PESQUISA 

Último Passe

Um dia antes de a seleção nacional se qualificar para as meias-finais da Taça das Confederações, na Rússia, a equipa de sub21 ficou fora das meias-finais do Campeonato da Europa da categoria, que está a decorrer na Polónia, muito por força de duas questões: um regulamento idiota e o facto de ter ficado no mesmo grupo da Espanha, uma das poucas potências que pode rivalizar connosco nestas coisas do futebol de desenvolvimento e que impôs aos miúdos de Rui Jorge a primeira derrota em competição desde 2011. Futuro assegurado? Sim, se tudo dependesse dos jogadores e dos treinadores. Infelizmente não é assim, pois eles estão condenados a crescer num ambiente de oposição e irracionalidade permanentes. A verdadeira imagem do futebol português podia ser esta, a de sucessivas gerações de sub21 que abriram e fecharam o ciclo sem perder um único jogo e que vão desbravando caminho até à seleção principal. Na Taça das Confederações estão vários representantes dessas gerações – José Sá, Cédric, Nelson Semedo, William, Danilo, André Gomes, Gelson, Bernardo Silva ou André Silva fizeram todos parte deste percurso, como nele entraram João Mário, ausente na Rússia devido a uma lesão de última hora, ou Renato Sanches, desta vez relegado para os sub21 mas presente no Europeu do ano passado. A verdadeira imagem do futebol português podia ainda ser a de uma seleção A que venceu o campeonato da Europa e que continua em liça para lhe somar a Taça das Confederações, uma equipa que desde a entrada de Fernando Santos, em Outubro de 2014, só perdeu um jogo competitivo, contra a Suíça, na qualificação para o Mundial do ano que vem. E no entanto, os portugueses que falam de futebol vagueiam entre a indiferença e o ódio por esta equipa. Porque foi isso que lhes ensinaram, é isso que ouvem no dia a dia. Como jornalista e sobretudo analista de futebol, já muitas vezes me acusaram de ser “pessimista” ou “cético”, de incluir um “sim, mas” em cada frase. É verdade. Mas há uma coisa que procuro sempre fazer, que é compreender as razões de quem toma uma decisão. Percebi, discordando, que Fernando Santos tenha ontem colocado Pepe a jogar de início contra a Nova Zelândia, porque o selecionador terá achado que era importante mandar para dentro do balneário uma mensagem de responsabilização. Já percebi pior, continuando a discordar, que o defesa-central tivesse voltado para a segunda parte, quando havia 2-0 no marcador e um cartão amarelo o afastaria da meia-final. Que começa empatada a zero e onde o adversário será mais forte que os neo-zelandeses. Uma coisa, porém, não faço. Que é alegar que Pepe jogou ou voltou após o intervalo em nome de uma qualquer agenda escondida e inconfessável do selecionador nacional. Porque como estão condenados a, nesta matéria, ser todos das mesmas cores, os portugueses depressa vão à procura de uma forma de se oporem. E aí há os que entendem que William, Adrien, Cédric e Gelson não estão a fazer nada na equipa e que a culpa dos golos é sempre de Rui Patrício. Depois, há os que entendem que quem está a mais são Nelson Semedo, Pizzi, João Moutinho, Bernardo Silva ou André Gomes, da mesma forma que estava a mais Renato Sanches há um ano em França. Estes dois grupos misturam-se muito com o dos que acha que qualquer decisão do selecionador nacional foi tomada ao serviço deste ou daquele agente de jogadores – há um ano Moutinho só jogava porque era de Jorge Mendes, agora Adrien e William só jogam porque o Sporting precisa de os vender… Não vou ao cúmulo de ingenuidade de pensar que os agentes não têm influência, mas não creio que Fernando Santos pense pela cabeça de ninguém a não ser a dele ou a dos seus adjuntos. E a maior ameaça ao futebol português não é esta ou aquela decisão de um selecionador. É, sim, o ambiente geral. Não conheço mais nenhum país onde o futebol se veja assim, onde tudo tenha a ver com a cor. Porque os mesmos que antes achavam bem que as escutas do Apito Dourado fossem divulgadas, agora acham mal que os mails da polémica surjam na praça pública. E podia escrevê-lo ao contrário: os mesmos que antes se queixavam de devassa são os que agora mais contribuem para a revelação. Lá em cima escrevi futebol? Pois devia ter escrito desporto. Porque os mesmos que durante meses a fio ridicularizaram os que se queixam das arbitragens, agora aplaudem a decisão de fazer falta de comparência a uma final four da Taça de Portugal de hóquei em patins. E também aqui podia escrevê-lo ao contrário, já se sabe.
2017-06-25
LER MAIS

Artigo

As diferentes reações que se têm visto à chegada do vídeo-árbitro ao futebol português têm a ver, sobretudo, com a incapacidade de entender aquilo que o vídeo-árbitro é ou pode ser por parte de mentes excessivamente tradicionalistas ou bloqueadas por um grave défice de cultura desportiva. O vídeo-árbitro é um meio auxiliar de diagnóstico, não é uma forma de acabar com o erro numa área onde muitas vezes impera a subjetividade. É uma forma, isso sim, de ajudar a impedir injustiças, não uma forma de acabar com elas ou com a polémica em torno delas. Porque a polémica não tem nada a ver com a arbitragem, mas sim com a tal falta de cultura desportiva, que é o que em Portugal – e em poucos países mais – gera tanto ruído em torno dos casos de arbitragem. No limite, aos céticos, respondo sempre com o râguebi, onde o TMO (Television Match Official) já impediu erros grosseiros e onde a dinâmica de interação entre jogadores, árbitros e vídeo-árbitros está tão bem oleada que passou a ser um espetáculo dentro do espetáculo. E é nessa altura que me respondem: “Mas queres comparar o público do futebol com o do râguebi?”. E eu digo: claro que sim! A ideia segundo a qual o futebol nunca poderá seguir o exemplo do râguebi nesta matéria por haver muito em jogo cai pela base quando se verifica que o TMO funciona – e bem – em competições como o Campeonato do Mundo, o Torneio das Seis Nações ou a Taça dos Campeões Europeus. Nestas competições, já vi ensaios irregulares serem anulados pelo TMO, não apenas pela conclusão, mas também por se detetar uma irregularidade lá mais atrás, tal como já vi questões disciplinares serem resolvidas com justiça pelo mesmo TMO. A dinâmica dos dois jogos não é assim tão diferente, ou não tivessem eles nascido da mesma base – as regras das duas modalidades eram as mesmas até meados do século XIX, quando se deu a separação entre os que permitiam que se agarrasse o adversário e se transportasse a bola nas mãos e os que o impediam. Se na altura houvesse programas de TV com adeptos dos diferentes clubes, imagino o que não se diria a respeito deste corte com a tradição. Não havendo, admito que a reunião decisiva para a cisão, na mítica Freemason’s Tavern, tenha sido preenchida com frases como “O futebol nunca mais vai ser o mesmo” ou “estão a destruir o futebol”. E a verdade é que tanto o futebol como o râguebi prosperaram. Foi por essa altura que nasceu o famoso aforismo segundo o qual “o futebol é um jogo de cavalheiros jogado por brutos e o râguebi um jogo de brutos jogado por cavalheiros”. Não tem de ser assim, no entanto. Nos círculos do râguebi, contam-se outras piadas, como as que marcam a diferença entre os jogadores das duas modalidades: no futebol rebolam no chão e dizem que estão lesionados quando estão de perfeita saúde, enquanto que no râguebi tentam convencer o árbitro e o treinador de que estão bem quando na verdade estão lesionados. E isto também não tem de ser assim. A questão é que nem tudo tem a ver com formação. Há aqui muito de ética, é verdade, mas muito de ação, também. E neste aspeto quem tem de aprender são as hiper-profissionais estruturas que governam o futebol, que ganhavam tudo em deixar de apostar no secretismo como arma. Podia aqui encher-vos a paciência com histórias acerca do “fruto proibido” e de como ele é o mais apetecido, mas prefiro dar o exemplo positivo: há pouco mais de um mês fui a Twickenham assistir ao vivo ao Inglaterra-Escócia que permitiu à equipa inglesa assegurar, a uma jornada do fim, a segunda vitória consecutiva no Torneio das Seis Nações. À entrada, quem quisesse, podia levar um mini-transistor. E não era para ouvir o relato: era, sim, para ouvir as conversas entre o árbitro de campo e o TMO. Para compreender as decisões, portanto. É nesse sentido, também, que as decisões são expostas à apreciação popular com repetições esclarecedoras nos ecrãs gigantes dos estádios. Ouvimos o árbitro dizer o que se passou e podemos ver que realmente se passou. É verdade que o fanatismo leva muita gente a ver o que não está lá e a ignorar o que qualquer mente sã é capaz de ver. Mas não terá sido essa a razão principal pela qual a FIFA deu em tempos indicações aos organizadores de jogos para que não sejam difundidas repetições nos ecrãs gigantes. Isso terá sido para que o público, os jogadores e até os próprios árbitros não possam aperceber-se de que estes últimos se enganaram de forma grosseira. E até isso o vídeo-árbitro pode impedir.  
2017-05-07
LER MAIS

