, Nani, João Moutinho a três e Quaresma a duas. Eles já sabem e podem bem enquadrar os mais novos, no fundo fazer aquilo que motiva Rooney antes do Europeu: “Preciso de ser um exemplo para os outros jogadores. Não vou ter de tomar conta deles, mas se eu puder estabelecer o exemplo correto no hotel ou no campo de treinos, é isso que eles vão ver. Muitos deles vão jogar a primeira fase final e não sabem o que esperar. Se eu puder antecipar-lhes o que aquilo vai ser, fá-lo-ei”. Portugal tem vários Rooneys. Resta saber se consegue aproveitá-los.
2016-06-02
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O fim de semana foi de sentimentos mistos para os adeptos de futebol portugueses. No sábado, Cristiano Ronaldo fez um jogo de sofrimento e sem a qualidade habitual na final da Liga dos Campeões pelo Real Madrid, lançando a preocupação entre os que tanto esperam dele no Europeu. E se a lesão não é ainda parte do passado? No domingo, sem ele, a seleção ganhou por 3-0 à Noruega, permitindo aos que mais duvidam acreditar que o milagre pedido por Fernando Santos até é possível. Afinal, há Portugal sem Ronaldo! Só que há aqui uns quantos “mas”. Porque nem tudo o que parece é. Primeiro Ronaldo. Mesmo sem ser decisivo, o craque respondeu presente em Milão. Meteu a defesa do Atlético em respeito com uns quantos sprints e até marcou o penalti que deu a décima-primeira Champions ao Real Madrid. No momento da decisão, foi ele quem respondeu presente. Não se escondeu, e nenhuma equipa pode prescindir de um capitão assim, que não se esconde. Depois, Portugal. Mesmo ganhando por 3-0, a seleção mostrou algumas debilidades ante uma Noruega fraquinha, que não está sequer entre os 24 apurados para o Europeu. Coletivamente deixou que os noruegueses se apoderassem do jogo entre os 30’ e os 65’, quando Guerreiro fez o 2-0 num livre exemplarmente batido. Individualmente, Cédric teve períodos de desconcentração; Fonte cometeu um erro que até podia ter custado o empate momentâneo; Moutinho está sem ritmo, depois de dois meses a lutar com uma lesão, a ponto de a equipa melhorar quando ele saiu; Quaresma fez um grande golo, mas nunca deu à equipa presença na área, custando a perceber como pode encaixar no 4x4x2 engendrado por Fernando Santos; e Éder, que também marcou, parece um corpo estranho naquele onze. Para fazer o tal Europeu de grande qualidade, a equipa precisa de melhorar – e o próprio Fernando Santos o reconheceu no final. Há, é evidente, muita margem para que tal aconteça. A renovação do onze está bem à vista no facto de ter sido Éder quem acabou o jogo com a braçadeira de capitão: todos os outros estão ainda menos habituados a estas coisas do que ele. Fernando Santos começou a partida com um meio-campo que, à exceção de João Moutinho, veio do último Europeu de sub21 – William, João Mário e André Gomes – e podia bem estar nos Jogos Olímpicos e não no Europeu de seleções A. Isso é bom? Claro que sim. Porque a renovação não foi forçada, porque se estão a jogar é porque fizeram por isso. E sobretudo porque já mostraram há um ano que têm qualidade coletiva ao chegarem à final da categoria etária a que então pertenciam. Só que é aí que entra Ronaldo. Teria aquela seleção de sub21 resistido a um Ronaldo em mau momento? Provavelmente não. Uma das qualidades a permitir que o meio-campo das esperanças portuguesas mandasse no último Europeu foi o facto de à sua frente ter dois avançados que não resolviam mas também não atrapalhavam. E a verdade é que Ronaldo faz as duas coisas. Quase sempre a primeira, mas infelizmente às vezes também a segunda. A seleção de 2014 valia mais do que os resultados mostraram, mas caiu logo na primeira fase do Mundial porque Ronaldo estava magoado e a equipa não foi capaz de superar esse inconveniente. Em contrapartida, a de 2012 valia menos do que os resultados mostraram, mas chegou às meias-finais do Europeu porque Ronaldo estava inspirado e a equipa seguiu atrás do exemplo dele. Posto de outra forma. Com um bom Ronaldo, o meio-campo de Portugal vai necessariamente render menos, mas ninguém vai reparar, porque o CR7 é um dos melhores do Mundo e ganha jogos praticamente sozinho. Com um mau Ronaldo, o meio-campo de Portugal também vai render menos, porque o facto de ele estar em campo é o suficiente para que tudo no jogo tenha de passar por ele e, mesmo sendo um dos melhores do Mundo, se ele não estiver bem, a equipa vai ressentir-se disso. Aqui chegado, Fernando Santos não pode fazer muita coisa a não ser esperar que venhamos a ter um bom Ronaldo e criar condições ao nível do treino, da recuperação física e da idealização do jogo para que ele emirja. Se assim não for, é esperar pela próxima oportunidade. Porque ter Ronaldo é e será sempre uma benesse. E ainda que a renovação da equipa prove a quem quer ver que há e haverá sempre futuro quando ele acabar, ainda é cedo para se pensar nisso. Por enquanto é aproveitar. E esperar que ele apareça como Portugal precisa. In Diário de Notícias, 30.05.2016
2016-05-30
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O resultado foi bom, a exibição não foi má, mas Portugal precisa de melhorar mais do que os 3-0 à Noruega deixam antever para poder fazer um Campeonato da Europa de grande nível. É verdade que faltaram Ronaldo, Nani e Pepe, mas a Noruega, que nem é um dos 24 qualificados para a fase final, ainda chegou para dividir o jogo com os portugueses durante uma boa meia-hora e para deixar a pairar no ar o espectro de um empate que só um livre superiormente executado por Raphael Guerreiro veio extinguir. Quaresma e Éder fizeram os outros dois golos de um ensaio que, pelo menos, permitirá seguir a preparação com tranquilidade e que, além disso, terá levado Fernando Santos a algumas conclusões. Umas mais satisfatórias do que as outras. As boas primeiro? Danilo pode perfeitamente quebrar o galho como defesa-central, posição que ocupou na última meia-hora, em vez de Ricardo Carvalho, acertando sempre no tempo de entrada aos lances. João Mário continua a respirar classe e vai mesmo lançado para um excelente Europeu, como se percebeu no modo como serpenteava entre os adversários a criar desequilíbrios na direita. Anthony Lopes é uma alternativa muito credível a Rui Patrício nas redes e isso viu-se no modo como tirou a King o que podia ter sido o golo do empate, ainda na primeira parte. Adrien entrou bem, a dar dinâmica a um meio-campo que se tinha deixado adormecer pelo jogo pausado e depois direto dos noruegueses. Guerreiro bate bem livres e Quaresma é um génio, mesmo quando faz o contrário do que está no plano de jogo. Porque o primeiro golo português nasce tanto da inspiração do extremo do Besiktas como da constatação de que com ele é difícil pôr em prática a estratégia dos dois avançados móveis e mesmo assim ter gente na área. Durante a transmissão televisiva lembrei-me da velha história de José Maria Pedroto, que um dia, num jogo do FC Porto, teria gritado a António Oliveira para que este soltasse a bola e, tendo este prosseguido com a jogada individual e feito golo, terá depois balbuciado algo como: “também está bem”. O lance do 1-0 de Portugal foi igual. Combinação entre João Mário e Cédric na direita e cruzamento para a área onde, face à tendência de Quaresma para abrir no flanco oposto, só estava Éder e chegava André Gomes. Os noruegueses repeliram a bola, esta chegou ao flanco oposto, onde Quaresma lhe pegou, saiu da frente de um defesa e chutou em arco para um golo de bandeira. Foi a vitória da inspiração sobre a organização e o prémio para 13 minutos de bom nível, nos quais Portugal teve quase sempre a bola e esteve bem, tanto em ataque posicional como, sobretudo, na pressão defensiva que permitia recuperar muitas vezes a iniciativa ainda bem dentro do meio-campo da Noruega. Instantes depois, Éder teve nos pés a oportunidade para o 2-0, mas como o avançado do Lille falhou o golo, o jogo entrou numa fase de indefinição e até de alguma supremacia norueguesa. Os nórdicos começaram tímidos, sobretudo a explorar a profundidade dada pela velocidade de King ou a estampa física de Berisha, a sair da direita para o meio, mas na segunda parte aproveitaram o retraimento português para se assenhorearem do jogo, estando de forma consolidada mais perto do empate. Notou-se aí que João Moutinho está sem ritmo, não espantando que tenha sido o primeiro a sair quando Fernando Santos resolveu mexer. Com Adrien, o meio-campo de Portugal ganhou amplitude e foi numa falta ganha pelo médio à entrada da área e superiormente convertida por Raphael Guerreiro com um remate ao ângulo que, aos 65’, a seleção pôs termo à indefinição. Aos 2-0, os noruegueses desistiram e os portugueses descansaram. Fizeram ainda o terceiro golo, por Éder, a responder cinco minutos depois a mais uma combinação entre Cédric e João Mário com um remate na cara do guarda-redes. E até final o jogo não teve muitos motivos de interesse a não ser a avaliação do que Renato Sanches pode dar à equipa a partir de uma ala. O médio que o Benfica transferiu para o Bayern fez os últimos 18 minutos em vez de João Mário, sobre a meia-direita, e embora fique a sensação de que a meia-esquerda lhe convém mais, até pode lutar por um lugar de médio-ala com André Gomes, desde que aprenda taticamente as necessidades da posição. 
2016-05-29
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A lesão de última hora de Bernardo Silva poupou Fernando Santos ao embaraço da escolha e permitiu-lhe uma convocatória de consensos, sem precisar de riscar nenhum dos 24 jogadores que tinham mais expectativas de ser convocados. A somar às indisponibilidades já conhecidas de Fábio Coentrão e Danny e ao regresso demasiado recente de Tiago à competição, a exclusão do médio ofensivo do Mónaco resultou numa lista muito conservadora, em que nem a faísca provocada pela chamada de Renato Sanches corre riscos de provocar celeuma. Os que estão na metade do país que não gosta do jogador – por oposição à metade que o venera – até poderão ensaiar a contestação, mas esbarrarão sempre na falta de argumentos que se sucede ao “se não fosse ele então era quem?” Se houvesse Bernardo Silva, Fernando Santos ver-se-ia obrigado a fazer uma escolha que teria sempre algo de polémica em si. Quem ficava de fora? O próprio Renato Sanches, que pode dar à equipa as suas arrancadas com bola e a explosão a meio-campo? André Gomes, médio de fino recorte, que além do mais pode jogar a partir da meia-esquerda? O ponta-de-lança, deixando a equipa descalça numa qualquer eventualidade em que precise de meter mais peso na área? Um dos defesas-centrais, correndo o risco de, face à idade de todos eles, se ver a contas com lesões que o forçassem a fazer adaptações? Um dos atacantes com menos estatuto mas enorme potencial, como Rafa? Um dos defesas-laterais suplentes, ou até os dois, chamando um polivalente para cobrir os titulares? Tudo serviria para apimentar um pouco as reações à escolha. Assim, não: ninguém fará mais do que erguer um pouco uma sobrancelha, seguindo de imediato com o que estava a fazer antes. Não digo que isso seja mau. O consenso é uma posição difícil de atingir e é de consensos que esta seleção precisa para seguir sem ondas na competição. Soubesse eu da impossibilidade de Bernardo Silva e a minha lista só teria uma diferença relativamente à de Fernando Santos: a chamada de André Silva em vez de Éder. Sei que Éder fez um bom final de época no Lille, que até marcou alguns golos decisivos, mas a minha questão não era tanto de golos – esses pode fazê-los Ronaldo – mas mais de compatibilidade com o CR7 na frente. E aí acho que André Silva dá mais garantias, porque faz tudo aquilo que Ronaldo não faz. A ideia do selecionador é, no entanto, a de jogar com Nani e Ronaldo na frente, guardando Éder para alguma emergência. Não é a minha, mas até essa pode ser relativamente consensual.
2016-05-17
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Fernando Santos vai divulgar amanhã a lista de 23 jogadores portugueses para o Campeonato da Europa e, tal como venho prometendo há meses, deixo aqui a minha lista com umas horas de avanço. Desta vez não faço a lista do selecionador: escolhi os meus 23, ainda que com a certeza de que eles não serão muito diferentes dos oficiais. Terão, no máximo, dois nomes trocados. Porque tanto na minha cabeça como certamente na de Fernando Santos não haverá mais do que duas dúvidas. A saber: Renato Sanches e o ponta-de-lança. A minha decisão? Sim a Renato e venha de lá André Silva. Onde as minhas escolhas divergem mais das do selecionador é nas ideias para a formação da equipa-base. Ambos concordaremos que o 4x4x2 é o melhor sistema para a seleção, porque é o único que permite a perfeita integração de Cristiano Ronaldo – e todos sabemos que Portugal será tão mais forte quanto melhor estiver o CR7. O 4x3x3 encerra dois problemas graves sob este prisma: se, nele, Ronaldo for ponta-de-lança, passa grande parte do jogo de costas para a baliza e sem poder explorar a sua velocidade e o poder de explosão; se for extremo-esquerdo e não ficar amarrado ao corredor, a equipa ficará sempre descompensada, sobretudo em momentos de transição defensiva, nos quais o corredor esquerdo ficaria sempre abandonado (e sem Coentrão, que ainda assim dava bastantes mais garantias que Eliseu). A resposta, portanto, passa pelo 4x4x2, com um avançado a libertar Ronaldo, a ganhar-lhe aqueles metros de que ele necessita até se cruzar com a linha defensiva do adversário. E é aqui que as minhas ideias se separam das de Fernando Santos. O selecionador apostou em Nani para fazer esse papel, eu acho que Nani faz mais sentido na esquerda do meio-campo. Nani pode ser um dos dois pontas-de-lança no 4x4x2 – fez esse papel nos particulares com a Bulgária e a Bélgica – mas parece-me que para aquela posição a equipa precisa de um jogador diferente. Precisa de um jogador que faça tudo aquilo que Ronaldo não faz. O quê? Que pressione no momento defensivo, que seja o primeiro a lutar corpo-a-corpo com os centrais adversários pelas bolas divididas, que os prenda, para dar espaço a Ronaldo. Pelo que fez nos últimos meses de época, André Silva mostra que pode ser esse jogador. Porque é possante, trabalhador e inteligente a ler o jogo, sabendo quando deve baixar em apoio ou procurar movimentos de rotura. E ainda porque, em início de carreira, fará tudo para entrar nesta lista. Só fez um golo? E depois? Nem que não tivesse feito nenhum. Se marcar golos, excelente; mas o que esta seleção precisa do seu ponta-de-lança não é que ele seja um goleador frequente. Para isso está lá Ronaldo. Esclarecida a dúvida acerca do ponta-de-lança, não é difícil escolher os outros atacantes: Ronaldo, Quaresma, Bernardo Silva, Rafa e Nani. A lesão de Danny veio simplificar as coisas. Como simples será a escolha dos três guarda-redes – Rui Patrício, Anthony Lopes e Eduardo. Ou dos laterais, que com a lesão de Coentrão ficará resumida a Vieirinha, Cédric, Eliseu e Raphael Guerreiro. De certeza também levaria os centrais Pepe, Ricardo Carvalho e José Fonte, os médios-defensivos William Carvalho e Danilo, os médios-centro João Moutinho e Adrien Silva, e ainda João Mário e André Gomes, que servem múltiplos propósitos: podem jogar na meia-direita ou na meia-esquerda num esquema de quatro médios que privilegie um ala mais ofensivo (Nani) e um que seja mais médio (João Mário) ou até passar para o meio se de repente a equipa quiser entrar em 4x3x3. Aliás, até os defesas-laterais chamados nesta lista podem, em caso de necessidade, jogar a meio-campo numa linha de quatro. Aqui chegados, temos 22 jogadores na lista. A opção para o 23º é entre um quarto defesa-central, que seria Bruno Alves, ou mais um médio, a forma de integrar o joker Renato Sanches. Sei que a veterania dos três centrais portugueses poderia obrigar a que esse quarto homem fosse chamado e que Bruno Alves, além do mais, faz bom balneário e poderia até ser solução de recurso para jogar na área adversária, mas Renato Sanches traz outras valências. Mesmo sem ter lugar no onze – especialmente num meio-campo a quatro, onde as suas deficiências de posicionamento, contra equipas mais fortes do que as que andam pela Liga portuguesa, se notariam melhor – poderia sempre ser uma adição interessante em jogos nos quais fosse necessário aumentar o ritmo e o risco ofensivo. Não acho, nem pouco mais ou menos, que Renato seja um jogador feito, mas gostaria de tê-lo neste Campeonato da Europa. Mesmo que isso implicasse que, numa situação de emergência, Danilo tivesse de ser utilizado como defesa-central, posição na qual não me convence tanto como a âncora do meio-campo. Assim sendo, a minha lista seria esta: Guarda-redes – Rui Patrício, Anthony Lopes e Eduardo; Defesas – Vieirinha, Cédric, Pepe, Ricardo Carvalho, José Fonte, Eliseu e Guerreiro; Médios – William Carvalho, Danilo, João Mário, Adrien Silva, João Moutinho, André Gomes e Renato Sanches; Avançados – Ronaldo, Nani, Quaresma, Bernardo Silva, Rafa e André Silva. E o onze: Rui Patrício; Vieirinha, Pepe, Ricardo Carvalho e Eliseu; William; João Mário, João Moutinho e Nani; Ronaldo e André Silva.
