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Artigo

O futebol português vive numa conjuntura em que, independentemente de onde esteja o poder de direito, o importante é entender onde está o poder de facto e fazê-lo funcionar, doa a quem doer. Há já alguns meses que venho escrevendo e dizendo a quem está, por exemplo, na Federação Portuguesa de Futebol, que só da Cidade do Futebol podia vir uma ação contundente para acabar com a podridão que está a gangrenar todo o futebol nacional. Sempre me respondiam que não podia ser, porque o poder de direito é da Liga e só a Liga podia meter-se no caso. Só que a Liga está fraca, a entrada de Pedro Proença não a revitalizou suficientemente e o poder de facto está noutro lado. Portugal foi campeão europeu e, inevitavelmente, a liderança da FPF recolheu daí muitos benefícios em termos de imagem pública. Independentemente disso – mas também por isso –, Fernando Gomes acaba de ser nomeado para substituir Angel Maria Villar na Comissão Executiva da FIFA, sendo neste momento evidente que é, em termos internacionais, o mais poderoso dirigente da história do futebol nacional. Mais do que Antero da Silva Resende, cuja presença nos principais areópagos internacionais era vista como uma vitória para o Portugal dos Pequenitos mas significava pouco. Mais do que João Rodrigues, a cuja presença significativa nos corredores das mais altas instâncias faltava o correspondente reconhecimento público. Além disso, mesmo antes do Europeu de 2016, Tiago Craveiro já era um dos homens mais tidos em conta, quer pela liderança da FIFA quer pela liderança da UEFA. O primeiro abraço de Gianni Infantino depois de ter sido eleito presidente da FIFA foi dado a Onofre Costa, o homem que muita gente em Portugal julga que se limita a sentar-se ao lado de Fernando Santos nas conferências de imprensa e a escolher os jornalistas que têm o direito de fazer perguntas, mas cuja importância transcende em muito esses momentos – por alguma razão era ele quem estava ao lado direito de Infantino na plateia. O verdadeiro poder para influenciar as coisas no futebol português está na Federação Portuguesa de Futebol e não na Liga, até pelo simples facto de não ser a FPF quem mais se envolve diretamente nos assuntos acerca dos quais os clubes mais discutem. Quando foi preciso instituir o vídeo-árbitro foi a FPF quem avançou. A Liga, além de estar a recuperar de um estado de pré-falência, nunca conseguirá – ou pelo menos não o conseguirá nos tempos mais próximos – pairar acima de qualquer suspeita para clubes cuja atividade vive precisamente da criação dessa mesma suspeita. Por isso, sim, embora não tivesse a obrigação de o fazer, só a Federação Portuguesa de Futebol e o seu presidente podiam encabeçar a tentativa de pacificação iniciada com o texto assinado esta semana por Fernando Gomes. Só mesmo o presidente da FPF podia escrever o que escreveu e recolher aplausos de todo o lado – tivesse sido Pedro Proença a fazê-lo e imediatamente choveriam acusações de favorecimento à esquerda e à direita, que é como quem diz a um e a outro dos grandes. E, no entanto… E, no entanto, ainda que toda a gente tenha concordado e aplaudido as palavras de Fernando Gomes, os principais clubes fizeram delas chão raso quando se tratou de as comentar, todos a apontar o dedo uns aos outros, como se as culpas do que se passa fosse apenas e só dos rivais. É por isso que digo que Fernando Gomes deu o pontapé de saída, exercendo aquilo que pode exercer, que é um magistério de influência para tentar colocar as coisas nos eixos, mas que vai ser preciso haver mais gente a fazer mais. Se o que se quer é acabar com o corrente estado de podridão – e não se julgue que isso vai acabar de um dia para o outro, porque foram anos e anos a espalhar ódio, que já se entranhou nas mais diversas camadas da sociedade e leva o comum adepto a ser mais ativo quando se trata de menorizar as conquistas dos adversários do que quando pode festejar as vitórias dos seus – é preciso fazer mais. E o mais, já o disse e escrevi, não passa por enquadrar disciplinarmente os ilícitos, porque isso haverá sempre forma de contornar, seja através de meros adeptos famosos cujo discurso não é imputável aos clubes, seja através de simples funcionários. O mais que é preciso fazer passa por ocupar o espaço mediático. Passa por, como se faz nas Ligas que deviam ser modelo para nós, forçar os clubes a permitirem que os verdadeiros protagonistas – jogadores, treinadores – apareçam nas TVs, nas rádios, nos jornais ou nos sites de informação, com simples declarações ou em entrevistas. E aqui, sim, tem de ser a Liga a chegar-se à frente e a perceber que, por muito que queira manter este equilíbrio precário em que o futebol se está a afundar, não pode manter mais o alibi segundo o qual só faz aquilo que os clubes querem. Os clubes não podem querer a auto-destruição do futebol português. Não têm nada a ganhar com isso.
2017-09-24
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