Último Passe

Por mais voltas que os profissionais da confusão queiram dar ao assunto, a adoção do video-árbitro em Portugal um ano antes do previsto por iniciativa da Federação Portuguesa de Futebol é uma excelente notícia. Não vai resolver os problemas relacionados com a arbitragem no futebol português, porque esses, mais do que com a arbitragem propriamente dita, têm a ver com o gritante défice de cultura desportiva de que sofre a maior parte dos agentes envolvidos. Não vai acabar com o erro nem com a discussão e com a polémica, porque a arbitragem é, em si, um exercício de subjetividade. Mas vai ser uma grande ajuda na diminuição dos casos mais gritantes de injustiça, porque fornece um meio extra de diagnóstico a quem, por agora, é forçado a decidir com menos certeza do que a que tem o telespectador confortavelmente sentado na poltrona lá de casa. E pode ser uma porta aberta para que se sigam outros caminhos de modernidade que a estrutura do futebol nacional precisa de assumir. As objeções vão começar a poluir o espaço mediático em breve, da mesma forma que já poluem as timelines das mais diversas redes sociais. Logo no primeiro dia, já se falou de muita coisa. Que é frequente os árbitros que opinam em painéis de opinião dos diversos meios de comunicação estarem em desacordo. Que as interrupções vão tornar os jogos aborrecidos. Que o erro é o sal e a pimenta do futebol – esta então é de bradar aos céus. Que têm de ser estabelecer as condições exatas nas quais o vídeo-árbitro poderá ser chamado a intervir, para definir o que se faz com jogadas que se sigam a outras que tenham sido interrompidas tardiamente. Que se criará uma confusão enorme sempre que o árbitro quiser inverter uma decisão do árbitro de campo. Que isto vai ser uma confusão porque há campos onde não há condições perfeitas. Ou que não é justo que se aplique no futebol de topo enquanto não estiver a vigorar também nos escalões inferiores – afinal as regras devem ser iguais para todos. Para todas estas objeções há resposta. Os especialistas divergem porque a arbitragem não é uma ciência exata e do que se trata não é de erradicar o erro, mas sim de criar condições para que ele seja menos frequente. A demora nascida das interrupções não tem de ser aborrecida e – vejam o exemplo do râguebi – pode até ser didática, desde que se dê o passo seguinte, que passa por tornar públicas as explicações dadas pelo árbitro de campo aos jogadores e se distribuam pequenos recetores pelos quais os espectadores possam ouvir o canal de comunicação entre o árbitro de campo e o de regie. Porque a transparência é sempre a melhor política. Depois, é claro que têm de se estabelecer as condições exatas em que a ajuda tecnológica poderá ser utilizada. E aqui creio que o passo que vai ser dado ainda é curto e que podia importar-se uma ideia do ténis, que é a possibilidade de também os capitães de equipa poderem desafiar um determinado número de decisões do árbitro de campo – uma por 45 minutos, por exemplo – que possam ter escapado a um primeiro visionamento do vídeo-árbitro. Por fim, é claro que há campos onde não há condições perfeitas e que esta inovação não estará disponível a não ser na elite, mas nem a vídeo-vigilância nas grandes superfícies comerciais depende da sua existência em botecos de esquina nem o facto de haver cidades onde não chegam as auto-estradas impede o estado de as construir onde isso é possível. Problemática pode ser, isso sim, a dependência que a Liga vai ter do prestador de servições que fará a transmissão dos jogos. O que acontece, por exemplo, se o canal detentor dos direitos decidir inverter a estratégia que o levou, desde a época em curso, a transmitir em direto todos os jogos da I Liga, o que implica a mobilização de um número razoável de câmaras? A questão, aqui, é a de aproveitar o problema para criar uma oportunidade e passar finalmente todos os direitos para a mão do organizador do campeonato, aproveitando de caminho para proceder à necessária centralização e à distribuição mais equilibrada da receita apurada, de modo a aumentar a competitividade interna e dos nossos clubes no estrangeiro. Mas isso, enfim, já é outra história.
2017-05-04
LER MAIS

Último Passe

Jogou-se um Sporting-Benfica e mais do que ao futebol está a dar-se atenção ao clima de ódio e confronto permanente que rodeia o futebol em Portugal. E aqui todos temos de ter a noção de que temos de fazer mais. Têm de fazer mais os dirigentes, têm de fazer mais os jornalistas, têm de fazer mais os treinadores e jogadores para que se crie um contexto em que os adeptos façam menos. Porque a verdade é que no dia seguinte à morte de mais um adepto em confrontos potenciados por este clima de tensão permanente serve de pouco virmos todos dizer que o futebol está um lugar perigoso quando não fazemos aquilo que tem de ser feito para o evitar. E o resultado é que no seguimento dos acontecimentos trágicos da madrugada anterior, o que mais se ouve é virem de um lado dizer que se o adepto morreu atropelado foi porque não tinha nada que andar nas imediações do Estádio da Luz às tantas da manhã – coisa boa não ia fazer… – e do outro aparecerem a lembrar que os que morrem e os que matam são sempre das mesmas cores – como se a idiotice tivesse uma cor fixa. Já aqui defendi que se as coisas estão como estão é preciso procurar razões profundas e intervir nelas. Claro que era bom que se fizesse mais também no seguimento da tragédia. Era bom que Bruno de Carvalho se coibisse de fazer julgamentos morais se o que queria era ter Luís Filipe Vieira a seu lado na tribuna de honra – e provavelmente não queria. Era bom que Vieira passasse por cima desses julgamentos e não viesse depois questionar o que andava o adepto italiano a fazer nas imediações do Estádio da Luz se queria de facto contribuir para a pacificação geral, aparecendo ao lado do presidente do rival – e provavelmente também não queria. Era bom que, como cheguei a ver escrito ontem, as duas equipas se fizessem fotografar em conjunto com um apelo ao fair-play, que os dois treinadores fizessem até mais do que cumprimentar-se e dessem um forte abraço. Mas continuo a achar que tudo isso acabará por ser irrelevante se não se fizer nada no início da cadeia. E o início da cadeia passa pela tomada de decisões estratégicas, pelo reconhecimento de que o futebol é um assunto potencialmente atrativo para as massas e que se o “sistema” não permite que surjam conteúdos que o promovam, as corruptelas desse mesmo sistema acabarão por privilegiar os conteúdos que o arrastem para a lama. Como os programas televisivos de hooligans engravatados que passaram a servir de modelo para todas as conversas acerca do jogo nos cafés. Vê-se muita gente queixar-se de que o futebol está nas ruas da amargura mas depois a engrossar as fileiras de seguidores dessas discussões da intensidade do toque ou do milímetro do fora de jogo, a subscrever teorias da conspiração que fariam corar de vergonha qualquer Jerry Fletcher ou Fox Mulder dos tempos modernos. Perante os acontecimentos dos últimos dias, vê-se já muita gente a dizer que deviam acabar os programas de futebol, os jornais desportivos, os debates de rádio… Tudo! Quando, como cantava Manuel Freire, “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. O futebol estará sempre na ordem do dia, a questão é a de saber se quem manda nele consegue que seja pelas boas razões. Como? Não é permitindo – é obrigando que os seus principais protagonistas, que são os jogadores e os treinadores, apareçam. É estes meterem na cabeça que o futebol não é uma ciência oculta e que mais vale falarem dos detalhes que enriquecem mesmo o jogo em vez de se refugiarem em lugares comuns que não interessam a ninguém. É os jornalistas serem também capazes de pensar fora da caixa e levarem as suas conversas para o retângulo de jogo em vez de ser para os gabinetes da comissão de arbitragem ou do conselho disciplinar. No dia em que isso acontecer, garanto, os adeptos também vão ser capazes de falar do jogo. Claro que neste momento, fruto do que tem sido a realidade recente, da habituação dos adeptos aos conteúdos tóxicos, já transformada em dependência, seria sempre precisa uma reeducação, uma espécie de desintoxicação. A coisa nunca seria imediata. Ainda assim, estou convencido de que um programa de TV que amanhã juntasse os dois treinadores ou até dois jogadores com liberdade para falar do jogo suscitaria sempre mais interesse do que os intermináveis debates dos hooligans engravatados que enchem os serões televisivos por estes dias. Impossível, dirão alguns. Não vejo por que razão, respondo eu. Se a Liga é a dona do campeonato, se tem o poder de estabelecer um caderno de encargos para os clubes que nele querem participar, se nada a impede até de fundar uma produtora de TV que garanta que esses programas não descambam para os tais incitamentos ao ódio que estão a estragar o futebol em Portugal, se isto até já se faz no estrangeiro, não vejo por que não há-de poder ser feito em Portugal. A alternativa é virmos a breve prazo a coroar todos os anos um campeão da lixeira em que está a transformar-se o futebol em Portugal. Texto adaptado do publicado no Diário de Notícias de 23.04.2016
2017-04-23
LER MAIS