2016-05-17
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A eliminação do Barcelona pelo Atlético Madrid, somada à proeza individual de Cristiano Ronaldo, na véspera, contra o Wolfsburg, vem animar muita gente no futebol português. À cabeça, pois claro, o selecionador nacional. Fernando Santos pode ser um dos principais beneficiários da subida de nível que o contexto pede a Ronaldo. Porque, independentemente de se achar que um é melhor ou pior do que o outro, a Bola de Ouro volta a estar ao alcance do português e dependerá em boa parte de um grande Europeu. Que, juntamente com a Liga dos Campeões, são os grandes objetivos de Ronaldo nesta ponta final da época. Se em 2015 não havia sequer discussão, pois Messi tinha ganho tudo – Liga espanhola, Champions e Taça do Rei – desta vez a questão voltará a animar os debates sobre futebol um pouco por todo o lado, lá mais para o fim do Verão ou início do Inverno. Messi passou pela Liga dos Campeões, não diria de forma anónima, mas sem fazer golos além dos oitavos-de-final, nos quais foi fundamental para o sucesso do Barcelona ante o Arsenal. Ficou em branco nas duas partidas com o Atlético Madrid e disso se ressentiu a equipa, que acabou eliminada. Aos seis golos de Messi na Liga dos Campeões, respondeu já Ronaldo com 16, entre eles o hat-trick que virou a eliminatória contra o Wolfsburg. A Liga espanhola, por sua vez, ainda pode ser alvo de discussão coletiva – o Barça tem quatro pontos de vantagem sobre o Real e três sobre o Atlético, um calendário minimamente acessível, mas vem de duas derrotas seguidas – mas dificilmente verá aberto o debate acerca do maior contributo individual. É que Ronaldo tem mais oito golos e mais uma assistência do que Messi, que no plano individual está mesmo atrás de Suárez na influência no jogo do Barcelona. Já se sabe que Ronaldo é especialista nos arranques de época – os seus totais goleadores na Champions têm muito a ver com a forma como despacha adversários mais débeis na fase de grupos – pelo que as hipóteses de vir a ser coroado Bola de Ouro no final de 2016 têm muito a ver com o que acontecer no Europeu. Uma performance convincente nos relvados de França, ao mesmo tempo que Messi joga uma Copa América que, mesmo em edição especial, nunca terá a mesma visibilidade da prova europeia, pode desde logo garantir a redução do score global para 5-4, ainda a favor do argentino. E com isso pode ganhar a seleção nacional. 
2016-04-14
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Renato Sanches conseguiu um feito notável. Não foi levar um miúdo a invadir um relvado para o abraçar e pedir-lhe uma camisola. Isso é consequência. O que Renato Sanches conseguiu foi pôr um país inteiro a discuti-lo, a ele, com argumentos radicais, próprios da talibanização que tomou conta do futebol nacional. Para uns já é um dos melhores médios da Europa e “tem coisas de Eusébio”, como afirmou José Augusto, que tem pelo menos a seu favor e do que disse o facto de ter conhecido muito bem o “King”. Para outros, é um caceteiro que não joga nada, que tem a data de nascimento martelada e beneficia do beneplácito de adversários pouco empenhados e árbitros desatentos para se impor. Ridículos, uns e outros. Renato Sanches está a fazer o seu caminho. É um bom jogador, pode vir a ser um muito bom jogador, talvez até um extraordinário jogador, sobretudo se aliar ao que já conseguiu mais outro feito notável, que é alhear-se do ruído que a simples menção do seu nome já provoca no futebol português. Quanto vale Renato Sanches? Não digo em milhões, que aí, como todos os jogadores que entram na teia do negócio de import-export em que se transformou ultimamente o futebol nacional, valerá aquilo que o poderoso empresário que vai transacioná-lo quiser, consoante lhe der mais jeito subir ou baixar a fatura. Digo no campo. No campo, Renato Sanches foi um dos grandes responsáveis pela mudança de cara do Benfica, de Novembro para agora. Ele entrou na equipa há meio campeonato, precisamente no jogo em Braga, quando Rui Vitória bebia gole de água atrás de gole de água sem ver a equipa melhorar. O Benfica ganhou esse jogo por 2-0, ultrapassou os minhotos no terceiro lugar, mas continuava a oito pontos do Sporting, ainda que com um jogo a menos, na Madeira contra o União. Com o miúdo na equipa, os encarnados empataram esse jogo com o U. Madeira, perderam com o FC Porto e ganharam todos os outros desafios, estando agora na frente da Liga, com cinco pontos (e um jogo) a mais do que o Sporting. Algum mérito ele terá, porque se fosse irrelevante o treinador já o teria mandado de volta para a equipa B. Renato Sanches não é, por enquanto, um dos melhores médios da Europa e, com franqueza, além do tom de pele, não vejo nele mais nada de Eusébio. Mas o seu futebol, que Vitória definiu como “selvagem”, ajudou a dar a volta ao Benfica. Sobretudo porque, com bola, Renato é muito forte. É forte na aceleração, na mudança de velocidade, no sprint longo, nas bolas divididas e consegue ainda alargar a potência muscular de que dispõe ao remate de meia-distância, que lhe sai bem com regularidade. Fernando Santos chamou-o à seleção e fez bem, porque era importante vê-lo em ação naquele ambiente, nem que fosse para concluir que, por mais que isso custe a quem faz disto o seu cavalo de batalha, ainda é cedo para lhe dar a responsabilidade de ser um João Moutinho. E porquê? Porque ao mesmo tempo que é fortíssimo com bola, o “selvagem” Renato Sanches compromete sem ela. Se não impõe o primeiro momento de pressão, é um dos causadores dos desequilíbrios posicionais do Benfica no momento defensivo, porque sai muito da posição, porque tem fraca noção das responsabilidades de cobertura num meio-campo a dois. Rui Vitória sabe disso e não quer que ele mude, porque em 95% dos jogos do Benfica isso não chega a ser um problema. Pelo contrário. Mas o futebol de altíssima competição é mais do que o momento em que se tem a bola – e nisso Renato ainda tem uma enorme margem de progressão. Pensemos assim: há 90 minutos de jogo e, se as coisas lhe correrem particularmente bem, um jogador tem a bola na sua posse em dois desses 90 minutos. Os outros 88 são passados em movimentos de apoio ofensivo ou de pressão ou contenção defensiva. Ora nesses 88 minutos, o grande jogador do meio-campo do Benfica é Pizzi (além de Jonas, claro, que compreende como ninguém a urgência de cada momento). E por estranho que pareça, não vi ninguém dizer que ele faz lembrar Simões, o extremo que tanto aparecia nos espaços interiores no Benfica europeu dos anos 60, ou que a sua eventual não-convocatória para o Europeu será um escândalo. Com a agravante de, no caso de Pizzi, o ser mesmo, porque não há em Portugal quem faça aquilo melhor do que ele e João Mário. In Diário de Notícias, 04.04.2016
2016-04-04
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Fernando Santos disse após o jogo com a Bélgica que se tivesse que fazer agora a lista final de 23 convocados para o Europeu ainda tinha de pensar algum tempo, mas a verdade é que se os dois jogos da semana passada lhe terão servido para esclarecer algumas dúvidas, terão servido ainda mais para deixar pistas aos observadores externos acerca do que lhe vai na cabeça. E a julgar pelo que as suas opções nestas duas partidas deixaram transparecer, as dúvidas do selecionador nacional já não são muitas. A não ser que apareçam surpresas indesejáveis, como lesões, restarão no máximo duas ou três vagas no avião que levará a seleção para França. Uma no meio-campo, outra no ataque e uma nas laterais da defesa. No ataque, tendo em conta a aposta recente de Santos em dois avançados móveis – Nani e Ronaldo foram titulares nas duas partidas – a dúvida tem a ver com uma opção nuclear: haverá na lista lugar para um ponta-de-lança mais fixo, daqueles tradicionais, que permita mudar de modelo e até de sistema, para um 4x3x3 mais clássico? Tudo indica que sim, o que implica que Éder esteja bem posicionado para se juntar aos homens seguros na lista, que são Ronaldo, Nani e Quaresma. A questão é que se vai Éder, isso implica que entre Danny, Rafa e Bernardo Silva terá de haver um sacrificado. Ou então Santos resolve a questão levando os três e deixando Éder de férias. A meio-campo, os dois jogos também serviram para confirmar nomes. Adrien e João Mário, duas vezes titulares, estão seguros, numa lista onde Moutinho era o único médio a 100 por cento seguro de fazer a viagem. A forma como o selecionador acumulou Danilo e William Carvalho numa altura em que quis fechar o jogo contra a Bélgica – e a forma como conseguiu fazê-lo – significa que os dois não só são compatíveis como que passa pela cabeça de Fernando Santos repetir o estratagema em futuras situações. O que significa que ficam ocupados cinco dos seis lugares a meio-campo. Para a vaga que resta, aberta pela lesão de longa duração de Tiago, há imensos candidatos. A começar pelo próprio Tiago, caso recupere e nas últimas semanas da época ainda mostre argumentos que justifiquem a chamada para lá da gratidão pelo papel desempenhado na qualificação. André Gomes, que equilibrou bem a equipa frente à Bélgica, também é hipótese, como o são Renato Sanches, André André e até Veloso ou Ruben Neves. A verdade, porém, é que só há lugar para um. Ou dois, no limite, caso em vez de substituir Éder por um dos atacantes mais móveis, Santos opte por levar mais um médio. Importante nessa matéria é também a evolução de Fábio Coentrão, que tem passado mais tempo lesionado do que a jogar. Porque, em boas condições, Coentrão pode ser lateral esquerdo ou o sétimo médio, o ala que Santos pode usar para equilibrar a equipa. Raphael Guerreiro também pode sê-lo, mas a sua entrada na lista depende de Coentrão. Porque com os quatro centrais mais ou menos definidos – Pepe, Ricardo Carvalho, José Fonte e Bruno Alves estão muito à frente da concorrência e a sua veterania e propensão para as lesões impedirá Santos de levar só três para ganhar um lugar na lista – a defesa só tem ligeiramente abertas duas vagas. Vieirinha e Eliseu estão seguros no avião, Cédric em princípio também – só uma super-ponta final de época poderia agora valer a Nelson Semedo – e se Coentrão estiver ao seu nível, Guerreiro terá de esperar por outra oportunidade. Como terão de esperar todos os que almejam entrar na lista de guarda-redes, onde Patricio, Anthony Lopes e Eduardo já devem ter cadeiras reservadas.   Guarda-redes (3) Rui Patrício – 100% Anthony Lopes – 95% Eduardo – 80% Beto – 23% Ventura – 1% Marafona – 1%   Lateral direito (2) Vieirinha – 100% Cédric – 80% Nelson Semedo – 18% Bosingwa – 1% Ivo Pinto – 1%   Lateral esquerdo (2) Eliseu – 100% Coentrão – 70% Raphael Guerreiro – 20% Antunes – 8% Tiago Gomes – 1% Tiago Pinto – 1%   Defesa central (4) Ricardo Carvalho – 100% Pepe – 100% Bruno Alves – 90% José Fonte – 90% Neto – 15% Paulo Oliveira – 2% Carriço – 2% André Pinto – 1%   Médios (6) João Moutinho – 100% William Carvalho – 100% Danilo – 100% João Mário – 100% Adrien Silva -100% André Gomes – 40% Tiago – 20% Renato Sanches – 15% André André – 10% Veloso – 6% Ruben Neves – 5% André Almeida – 2% Pizzi – 2%   Avançados (6) Ronaldo – 100% Nani – 100% Quaresma – 100% Bernardo Silva – 80% Danny – 80% Rafa – 80% Éder – 50% Varela – 1% Gonçalo Guedes – 1% Cavaleiro – 1% Rui Fonte – 1% Nelson Oliveira – 1% Lucas João – 1% Ricardo – 1% Hugo Almeida – 1% Ukra – 1% Postiga – 1%
2016-03-30
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Último Passe

Portugal conseguiu uma boa vitória sobre a Bélgica, por 2-1, numa partida em que mostrou menos capacidade para criar desequilíbrios na frente do que tinha feito contra a Bulgária mas onde, em contrapartida, se mostrou uma equipa muito mais segura e disciplinada do que na passada sexta-feira. No último jogo antes da escolha final dos 23 convocados por Fernando Santos, o selecionador deixou algumas pistas acerca não só acerca dos homens que tenciona levar para França mas também da evolução do modelo e da organização que tenciona aplicar quando a competição começar a apertar. A aposta na mobilidade na frente manteve-se, com Nani e Cristiano Ronaldo a funcionarem como os dois elementos mais avançados do esquema. Depois, no entanto, Santos acertou um pouco os equilíbrios na forma como escolheu quatro jogadores que são tendencialmente médios para jogar atrás destes dois avançados. Uma coisa é jogar contra uma Bulgária que só ataca pela certa e outra é fazê-lo contra uma Bélgica que assume o jogo e até acabou a partida com mais posse de bola do que Portugal. No primeiro jogo, Fernando Santos soltou João Mário e Rafa, neste chamou antes André Gomes em vez do atacante bracarense, levando a que a equipa não tivesse sempre tanta gente na frente e se colocasse de forma diferente no momento defensivo. Durante o jogo, mesmo mantendo o modelo, Santos ainda experimentou o 4x3x3, quando chamou Éder ao campo, e o 4x2x3x1, quando sentiu a necessidade de fechar o espaço à frente da sua área com a utilização simultânea de Danilo e William, para controlar uma Bélgica com cada vez mais gente na frente. O jogo, em certa medida, diferiu do de sexta-feira sobretudo na eficácia das finalizações nacionais. Os portugueses não foram exemplares, porém. Após um início em que os belgas pareciam querer monopolizar a bola, Portugal começou a acertar nas combinações ofensivas e, antes de Nani abrir o marcador, aos 20’, na sequência de um bom lance de Cristiano Ronaldo e André Gomes, já o guarda-redes Courtois se tinha oposto com qualidade a remates de João Mário, Adrien, Nani e Ronaldo. E antes de Ronaldo fazer o 2-0, aos 40’, após um excelente cruzamento de João Mário, já este tinha perdido uma ocasião claríssima, traído pela forma como fez a receção a um passe do CR7 que era meio golo. O 2-0 ao intervalo justificava-se, por isso, perfeitamente. Santos trocou então Adrien e João Mário, que já tinham sido titulares na sexta-feira (e essa dupla titularidade é seguramente uma pista acerca dos 23), por Renato Sanches e Bernardo Silva. E Portugal baixou a intensidade. Não tanto pelas substituições – ainda que Renato tenha parecido muito mais tímido do que nos jogos do Benfica, ganhando em disciplina tática o que perde em capacidade de explosão atacante – mas muito pela forma como a equipa decidiu gerir a vantagem. A Bélgica voltou a pegar no jogo e a entrada de Jordan Lukaku, dando profundidade ofensiva ao corredor esquerdo, colocou Portugal em sentido. Santos continuou a sua gestão, trocou Ronaldo e Nani por Quaresma e Éder e mudou para 4x3x3, com Danilo atrás de Renato e André Gomes no meio-campo, e Quaresma e Bernardo abertos no ataque. E foi nessa altura que a Bélgica marcou, numa combinação dos irmãos Lukaku, que Romelu concluiu de cabeça. Nessa altura, com meia-hora para jogar e já sem Ronaldo em campo, Marc Wilmots quis ir à procura do empate. Chamou Batsuayi para jogar perto de Lukaku na frente e Portugal tremeu até ao momento em que Fernando Santos mudou para o 4x2x3x1, com William Carvalho ao lado de Danilo como médios mais recuados (outra pista, a indicar que é possível tê-los em simultâneo em campo). Com a troca, a equipa portuguesa fechou o jogo e segurou o 2-1 até final, vindo mesmo a ter uma ou outra ocasião para ampliar a vantagem. Ainda assim, mesmo pela margem mínima, a vitória chegou para animar um pouco os semblantes, que tão carregados tinham saído depois da derrota com a Bulgária. Afinal, mesmo tendo em conta que à Bélgica faltavam vários titulares, a seleção deixou indicações de que pode ser competitiva.