Artigo

Nos quase 30 anos que já levo de futebol, cansei-me de ouvir dizer que a Liga deveria castigar duramente quem pusesse em causa o prestígio da competição com declarações inflamatórias. Cheguei a engrossar o pelotão dos que defendiam essas sanções, importadas do então muito à frente futebol inglês. Hoje estou convencido de que o problema tem de ser atacado muito antes. O que a Liga tem de fazer não é no plano reativo. Tem, isso sim, que ser proativa. Tem de criar condições para que essas declarações não existam e sobretudo tem de fomentar a sua substituição no plano mediático por outras, que satisfaçam todos os players no mercado: a própria Liga, os clubes, os operadores e, sobretudo, o público, que é quem paga. Isso, em Portugal, é terreno absolutamente virgem. Vamos, então, falar de comunicação aplicada ao futebol. A questão das punições a quem abalar o prestígio do futebol, os clubes já a driblaram. Criaram braços armados que não são dirigentes nem funcionários mas apenas e só adeptos socialmente reconhecíveis, para estarem nos programas onde se discute “futebol”. E sim, as aspas não são engano – porque o que ali se discute não é futebol, mas sim agendas políticas. Tenta-se sempre passar a mensagem de que o presidente, o treinador ou os jogadores do clube que se defende são os mais impolutos e que esse mesmo clube é invariavelmente o mais prejudicado, mas de caminho passa-se também a mensagem de que o futebol está cheio de malandragem que anda a roubar e que por isso nem vale a pena perder-se tempo ou gastar-se dinheiro com o tema. Aquilo vê-se como os reality shows, para perceber que novos limites se cruzam desta vez, mas quem quer que seja que, não sendo espectador habitual de futebol, vá ali parar, não fica com vontade de comprar bilhetes para o próximo jogo, camisolas para dar aos filhos ou assinaturas de canais temáticos. Chegados a este ponto, há quem goste de culpar os operadores de televisão. Não o faço. Os operadores de televisão fazem o que os deixam fazer, na realidade em que estão inseridos – que é uma realidade de acesso-zero aos protagonistas. E dou um exemplo. A UEFA, que está muito à frente de toda a gente do futebol nesta matéria, criou há uns anos o conceito de mini-flash, a ser feita antes dos jogos da Liga dos Campeões pelo canal detentor dos direitos televisivos. Como estou no relvado antes dos jogos, habituei-me a ver passar por estas mini-flashes todas as grandes figuras dos bancos das maiores equipas europeias, mas nem assim os clubes portugueses mudaram de atitude. O Benfica manda invariavelmente Shéu Han, o secretário técnico; do FC Porto costuma aparecer Rui Barros, um dos treinadores-adjuntos; no Sporting já por lá vi Jaime Marta Soares, presidente da Assembleia Geral, ou Otávio Machado, diretor de futebol. Não é isto que promove o futebol, não foi por isto que os operadores pagaram e, acreditem, até pode ser isto que o público acha que quer, porque há muitos anos que não tem outra coisa. Pensemos nas conferências de imprensa, agora sempre televisionadas e por isso mesmo um meio absolutamente gratuito que a Liga tem de promover o futebol. O que se passa lá? Para quem começou a carreira nas conferências de imprensa de Sven-Goran Eriksson, Tomislav Ivic ou Bobby Robson, que duravam enquanto houvesse uma dúvida por esclarecer, uma explicação a dar, e não estavam freadas por subterfúgios impostos pelos limites políticos à comunicação, estes simulacros de conferência de imprensa a que se assiste agora são absolutamente risíveis. O que temos ali é, sempre, um desastre à espera de acontecer: um treinador sem vontade de falar, um diretor de comunicação interessado em que ele fale o mínimo possível – a não ser que haja agenda política a satisfazer – e jornalistas dos canais de TV interessados em soundbytes rápidos, porque tudo o que seja acima de um minuto já é demasiado em termos televisivos. É assim que o futebol vai ganhar quota de mercado? Claro que não. E se o leitor acha agora que este é um problema dos jornalistas, desengane-se. Não é. É um problema do futebol. Os jornais apanham por tabela, mas quem perde mais com este vazio mediático é mesmo o futebol, que desaproveita as oportunidades que lhe são dadas de bandeja, abrindo caminho (e as TVs dos clubes são, aqui, caso emblemático) a mais intervenções que para enaltecerem o próprio, destroem o meio em que ele se insere. Como jornalista, defendo e defenderei sempre o livre acesso aos protagonistas por parte dos meios de informação. No caso do futebol, porém, já ficaria feliz se a Liga aprendesse com a UEFA e percebesse que se quer acabar com aquilo de que não gosta nos programas sobre “futebol” – assim mesmo, com aspas – tem de tonar o caso em mãos e criar condições para que haja conteúdos sobre Futebol – assim mesmo, com maiúscula.
2017-03-26
LER MAIS

Artigo

A perda de uma vaga na Liga dos Campeões por parte dos clubes portugueses já fez mexer a Liga. Pedro Proença, presidente do organismo que tutela a competição em Portugal, deu o primeiro passo, ao admitir o problema, e disse não só que quer “encontrar soluções” como que quer ver a Liga portuguesa “no Top 5 das Ligas europeias”. E se o primeiro objetivo me parece relativamente fácil de assumir – assim haja vontade… – para encarar o segundo já temos um atraso tão significativo que dificilmente o poderemos encarar no curto ou médio prazo. Mas, cada coisa a seu tempo. Para já, era urgente que a Liga se centrasse em três áreas de atuação: o plano competitivo, o plano da comunicação e, resultado do sucesso nos dois primeiros, o plano do negócio. Não sou dos que acham que para a Liga ser competitiva seja necessário reduzir o número de clubes na divisão de topo. Se olharmos para as cinco principais Ligas da Europa, todas têm pelo menos 18 participantes. Têm mais jogadores, um universo maior? Verdade. Mas o número de clubes não é um fator decisivo na competitividade. Nenhuma dessas cinco Ligas tem a luta pelo título tão apertada como a portuguesa: a diferença entre Benfica e FC Porto era, à entrada para a jornada deste fim-de-semana, de um ponto, contra os dois que separam Real Madrid e Barcelona (e em Espanha o líder tem um jogo a menos) ou os três que dista o PSG do Mónaco. Em Inglaterra e na Alemanha as diferenças são de 10 pontos e em Itália são de 12. E se formos comparar com uma realidade de uma Liga com menos clubes, como a escocesa, o que vemos é o Aberdeen a 25 pontos do Celtic. Aliás, aos que depois argumentam que a diferença deve ser feita para os não candidatos ao título, a resposta também é simples: a diferença do primeiro ao sexto não é muito maior em Portugal (26 pontos) que na Alemanha (24) ou em França (25). Na Escócia, o dito paraíso do campeonato reduzido, é de 47 pontos em 28 jornadas. Abissal, portanto. Ter mais clubes na I Liga não significa diminuir a competitividade. Significa, pelo contrário, dar a mais clubes – a mais jogadores, a mais treinadores, a mais adeptos – a hipótese de competir ao mais alto nível e, portanto, de crescer competitivamente. A competitividade aumenta-se, isso sim, quando lhes dermos condições para competir verdadeiramente. E aqui a questão começa a ser política e já exige alguma coragem que até ver não se viu a nenhum dirigente máximo do futebol em Portugal. Para termos uma Liga verdadeiramente competitiva temos de ter uma Liga em que existam mais do que os três grandes. E Portugal, neste particular, está particularmente inquinado. Basta ver o regozijo que os adeptos de cada um dos clubes assumiu assim que o rival foi afastado da Europa. Ou reparar que assim que se começou a debater a perda de uma vaga na Champions, tudo o que a generalidade dos adeptos quis discutir foi que clube estava a dar mais ou menos pontos para o bolo geral. A questão é que isso é absolutamente indiferente: Portugal só terá uma Liga de topo quando houver mais do que três clubes a contribuir de facto para esse bolo. E isso só se consegue quando a Liga – antes seja de quem for – assumir que em Portugal há mais do que três clubes. Como? Na distribuição da receita, por exemplo. Mas não só aí. A questão da receita é flagrante. Primeiro, é importante deixar algumas perguntas. A Liga acha possível fazer subir o bolo global da receita gerada pela sua atividade? Como? Já fez alguma coisa para centralizar as negociações dos direitos televisivos dos jogos, podendo logo à partida aumentar o bolo e depois distribuí-lo de forma mais igualitária, assumindo como objetivo que passe a haver mercado interno em Portugal, com mais de três “players”? Já fez alguma coisa para assegurar, junto dos dois últimos governos, que uma das principais fontes de financiamento do futebol – o mercado de apostas – não seja excluída do mercado português? Já fez alguma coisa para garantir que o futebol em Portugal não são três estádios cheios, três meio-cheios e 12 às moscas? Já deu algum passo no sentido de promover o espetáculo do qual depende a sua sobrevivência, criando conteúdos mais abrangentes que possam ser atraentes para os operadores e para os telespetadores e que dessa forma substituam o insulto à inteligência de quem gosta de futebol que são os programas que gastam horas a discutir os centímetros de um fora-de-jogo ou a intensidade de um toque nas costas? Não, pois não? Pode começar por aqui. Mas amanhã voltarei ao tema.
2017-03-25
LER MAIS

Artigo

A matemática não engana e esta semana soube-se que muito provavelmente Portugal vai perder uma das três vagas que ocupa na Liga dos Campeões já em 2018/19. Podemos até dizer que é normal, consequência natural de termos as equipas mais fortes a jogar na I Divisão do futebol europeu, porque se sabe que elas pontuaram – e pontuariam – muito mais na Liga Europa, onde estão agora os russos e os belgas, que nos ameaçam. O sinal de preocupação não vem, portanto, da pura aritmética. E também não vem de onde devia vir: da eliminação do Sp. Braga na fase de grupos da Liga Europa, precisamente face a ucranianos e belgas; da incapacidade do Sporting se sobrepor ao modesto campeão polaco na corrida à permanência na Europa, esgotada a hipótese de continuidade na Champions; ou, por fim, da constatação de inferioridade evidente de Benfica e FC Porto face a Borussia Dortmund e Juventus (esta última ainda por confirmar no jogo da segunda mão, é verdade, mas com pouca esperança de êxito face ao resultado que se verificou no Dragão). Estes sinais do apocalipse deviam chegar para se pôr a mexer as ideias e se fazer algo, tanto no plano do contexto como no do negócio. Tem a palavra a Liga.Jorge Jesus ainda esta semana falou do assunto e voltou a dizer que Portugal produz dos melhores treinadores que o futebol europeu vai vendo. Há Fernando Santos campeão da Europa. Há Mourinho para o confirmar. Há Jardim para ajudar à festa. Já houve Villas-Boas, antes do exílio dourado na China. Mas então se temos bons treinadores, dos melhores que a Europa produz, se vamos renovando a produção de jogadores de alto nível, capazes de serem campeões da Europa e de se imporem nos melhores clubes do continente, por que raio estaremos condenados a ficar apenas pela classe média da Champions e a perder influência numa Liga Europa que já foi feudo nosso?Aqui chegados, toda a gente se foca na questão dos orçamentos. Mas a este propósito só tenho duas coisas a dizer. A primeira é que a questão dos orçamentos não tem de ser decisiva e só aparece sempre à tona do debate porque nos serve de bode expiatório perfeito. A cada vez que uma equipa portuguesa cai na Europa, aparece a justificação: o orçamento do adversário era superior e portanto está o assunto arrumado, não haveria nada a fazer. Perdão?! É para superar esta desvantagem que existem os tais excelentes treinadores e a tal renovação permanente de um quadro que tem dos melhores jogadores da Europa. E a segunda é que se a questão é a dos orçamentos, então o que tem de ser feito é mexer no futebol em termos de negócio, criar condições para que os orçamentos possam crescer e o jogo seja um oásis de prosperidade que não dependa apenas da criação de mais-valias nascidas na transferência dos melhores jogadores. Foi o que fizeram os ingleses há 25 anos, quando os resultados dos seus clubes definhavam e eles não só criaram a Premier League como lhe associaram uma estratégia de divulgação global do futebol que por lá se joga.Claro que há coisas a melhorar em ambos os planos. No que toca ao contexto, era bom que os adeptos portugueses se preocupassem mais em perceber o processo de jogo das suas equipas, as condições físicas, táticas e técnicas enfrentadas pelos jogadores e treinadores em cada situação e pusessem de lado a atual obsessão pelos cinco centímetros fora-de-jogo ou pelo intensómetro no toque do defesa no avançado. E termina nas pessoas mas começa nos clubes, que não entenderam ainda que só têm a ganhar em abrir onde hoje fecham, em utilizar o conhecimento dos seus treinadores em sessões públicas em vez de se fecharem sobre si mesmos, remetendo os néscios para a discussão das arbitragens. Já viram Vitória, Jesus ou Espírito Santo falar de forma aberta do processo de jogo das suas equipas? Claro que não, porque sempre que eles falam as conversas se limitam a aspetos banais, à busca do soundbyte televisivo, da polémica que queima mais depressa mas não cria valor.Já acerca dos orçamentos, há uma coisa que não podemos mudar, que é a dimensão do país. Mas podemos mudar a dimensão do mercado. Portugal tem durante quatro anos uma vantagem competitiva enorme no plano do marketing: é campeão da Europa. Já tem há uma década outra vantagem do mesmo calibre: produziu Cristiano Ronaldo, crónico candidato ao título de melhor jogador do Mundo. Se mesmo assim não conseguimos que o Mundo queira ver os nossos jogos, é porque, das duas uma: ou não estamos a fazer o que podemos para os mostrar ou não lhes associámos as vantagens competitivas que temos. Há 30 anos, quando se viu perante um quadro de falta de talentos, a FPF lançou um plano de formação revolucionário que alimentou o futebol nacional durante duas gerações. Mais recentemente, colocada face ao mesmo problema, integrou as equipas B na II Liga e criou condições para voltar a ter de forma repetida a melhor seleção de sub21 da Europa e, consequência disso, a seleção campeã da Europa. O plano do negócio pertence à Liga. E acho que já era altura de a Liga fazer qualquer coisa.
2017-03-12
LER MAIS

Artigo

Uma semana dedicado a outros projetos valeu-me agora o regresso a um futebol português posto de pernas para o ar. As razões são as habituais: as arbitragens e a interferência que têm nos resultados dos jogos. A este respeito, quem me segue já sabe o que penso. Há culpa de todos, dos que andam nos relvados aos que dirigem, passando pelos que reportam (estes umas vezes por inércia e outras por exagero no aproveitamento populista), mas o pior é mesmo não querermos olhar para as coisas como elas devem ser vistas. Os árbitros erram e acredito que o futuro do futebol tem de passar (e rapidamente) pela criação de condições para que comecem a errar menos, com a institucionalização de um árbitro de régie, que tenha acesso às imagens de todas as câmeras disponíveis ao realizador de televisão. Isto não é unânime nem sequer pacífico. E até se preza a leituras como as que vi esta semana feitas por gente inteligente e responsável, que mesmo assim não se coibiu de dizer que com o vídeo-árbitro as coisas não teriam sido diferentes. Talvez. Não sou capaz de dizer que sim nem que não. Mas tenho a certeza que a complexidade de que se faz a natureza humana pode ajudar-nos a explicar o que acontece tanto a montante como a jusante dos factos. Nunca explico jogos em função do acerto ou do erro das arbitragens. E se o não faço não é por achar que os árbitros acertam sempre, por ter medo de os afrontar ou por estar ao serviço de alguém que os comande como se fossem marionetas. Não o faço por acreditar que há sempre aspetos mais relevantes, que quem gosta de futebol pode debater para aumentar os seus conhecimentos e tornar o debate bem mais frutuoso. E não o faço por saber que o dia em que entrasse por aí seria o dia em que todos os outros caminhos iriam esbarrar numa parede, porque nesse caminho nunca é possível definir quem tem mais razão, tais são as suas subjetividade e (até às vezes) irracionalidade. A mesma natureza humana que nos ajuda a explicar o erro dos árbitros volta a entrar na equação no momento em que o discutimos. Duplamente. Primeiro porque o sacudir de água do capote (em direção a tudo e muitas vezes aos árbitros) em noites de frustração é um reflexo muito normal no homem. Depois, porque em qualquer organização as relações de poder e a forma de as condicionar a nosso favor são aspetos fundamentais para separar o sucesso do insucesso. Sei disso. Sempre o soube. Ora isto quer dizer o quê? Que os árbitros erram, sim. Que cabe aos líderes do futebol criar condições para que eles errem menos a cada dia que passa. Que apesar de isso não levar a lado nenhum, o choradinho de quem se sente prejudicado é tão natural e humano como o erro. Tão natural, igualmente, como a propensão – também ela humana – para querer dominar as organizações e passar a ser beneficiado nelas se tal for possível. Aliás, muitas vezes esse choradinho não mais é do que uma tentativa de condicionamento para virar a mesa. Perante isto, o que fazer? Depende do lugar em que nos coloquemos. Os árbitros têm de continuar a apitar, os jogadores a jogar, os treinadores a treinar, os dirigentes a dirigir, os adeptos a apoiar, os jornalistas a reportar e a investigar. O que é muito diferente de se concluir que se os árbitros erram é porque são corruptos ou parte de um sistema que é corrupto, mas também de inferir que se as provas não nos caem no colo é porque não há corrupção nenhuma  – aqui serão as provas a marcar a diferença, mas é preciso inquietação e ir à procura delas. Esta semana, tal como em várias ocasiões no passado, quando eram outros a queixar-se e outros também a manter-se em silêncio, não foram apenas os árbitros a exorbitar nos seus erros. Houve muitos jogadores e treinadores a ir longe demais nos protestos, mas também na acusação pública e na tentativa de expor os rivais ao ridículo. Houve responsáveis de clubes a exagerar na reação à infelicidade e adeptos a passar muito para lá das marcas nas ações e nas palavras. Os jornalistas estão entre a apatia face ao que muitos julgam ser passível de acusação (mesmo sem provas, que não se conseguem só porque se quer) e a denúncia populista, porque é o caminho mais fácil para somar likes e cliques. Este é um assunto delicado. Não é por medo ou por conivência, mas sim por respeito à presunção da inocência. E não se resolve a misturar análise a jogos com avaliação das arbitragens.
2017-01-08
LER MAIS