2016-03-30
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Fernando Santos escolheu o jogo com a Bulgária para pôr em prática um novo jogar na seleção nacional. Mais do que olhar para o resultado, que foi mau, ou para as indicações, que face ao elevado número de situações de golo criadas até foram boas, o que importa é avaliar se este novo jogar tem pernas para a andar e se é a melhor resposta aos problemas da seleção. A resposta às duas perguntas é sim. O que em si não significa que esteja tudo bem ou que o problema não pudesse ter começado a ser atacado há mais tempo. Porque o Europeu é já daqui a dois meses. O selecionador nacional apanhou a equipa a meio de uma fase de qualificação que, ainda por cima, nem tinha começado bem e a primeira prioridade que teve foi a de apurar a equipa para a fase final. Fê-lo com um misto de sensações. Por um lado ganhou todos os jogos, por outro mostrou quase sempre um futebol pobre, resolvendo nos últimos instantes muitas partidas de fraca produção atacante. Parecia estar em curso um processo de helenização da seleção nacional, mas foi a esse processo que Santos puxou agora o travão de mão. Porque além de não confiar assim tanto na sorte, também ele percebeu que esse processo não resolvia o maior problema da equipa. A saber: o que fazer com Ronaldo? Voltemos ao último Mundial. Com Paulo Bento, Portugal usava o 4x3x3 e Ronaldo jogava a extremo-esquerdo, a posição que melhor lhe permite desequilibrar, pois dá-lhe os metros necessários para embalar, da esquerda para o meio, e aparecer já lançado face à defesa adversária. A questão é que isso acarretava dois problemas adicionais: para Ronaldo jogar ali era preciso estar lá um ponta-de-lança que, não existindo, roubava o lugar no onze a jogadores melhores e, por outro lado, essas deambulações de Ronaldo pelo campo deixavam sempre a equipa nacional coxa e desequilibrada no momento de transição defensiva, pois raramente havia alguém para defender o corredor que o CR7 deixara vago além do defesa-lateral, condenado a incontáveis situações de inferioridade numérica. Quando a prioridade foi conseguir a qualificação, Ronaldo chegou a jogar como ponta-de-lança solitário. Isso que vinha resolver o problema defensivo, pois mantinha todos os corredores bem preenchidos, mas sacrificava o melhor jogador da equipa a uma posição que não é aquela em que ele mais rende – Ronaldo passava boa parte do jogo de costas para a baliza adversária a batalhar por bolas aéreas bem longe da área – e de caminho sacrificava também o potencial ofensivo da equipa. Conseguido o apuramento, a ideia devia ter sido logo resolver este problema, que só podia passar pela adoção de um 4x4x2 que permitisse a Ronaldo aparecer solto, com um parceiro no centro do ataque. Nem precisava de ser um goleador – que para os golos está lá Ronaldo. Tinha era de ser alguém que fosse capaz de fazer tudo aquilo que ele não faz: tinha de se bater com os defesas-centrais, para ganhar espaço para Ronaldo, e pressioná-los na fase defensiva, para que Ronaldo pudesse guardar energias para desequilibrar depois. Santos, porém, dispensou Ronaldo dos dois primeiros particulares, desperdiçando nessas partidas com a Rússia e o Luxemburgo a oportunidade de testar a compatibilidade entre os pontas-de-lança convocados (Nélson Oliveira e Lucas João) com o capitão de equipa. Percebe-se agora que nunca quis sequer fazer esse teste, pura e simplesmente porque não acreditava no seu sucesso. A ideia de Santos, o novo jogar da seleção, passa por uma frente de ataque com dois jogadores móveis, que não se dão à marcação, dois jogadores que tanto procuram os corredores laterais em trocas posicionais com os médios-ala, como a profundidade nas costas da defesa adversária, a solicitar o passe dos médios com movimentos de rotura, ou as desmarcações de apoio para tabelas no espaço entre as linhas adversárias. Contra a Bulgária jogaram ali Nani e Ronaldo e o teste não correu mal, tantas foram as situações de golo criadas. É preciso, no entanto, ter em conta dois aspetos. Primeiro, que o adversário era fraco – e parece-me mais importante valorizar isso do que o facto de Portugal ter perdido, porque em condições normais uma equipa que cria tantas oportunidades flagrantes de golo acaba por golear. Depois, que este novo jogar, por privilegiar tanto a mobilidade e uma primeira zona de pressão agressiva, com muita gente no último terço, deixou a equipa vulnerável do ponto de vista defensivo, com muitos jogadores fora do lugar em transição e pouca gente atrás em organização defensiva. A ideia não é má, mas ainda precisa de muito trabalho. A ver já amanhã, contra a Bélgica. In Diário de Notícias, 28.03.2016
2016-03-28
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Último Passe

Uma noite memorável do guarda-redes Stoyanov e o desacerto global dos portugueses na hora da finalização levaram a seleção nacional a perder por 1-0 com uma insípida Bulgária, em Leiria, no primeiro jogo de preparação para o Europeu de 2016. O resultado foi o pior de uma noite em que foi possível perceber como quer Fernando Santos resolver a questão do enquadramento de Ronaldo no onze. O selecionador quer um ataque feito de mobilidade total, um modelo que vai precisar de trabalho de aperfeiçoamento e que terá implicações na forma como a equipa se organiza defensivamente, mas que chegou para criar ocasiões de golo mais que suficientes para ganhar este jogo com tranquilidade: Portugal acabou com 27 remates contra quatro, com 54 ataques contra doze, com 19 cantos a três. Este novo modelo prefigura ainda uma alteração identitária numa seleção que ultimamente se habituara a jogar muito atrás e que agora, talvez por ter a noção de que vai enfrentar muitas equipas com propensão para jogar na expectativa, parece querer meter mais ênfase na frente. Ronaldo e Nani, os dois pontas-de-lança móveis escalados por Santos, alternavam bem entre a busca dos corredores laterais – sempre chamando Rafa e João Mário, os dois médios-ala, a posições interiores –, a solicitação do passe em profundidade para o espaço nas costas da defesa búlgara ou o recuo em desmarcações de apoio para combinar com o meio-campo. Em resultado disso, os portugueses perderam várias ocasiões de golo cantado, incluindo um penalti, em que o CR7 permitiu a defesa de Stoyanov, a meio da segunda parte. O início de jogo, então, foi de alvoroço total, com oito situações de finalização nos primeiros dez minutos a provarem que o modelo pode funcionar. Mas da mesma forma que é importante não permitir que a depressão pelo resultado negativo tome conta da equipa, também não convém que se entre em euforia à conta do bom funcionamento do novo modelo. Porque a questão é que ele nem sempre funcionou. Por um lado, a desorganização criativa à base da qual funciona o ataque tem repercussões no modo como a equipa defende, pois muitas vezes ela está desequilibrada no momento da perda. Via-se que Portugal metia muita gente na frente, que dava liberdade total a quem por lá andava – e a própria coordenação entre todos melhorará com o tempo de trabalho e a repetição – mas que depois sofria na transição defensiva, sobretudo se falhava a primeira zona de pressão. Essa pareceu ser a preocupação principal de Santos: a seleção procurava estancar cedo a saída de bola dos búlgaros, chegou mesmo a fazer várias recuperações altas, fruto da amplitude de movimentos de William Carvalho e Adrien Silva, os dois médios-centro, mas se não conseguia ganhar a bola logo ali permitia invariavelmente que se abrissem auto-estradas para rápidos ataques do adversário. Num deles apareceu o golo de Marcelinho, a dar vantagem à Bulgária. Até final nunca mais Portugal teve momentos tão avassaladores como aqueles primeiros 15 minutos de jogo. Mas, apesar da quebra de rendimento de alguns jogadores à medida que o jogo avançava – Nani e João Mário pareceram perder concentração na segunda parte – continuou a criar várias situações para evitar a derrota. O sorriso desesperado de Ronaldo quando, já depois de ter perdido o penalti, viu Stoyanov negar-lhe mais um golo certo com uma defesa impossível, dizia tudo: não era noite de Portugal. Resta a Fernando Santos acreditar que pode ter sido a alvorada de um novo jogar.
2016-03-26
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Último Passe

A chamada de Renato Sanches aos jogos que Portugal vai fazer com a Bulgária e a Bélgica, no final deste mês, é absolutamente normal e esperada. Por muito que ela seja contestada, já se viram coisas muito mais estranhas. Aliás, no caso do médio benfiquista, estranho seria que Fernando Santos não aproveitasse os últimos jogos antes da convocatória final para o Europeu para ver a nova coqueluche do Benfica num ambiente de seleção A ao qual regressa Ronaldo, em princípio para voltar a jogar como ponta-de-lança. Renato Sanches tem passado nas seleções, pode dar à equipa nacional coisas que ela não tem em abundância, como a amplitude territorial em que se move, a meia-distância ou o arranque forte com bola. Mesmo longe de ser um jogador feito – ainda se lhe notam inconsistências, sobretudo nos comportamentos sem bola – tem sido fundamental na recuperação que trouxe o Benfica dos sete pontos de atraso que tinha quando ele entrou no onze para os dois de avanço que tem neste momento. Não tem um par de jogos como titular, como alguns elementos chamados no passado recente à seleção nacional, pelo que se justifica plenamente a sua convocatória. Aliás, em rigor, toda a convocatória de Fernando Santos parece absolutamente normal. É normal eu estejam Adrien e João Mário, os dois melhores médios do Sporting que, ainda assim, faz figura de desafiante na corrida ao título. É normal que apareçam William e Danilo, quanto mais não seja para Fernando Santos perceber qual dos dois quer levar ao Europeu, uma vez que não será fácil que caibam ambos. É normal que regressem Ronaldo, Danny e Ricardo Carvalho. Aliás, neste caso, o que foi anormal foi não terem estado na última convocatória. É normal que esteja Rafa, um fenómeno de aceleração de jogo no último terço, que pode ter um papel bem mais ativo do que há dois anos, quando foi a surpresa na lista para o Mundial. É normal que caiam Ruben Neves e Gonçalo Guedes, porque deixaram de ser opção no FC Porto e no Benfica. A única coisa anormal é mesmo que ainda esteja por testar um ponta-de-lança capaz de jogar com Ronaldo, algo que o regresso de Éder não vem propriamente resolver. O que me leva a crer cada vez mais que a ideia de Fernando Santos é mesmo a de sacrificar o CR7 na posição de avançado de referência. Talvez nem haja outra solução, mas a verdade é que não foi feito tudo para a encontrar.