Último Passe

O país futebolístico anda entretido com a Taça da Liga e a ideia generalizada é a de que os espetáculos não têm sido condizentes com a quadra festiva que se vive. Acumulam-se os resultados mínimos, em jogos tardios, com o frio e a falta de interesse competitivo a levar a que se registem médias consideravelmente mais baixas de espectadores para todos os clubes. A Liga, que até tem feito muito pela credibilização desta prova, não fez ainda o suficiente. Nem sequer o que podia. E não falo sequer da atribuição de uma vaga na Liga Europa para aquele a que agora quem manda no futebol quer chamar campeão de Inverno.Quem é que não inveja o boxing day inglês, aquela jornada de dia 26 de Dezembro, à tarde, com estádios cheios de famílias e a competitividade ao máximo? Ou aquilo que se fazia na Escócia até há poucos anos, com o Old Firm (Celtic-Rangers) sempre marcado para o dia de Ano Novo? No fundo, o que os britânicos fazem há muito tempo é uma coisa muito simples: juntam a predisposição do público para assistir ao espetáculo com a realização de jogos apaixonantes. Aqui, se é verdade que já se acabou com essa ideia peregrina de interromper a competição por duas ou três semanas por alturas do Natal e do Ano Novo, que é quando as famílias têm mais dinheiro e tempo livre, depois enche-se o calendário desta época festiva com jogos muitas vezes vazios de sentido, porque são organizados com a intenção firme de ter os grandes no “final four” e fingir que se joga uma competição justa até lá chegarmos. João Eusébio, treinador do Varzim, lamentou após a derrota em Alvalade o facto de ter de jogar duas vezes fora e apenas uma em casa, mais uma desvantagem competitiva a juntar ao facto de liderar uma equipa de um escalão inferior, apenas para concluir de forma até muito compreensiva que “o futebol é cada vez mais um negócio”. A questão é que é um negócio que não sabe defender-se em boas condições.Percebo bem a ideia por trás do raciocínio de Eusébio: o negócio precisa de ter tantos grandes clubes quanto for possível no “final four” para tornar o evento atrativo para a TV ou para os compradores de bilhetes. Mas o negócio defender-se-ia muito melhor com mais competitividade. E se olharmos para o futebol como um todo, o negócio defender-se-ia melhor se a Taça da Liga, a terceira das provas nacionais em termos de relevância, aparecesse numa altura em que o público tem mais fome de bola. No início da época, por exemplo, em vez de atafulhar esta altura de Natal, na qual seria muito mais cativante dar aos potenciais interessados jornadas competitivas, sim, mas do campeonato nacional, onde cada clube mete sempre mais gente nos estádios. Se os treinos abertos de Natal são um sucesso, por que razão não se explora melhor esta época com jornadas diurnas, eventualmente até com os derbis regionais? É por isso que continuo a considerar a Taça da Liga como a melhor ideia desaproveitada dos últimos anos do futebol português. Já no ano de inauguração me parecia que a melhor altura para a jogar seria o início de época, a altura em que a fome de bola dos adeptos é tão grande que até um Sporting-Varzim, um FC Porto-Feirense ou um Benfica-Vizela são pratos apetecíveis. Depois, toda a prova se revela injusta, na forma como os grandes são poupados à primeira fase e fazem dois jogos em três nos seus estádios: uma competição justa começaria com a fase de grupos entre todos os participantes e, no final do Verão, com os grandes a jogar fora, nos campos das equipas de II Liga, fazendo uma espécie de “tournée” pelo país real. Até me parece evidente que, na maioria das vezes, os grandes acabariam na mesma por satisfazer quem se preocupa apenas com os nomes dos participantes na decisão final, sobretudo se jogassem as fases a eliminar numa altura da época em que ainda não estão fatigados pela dureza da época que já vai longa. E nesta altura estaríamos todos a deliciar-nos com uma jornada diurna cheia de derbis. Com os estádios cheios e com as famílias felizes a ver futebol em vez de andarem a vaguear pelos centros comerciais. Não tem de ser assim apenas no estrangeiro.
2017-01-01
LER MAIS

Último Passe

A questão do total de títulos nacionais de futebol tem sido vista à luz da rivalidade entre os maiores clubes ou da estratégia de comunicação de Bruno de Carvalho, que a trouxe para a agenda mediática com o intuito de comprar mais uma guerra que sirva de forma de afirmação ao Sporting, mas vale muito mais do que tudo isso. Porque em causa não estão só o total de títulos de campeão nacional dos leões e, por inerência, do Benfica e do FC Porto. Em causa estão também os títulos de clubes como o Olhanense, o Marítimo, o Belenenses ou o já extinto Carcavelinhos (um dos clubes que deu lugar ao Atlético), que merecem tanto respeito como os três grandes, suportados em milhões de adeptos. Em causa está se a decisão do campeão nacional é retrospetiva ou prospetiva, feita a olhar para trás ou para a frente. Porque uma coisa é certa: não pode haver anos com dois campeões. A FPF decidiu que contam como títulos de campeão nacional os três campeonatos da I Liga, realizados entre 1934/35 e 1937/38, por serem provas por jornadas, em modelo de todos contra todos, e terem sido jogados antes da instituição do campeonato nacional da I Divisão, em 1938/39. Decidiu ainda a FPF não contar como suscetíveis de atribuição do título de campeão nacional os 17 Campeonatos de Portugal, jogados entre 1921/22 e 1937/38, por os considerar antepassados da Taça de Portugal, também ela jogada por eliminatórias a partir de 1938/39. Dessa forma, aos títulos de vencedor do campeonato nacional de futebol – Benfica por 32 vezes, FC Porto por 26, Sporting por 18, Belenenses e Boavista com um cada – somam-se mais três do Benfica e um do FC Porto, fruto das vitórias que conquistaram no tal campeonato da I Liga. Pretenderia o presidente do Sporting que, em vez desses títulos da I Liga, fossem contabilizados os vencedores do Campeonato de Portugal: quatro troféus do FC Porto e do Sporting, que assim aumentariam o pecúlio para 29 e 22 títulos, respetivamente; três do Benfica, que subiria na mesma para 35, substituindo as três Ligas por igual número de campeonatos de Portugal; três do Belenenses, que passaria a considerar-se quatro vezes campeão nacional; mais um do Olhanense, um do Marítimo e um do Carcavelinhos, que engrossariam o lote de campeões. A tese da FPF é que o antepassado do atual campeonato nacional é o campeonato da Liga, também ele jogado por jornadas. Faz sentido. Mas também pode não fazer. Ora, façamos um pouco de história. O futebol português andou uns anos atrás do resto da Europa, a ponto de só em 1922 se ter extravasado o nível regional no que a competições respeitava. Nesse final de época de 1921/22 jogou-se pela primeira vez o Campeonato de Portugal, que em ano de estreia se resumiu a uma espécie de finalíssima entre os campeões de Lisboa (o Sporting) e do Porto (o FC Porto). Ganharam os nortenhos, que tal como todos os seus sucessores na prova adquiriram o direito a apresentar-se como “campeões de Portugal”. Veja-se o caso do Benfica de 1930, de que se mostra na imagem acima o cartaz relativo ao almoço de homenagem aos jogadores. O Campeonato de Portugal foi evoluindo. Na segunda edição, além de Sporting e FC Porto, outra vez campeões dos seus distritos, já participaram os campeões de Coimbra, da Madeira, do Minho e do Algarve. E a prova foi-se alargando a mais regiões, até passar, a dada altura, a permitir a entrada de mais do que um representante por cada distrito. Iam-se assim sucedendo os campeões de Portugal. E tudo continuou igual até que, em Março de 1934, a seleção nacional foi arrasada pela Espanha em Chamartin. Foram 9-0, a eliminação do Mundial e a abertura de um processo de reformulação dos quadros competitivos do futebol nacional. Uma das coisas que os espanhóis tinham e os portugueses não era competição nacional regular – o Campeonato de Portugal só se jogava de Maio a Julho – sob a forma de uma prova por jornadas, em que todos os clubes se defrontavam a duas voltas. Os portugueses resolveram imitar esse modelo e criaram, ainda que de modo experimental, o campeonato da Liga – cujo nome derivou do modelo inglês. A prova foi introduzida a título experimental, por se temer que o aumento da receita não chegasse para cobrir o aumento da despesa com deslocações mais longas e frequentes. Foi um sucesso. Ora é aqui que se introduz a rotura. Para a FPF, agora, os 13 campeões de Portugal até aí coroados deixaram de o ser. E os vencedores das quatro Ligas experimentais que antecederam a criação do campeonato nacional de futebol, em 1938/39, passaram a poder ostentar o título de campeão nacional. O primeiro campeonato da Liga, em 1934/35, foi ganho pelo FC Porto, mas nesse mesmo ano o Benfica venceu o Campeonato de Portugal, batendo o Sporting na final, por 2-1. Na página 143 do segundo volume da História do Sport Lisboa e Benfica (1904/1954), obra excecional editada aquando do cinquentenário do clube por Mário Fernando de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva e prefaciada por Ribeiro dos Reis, reproduz-se a ementa do jantar oficial de homenagem “Ao team de Foot-Ball Campeão de Portugal” do Sport Lisboa e Benfica. Teve lugar nas Portas do Sol, em Santarém, a 21 de Julho de 1935. Claro que se a prova se chamava Campeonato de Portugal, a equipa que a ganhava se considerava campeã de Portugal. Nem outra coisa faria sentido, apesar de já existir o campeonato da Liga, que nesse ano coroou o FC Porto. Só em 1938 o panorama competitivo voltou a mudar. Ao campeonato da Liga sucedeu o campeonato nacional de futebol; ao campeonato de Portugal seguiu-se a Taça de Portugal. As competições mantiveram os moldes de disputa, pelo que é natural que, vendo as coisas de trás para a frente, a FPF considere agora campeões nacionais os clubes vencedores da Liga e não os que ganharam o Campeonato de Portugal. Porque a questão é que, durante quatro anos, houve clubes cuja legitimidade para se considerarem campeões nacionais se funda no futuro (e na evolução que a competição veio a ter) e outros cuja legitimidade se funda no passado (e no facto de até 1934 o campeonato de Portugal ter sido a única prova nacional). Como não podia haver dois campeões nacionais no mesmo ano, era preciso tomar uma decisão. A FPF decidiu assim e a decisão tomou letra de lei. O mais justo, porém, seria separar as quatro provas e os respetivos palmarés. Porque a alternativa é dizer aos jogadores e aos clubes que ganharam o campeonato de Portugal entre 1922 e 1938 que afinal não foram campeões de Portugal. E isso vai muito para lá das provocações de Bruno de Carvalho ou das respostas dos adeptos benfiquistas.
2016-12-23
LER MAIS