2016-03-18
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A já proverbial sorte de Fernando Santos voltou a atacar no sorteio da fase final do Europeu de 2016, no qual a Portugal calhou o grupo mais acessível com que seria possível sonhar. É verdade que nas fases finais os portugueses até costumam dar-se melhor com os chamados “grupos da morte” do que com adversários fáceis, mas ter Islândia, Hungria e Áustria no caminho para os oitavos-de-final e ainda por cima com a noção de que até o terceiro classificado pode apurar-se não era admissível nem de encomenda. O pior mesmo pode vir depois, porque o vencedor do Grupo F apanhará logo com o segundo classificado do Grupo E, onde estão Bélgica e Itália. A Áustria não é uma equipa fácil, é verdade. Não perdeu nenhum jogo na fase de qualificação, tendo ganho o Grupo G com nove vitórias e um empate apenas. Não perde um jogo competitivo desde Outubro de 2013, quando foi batida pela Suécia por 3-1, na qualificação para o Mundial do Brasil. Tem uma série de jogadores batidos na Bundesliga, construiu uma seleção competitiva em cima da geração semi-finalista do Mundial de sub20 em 2007, mas só esteve numa fase final neste século: a do Europeu de 2008, e na qualidade de país organizador. Compará-la com outras seleções que estavam no Pote 2, como a Itália ou até a Rússia, a Ucrânia ou a Croácia, permite perceber como Portugal teve sorte. Também a Hungria regressa a uma fase final depois de décadas de ausência. Apurou-se ganhando os dois jogos do play-off à Noruega, mas era claramente a equipa mais fraca do Pote 3, muitos furoa abaixo da Rep. Checa, da Suécia ou da Polónia, por exemplo. Quanto à Islândia, um dos estreantes em fases finais, é verdade que ganhou à Holanda na qualificação, onde também ficou à frente da Turquia, e que está a crescer a olhos vistos no futebol europeu, muito graças ao investimento da federação em infra-estruturas que permitem às crianças jogar futebol durante todo o ano, mas além de já ter ficado esfusiante por entrar na fase final (perdeu os três jogos feitos desde que se qualificou), continua a ser uma seleção de terceira linha do futebol continental. Conhece Finnbogasson, suplente do Olympiakos? E Sigurdsson, do Swansea? Ou Sigborsson, do Nantes, e Bjarnason, do Basel? E Priskin, avançado do Slovan Bratislava? Ou Nikolic, do Legia Varsóvia? Ou Lovrencsics, do Lech Poznan, e Nemeth, do Kansas City? Aproveite o Europeu, porque o mais provável é que, a não ser que a seleção nacional borre seriamente a pintura, não volte a ouvir falar muito deles.
2015-12-12
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Há algumas coisas que me custa compreender na seleção nacional, mas se houve uma que me pareceu clara, limpa e justa foi a divisão dos minutos de jogo entre os selecionados por Fernando Santos nos jogos com a Rússia e o Luxemburgo. Foi por isso com algum espanto que vi a reação enérgica do FC Porto à utilização dos seus três médios no segundo desafio. Pareceu-me desproporcionada e nada mais do que uma tentativa falhada de marcar a agenda num período em que anda por aí muita gente convencida de que os jogos e os campeonatos se ganham nos comunicados, nos boletins ou nas entrevistas dadas por quem não joga. Não percebi, por exemplo, a convocatória de Fernando Santos – e já tinha escrito que preparar o Europeu e testar soluções para a parceria com Cristiano Ronaldo sem levar Cristiano Ronaldo é uma ideia difícil de justificar a não ser com a vontade de agradar ao Real Madrid. Como não tinha percebido outras ausências antes desta, essas com consequências que iam muito para lá da preparação de um jogo tão importante como o clássico de Espanha. Foi o caso, por exemplo, da não convocação de João Moutinho para o Mundial de 2010, da qual se queixou o Sporting, por entender que ela esteve na base da vontade de saída do clube revelada pelo jogador. Ou, agora, da relutância na chamada de Ruben Neves, de que se queixavam os portistas, alegando que ele já é titular e capitão de equipa e que há muito justificava a entrada no lote dos mais credenciados – e por isso mais valorizados. Até por isso, por portistas e sportinguistas andarem constantemente a queixar-se da influência maléfica do Benfica ou de Jorge Mendes nas escolhas dos sucessivos selecionadores, me parece muito retorcido vir agora o boletim Dragões Diário queixar-se de que Fernando Santos andava a “poupar os jogadores do Sporting e do Benfica e a gastar os do FC Porto”. Sim, o FC Porto vai ter seis jogos em 19 dias e tanto Benfica como Sporting terão menos um. Mas o próximo encontro dos dragões tem um grau de dificuldade muito inferior ao de Benfica e Sporting: os dragões jogam com o Angrense horas antes do dérbi de Lisboa. E sim, André André foi o único titular nos dois jogos e o homem que somou mais minutos de jogo (143) nestes dias, mas João Mário jogou apenas menos 28 minutos e Gonçalo Guedes menos 29. E não devia sequer ser preciso lembrar que William Carvalho alinhou por mais nove minutos que Ruben Neves ou que Rui Patrício e Eliseu também estiveram mais tempo em campo que Danilo. É que, por muito que as estruturas de comunicação se esforcem por torcer a realidade, está é bem simples de compreender. E explica-se assim: é melhor jogar na seleção do que não jogar.
2015-11-18
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Os dois jogos particulares deste Novembro permitiram a Fernando Santos testar mais algumas alternativas na caminhada para a lista final dos 23 convocados para a fase final do Europeu. É certo que não terá tirado conclusões definitivas, mas o próprio selecionador afirmou após a vitória no Luxemburgo que em Março, quando fizer a próxima convocatória, ela já vai estar mais perto da definitiva. Ainda assim, não houve grandes variações na tabela que estabeleço, com as probabilidades de cada jogador vir a marcar presença na fase final, com presença de todos os elementos já convocados por Santos desde que chegou à seleção. André André terá sido quem mais pontos marcou numa lista na qual entraram Ruben Neves, Nelson Oliveira e Gonçalo Guedes, as duas novidades nas convocatórias de Santos (Lucas João e Ricardo Pereira já tinham sido convocados). Eduardo (mesmo não jogando…), Cédric, Luís Neto e Rafa também terão aproveitado para ganhar ascendente, às custas de Beto, Bosingwa, Carriço e Éder. E as coisas também não estão fáceis para André Almeida, Veloso ou Pizzi, todos eles em perda face à última tabela. Eis o ponto da situação feito a sete meses da fase final, apenas com elementos pelo menos uma vez chamados por Fernando Santos – e onde figuram todos esses elementos, mesmo aqueles que dificilmente terão acesso à lista final e que por isso mesmo surgem com apenas 5% de hipóteses. Guarda-redes (3) Rui Patrício – 100% Anthony Lopes – 80% Eduardo – 75% Beto – 35% Ventura – 5% Marafona – 5%   Lateral direito (2) Vieirinha – 90% Cédric – 70% Nelson Semedo – 30% Bosingwa – 5% Ivo Pinto – 5%   Lateral esquerdo (2) Coentrão – 100% Eliseu – 60% Raphael Guerreiro – 20% Antunes – 10% Tiago Gomes – 5% Tiago Pinto – 5%   Defesa central (4) Ricardo Carvalho – 100% Pepe – 100% Bruno Alves – 90% José Fonte – 65% Paulo Oliveira – 15% Neto – 15% Carriço – 10% André Pinto – 5%   Médios (6) João Moutinho – 100% Tiago – 100% William Carvalho – 90% Danilo – 80% André André – 70% João Mário – 60% Veloso – 25% André Gomes – 20% Adrien Silva - 20% Ruben Neves – 20% André Almeida – 10% Pizzi – 5%   Avançados (6) Ronaldo – 100% Nani – 100% Quaresma – 80% Bernardo Silva – 70% Danny – 70% Rafa – 35% Éder – 30% Gonçalo Guedes – 20% Varela – 15% Cavaleiro – 15% Rui Fonte – 15% Nelson Oliveira – 15% Lucas João – 10% Ricardo – 10% Hugo Almeida – 5% Ukra – 5% Postiga – 5%
2015-11-18
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Último Passe

A vitória de um Portugal cheio de segundas linhas sobre o Luxemburgo foi uma coisa natural. Apesar dos progressos recentes dos luxemburgueses, que ainda no fim-de-semana tinham ganho à Grécia, e da ausência de vários titulares na equipa das quinas, a diferença de qualidade entre as duas seleções era tão evidente que nem o relvado em mau estado, a chuva, a ventania e alguns períodos de menor empenho e intensidade dos portugueses foram suficientes para equilibrar o resultado. Os 2-0 finais pecaram por escassos e permitiram a Fernando Santos a primeira vitória por mais de um golo desde que chegou à seleção, há 13 meses, mas não lhe deram para tirar muitas conclusões acerca dos testes que pretenderia fazer. Só André André deu um passo em frente. Nenhum dos estreantes de Moscovo ontem chamados à titularidade ou dos jogadores que podiam aproveitar a ausência das primeiras linhas para brilhar fez uma declaração de interesses de tal forma forte que lhe permitisse marcar bilhete para o Europeu. Lucas João falhou o encontro com o jogo, Ruben Neves limitou-se a ser regular, Gonçalo Guedes ainda fez um bom remate e sofreu a falta que deu o segundo golo a Nani, mas esteve pouco tempo em campo, tal como Ricardo Pereira. Quer isto dizer que estão fora? Não. Só que não meteram o pé na porta para impedir que ela se fechasse, tal como o não fez Nelson Oliveira, ouro candidato agora recuperado à vaga de parceiro de Ronaldo no ataque. E as dúvidas que restam a Fernando Santos terão de ser esclarecidas em andamento pelo rendimento que os diversos candidatos forem apresentando ao longo da época nos seus clubes. Nos jogos de Março, assumiu o selecionador nacional, o grupo já estará muito mais próximo do que viajará para França. E se alguém marcou lugar para essas datas terá sido André André, o melhor em campo no Luxemburgo e o mais forte candidato a duplo de João Moutinho na fase final. O problema aqui é que as coisas a meio-campo têm duas razões para se complicarem. Por um lado, os candidatos às seis ou sete vagas são pelo menos uma dezena (William, Danilo, Tiago, Moutinho, André André, André Gomes, João Mário, Ruben Neves, Veloso, Adrien ou até Pizzi e André Almeida se entretanto se afirmarem no Benfica). Por outro, ainda falta a Santos definir o modelo de meio-campo que quer. Se é com um médio-centro e dois interiores, se é com dois médios de perfil e outro no apoio direto ao ponta-de-lança ou até se é a quatro, caso encontre um parceiro que permita soltar Ronaldo no ataque.
2015-11-17
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A visita ao Luxemburgo parece ser a ocasião ideal para a seleção de Fernando Santos ultrapassar o que já começa a ser um aspeto criticado pelos adeptos e a que podemos chamar o “trauma da vantagem mínima”, evitando igualar um recorde histórico que data do pós-Saltillo. A equipa de Santos ganhou todos os jogos de competição que fez e saiu em primeiro do seu grupo de qualificação para o Europeu, o que é notável e vale mais do que qualquer estatística, mas nem em jogos competitivos nem em particulares ganhou uma única vez por mais de um golo de diferença. Desde o jogo de preparação contra a Rep. Irlanda, nos Estados Unidos, antes do Mundial de 2014, vencido por 5-1 ainda com Paulo Bento no banco que Portugal não ganha por mais de um golo a ninguém. São já 17 jogos, a um do máximo no historial da seleção, que está fixado em 18 partidas sem uma vitória confortável. Desde esse jogo com a Rep. Irlanda, a 11 de Junho de 2014, em New Jersey, Portugal fez 17 jogos, ganhando dez, empatando um e perdendo os restantes seis. Nos dez que ganhou, fê-lo sempre por um golo de diferença: 2-1 ao Gana, ainda no Mundial e por duas vezes à Sérvia, na qualificação do Europeu; 1-0 por duas vezes à Dinamarca, bem como à Arménia, à Argentina, à Itália e à Albânia; e 3-2 na Arménia. Com o empate frente aos Estados Unidos (2-2, no Mundial) e as derrotas contra Alemanha (4-0), Albânia (1-0), França (2-1 e 1-0), Cabo Verde (2-0) e agora Rússia (1-0) são já 17 jogos sem ganhar um por mais de um golo. Ora o máximo histórico da seleção de Portugal está em 18 jogos seguidos sem uma vitória por pelo menos dois golos de diferença e foi estabelecido entre Fevereiro de 1986 e Março de 1989. Também com um Mundial a correr mal pelo meio. Nessa altura, depois de ganhar por 2-0 ao Luxemburgo, num particular, em Fevereiro de 1986, e até golear Angola por 6-0 noutro jogo de preparação, em Março de 1989, Portugal fez 18 jogos, ganhando apenas seis, empatando sete e perdendo cinco. As seis vitórias foram pela margem mínima, sempre por 1-0: à Inglaterra, na fase final do Mundial do México; à Bélgica num particular; à Suècia, em Estocolmo, no regresso dos proscritos de Saltillo; a Malta, na despedida da qualificação para o Europeu de 1988; e ao Luxemburgo, na abertura do apuramento para o Mundial de 1990. Esse apuramento para o Mundial, curiosamente, marca também a última partida entre Portugal e o Luxemburgo que não acabou com vitória lusitana, pois o jogo no Luxemburgo acabou empatado a uma bola. Desde esse empate, em 1991, Portugal ganhou sempre e em seis dos sete jogos fê-lo por mais de um golo. A exceção foi em Setembro de 2012, na qualificação para o Mundial do Brasil, em que os portugueses se impuseram apenas por 2-1.   - Após a derrota na Rússia (1-0), Portugal procurará ainda evitar ficar dois jogos seguidos sem ganhar, algo que já não lhe acontece desde a mudança de selecionador. Em Setembro do ano passado, a seleção perdeu em casa com a Albânia (1-0), naquele que acabou por ser o último jogo de Paulo Bento aos comandos, saindo depois também derrotada do primeiro desafio de Fernando Santos, um particular com a França em Paris (2-1).   - Essa foi também a última série de duas derrotas consecutivas da seleção nacional. Para se encontrarem duas derrotas seguidas com o mesmo selecionador no banco é preciso recuar a Junho de 2012, quando Paulo Bento perdeu o último particular antes do Europeu, por 3-1, com a Turquia, e depois saiu derrotado na estreia na prova, por 1-0 contra a Alemanha. A equipa acabou por só cair nas meias-finais, nos penaltis, contra a Espanha.   - O Luxemburgo vem de uma significativa vitória sobre a Grécia, por 1-0, com golo de Joachim já nos descontos. Na qualificação para o Euro’2016 também ganhou um jogo: 1-0 à Macedónia, com golo de Thill, também nos descontos. Já no apuramento para o Mundial de 2014 ganhara apenas uma vez: 3-2 à Irlanda do Norte. Mas aí o golo da vitória chegou mais cedo, obra de Jänisch, a três minutos do fim.   - Portugal fez 14 jogos com o Luxemburgo e só não ganhou dois, ambos fora. Perdeu por 4-2 em 1961, em desafio marcado pela estreia de Eusébio (que marcou um golo), e empatou a uma bola em 1991, na noite em que se estreou Figo.  Isto é: dois dos três Bolas de Outro do futebol português deram os primeiros passos na seleção no Luxemburgo. Desta vez não há estreias em perspetiva.   - Postiga marcou nos últimos três jogos entre Portugal e o Luxemburgo. Fez um golo nos 5-0 de Agosto de 2011, outro nos 2-1 de Setembro de 2012 e mais um nos 3-0 de Outubro de 2013.   - Depois de atingir a quota de 19 estreantes no jogo com a Rússia, no qual deu a primeira internacionalização a Gonçalo Guedes, Ruben Neves, Lucas João e Ricardo Pereira, Fernando Santos não tem mais novos internacionais na calha. Ainda assim, com apenas um ano e um mês no cargo, está a apenas cinco estreias de Paulo Bento, que promoveu 24 jogadores à seleção, mas em quatro anos. No passado recente, só Carlos Queiroz (35 estreantes em duas passagens, de sensivelmente dois anos cada), António Oliveira (31 estreantes, também em duas passagens de dois anos cada), Luiz Felipe Scolari (30 estreantes em cinco anos) e Paulo Bento (24 em quatro anos) superam a quota de Fernando Santos.
2015-11-16
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Último Passe

A derrota de Portugal na Rússia, por 1-0, com golo no último minuto, foi uma espécie de morte pelo próprio veneno da equipa de Fernando Santos, que tão habituada está ganhar assim em jogos a doer. O selecionador nacional falou no erro que permitiu o golo russo, mas preferiu relevar as coisas boas que viu, como é natural, por se tratar de um jogo particular, em que o resultado era o menos importante. De qualquer modo, importa que tudo seja avaliado e contextualizado. E que se perceba o que se tira desta viagem a Krasnodar, de um jogo tristonho sem nada de globalmente positivo. Tiram-se, à partida, quatro estreias mais, elevando para 19 o número de novos internacionais com a chancela de Fernando Santos. Melhor a de Gonçalo Guedes, que esteve em campo na fase boa da equipa nacional e mostrou desenvoltura e os mesmos atributos que tem exibido no Benfica (verticalidade, objetividade e velocidade); menos positivas as de Lucas João, Ruben Neves e Ricardo Pereira, que só apareceram quando Portugal deixou de procurar a baliza adversária. De qualquer modo, mais do que aquilo que tenham mostrado em campo, o que interessa aqui é a forma como se integraram no grupo, o modo como responderam ao desafio que representa jogar na seleção nacional. E a isso, que se avalia também nos treinos e no estágio, só o selecionador poderá responder. Tiram-se, depois, algumas ilações positivas acerca de comportamentos da equipa. Os laterais cresceram muito desde a estreia de Santos, em Paris, há 13 meses. Rui Patrício foi o melhor de Portugal em campo. João Mário mostrou-se ativo em algumas incursões pela área adversária e Nani provou que pode perfeitamente ser um jogador útil do ponto de vista defensivo, pois esteve mais à vontade a equilibrar atrás do que a desequilibrar na frente. O que lança a equipa em direção ao tal 4x4x2 que a existência de Ronaldo reclama, mas que a ausência de Ronaldo não permite testar, mesmo que Nelson Oliveira tenha tido a preocupação de jogar de costas para a baliza para nele encaixar. Porque Ronaldo é o upgrade que permite transformar uma equipa que só foi capaz de procurar a baliza russa em metade da primeira parte numa competidora séria em 90 minutos.
2015-11-14
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Fernando Santos vai certamente somar no particular frente à Rússia mais alguns estreantes ao lote de jogadores aos quais deu a primeira internacionalização. Ricardo Pereira (Nice), Ruben Neves (FC Porto), Gonçalo Guedes (Benfica) e Lucas João (Sheffield Wednesday) esperarão ser o 16º novo internacional da era Fernando Santos, permitindo ao engenheiro superar a média de estreias a cada dois anos na seleção, que costuma andar pelas 15. Desde que pegou na equipa, no particular frente à França, em Outubro de 2014, Santos já estreou 15 jogadores na seleção. Cédric e João Mário estiveram logo no primeiro jogo, Raphael Guerreiro experimentou as quinas ao peito frente à Arménia, em jogo de qualificação, quatro dias antes de Tiago Gomes, José Fonte e Adrien Silva serem pela primeira vez internacionais A, no particular contra a Argentina. Anthony Lopes, André Pinto, Paulo Oliveira, Bernardo Silva, Danilo, André André e Ukra arrancaram todos com a sua conta de internacionalizações em mais um particular, desta vez o jogo com Cabo Verde, no qual os titulares habituais estava regulamentarmente proibidos de alinhar. Por fim, Santos ainda estreou no particular frente à Itália e promoveu a segunda estreia em competição a sério com Nelson Semedo, que jogou com a Sérvia em Belgrado. As 15 estreias de Santos, bem antes de completar o biénio à frente da equipa, dão uma ideia de renovação, ainda que esta só seja verdadeiramente conseguida se os jogadores trazidos para o grupo por lá ficarem. Paulo Bento, por exemplo, estreou 24 jogadores em quatro anos, mas destes só Rui Patrício, Vieirinha, Neto e William Carvalho se transformaram em apostas capazes de resistir à mudança de comando. Antes de Bento, a norma era dar uma média de 15 novos internacionais a cada dois anos. Carlos Queiroz inaugurou 16 entre 2008 e 2010; Luiz Felipe Scolari tinha estreado 30 entre 2003 e 2008, mas este lote teria de ser completado com os 12 trazidos para a seleção por Agostinho Oliveira em 2002 (42 em três biénios, portanto). Antes, ainda, António Oliveira estreara os mesmos 15 homens entre 2000 e 2002.     - As únicas derrotas de Fernando Santos na seleção (três) aconteceram em jogos particulares. Perdeu duas vezes com a França (2-1 em Paris em Outubro de 2014 e 1-0 em Lisboa em Setembro deste ano) e uma com Cabo Verde (2-0 no Estoril em Março último).   - Portugal ganhou os últimos dois jogos sem Cristiano Ronaldo: 2-1 na Sérvia, na despedida já sem significado da fase de qualificação para o Europeu de 2016, e 1-0 à Itália, num particular, em Junho. Mas antes desses dois jogos, o panorama era desanimador: derrotas com Cabo Verde (0-2, em 2015) e Albânia (0-1, 2014), vitória no último suspiro contra o México (1-0, 2014) e empate (0-0, 2014) com a Grécia.   - A Rússia vem com quatro vitórias consecutivas, que lhe permitiram a qualificação direta para o Europeu, tendo sofrido apenas um golo esta época, no 2-1 à Moldávia. O avançado do Zenit Artyom Dzyuba tem sido a figura, pois marcou em três desses jogos: fez o golo do decisivo 1-0 à Suécia, marcou quatro nos 7-0 ao Liechtenstein, voltou a estar entre os goleadores nos 2-1 à Moldávia e só ficou em branco nos 2-0 ao Montenegro. - Os russos só perderam duas vezes desde o Mundial do Brasil, ambas com a Áustria, que venceu o seu grupo de qualificação. E não perdem um jogo particular desde Fevereiro de 2011, quando foram batidos por 1-0 pelo Irão.   - Desde que a URSS se desmembrou, Portugal defrontou cinco vezes a Rússia, ganhando três, mas todas em Portugal. Nas duas deslocações a solo russo, sempre em Moscovo, empatou uma vez (0-0) e perdeu outra (0-1), nunca marcando sequer um golo. Aliás, nem nos tempos da URSS a seleção nacional conseguiu ali marcar, pois perdeu por 5-0 na única vez que lá se deslocou, em 1983.   - Os 5-0 de apuramento para o Europeu de 1984 não são a maior goleada entre estas duas seleções: Portugal ganhou à Rússia por 7-1, em Alvalade, no apuramento para o Mundial de 2006. Cristiano Ronaldo marcou nessa noite dois golos, mas não foi o único membro da atual geração a jogar nesse dia, pois Ricardo Carvalho esteve em campo e Tiago viu o jogo do banco. Nenhum dos três foi agora convocado por Fernando Santos.
2015-11-13
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Fernando Santos abriu hoje a caça ao ponta-de-lança. É essa uma das principais ilações a tirar da lista de convocados do selecionador para os particulares com a Rússia e o Luxemburgo, que nas palavras do técnico marcam o “primeiro dia do Europeu”. É excelente que Santos já tenha assumido a procura de um jogador capaz de casar com Ronaldo no ataque como prioridade máxima até ao arranque da fase final. Mas ainda me sobram duas ou três inquietações na lista de 23 jogadores chamados. Uma das quais o facto de se querer que este casamento seja feito por procuração. As chamadas de Lucas João (quatro golos em 17 jogos pelo Sheffield Wednesday) e Nelson Oliveira (um golo em oito partidas pelo Nottingham Forest) enquadra-se na tal busca do elo perdido, o ponta-de-lança que possa permitir a Portugal jogar em 4x4x2, com Ronaldo ao meio mas livre do que faz pior ou do que o impeça de fazer aquilo em que é incomparável. A própria convocatória de Gonçalo Guedes – justa, pelo que o miúdo tem feito até aqui – pode ser assim vista, pois também ele tem caraterísticas que lhe permitam jogar ao meio num ataque móvel. Só que, mais uma vez, se a ideia é testar compatibilidades com Ronaldo, pois é evidente que quem falta é o próprio Ronaldo, que fica em Madrid. Sim, Ronaldo está sujeito a uma pressão incomparável e, jogando num clube poderoso, acaba por ter o reverso da medalha, ao ficar livre destas “chatices” que são os jogos particulares. Da mesma forma que já ficou fora da deslocação a Belgrado para jogar com a Sérvia, quando a qualificação estava assegurada. Mas se Ronaldo fez 14 jogos pelo Real Madrid este ano, Rui Patrício já esteve em 16 desafios do Sporting, Bernardo Silva fez 17 pelo Mónaco e Nani outros tantos pelo Fenerbahçe. Todos foram convocados e para nenhum deles se procura o parceiro ideal. É isto que me custa perceber, mais a mais num dia em que, a propósito do Sporting-Benfica do dia 21 (quatro dias após o jogo no Luxemburgo), o selecionador reiterou que os clubes não ditam nada na seleção. De resto, as alterações promovidas por Fernando Santos à última convocatória têm lógica, embora a mim me pareça que já tarda a oportunidade a Ruben Neves: se já é altura para Gonçalo Guedes, também não é cedo para o miúdo que manda no meio-campo do FC Porto. Ventura volta a ceder a vaga de terceiro guarda-redes a Anthony Lopes. Nélson Semedo está lesionado e cai para o regresso de Vieirinha, que estava magoado na altura dos últimos jogos. Coentrão também não joga desde o Portugal-Dinamarca e por isso fica fora para que possa ser visto Raphael Guerreiro. Ricardo Carvalho, que não falha um minuto no Mónaco, descansa, porque já está disponível Pepe. William Carvalho regressa e André Gomes tem mais uma oportunidade, em vez de Tiago e Veloso, que ficam em repouso. Na frente é que muda quase tudo: só Nani e Bernardo Silva se mantêm, para que possam aparecer Ricardo Pereira – que tem sido lateral no Nice mas aqui deverá voltar a ser extremo –, Gonçalo Guedes, Lucas João e Nélson Oliveira. A ver se alguém diz o tão desejado “Sim” a Ronaldo, mesmo num casamento por procuração.
2015-11-06
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A vitória de Portugal na Sérvia (2-1), a sétima consecutiva da seleção nacional em partidas de competição (um recorde em quase 100 anos de história) e a primeira de sempre em Belgrado, permitiu a Fernando Santos manter o registo 100 por cento bem-sucedido aos comandos da equipa e veio provar duas coisas. Que Portugal tem um grupo com a profundidade necessária para encarar o futuro com otimismo e, sobretudo, que nada se sobrepõe ao resultadismo desta seleção. É que mesmo em jogos onde não está bem, como foi o caso de hoje no Partizan Stadion, Portugal acaba por ganhar. E isso é fundamental. Fernando Santos correu um grande risco ao abdicar de várias primeiras escolhas. Pepe e Coentrão ficaram em casa lesionados, Ricardo Carvalho, Ronaldo e Tiago foram dispensados da viagem até ao frio e à chuva de Belgrado, William Carvalho está a regressar de lesão e não foi convocado, enquanto que Cédric, Moutinho e Bernardo Silva começaram a partida no banco. No decorrer do jogo, Santos ainda abdicou de Danny e Bruno Alves, deixando em campo uma equipa onde só Patrício, Nani e o suplente utilizado Moutinho tinham colado a eles o rótulo de habituais titulares. A exibição não foi muito boa, Portugal esteve durante grande parte do jogo à mercê de uma Sérvia interessada em deixar uma declaração acerca da injustiça que foi o seu afastamento administrativo do lote de equipas que lutou até ao fim pela qualificação, mas chegou para ganhar por 2-1, com dois golos contra a corrente do jogo. O início desconcentrado de Portugal foi premiado com um golo a frio, numa desatenção da Sérvia num momento de contra-transição, no qual, no entanto, se percebeu que a equipa nacional trazia a lição bem estudada. Danny trabalhou bem entre os centrais, não bateu Stojkovic com o remate que fez mas o ressalto encontrou Nani, que abriu o marcador. O golo abalou a Sérvia e permitiu que se visse o melhor de Portugal durante uns 20, 25 minutos. Avançados criativos, defesas seguros e médios ativos na pressão e na capacidade de ganhar segundas bolas entre as linhas do adversário. À medida que o jogo foi avançando, porém, a Sérvia foi empurrando Portugal para trás e, quando empatou, já o merecia amplamente. Fernando Santos reagiu com a entrada de Moutinho e foi aí, quando parecia que o jogo balançava entre o empate e um eventual segundo golo sérvio, que veio à tona o resultadismo português: Eliseu ganhou uma bola na esquerda, descobriu Moutinho e este, à entrada da área, encontrou o buraco junto ao poste mais distante da baliza de Stojkovic, metendo-lhe a bola em arco nas redes. Moutinho fez em quatro dias tantos golos como tinha feito em quase dez anos de seleção (dois) e mostrou que continua a ser fundamental para esta equipa, pela forma como a uniu e a levou para longe da sua área. Portugal terá perdido a oportunidade de trabalhar mais uma vez a compatibilidade da equipa com as armas ofensivas de Ronaldo mas deu pelo menos provas da tal maturidade emocional que Fernando Santos lhe reclamava. A rever na fase final do Europeu, quando aparecer a oitava partida competitiva da seleção de Fernando Santos. Na qual entrará necessariamente em busca da oitava vitória.