Último Passe

Três assuntos têm animado os adeptos de futebol em Portugal. O caso Sporting-Doyen, a troca de José Peseiro por Jorge Simão no Sp. Braga e a polémica em torno da contagem dos títulos nacionais. Com algum atraso num ou noutro caso, eis o que penso de cada um. 1. O Sporting vai ter de pagar à Doyen no caso relativo à transferência de Rojo para o Manchester United. Sempre foi claro para mim que assim seria, porque havia um contrato em vigor e ele tinha sido assinado pela direção legítima do clube. Não sei se Bruno de Carvalho entrou nesta guerra para adiar o pagamento, para o evitar de todo ou apenas para fazer barulho à volta do tema polémico que é o da participação de fundos de investimento nos passes dos jogadores. Se foi a primeira razão, limitou-se a ser chico-esperto. Se foi a segunda, estava a ser ingénuo. Se foi a terceira, fez bem. Porque os negócios com os fundos de investimento sem rosto são, na maior parte dos casos, lesivos dos interesses dos clubes e abrem a porta ao dinheiro sujo que quem gosta de futebol deve querer ver longe da modalidade. 2. Nutro por José Peseiro a estima de muitos anos de conhecimento, porque crescemos a 150 metros um do outro. Tenho, além disso, o reconhecimento pela qualidade do trabalho que ele fez em muitos clubes, mas acho que fez mal em voltar a Braga. Depois de ele próprio ter perdido a final da Taça de Portugal para o Sp. Braga de Paulo Fonseca, entrar naquele balneário só podia ser feito com a certeza de que tinha condições para fazer melhor. E a verdade é que não tinha. Peseiro não foi demitido por ter perdido com o Sp. Covilhã. Foi demitido porque antes de cair na Taça de Portugal já tinha perdido a passagem à fase seguinte da Liga Europa e porque, antes ainda, a sua equipa mostrara um futebol demasiado pobre no Dragão contra o FC Porto – e o futebol de qualidade até foi sempre uma das imagens de marca deste treinador. Para o lugar dele entra Jorge Simão, um treinador jovem e ambicioso, que tem muito mais condições para ser bem sucedido. Quais? Tem atrás dele um trabalho de enorme qualidade no Chaves e entra num clube onde as expectativas já estão outra vez a um nível muito baixo. O resto é capacidade de trabalho, que tanto um como o outro têm inegavelmente. 3. A FPF manifestou-se finalmente acerca da polémica relativa aos títulos de campeão nacional, decretando que aos torneios da I Liga, disputados por jornadas entre 1934/35 e 1937/38, correspondem títulos de campeão nacional, e que aos Campeonatos de Portugal, jogados por eliminatórias entre 1921/22 e 1937/38, correspondem troféus equiparados à Taça de Portugal. A polémica vem da mais recente cruzada de Bruno de Carvalho, que nem sequer é uma ideia nova: recordo-me de, durante anos, o Record se ter recusado a alinhar com A Bola nessa equiparação, valendo-se da tese de Henrique Parreirão, segundo a qual só havia campeão nacional a partir de 1938/39, havendo antes, sim, o campeão da Liga e o campeão de Portugal, que eram coisas diferentes. E se na altura achei que a tese defendida pelo Record servia sobretudo de afirmação ante o gigante que era A Bola – era preciso contrariar o establishment para poder vir a superá-lo, algo que o Record depois até chegou a conseguir – também agora vejo na preocupação de Bruno de Carvalho uma forma de agitar as hostes e de ser contra-poder. As taças, porém, valem o que valem e estão nos museus dos clubes, de nada valendo agora tentar reescrever a história, seja num ou noutro sentido. O FC Porto, por exemplo, foi duas vezes campeão e europeu? Ou ganhou uma Taça dos Campeões e uma Liga dos Campeões? É que as provas têm nomes e formatos diferentes. E foi campeão mundial de clubes? Ou tem duas Taças Toyota? É claro que o documento da FPF aqui faz lei, mas na minha opinião as contas são outras: o Benfica tem 32 títulos de campeão nacional (e não os 35 que reclama com a soma das três I Ligas que ganhou), o FC Porto tem 26 (e não 27) e o Sporting tem 18 (e não os 22 que exige ver reconhecidos com a adição do Campeonato de Portugal).
2016-12-16
LER MAIS

Último Passe

O empate que a seleção nacional feminina cedeu frente à Roménia, no Estádio do Restelo, no primeiro jogo do play-off de apuramento do Europeu, foi uma desilusão e deixa a equipa em maus lençóis no que respeita a uma qualificação inédita, pois terá de enfrentar a segunda mão em casa do adversári. A exibição, mesmo tendo a equipa nacional sido melhor que a romena e tendo mesmo falhado um penalti, também não foi brilhante. A adesão do público, tendo em conta que as entradas eram gratuitas, também ficou aquém do esperado, mesmo com as atenuantes da chuva e do horário (ainda) laboral. No entanto, o dia pode bem ter sido um marco importante para o futebol feminino nacional.Quando me sentei para ver o jogo da seleção, fi-lo devido a uma série de motivações. A caminhada que a equipa fez no grupo, com a épica superação da Finlândia e da Irlanda em cima do risco fina, após o arranque tremido, terá sido a maior. A mais importante, no entanto, terá sido o investimento pesado que a FPF fez na promoção desta equipa e tem feito no futebol feminino em geral, cuja face mais visível foi o vídeo de apoio feito por vários campeões europeus. Porque mesmo que a seleção não se qualifique para esta fase final, é esse investimento, associado aos últimos resultados nas categorias inferiores, que me leva a acreditar que estará na próxima.O jogo em si, na verdade, até me desiludiu. Vi uma equipa melhor que a adversária, mas bem abaixo do que se vê nas grandes provas de futebol feminino que vão sendo transmitidas no que respeita aos princípios de jogo ou à articulação coletiva. Este não terá sido um dos melhores jogos desta seleção. Mas há outra oportunidade para brilhar já na terça-feira. E o importante é que se sente de cima a firmeza de não deixar que as coisas voltem a ser como antes e que o futebol feminino veio para ficar.
2016-10-21
LER MAIS