2015-10-11
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Fernando Santos só se entusiasmou uma vez na conferência de imprensa que antecedeu o último jogo de qualificação de Portugal rumo ao Europeu de 2016. Foi quando alguém lhe sugeriu que na visita à Sérvia, feita com apuramento e primeiro lugar garantidos, já não estaria nada em jogo. “Está em jogo o mais importante, que é o nome de Portugal”, atalhou o técnico nacional, a quem só faltou o tradicional “ainda-bem-que-me-faz-essa-pergunta” antes de dar o sermão que certamente seria o seu objetivo do dia: “Estão em jogo a hipótese de conseguirmos a sétima vitória consecutiva e pontos no ranking da FIFA”, disse ainda. Fazendo a leitura das palavras do selecionador, o que está em jogo é ainda outra coisa: a maturidade emocional da equipa. Em talento, a Sérvia, último adversário da equipa nacional, é a única seleção do grupo que pode bater-se com a portuguesa. Não está a lutar pela qualificação por duas razões: os incidentes na receção à Albânia, que lhe custaram seis pontos (os três que deixaram de ganhar e os três que lhes foram subtraídos), e as deficiências organizacionais quando se trata de formar uma equipa, que lhe custaram outros seis, fruto de duas derrotas contra a Dinamarca, uma equipa que é o seu inverso, com muita organização e pouco talento. Chegar à Sérvia com o primeiro lugar no bolso e dispensar quatro titulares absolutos – Ronaldo, Tiago, Ricardo Carvalho e Coentrão – é o suficiente para deixar os nervos do anfitrião em ebulição. Se o orgulho sérvio já poderia ver o jogo contra o vencedor do grupo como uma forma de provar que merecia mais, o facto de esse mesmo vencedor do grupo vir com o plantel desfalcado pode até ser visto como despeito e levar ainda mais à exaltação do poderio nacional. Foi contra isso que Fernando Santos se bateu. Naquela resposta em particular, não estava a falar para os jornalistas ou para os leitores, ouvintes e telespectadores a quem eles servem de intermediários. Naquela resposta, Fernando Santos estava a falar aos seus jogadores e a dizer-lhes que terão de dar mostras que são os melhores do grupo, exibindo um claro upgrade ao talento que tem a Sérvia e à organização que mostraram Dinamarca e Albânia. Mas estava ainda a falar aos sérvios, tentando de certa forma arrefecer o vulcão que a ausência de Ronaldo neles possa ter provocado. Mais logo se verá se o conseguiu.
2015-10-11
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Último Passe

As dispensas de Ronaldo, Tiago e Ricardo Carvalho da viagem à Sérvia, às quais se soma a ausência de Coentrão, por lesão, podem ser vistas de muitas formas. Os mais condescendentes acharão que é justo, que há jogadores mais veteranos ou massacrados pela competição e que por isso mesmo, com o apuramento no bolso, Fernando Santos pode dispensá-los deste jogo e ver alternativas em funcionamento. Os mais críticos dirão que é uma vergonha, que se estão em condições têm é de ajudar a equipa, porque na seleção não pode haver filhos e enteados. Eu digo só uma coisa: é uma oportunidade perdida. Percebo a razão dos dois grupos, o dos que veem o copo sempre meio cheio e o dos que olham para ele sem conseguir perceber outra coisa a não ser que está meio vazio. Por um lado, há que fazer a gestão do grupo, dar minutos de competição a jogadores menos utilizados e permitir o repouso aos que estiverem mais fatigados – e para isso ninguém como a equipa técnica saberá quem precisa de jogar e quem precisa de repousar. Mas por outro, o jogo de domingo, em Belgrado, apresenta vários pontos de interesse: pode dar uma sétima vitória consecutiva que seria inédita em toda a história da seleção nacional; pode garantir pontos no ranking da FIFA e um importantíssimo lugar de cabeça de série na fase final do Europeu. Além de que visitar a Sérvia e prescindir voluntariamente de três jogadores que foram titulares sempre que estiveram disponíveis pode ser visto como uma falta de respeito pelo adversário. Francamente, sou sensível a todos estes argumentos. Aos positivos e aos negativos. Mas aquilo que mais me preocupa é que, mais ainda se acreditarmos no objetivo que Fernando Santos teima em apresentar como seu – o de ser campeão europeu – o caminho não está finalizado. Está a menos de meio. E para lá chegar será necessário aperfeiçoar a equipa que vai competir na fase final, algo que nunca se fará tão bem como em competição. A equipa está afinada até ao mais ínfimo detalhe? Claro que não está. Sim, ganhou os últimos seis jogos de competição, mas ainda não encontrou a forma de jogar com Ronaldo. Aquilo que se viu nos últimos dois jogos, com o CR7 abandonado aos centrais adversários, a jogar muito de frente para a equipa e de costas para a baliza, pode até agradar aos tais observadores que veem sempre o copo meio vazio, pois conseguem rejubilar ao ver a estrela anular-se em prol da equipa, mas não me agrada a mim. Jogar com Ronaldo ali é como ir para um engarrafamento de Ferrari. É desistir de aproveitar as armas que fazem dele o melhor goleador do Mundo. Não é fácil encontrar a fórmula certa e, dentro dela, o jogador certo para libertar Ronaldo sem desequilibrar a equipa. Mas de uma coisa tenho a certeza: se alguma vez Fernando Santos a encontrar não será com o capitão a celebrar o apuramento em Marraquexe.
2015-10-10
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Com a qualificação para a fase final do Europeu assegurada na penúltima jornada, Fernando Santos começa já no domingo, em Belgrado, a preparação para a prova francesa. Aliás, só assim se entendem as dispensas de Ricardo Carvalho, Tiago e Ronaldo e as chamadas ao grupo de dois potenciais estreantes, como são Ricardo Pereira e Rui Fonte. A altura é, já, de olhar para quem poderá fazer a viagem e, embora os oito meses de competição que vão seguir-se nos clubes tenham uma palavra muito forte a dizer, é evidente que há gente com mais de meio bilhete tirado numa equipa onde, apesar de não parecer, a renovação até tem vindo a ser feita de forma gradual. Manda a história recente, porém, que ela seja acelerada. E isso dificilmente se fará antes da aventura nos relvados franceses. Olhemos para as lições que nos ensina o passado recente. Desde 2000, desde o Europeu em que Portugal inaugurou uma série de oito presenças consecutivas em fases finais, há duas regras às quais só a equipa escolhida por António Oliveira, em 2002, escapou. E com tristes resultados, diga-se, pois caiu na primeira fase. A primeira é que, havendo mudança de selecionador, mudam pelo menos 12 convocados de uma fase final para a seguinte. A segunda a de que a uma fase final com convocatória mais conservadora (com menos alterações, como foi a de 2014, em que só foram alterados sete nomes) segue-se sempre outra em que muda pelo menos meio plantel. Portugal encarou três dessas oito fases finais (2006, 2008 e 2014) com o mesmo responsável da anterior e em dois desses casos viu-se alguma continuidade: Luiz Felipe Scolari mudou apenas seis nomes de 2004 para 2006 e até foi às meias-finais e Paulo Bento alterou sete de 2012 para 2014, onde foi eliminado na fase inaugural. Zero conclusões, portanto. Mas o próprio Scolari, que se manteve de 2006 para 2008, já sentiu a necessidade de mudar doze nomes na sua terceira fase final. E, com a tal exceção de 2002, sempre que houve mudança de selecionador, como sucederá agora, com a troca de Paulo Bento por Fernando Santos, nunca a equipa teve menos do que essas doze alterações. Foram as feitas por Scolari de 2002 para 2004 e depois por Paulo Bento de 2010 para 2012. E teriam também sido as operadas por Carlos Queiroz de 2008 para 2010 não tivesse a lesão de Nani forçado a sua troca por Ruben Amorim, elevando assim o total de alterações do professor para 13. Em 2002, Oliveira mudou apenas oito nomes relativamente aos que tinham estado no Euro’2000 e Portugal baqueou na primeira fase. Aliás, se repararmos, as três convocatórias com menos alterações (2002, 2006 e 2014) seguiram-se às três competições nas quais Portugal atingiu as meias-finais. Algo que não acontece desta vez. Como de 2014 para 2016 houve mudança de selecionador e ainda por cima a convocatória de 2014 foi conservadora e nesse ano a prestação nacional foi fraca, mandam a lógica e a tradição que se façam pelo menos umas doze mudanças no lote de convocados que esteve no último Mundial. A questão é que o grupo que Fernando Santos tem vindo a utilizar não as prenuncia. Nos seis jogos de qualificação que o engenheiro dirigiu, ganhando-os todos, foram utilizados 25 jogadores: o guarda-redes Rui Patrício; os laterais Vieirinha, Cédric e Bosingwa à direita e Fábio Coentrão, Eliseu e Raphael Guerreiro à esquerda; os centrais Ricardo Carvalho, Pepe, Bruno Alves e José Fonte; os médios João Moutinho, Tiago, Danilo, William Carvalho, João Mário, Adrien Silva e Veloso; e os avançados Ronaldo, Nani, Danny, Quaresma, Éder, Bernardo Silva e Postiga. É verdade que 13 destes 25 não estiveram na fase final do Mundial do Brasil, mas nem é verosímil que o grupo ande só em torno deles (há só um guarda-redes e depois há três laterais de cada lado) nem algumas das alterações feitas equivaleriam a um rejuvenescimento, pois passaram pelo regresso de alguns veteranos anteriormente proscritos por Paulo Bento, como Ricardo Carvalho, Tiago ou Bosingwa. Ainda assim, o melhor é ver-se a coisa caso a caso. Na baliza, Rui Patrício é aposta segura, pois foi titular em todos os jogos “a doer” com Santos (6 vezes titular/0 vezes suplente utilizado), devendo os dois lugares restantes sobrar para Anthony Lopes (0/0) e quem estiver melhor entre Beto (0/0) e Eduardo (0/0). Ventura (0/0) e Marafona (0/0), que também passaram pelo banco no período de Fernando Santos, deverão ter de esperar pela sua vez. Assumindo que o engenheiro levará quatro laterais à fase final, pois nenhum deles está à vontade para jogar nos dois corredores, libertando assim uma vaga, haveria que riscar dois do lote de utilizados na qualificação. Assim sendo, as coisas ficam difíceis para Bosingwa (2/0) e Raphael Guerreiro (1/0), podendo a escolha cair em Vieirinha (2/0) e Cédric (2/1) para a direita e em Coentrão (3/0) e Eliseu (4/0) na esquerda. Ivo Pinto (0/0), Tiago Pinto (0/0) e Tiago Gomes (0/0), que também chegaram a ser chamados, devem ser cartas fora do baralho, mas o mesmo já não poderá dizer-se de Nelson Semedo (0/0) e Antunes (0/0), aos quais uma boa época pode assegurar uma vaga. Outra tentação habitual para os selecionadores que sabem que só podem levar 23 jogadores a uma fase final é a de cortar um central, levando apenas três e aproveitando a possibilidade de fazerem baixar um dos médios defensivos em caso de improvável necessidade. Fernando Santos, porém, pode ver-se impedido de o fazer, dada a veterania dos seus centrais. Poderia ser um risco encarar uma fase final só com Ricardo Carvalho (6/0), Pepe (3/0) e Bruno Alves (3/0), além de que José Fonte, suplente utilizado em três partidas (0/3) fez o suficiente nesta fase de qualificação para justificar a chamada. Carriço (0/0), Paulo Oliveira (0/0), Luís Neto (0/0) e André Pinto (0/0) foram os outros defesas-centrais chamados por Fernando Santos, o que lhes deixa uma réstia de esperança de virem a estar em França. Com onze vagas ocupadas (três guarda-redes, quatro laterais e quatro centrais), sobram apenas doze para o meio-campo e o ataque. Quando assim é, o normal é que elas sejam dividias ao meio. Ora nos médios não se adivinha que Santos venha a prescindir de Moutinho (5/0) e Tiago (5/0), sempre titulares a não ser na Albânia, quando de tal se viram impedidos, o primeiro por lesão e o segundo por suspensão. Para as quatro vagas restantes partem na “pole position” William Carvalho (1/3) e Danilo (2/0), os dois elementos mais defensivos. Muito em aberto estão as duas vagas restantes (que até pode ser só uma, se Santos entender que pode utilizar Coentrão a meio-campo). Entre os que jogaram a qualificação há Veloso (1/0 e um golo importante, a dar a vitória na Albânia), João Mário (0/1) e Adrien (0/1), mas a época está a correr particularmente bem a André André (0/0), não se podendo ainda desprezar as hipóteses André Gomes (0/0), André Almeida (0/0) ou Pizzi (0/0), todos eles episodicamente chamados durante o período de Fernando Santos. Assumindo que sobram seis vagas para o ataque, parece evidente que cinco jogadores têm bilhete reservado. São eles Ronaldo (6/0), Nani (6/0), Danny (5/1), Quaresma (0/5) e até Bernardo Silva (2/0). Sobra um lugar, que em condições ideais seria para o tal ponta-de-lança que fosse capaz de fazer tudo aquilo que Ronaldo não faz (fixar os centrais, arranjar espaço para o CR7, pressionar a saída de bola do adversário…). Não se encontrando esse jogador, sobram o também utilizado Éder (0/3). Mais difícil está a hipotética convocatória de Postiga (1/0) ou até Hugo Almeida (0/0), mas uma vez que esta vaga dependerá muito daquilo que os jogadores farão durante esta época, há que tomar atenção a todos os outros que o engenheiro chegou a chamar: Varela (0/0), Cavaleiro (0/0), Ukra (0/0), Rafa (0/0), Lucas João (0/0), Rui Fonte (0/0) ou Ricardo Pereira (0/0). E quem sabe se não é aqui que aparece a tradicional surpresa de última hora, proporcionada pela fase final da época desportiva. Em 2014 foi Rafa. Desta vez pode ser qualquer um, com Rúben Neves a assumir a dianteira entre os candidatos.  PONTO DA SITAÇÃO FACE À CONVOCATÓRIA (só elementos chamados por Fernando Santos)   Guarda-redes (3) Rui Patrício – 100% Anthony Lopes – 50% Beto – 20% Eduardo – 20% Ventura – 5% Marafona – 5%   Lateral direito (2) Vieirinha – 90% Cédric – 60% Nelson Semedo – 30% Bosingwa – 15% Ivo Pinto – 5%   Lateral esquerdo (2) Coentrão – 100% Eliseu – 60% Raphael Guerreiro – 20% Antunes – 10% Tiago Gomes – 5% Tiago Pinto – 5%   Defesa central (4) Ricardo Carvalho – 100% Pepe – 100% Bruno Alves – 90% José Fonte – 65% Paulo Oliveira – 15% Carriço – 15% Neto – 10% André Pinto – 5%   Médios (6) João Moutinho – 100% Tiago – 100% William Carvalho – 90% Danilo – 80% João Mário – 60% André André – 60% Veloso – 50% Adrien Silva - 25% André Almeida – 15% André Gomes – 15% Pizzi – 5%   Avançados (6) Ronaldo – 100% Nani – 100% Danny – 80% Quaresma – 80% Bernardo Silva – 70% Éder – 50% Rafa – 25% Varela – 20% Cavaleiro – 15% Rui Fonte – 15% Ricardo – 15% Lucas João – 10% Hugo Almeida – 10% Ukra – 5% Postiga – 5%
2015-10-09
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Último Passe

A sexta vitória consecutiva da seleção nacional em jogos competitivos, obtida em Braga frente à Dinamarca (1-0), garantiu a qualificação para a fase final do Europeu e devia valer a esta equipa pouco brilhante mas sempre consistente mais confiança dos portugueses. A seleção raramente entusiasma, é verdade, mas nunca falha – e isso, no fim, é o que conta para um treinador que agora tem oito meses até à fase final do Europeu, onde a tarefa principal terá de ser a de encontrar uma dinâmica que lhe permita resolver os problemas ofensivos que tem enfrentado e o têm levado a sacrificar Ronaldo, abandonando-o aos adversários. A busca da fórmula-Euro é a prioridade, a começar já no domingo, em Belgrado, na partida frente à Sérvia, na qual até por isso convinha ter Ronaldo em campo e não a assistir pela TV, como vai suceder. Portugal voltou a ganhar pela margem mínima – as seis vitórias foram todas por um golo de diferença – mas a verdade é que nunca pairou no estádio a possibilidade de vir a perder o jogo. Fernando Santos podia jogar com a hipótese do empate, que também garantia a qualificação – aliás até a derrota a teria garantido, face à vitória da Sérvia frente à Albânia – e isso fez com que a equipa se sentisse mais em casa face a uma Dinamarca que raramente se desequilibra, mas que em contrapartida sofre horrores para fazer golos. O resultado foi um jogo sempre pouco entusiasmante, na linha, aliás, dos que sempre tem feito esta equipa, mas consistente. E com diferenças estratégicas, sobretudo na primeira parte, durante a qual se viu pela primeira vez uma coordenação muito satisfatória entre o meio-campo e as três peças móveis da frente: Ronaldo começava ao meio, com Nani à esquerda e Bernardo Silva à direita e Moutinho a aproximar-se muito, sobretudo em situações de pressão. A equipa, assim, equilibra-se, ocupa todos os corredores – ao contrário do que sucede se Ronaldo começa num corredor lateral e o deixa para aparecer no meio – e, sobretudo se resistir à tentação de jogar diretamente no CR7, construindo com mais elaboração, até cria condições para que este não fique abandonado aos centrais adversários, condenado a jogar de costas para a baliza e a anular-se em tarefas que não são as que mais o beneficiam, como se viu nas outras vezes em que jogou como 9. Notou-se essa preocupação estratégica frente à Dinamarca, com mais triangulações envolvendo os três homens da frente e os médios, com duas preocupações: a excessiva participação de Ronaldo em fases iniciais da construção e a perda de passes, fruto de alguma insegurança na posse. Ainda assim, o meio-campo mostrou que pode funcionar: Danilo foi forte defensivamente, Tiago definiu bem os momentos de surgir na área e Moutinho, condenado a ser segundo ponta-de-lança em muitos lances e primeiro a pressionar a saída do adversário noutros, acabou por resolver com um golo bem muito trabalhado. Mas pode melhorar, como podem melhorar as inserções ofensivas dos laterais – desta vez melhor Cédric que um Coentrão sempre em dificuldades para segurar Braithwaite. E é por isso que, na deslocação à Sérvia, importa não descomprimir. Portugal tem vários problemas a resolver e não pode agora dar-se ao luxo de libertar jogadores ou de encarar qualquer jogo que aí venha a não ser com uma ideia: a de aperfeiçoar o coletivo. Oito meses chegam para encontrar uma fórmula.