Último Passe

Três opiniões sobre o Jogo Duplo   A operação Jogo Duplo não foi uma surpresa para mim. Não sabia que ia acontecer, como é evidente, mas suspeitava de que algumas coisas daquele género se passam em Ligas menos visíveis, como a II Liga portuguesa ou até as Ligas principais de alguns países mais recônditos. Tem tudo a ver com a necessidade de compreender o sistema  e a própria realidade, em vez de lhe fechar os olhos, como têm feito as autoridades. A esse respeito, tenho por isso três coisas a dizer. Perante a detenção de agentes e jogadores acusados de fabricar resultados, a primeira tentação será a de se dizer: “isso das apostas é um mundo podre com o qual temos de acabar”. Errado! É uma falácia achar que o problema está no jogo. O problema está no jogo desregulado. Será mil vezes mais fácil detetar irregularidades e movimentações suspeitas de dinheiro com a regulamentação e a monitorização do jogo online do que limitando o jogo a terminais físicos, como sucede neste momento em Portugal. Ao manter estas limitações, o Estado português não está a acabar com o jogo online nem com as possibilidades de corrupção: está a encaminhar os grandes jogadores para fora do país – dessa forma deixando de recolher impostos sobre os volumes apostados – através de VPN e de contas bancárias no estrangeiro. Porque com ou sem jogo online em Portugal, ele continuará a existir no estrangeiro e a abarcar jogos de equipas portuguesas. Quem me conhece melhor sabe que enquanto isso foi autorizado fiz trading em casas de apostas desportivas, como a Betfair. Nessa altura cheguei a fazer parte de um grupo de “amigos” de vários países que se entretinha a “seguir o dinheiro”. E nem imaginam como é fácil descobrir movimentações suspeitas. Como? É simples. O trading funciona com base em apostas a favor (back) e contra (lay). O jogador não joga contra a casa, mas sim contra outro jogador, que aposta contra uma posição inicial colocada a favor de um determinado evento. Através de software relativamente fácil de utilizar, como o Geek’s Toy, por exemplo, é possível ver os montantes que estão à espera de ser correspondidos, isto é, as apostas colocadas mas ainda sem ninguém do outro lado. Estes grupos de apostadores têm Ligas e equipas sinalizadas como suspeitas, tanto na Betfair como sobretudo nos mercados asiáticos. É impressionante como por vezes aconteciam entradas de volumes anormais de dinheiro num determinado acontecimento e, assim que essas verbas eram correspondidas, esse evento verificava-se. Não é um meio fácil de ganhar dinheiro, porque muitas destas apostas eram simples bluffs: haverá certamente quem faça isto para lavar dinheiro, para o mover de uns países para outros, apostando a favor de um lado e contra do outro. Mas até por isso a regulação é importante, porque permitirá às polícias saber aquilo que os grupos de curiosos não saberão – de onde vem o dinheiro e para onde ele vai. Acredito que a generalidade dos jogadores de futebol não é subornável. Mas também acredito que entre os futebolistas – como entre os jornalistas, os médicos, os arquitetos, os políticos etc. – há gente capaz de aceitar dinheiro para facilitar um acontecimento. No caso dos futebolistas o problema é suscetível de ser agravado quando as suas equipas já não têm objetivos desportivos pelos quais lutar. O que fazer para o evitar? Se não é possível acabar com as apostas no Mundo, há duas coisas a fazer. Regulá-las, primeiro. E tornar o sistema do futebol o mais invulnerável possível a este tipo de tentações. Isto para dizer que ter jogadores profissionais de futebol a ganhar menos do que o ordenado mínimo – quando o recebem, porque parte deles só recebem o primeiro mês – é vulnerabilizar o sistema. Ora se o futebol move milhões – e tanto move, que as apostas se fazem – como é possível que os clubes da II Liga portuguesa, do segundo escalão profissional nacional, de uma elite, não sejam sequer capazes de manter em dia salários de miséria? O que há a fazer é tudo o possível para trazer os milhões que o futebol move para dentro do sistema, apostando depois numa repartição mais equilibrada da receita. É regulamentar o jogo, acabar com os monopólios existentes e permitir que as casas de apostas devolvam parte do dinheiro que ganham aos agentes desportivos sob a forma de patrocínios, por exemplo, e depois ser rigoroso na inspeção das irregularidades, tanto dos jogadores que se vendem como dos clubes que não lhes pagam. É por isso que digo que os menos culpados, aqui, são os jogadores. Eles são as vítimas que se deixaram apanhar num enredo que está viciado desde o início.
2016-05-19
LER MAIS

Último Passe

É impossível que o futebol português passe completamente ao lado das acusações feitas por Carlos Cruz no que respeita à alegada compra de votos por parte da candidatura portuguesa à organização do Euro’2004. E no entanto é isso que está a acontecer. Um dia depois de essas acusações terem sido tornadas públicas, na pré-publicação da autobiografia do ex-apresentador de televisão, pelo jornal “A Bola”, não há notícias de seguimento nem há reações oficiais, da Federação, dos clubes, da UEFA, da polícia... Nada. E isso incomoda-me. Carlos Cruz pode ter caído em desgraça quando foi condenado por alegados abusos sexuais a menores, no processo Casa Pia, mas não deixou de ser um dos principais responsáveis pelo sucesso da candidatura portuguesa, um dos principais executivos na empreitada que trouxe o Campeonato da Europa para os estádios nacionais. Lembro-me de entrevistar Cruz, naquele tempo, e de ele mandar vir uns pregos para comer durante a conversa, porque o desdobramento em reuniões atrás de reuniões não lhe deixava sequer tempo para almoçar. Portanto, se há coisa de que Cruz não pode ser acusado é de não ter estado por dentro das coisas, de não saber do que fala. E, bem ou mal intencionado, ele acusa claramente Gilberto Madaíl e José Sócrates de terem comprado votos a presidentes de federações estrangeiras, com envelopes recheados com dinheiro. Se o que Cruz escreveu foi verdade, isso cabe à polícia investigar. Tendo em conta o que se sabe hoje acerca da forma como se ganham e perdem organizações deste calibre, não me custa admitir que a história possa ter um fundo de verdade. Mas para já, o que queria mesmo era ter a certeza do normal funcionamento das instituições e de ser informado para além do que fez Jonas nos treinos da seleção do Brasil, do que disse Gaitán acerca do futuro do Benfica, se Peseiro sente o FC Porto e se os jornais turcos dizem que o Sporting está interessado em Raul Meireles. São tempos estranhos, estes que vivemos.
2016-03-23
LER MAIS

Artigo

Que a SuperLiga vem aí, já toda a gente com olhos na cara percebeu há uns 25 anos. Tem a ver com a compreensão daquilo que é o futebol, mas também com a noção daquilo que é o Mundo, que se reflete sempre no futebol. As instâncias que governam o futebol têm vindo a dar pequenos passos numa direção que por vezes nem é a que mais lhes convém, porque perceberam que essa é a única forma de impedir as forças motrizes do negócio de dar o grande salto em frente. Mas chegará o momento em que as ligeiras travagens não são suficientes. E ele já não está muito longe, pelo que o que há a fazer não é tentar impedi-lo. É prepararmo-nos para ele. De preferência com a UEFA à cabeça – mas para isso, as federações que mais podem perder com isto têm de se mexer. E a portuguesa é uma delas. Quem me acordou para esta realidade foi Alex Fynn, em inícios da década de 90. Na altura um executivo de topo da Saatchi & Saatchi, o homem que primeiro defendeu a criação desta SuperLiga europeia explicou-me, a mim e a quem fez o favor de me ler, nas páginas do “Expresso”, as razões pelas quais a prova já estava ali ao virar da esquina. Se a melhoria dos transportes ferroviários e da rede de autoestradas nos permitiu passar dos campeonatos regionais aos nacionais e, depois, a evolução dos transportes aéreos permitiu a criação das competições europeias, a sua vulgarização levaria a que fosse possível jogar-se uma verdadeira Liga europeia. E Fynn falava muitos anos antes do fenómeno “low cost” na aviação e das implicações que ele trouxe para a mobilidade das pessoas em geral. Fynn não falava sem interesse – tinha feito um estudo encomendado por Silvio Berlusconi, na altura ainda apenas dono do Milan e de uma rede de media. Berlusconi tinha um clube e os meios de o rentabilizar e queria ver avanço no negócio. Porque para o Milan era mais atrativo jogar com o Manchester United do que com o Bari. Tal como agora para o Bayern é mais interessante defrontar o Barcelonado que o Hoffenheim. E é mais rentável. Sobretudo, é mais rentável. Por isso, se algo me surpreende, agora que recupero as notas dessa conversa com mais de 20 anos, é que a SuperLiga ainda não tenha arrancado. Não arrancou porque a UEFA tem andado sempre um passo à frente. Em 1992, para impedir o avanço da SuperLiga, criou a Liga dos Campeões, assegurando mais jogos a cada clube. Em 1998, quando se falou outra vez de secessão, aumentou para dois o número de vagas para cada um dos principais países. Em 2010, face a mais conversas, o total de vagas cresceu para quatro nos três primeiros países do ranking. Agora, que os cinco maiores clubes ingleses abriram conversações para jogarem partidas da Champions nos EUA ou no Oriente, não se vê o que mais pode a UEFA oferecer-lhes a não ser criar ela própria uma nova competição. E mesmo assim não é garantido que os clubes decidam ficar, pois o organismo que tutela o futebol europeu já não é um garante de legitimidade que era há 20 ou 30 anos, quando ainda não se falava de corrupção como se fala agora. Aqui chegados, a SuperLiga não é uma má ideia. Pelo contrário. É uma excelente ideia. O que nos trouxe a globalização, com a vulgarização das transmissões de futebol de todo o Mundo para todo o Mundo, é que as novas gerações de portugueses já sabem melhor como joga o Barcelona, o Real Madrid ou até o Leicester do que o Tondela, o Arouca ou o V. Setúbal. Podemos gostar ou não gostar – e a mim não me incomoda por aí além – mas não podemos mudar o Mundo de uma penada. E se o que as pessoas querem é grande futebol, pois que se lhes dê grande futebol. De preferência com a UEFA a mandar, porque essa, ainda assim, é a única forma de desviar alguma da receita para o desenvolvimento do futebol jovem e das federações menos ricas, de evitar, não que os ricos fiquem mais ricos, mas que os pobres fiquem mais pobres. Salvaguardados esses princípios de justiça relativa, é preciso depois pensar que SuperLiga se cria. Porque uma coisa é aquilo que é justo e outra é aquilo que é melhor para o negócio. O que é justo é pegar-se nas 20 melhores equipas da Europa (por exemplo os 16 apurados na fase de grupos de uma próxima Champions e os quatro semi-finalistas da Liga Europa do mesmo ano), criar para elas um escalão supra-nacional, acima dos campeonatos de cada país e das atuais provas europeias, com quatro despromoções e quatro subidas, a serem entregues aos finalistas das duas competições continentais de cada ano. Jogar-se-ia em 38 jornadas, ao fim-de-semana e, para não se esvaziar totalmente os campeonatos nacionais, os clubes da SuperLiga até poderiam participar neles com equipas B. O que é melhor para o negócio é fazer uma Liga fechada, tipo NBA, sem subidas nem descidas, com cinco equipas de Inglaterra, quatro da Alemanha, quatro de Espanha, quatro de Itália e dar as três vagas restantes ao Paris St. Germain, ao Mónaco e ao Zenit. Eventualmente, o Celtic, o Ajax, o Galatasaray, o Benfica ou o Shakthar Donetsk podiam tentar entrar, ainda que sem grandes hipóteses de sucesso. Portugal quer isto? Creio que não. Então mexam-se! In Diário de Notícias, 14.03.2016
2016-03-14
LER MAIS

Último Passe

A instauração de um processo disciplinar a Slimani pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, na sequência da queixa do Benfica, que acusa o argelino de ter dado uma cotovelada em Samaris, é absolutamente normal. Primeiro porque, ao contrário do que pode parecer pela reação inflamada do Sporting, Slimani não foi castigado. Pode vir a sê-lo, como pode acabar ilibado. Depois porque há uma grande diferença entre o choque de Slimani com Samaris e os lances apresentados pelo Sporting como represália. É uma coisa redonda, que se chama bola, que não está num e aparece nos outros. Aqui chegado, não tenho nada a certeza de que Slimani tenha de ser castigado. Aliás, o argumento apresentado hoje por Octávio Machado parece-me plausível ou pelo menos defensável: o argelino estaria a tentar chegar à bola e para isso tentou tirar da frente o adversário que lhe bloqueava o caminho. Terá sido isso? Ninguém pode garanti-lo. Nem isso nem o seu contrário. Mas a defesa ensaiada por Octávio Machado serve na perfeição para arrumar a um canto as queixas leoninas acerca de lances em que vários jogadores do Benfica são vistos a atingir adversários, nesse mesmo jogo. É que todos esses lances são duros, estão mesmo um pouco para lá dos limites da dureza aceitável, mas em todos a bola está bem presente e a ser disputada pelos intervenientes. Não percebo, por isso, tão inflamadas queixas leoninas acerca da existência de dois pesos e duas medidas, pelo menos no que toda aos lances de futebol. Diferente é se falarmos das motivações por trás de cada queixa. E aí tão mal fica o Sporting, por ter ido a correr compilar imagens de jogo que lhe servissem de represália à queixa benfiquista, como o Benfica, por se ter queixado de Slimani só para se vingar as denúncias acerca dos vouchers, feitas por Bruno de Carvalho. É que se queremos falar de um arquivamento incompreensível, é neste que devemos centrar atenções.
2016-01-27
LER MAIS

Último Passe

Há uma grande diferença entre dar uma esmola e promover a distribuição de riqueza. Uma esmola dá-se por caridade. É um gesto muito nobre mas nunca resolve o problema e deixa sempre o necessitado a precisar de nova esmola, pouco tempo depois. A distribuição da riqueza é que pode tornar a esmola desnecessária. E o futebol português está tão cheio de gente interessada em dar e receber esmolas como escasso de quem gere e esteja depois interessado em distribuir riqueza. A Taça de Portugal, que coloca grandes e pequenos no mesmo pote, pode ser um instrumento muito interessante na distribuição de riqueza. Mas não é só isso. É suposto ser uma festa, também. Quando foi decidido que, a partir desta época, os pequenos jogariam em casa sempre que o sorteio lhes ditasse defrontar um grande, a ideia não era gerar riqueza de forma imediata: era publicitar o futebol, levar as grandes equipas a estádios onde nunca vão, fazê-las jogar para públicos que nunca as veem ao vivo. Era, em suma, criar engajamento, ganhar esse público para o futebol de bancada, em vez de o ter no futebol de sofá e, aí sim, gerar e distribuir riqueza, nem que seja num plano secundário. Os clubes, no entanto, não conseguiram ver tão longe. O Vianense deslocou a receção ao Benfica para Barcelos, onde o Gil Vicente teve nos últimos anos muito futebol de primeira, ao passo que o Vilafranquense vai “receber” o Sporting no Estoril, num relvado que até à Liga Europa já está habituado. Só o Varzim manteve o jogo com o FC Porto no seu recinto. Calculo que a pressão de pagar salários, de encontrar verba para cumprir orçamentos, seja muito forte e leve os clubes a tomar decisões com base no imediato, mas se a ideia era ter mais receita já, o melhor teria sido decidir ao contrário: sempre que um grande defrontasse um pequeno, o jogo disputar-se-ia no estádio com mais lotação. Dava-se uma esmola em vez de se gerar e distribuir riqueza. Ao mudarem os jogos para campos neutros só porque levam mais gente nas bancadas, os clubes modestos estão a alienar o futuro em nome do presente, estão a preferir os tostões de hoje aos milhares de amanhã, estão a decidir pela caixa das esmolas que o sorteio lhes deixou escancarada – podiam ter calhado uns contra os outros e nem fazer receita nenhuma - em detrimento da sustentabilidade futura do futebol como um todo. Os clubes pequenos podem até argumentar que não é a eles que lhes cabe pensar nisso, pois se eles até jogam no Campeonato Nacional de Seniores… Por isso é de uma assinalável coerência virem depois, como veio o presidente do Vilafranquense, estranhar que o Sporting não abdique da sua parte da receita: a caixa das esmolas devia ser toda para o pobre e dela não devia beneficiar o remediado. Numa forma pequenina de pensar, faz sentido. Mas pensar grande era outra coisa. Era fazer da Taça da Portugal a festa do país futebolístico, era ganhar gente para os domingos seguintes, era fazer com que dentro em breve não se precisasse tanto da caixa das esmolas porque a riqueza estava a crescer. Infelizmente ainda não estamos prontos para isso.
2015-10-16
LER MAIS

Último Passe

A próxima jornada da Liga vai ter um foco de polémica no facto de os três grandes jogarem no dia das eleições legislativas. Toda a gente condenou a Liga por não ter deixado esse fim-de-semana vago no calendário e, depois ainda, por ter permitido que o Benfica, o FC Porto e o Sporting jogassem precisamente no domingo do ato eleitoral, em vez de anteciparem ou adiarem os seus jogos. Nada de mais disparatado, é o que me parece. E não é só por todos estarem envolvidos em jogos europeus a meio desta semana. O que me espanta é que gente com responsabilidades governativas entre nesse tipo de argumentos, que facilmente se prova serem totalmente irresponsáveis. Como se o futebol de alto nível não fosse uma indústria tão precisada de gerar rendimento como outra qualquer, para poder cumprir as suas obrigações com funcionários ou credores. E como se o simples facto de querer ver futebol ao fim da tarde fosse impedir-me de cumprir o meu dever cívico e votar antes disso. Além do mais, não dei por qualquer indignação ante o facto de no dia das eleições também estarem abertos os centros comerciais, os cinemas, os teatros, ou até o Jardim Zoológico e o Oceanário. Sei que a moda é usar o futebol como sinónimo de alienação, de corrupção intelectual das classes baixas, mas alguém tem ainda de me convencer como é que um jogo dos grandes é mais alienante do que os intermináveis espetáculos de música popular de gosto duvidoso com que os canais de TV nos brindam todos os domingos da hora de almoço até à hora de jantar. E, mais, por que é que ninguém se insurgiu contra a sua realização e emissão em dia de eleições. Aliás, se me surpreendeu a reação da classe política quando rebentou de indignação ao saber que havia jogos de futebol na data das eleições, não me surpreendeu menos a reação dos dirigentes dos clubes, da Liga ou até da Federação. Os primeiros fizeram-no na tentativa de ganhar alguns voos no lóbi anti-futebol. Para o silêncio dos segundos tenho mais dificuldade em encontrar explicações. Foi como se já estivessem em período de reflexão.
2015-09-28
LER MAIS