2015-10-08
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Stats

Portugal ganhou os últimos cinco jogos de competição, desde a derrota em Aveiro com a Albânia, na despedida de Paulo Bento. A equipa de Fernando Santos igualou assim a série de cinco vitórias consecutivas em competição obtidas pelo ex-selecionador quando este chegou para substituir Carlos Queiroz ou até pelo próprio Queiroz, quando arrancou para garantir a presença na fase final do Mundial de 2010. Resta-lhe manter a velocidade para uma sexta partida, de forma a pelo menos igualar a melhor série em competição da equipa nacional, fixada por uma equipa de Luiz Felipe Scolari em 2005 e 2006. Depois de perder com a Albânia em Aveiro, Portugal voltou a ser derrotado três vezes, mas todas em jogos particulares. Dois deles tiveram como denominador comum a França, besta negra da equipa nacional: 1-2 em Paris, em Outubro do ano passado, na estreia de Fernando Santos, e 0-1 em Alvalade, no mês passado. O outro foi um particular com Cabo Verde, em Março, onde o 0-2 final castigou uma equipa cheia de segundas escolhas, pois os titulares tinham batido a Sérvia 48 horas antes e estavam regulamentarmente proibidos de dar o seu contributo. Em competição, porém, a derrota com a Albânia foi o último jogo que Portugal não ganhou. Desde então, a equipa nacional soma cinco vitórias consecutivas. Todas pela margem mínima, algumas nos descontos, mas são sempre cinco vitórias: 1-0 fora à Dinamarca (golo de Ronaldo aos 90+5’); 1-0 no Algarve à Arménia; 2-1 à Sérvia na Luz; 3-2 na Arménia e 1-0 na Albânia (golo de Veloso aos 90+2’). A equipa atual igualou assim duas das melhores séries da sua história, estabelecidas em 2010 e 2011 pela comandada por Paulo Bento e em 2009 pela dirigida por Carlos Queiroz. Quando Paulo Bento chegou à seleção, no rescaldo da derrota com a Noruega em Oslo, esta também alinhou cinco vitórias competitivas seguidas: 3-1 à Dinamarca, 3-1 na Islândia, 1-0 à Noruega, 4-0 em Chipre e 5-3 à Islândia, perdendo a sexta partida… com a Dinamarca (1-2 em Copenhaga). Por sua vez, em Setembro de 2009, quando a qualificação para a fase final do Mundial de 2010 estava muito comprometida, após um empate com a mesma Dinamarca em Copenhaga (1-1), a equipa de Carlos Queiroz cerrou fileiras e chegou às mesmas cinco vitórias seguidas: 1-0 na Hungria, 3-0 à mesma Hungria em casa, 4-0 a Malta e duas vezes 1-0 no play-off com a Bósnia. A série foi interrompida já na África do Sul, com o empate sem golos frente à Costa do Marfim, na abertura portuguesa do Mundial. Melhor que estas duas séries só se encontra uma na história da seleção nacional. Foi fixada em seis vitórias seguidas pela equipa que chegou ao terceiro lugar no Mundial de 2006 – e nem as de 1966, 1984 ou 2000, todas elas terceiras classificadas em grandes provas, lá chegara. A seleção dirigida por Luiz Felipe Scolari vinha de um empate com a Rússia, em Moscovo, em Setembro de 2005, e ganhou os seis jogos de competição que se seguiram: 2-1 ao Liechtenstein, 3-0 à Letónia e, já na fase final do Mundial, 1-0 a Angola, 2-0 ao Irão e 2-1 ao México. Encalhou ao sétimo jogo, o empate (0-0) com a Inglaterra que, mesmo assim, fruto do sucesso nos penaltis, até soube a vitória.   - Cristiano Ronaldo marcou golos em três dos últimos quatro jogos que Portugal fez com a Dinamarca, com a curiosidade de o ter feito sempre nos desafios realizados em Outubro: a vitória por 1-0 em Copenhaga no ano passado, a derrota fora por 2-1 em 2011 e a vitória por 3-1 no Dragão em 2010. A exceção foi a vitória portuguesa por 3-2 na fase final do Euro’2012, em que os golos portugueses pertenceram a Pepe, Postiga e Varela. Mas esse jogo foi em Junho.   - Ronaldo segue com uma média muito boa, de 10 golos em 11 jogos esta época (contando os jogos de competição do Real Madrid e as partidas oficiais de seleção). Mas em oito desses jogos ficou em branco, fazendo os dez golos nas outras três: dois ao Malmö, três ao Shakthar e cinco ao Espanyol.   - Só a derrota impedirá Portugal de se qualificar já para a fase final do Europeu. Ora Portugal só perdeu três em 15 jogos com os dinamarqueses, dois deles em Copenhaga: 4-2 num amigável em 2006; 3-2 em Alvalade na qualificação para o Mundial de 2010 e 2-1 em Copenhaga no apuramento para o Europeu de 2012.   - Portugal marcou sempre pelo menos um golo nos jogos com a Dinamarca, tendo vencido dez das quinze partidas realizadas com este adversário. O mais perto que esteve de ficar em branco foi há um ano, quando ganhou em Copenhaga por 1-0 com um golo de Ronaldo ao quinto minuto de compensação.   - Em contrapartida, a Dinamarca não sofre golos desde Novembro do ano passado, quando ganhou por 3-1 à Sérvia em Belgrado. São 356 minutos com a baliza de Kasper Schmeichel a zeros. O problema é que também não marca desde Junho, quando venceu a mesma Sérvia por 2-0 no Parken, de Copenhaga. São 183 minutos sem chegar ao golo, pois a esta vitória sucederam-se empates a zero com a Albânia e a Arménia.
2015-10-07
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Último Passe

A seleção nacional deu um passo gigante rumo à fase final do Europeu, da qual só um cataclismo matemático pode privá-la, ao vencer a Albânia por 1-0 em Elbasan, com um golo no tempo de compensação, tal como ja lhe sucedera em Copenhaga na visita à Dinamarca. Este triunfo frente a uma Albânia que é fácil menosprezar mas que ainda não perdera uma única vez nesta qualificação, foi justo e nasceu sobretudo de uma superior organização face aos jogos anteriores. Mas não quer dizer que está equipa esteja pronta para o objetivo ditado por Fernando Santos (a vitória no Europeu): para isso era preciso criar condições para que Ronaldo surja a grande nível.No final, o que Santos destacou no jogo de Ronaldo foi "o espírito de sacrificio" e o passe que deixou Eliseu frente ao guarda-redes, para um chapéu que não deu golo por milímetros. Mas limitar Ronaldo a um papel de sacrifício em prol da equipa, a um jogo muito passado de costas para a baliza, entre os centrais, parece ser uma má ideia. Até porque muitas vezes a sua ação veio criar situações de finalização a homens que não as aproveitam tão bem como ele. De qualquer modo, uma coisa é certa. É bem melhor tê-lo ali do que a funcionar à base do livre-arbítrio que deu na anarquia tática que se viu contra a França. O golo de Veloso veio premiar sobretudo aquilo que a equipa cresceu em organização e definição táctica. Com dois extremos que ficavam no seu corredor quando tocava a defender - e a jogarem de "pé trocado", de modo a favorecer os movimentos para o corredor central, os médios perceberam o que se lhes pedia e, com exceção dos últimos 20 ou 25 minutos, quando se viu uma Albânia mais entusiasmada e um meio-campo português já fatigado, não permitiram o aparecimento entre linhas dos médios albaneses.Até aí, Portugal tinha sido melhor no jogo e só lhe faltava o golo de Ronaldo para se colocar em vantagem. Depois, quando o medo de perder e o compromisso com o empate (que não era tão mau assim para as duas equipas) valeu muito menos que a vontade de ganhar, o jogo acelerou e as duas equipas podiam ter feito golos. Fez Portugal, num cabeceamento de Veloso a mais um canto de Quaresma, outra vez o desbloqueador da partida. E estes três pontos podem servir a Fernando Santos para ganhar tempo na busca da resposta à questão que pode permitir à equipa dar o grande salto de qualidade. O que fazer com Ronaldo?
2015-09-07
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Cristiano Ronaldo já fez 30 anos, está perto de apanhar Figo como jogador mais internacional de sempre por Portugal e, no entanto, a discussão acerca da forma como pode ser mais útil à seleção nacional ou de como esta se deve organizar para tirar o máximo proveito das suas características continua bem viva. Fernando Santos tem tido o mérito de procurar uma solução para os problemas que o Mundial’2014 deixou à vista, mas esta tarda em aparecer. Deixo uma proposta, que resumidamente passa pelo seguinte: uma seleção em 4x4x2, com Ronaldo no papel de segundo avançado, meio-campo em losango mas linhas bem mais avançadas do que vem sendo hábito. Como em Portugal gostamos muito de discutir a parte gregária, a discussão tem muitas vezes caído num estéril “não é a equipa que tem de adaptar-se a Ronaldo, mas deve ser este a adaptar-se à equipa”. Nada de mais errado. Ronaldo tem de fazer sempre aquilo que faz dele um dos dois melhores do Mundo e Portugal tem tudo a ganhar em aproveitar os momentos em que ele o faz e tudo a perder em esgotá-lo em tarefas que lhe diminuem a capacidade de o fazer. Pedir a Ronaldo que se adapte à equipa seria o mesmo que pedir a Picasso que pintasse umas cercas em vez de colocar a sua genialidade na tela. Uma perda de tempo. Parece-me claro que cabe ao selecionador encontrar a melhor forma de explorar Ronaldo e construir uma equipa em torno dele. Ora, na seleção, Ronaldo já foi extremo puro, quando ainda não era a máquina goleadora que é hoje. Depois, com Queiroz, foi ponta-de-lança único do 4x3x3, o que ajudou a secar a sua fonte de golos e transformou a seleção numa equipa de cariz defensivo, a apostar sobretudo no contra-ataque. Com Bento passou a ser ala esquerdo constantemente a cair no corredor central, em diagonais que lhe recuperaram a veia goleadora mas criaram à equipa problemas de equilíbrio defensivo que esta nunca soube resolver – o flanco esquerdo estava sempre sujeito a situações de inferioridade numérica do lateral contra dois adversários. Com Santos, Ronaldo tem tido a liberdade para fazer o que lhe apetece, é uma espécie de elemento em função do qual toda a manobra atacante se organiza. Ou melhor: em função da qual toda a manobra atacante devia organizar-se, por que falta encontrar essa organização que faça da equipa um coletivo. De que precisa Cristiano Ronaldo na seleção? Precisa que lhe deem liberdade para aparecer onde adivinha que pode criar perigo, onde descobre espaço para uma aceleração ou para um remate. E precisa de apanhar a bola o mais perto do último terço do campo possível, para não ter de enfrentar sprints de mais de 50 metros em cada transição ofensiva. Em contrapartida, de que precisa a equipa para evitar problemas nascidos da utilização de Ronaldo? Precisa que essa liberdade não cause desequilíbrios defensivos (como acontecia com Paulo Bento) nem ofensivos (como acontece com Santos, com quem a equipa não preenche sempre os três corredores a atacar). E precisa que o desejo de poupar o CR7 a tarefas defensivas não condicione o comportamento global nem em transição nem em organização defensivas (e isso também tem acontecido, pois Portugal transformou-se numa equipa que não pressiona de todo a saída de bola dos adversários). A resposta, parece-me, tem de ser o 4x4x2 com meio-campo em losango: um sistema que Fernando Santos conhece bem, pois jogou com ele no Sporting e no Benfica. E um sistema que o atual selecionador foi testando até ao jogo com a Itália (em que Ronaldo não esteve), ainda que com nuances que me parecem funcionar como contra-indicações. Este é o momento em que surgem os protestos. Mas como pode Portugal, que tem o melhor extremo do Mundo, jogar num sistema que anula os extremos? Ora não só pode como deve. Porque há muito tempo que Ronaldo não é extremo. Há muito tempo que deixou de funcionar como tal. Até ao jogo com a Itália, o Portugal de Fernando Santos jogava num misto de 4x4x2 losango com 4x3x3. Os dois homens mais avançados eram os alas (Nani e Ronaldo), sendo que o ponta-de-lança (Danny) baixava muito no campo para funcionar como quarto médio. Ora esta organização apresentava vários problemas, o maior dos quais era a falta de pressão na saída de bola do adversário, que obrigava a equipa nacional a baixar muito as linhas, dessa forma diminuindo a ameaça Ronaldo em momentos de transição ofensiva – se a equipa estava tão baixa no campo, a bola chegava a Ronaldo com mais de meio-campo para percorrer. O 4x4x2 que faz falta a esta seleção é um 4x4x2 em que Ronaldo surge como avançado livre, a aparecer por onde acha que deve aparecer. Isto é: Ronaldo deve fazer mais ou menos o que fez contra a França, mas a equipa deve aprender a funcionar com aquele Ronaldo. Daí que esta tenha de dar o que faltou nesse jogo, em que o ataque era tão móvel que muitas vezes surgiam dois jogadores no mesmo corredor e depois o resto do campo ficava entregue a um só, com a inevitável falta de presença na área que não seria a chegada de um médio a resolver, sobretudo se estes partem tão de trás, condicionados pela vontade de jogar tão recuado como jogou a equipa nacional em Alvalade. Assim sendo, pensando numa ideia de jogo e de equipa, o que falta para complementar o futebol de Ronaldo? Falta, primeiro um ponta-de-lança que dê à equipa aquilo que Ronaldo não é capaz de dar ou não deve dar por razões estratégicas. E aquilo que Ronaldo deixa de dar não são golos – esses, ele marca-os aos magotes. O que Ronaldo não dá é uma presença mais fixa no centro do ataque, para fixar os defesas-centrais adversários. O que Ronaldo não dá e que, por isso mesmo, a equipa tanto precisa, é pressão sobre a saída de bola do adversário, de forma a que a equipa não tenha que recuar toda para um bloco médio-baixo que lhe condicione depois todo o jogo. A equipa precisa de um ponta-de-lança que fixe os centrais, de modo a dar espaço às arrancadas do CR7, que funcione como apoio nas tabelas que ele queira fazer, e que pressione defensivamente. Nem precisa de fazer muitos golos, que para isso está lá Ronaldo. Existe esse jogador? Não tenho a certeza, mas encontrá-lo devia ser a prioridade máxima do selecionador neste momento. Se chegamos ao meio-campo, este precisa de ser mais compacto, de estar mais perto dos atacantes. Nos momentos defensivos, tem de bascular para o lado da bola, para combater a falta de largura, e ao mesmo tempo de ser agressivo, para evitar as variações de flanco que o deixem exposto. Ofensivamente tem de chegar mais à frente, com tarefas bem definidas. Tem de ter um pivot defensivo que assuma o jogo e seja capaz de sair a jogar e dois médios interiores que tragam intensidade e, à vez, chegada à área ou jogo de corredor. Com exceção de Quaresma, que teria de funcionar como duplo de Ronaldo, ou de Varela, que seria a solução para mudar o esquema quando isso fosse necessário, todos os jogadores que Portugal tem usado como extremos podem funcionar neste papel. Por fim tem de ter um vértice mais adiantado capaz de compensar Ronaldo, de aparecer como terceiro atacante se for caso disso e de emprestar criatividade no último terço. Este meio-campo não será um problema, pois há em Portugal talento suficiente para o compor duas ou três vezes. Quem tem William, Danilo, Veloso, Moutinho, Adrien, Tiago, André André, João Mário, André Gomes, Nani, Danny ou Bernardo Silva não tem de ter medo deste desafio. Falta acrescentar dois laterais com pulmão para todo o corredor (Vieirinha ou Cédric à direita, Coentrão, com Guerreiro e Eliseu como alternativas à esquerda), de forma a compensar a propensão mais interior dos médios, e dois centrais que têm de ser rápidos (Pepe, Ricardo Carvalho e Paulo Oliveira, mais que José Fonte ou Bruno Alves), para poderem responder à necessidade de jogar subidos no terreno. Porque Portugal não tem de ser uma equipa de contra-ataque ou que tente explorar apenas os momentos de transição ofensiva. Aliás, para tirar partido de Ronaldo, não deve sê-lo. Da mesma forma que o Real Madrid não o tem sido nos últimos anos. 
2015-09-06
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Último Passe

Fernando Santos reconheceu hoje, na conferência de imprensa que antecipou o Albânia-Portugal, os problemas que a seleção nacional revelou no jogo com a França, na sexta-feira. Para explicar aquilo que em Alvalade catalogou apenas como “falta de chegada à área”, admitiu que a equipa “baixou demasiado as linhas”, ainda que tenha particularizado que só o fez “a partir de certa altura no jogo”, e que isso prejudicou a tal presença na frente. Além disso, reconheceu ainda que o desvio de Adrien Silva para a esquerda, em apoio ao desamparado Eliseu, nos momentos defensivos, “o impediu depois de estar tão presente junto aos atacantes como a equipa precisava”. A estes dois problemas, o selecionador nacional juntou um terceiro. “A equipa não tem de ir sempre à procura da linha de fundo para cruzar. Há momentos em que tem de ser mais objetiva, tem de partir diretamente para a baliza, porque se tem jogadores que são muito fortes em um para um, estes já não conseguem resolver da mesma maneira se for em um para dois ou em um para três”. Foram estas as explicações táticas e estratégicas que Fernando Santos deu aos jornalistas, numa conversa longa, onde disse ainda que “não tem medo” e que está na Albânia “para ganhar”. Num placard deixado na sala do Hotel Sheraton onde decorreu a conferência de imprensa – que também serviu para o selecionador falar aos jogadores – estavam, bem à vista (propositadamente à vista?), as palavras “Ganhar / Organização / Concentração / Paixão / Confiança” e Santos aproveitou-as para espantar fantasmas. “Se escrevi ali ganhar é porque viemos para ganhar. Não viemos para empatar ou para perder”.Aquilo que nenhum treinador revela de véspera é o que vai fazer para ganhar. Santos não fugiu à regra, mas é de prever que possa fazer o mínimo de alterações relativamente ao jogo com a França, pois os acertos serão sobretudo estratégicos. Se o selecionador reclamava mais presença na área, fará pouco sentido que puxe a equipa para trás. Se reconheceu que o problema da falta de chegada dos médios foi tático, não é previsível que os mude – terá, sim, de mudar as instruções que lhes dá, a eles e ao resto do coletivo. Tudo somado, é possível que Portugal altere apenas um jogador relativamente aos onze que jogaram com a França: Éder por Danny ou Quaresma, que até foi o escolhido para falar aos jornalistas. Se resulta e se, no final, mesmo tendo admitido que não gosta, Quaresma terá ocasião de brindar com champagne a um passo decisivo de Portugal em direção ao apuramento se verá no final do jogo com a Albânia. Que, é bom não esquecer, forma com Gales, Inglaterra, Roménia, Áustria e Itália o lote de seis equipas ainda sem derrotas nesta fase de qualificação.
2015-09-06
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Último Passe

A derrota (0-1) no teste com a França não deixou as melhores indicações à seleção nacional. No final, porém, o selecionador fez uma boa leitura dos acontecimentos, ao reconhecer que faltou mais presença na área. Fernando Santos afirmou que ela seria obtida se os médios subissem mais, o que é evidente, mas também que crê na articulação de um 4x3x3 em que as três peças da frente se movem de acordo com o que decide uma delas. Ora, como diz aquela menina no anúncio dos iogurtes, "nisso, eu já não acredito". Portugal voltou ao 4x3x3, abdicando das experiências que vinham sendo feitas em torno de um 4x4x2 de difícil interpretação que se destinava a compensar a falta de um ponta-de-lança de grande qualidade e a encontrar forma de enquadrar Ronaldo ao meio sem o abandonar ao adversário como ponta-de-lança único. Em 4x3x3, no entanto, voltaram os problemas que se viam antes. Defensivamente, a saída constante de Ronaldo do corredor que lhe é destinado deixa o lateral desse lado em permanente inferioridade sempre que o adversário roda a bola e sai por ali: com a França, Adrien foi sempre a ajuda de Eliseu, o que pode explicar que não tenha aparecido com tanta frequência na frente, em apoio ao ponta-de-lança. Ofensivamente, num sistema em que Ronaldo escolhe a cada momento o seu corredor e Nani e Éder têm de perceber e ocupar os outros dois, a questão que se coloca é a da criação de rotinas que permita a coordenação efetiva dos três homens da frente. Neste jogo repetiram-se às situações em que apareceram dois deles no mesmo corredor, abandonando o terceiro a uma imensidão de espaço, sem esperança de sucesso.Esta é uma questão para a qual não há resposta evidente. Fernando Santos tem o mérito de andar à procura da solução. Ainda que, enquanto não a encontrar, Portugal esteja condenado a ser uma equipa de fraco potencial atacante, que nos jogos contra adversários a sério dependerá demasiado do contra-ataque, das bolas paradas ou da momentânea inspiração de um ou outro jogador para fazer golos. E isso não é aceitável numa equipa que tem tanta gente de qualidade do meio-campo para a frente.
2015-09-04
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Stats

Fernando Santos tem a sua ainda curta passagem pela seleção nacional marcada pelo ponto final que colocou numa série de tradições negativas. Foi com ele aos comandos que Portugal venceu a Argentina pela primeira vez em quatro décadas (1-0 em Manchester, em Novembro). Foi ainda com ele que Portugal bateu pela primeira vez a Itália em 39 anos (também 1-0 em Genebra, em Junho). Resta uma “besta negra”: a França, a quem Portugal não ganha desde 1975. A última vitória de Portugal sobre a França data de 26 de Abril de 1975 e foi obtida em Paris, a 26 de Abril de 1975, no estádio de Colombes. Nené e Marinho marcaram, em dois ataques rápidos (youtube.com/watch?v=FzujnaI9j1U) os golos de um 2-0 que deixava boas perspetivas para a viagem a Praga, onde, contudo, a seleção encaixou um robusto 5-0 da Checoslováquia e começou a ver como impossível a qualificação para o Europeu de 1976. Desde essa tarde – um dia depois das primeiras eleições livres em Portugal –, a seleção nacional defrontou a França por mais nove vezes, perdendo sete e empatando as outras duas (que no entanto veio a perder no prolongamento, nas meias-finais dos Europeus de 1984 e 2000). Duas das derrotas foram mesmo pesadas e de alguma forma premonitórias. Em 1983, a França de Michel Hidalgo veio ganhar por 3-0 a Guimarães, mostrando que o tempo de Otto Glória à frente da equipa lusa estava a esgotar-se: depois disso, com a Comissão Técnica no lugar do treinador brasileiro, Portugal ainda se qualificou para o Europeu, para o qual, contudo, não foram convocados metade dos que jogaram nessa tarde. Em 2001, Portugal foi pesadamente batido por 4-0 no Stade de France, no que podia ter sido o primeiro sinal de alarme para o que veio a ser o fracasso da equipa de António Oliveira no Mundial de 2002. Nenhuma outra seleção no Mundo tem sido tão aziaga para a equipa portuguesa, que uma vez ultrapassado o papão francês poderá então virar-se para o segundo monstro do momento: a Grécia, a quem Portugal não ganhou nenhum dos últimos seis jogos: três vitórias e três empates desde um 1-0 no Restelo que serviu de aquecimento para o Europeu de 1996. Mas de gregos, na verdade, não há quem perceba mais em Portugal do que Fernando Santos.   - Ricardo Quaresma é o único jogador da seleção portuguesa que já marcou à França. Fez de penalti o golo que valeu aos portugueses reduzir para 2-1 na derrota em Paris, em Outubro.   - A França vem de duas derrotas consecutivas, contra a Albânia (0-1, em Elbasan) e a Bélgica (3-4 em Saint-Denis). Os franceses não perdem três vezes seguidas desde 2013, quando foram consecutivamente batidos por Espanha (0-1, na qualificação para o Mundial), Uruguai (0-1) e Brasil (0-3), estes dois em jogos amigáveis.   - Anthony Martial, uma das figuras do último mercado, ao transferir-se do Mónaco para o Manchester United por valores acima dos 50 milhões de euros, pode estrear-se na seleção francesa no jogo com Portugal. O único francês nessas condições além do jovem atacante de 19 anos é o guarda-redes Costil, do Rennes. A seleção portuguesa não tem candidatos a estreantes.   - Novidade da seleção portuguesa é o regresso de Veloso, que não joga pela equipa nacional desde 7 de Setembro do ano passado, quando entrou nos últimos 17 minutos para o lugar de Ricardo Costa, na derrota com a Albânia (0-1), em Aveiro, que levou ao afastamento de Paulo Bento.
2015-09-02
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Último Passe

A substituição de Paulo Bento por Fernando Santos aos comandos da seleção nacional trouxe mudanças a vários níveis. Alterações de estilo, de modelo de jogo, mas também no que respeita à filosofia subjacente a cada convocatória. Com Paulo Bento, um pouco como com Luiz Felipe Scolari, havia um grupo mais ou menos fixo, era mais valorizado o sentimento de pertença de um jogador a esse grupo do que a sua condição a cada jogo. A continuidade, como defendia Paulo Bento, não era o critério principal de cada escolha. Com Fernando Santos isso mudou. Até hoje.Ao decidir convocar João Moutinho (que tem estado magoado e fora das escolhas de Jardim no Monaco) para o duplo confronto com a França e a Albânia, no início do mês, Fernando Santos está a fazer muito mais que reconhecer a importância do médio algarvio na equipa nacional. Está a equipará-lo a Ronaldo, possivelmente o único outro jogador por quem esta seleção sentiria necessidade de abrir exceções.João Moutinho é tão fundamental nas dinâmicas do meio-campo da equipa que se compreende a sua chamada. É possível que o selecionador queira usar o particular com a França para perceber se terá João Moutinho em boas condições para a deslocação a Tirana, onde a equipa poderá dar um passo decisivo rumo à qualificação. Mas é importante não alienar o resto do grupo, porque há no lote outros médios de grande capacidade que valerão mais que um João Moutinho diminuído.
2015-08-28
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