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Artigo

Uma semana dedicado a outros projetos valeu-me agora o regresso a um futebol português posto de pernas para o ar. As razões são as habituais: as arbitragens e a interferência que têm nos resultados dos jogos. A este respeito, quem me segue já sabe o que penso. Há culpa de todos, dos que andam nos relvados aos que dirigem, passando pelos que reportam (estes umas vezes por inércia e outras por exagero no aproveitamento populista), mas o pior é mesmo não querermos olhar para as coisas como elas devem ser vistas. Os árbitros erram e acredito que o futuro do futebol tem de passar (e rapidamente) pela criação de condições para que comecem a errar menos, com a institucionalização de um árbitro de régie, que tenha acesso às imagens de todas as câmeras disponíveis ao realizador de televisão. Isto não é unânime nem sequer pacífico. E até se preza a leituras como as que vi esta semana feitas por gente inteligente e responsável, que mesmo assim não se coibiu de dizer que com o vídeo-árbitro as coisas não teriam sido diferentes. Talvez. Não sou capaz de dizer que sim nem que não. Mas tenho a certeza que a complexidade de que se faz a natureza humana pode ajudar-nos a explicar o que acontece tanto a montante como a jusante dos factos. Nunca explico jogos em função do acerto ou do erro das arbitragens. E se o não faço não é por achar que os árbitros acertam sempre, por ter medo de os afrontar ou por estar ao serviço de alguém que os comande como se fossem marionetas. Não o faço por acreditar que há sempre aspetos mais relevantes, que quem gosta de futebol pode debater para aumentar os seus conhecimentos e tornar o debate bem mais frutuoso. E não o faço por saber que o dia em que entrasse por aí seria o dia em que todos os outros caminhos iriam esbarrar numa parede, porque nesse caminho nunca é possível definir quem tem mais razão, tais são as suas subjetividade e (até às vezes) irracionalidade. A mesma natureza humana que nos ajuda a explicar o erro dos árbitros volta a entrar na equação no momento em que o discutimos. Duplamente. Primeiro porque o sacudir de água do capote (em direção a tudo e muitas vezes aos árbitros) em noites de frustração é um reflexo muito normal no homem. Depois, porque em qualquer organização as relações de poder e a forma de as condicionar a nosso favor são aspetos fundamentais para separar o sucesso do insucesso. Sei disso. Sempre o soube. Ora isto quer dizer o quê? Que os árbitros erram, sim. Que cabe aos líderes do futebol criar condições para que eles errem menos a cada dia que passa. Que apesar de isso não levar a lado nenhum, o choradinho de quem se sente prejudicado é tão natural e humano como o erro. Tão natural, igualmente, como a propensão – também ela humana – para querer dominar as organizações e passar a ser beneficiado nelas se tal for possível. Aliás, muitas vezes esse choradinho não mais é do que uma tentativa de condicionamento para virar a mesa. Perante isto, o que fazer? Depende do lugar em que nos coloquemos. Os árbitros têm de continuar a apitar, os jogadores a jogar, os treinadores a treinar, os dirigentes a dirigir, os adeptos a apoiar, os jornalistas a reportar e a investigar. O que é muito diferente de se concluir que se os árbitros erram é porque são corruptos ou parte de um sistema que é corrupto, mas também de inferir que se as provas não nos caem no colo é porque não há corrupção nenhuma  – aqui serão as provas a marcar a diferença, mas é preciso inquietação e ir à procura delas. Esta semana, tal como em várias ocasiões no passado, quando eram outros a queixar-se e outros também a manter-se em silêncio, não foram apenas os árbitros a exorbitar nos seus erros. Houve muitos jogadores e treinadores a ir longe demais nos protestos, mas também na acusação pública e na tentativa de expor os rivais ao ridículo. Houve responsáveis de clubes a exagerar na reação à infelicidade e adeptos a passar muito para lá das marcas nas ações e nas palavras. Os jornalistas estão entre a apatia face ao que muitos julgam ser passível de acusação (mesmo sem provas, que não se conseguem só porque se quer) e a denúncia populista, porque é o caminho mais fácil para somar likes e cliques. Este é um assunto delicado. Não é por medo ou por conivência, mas sim por respeito à presunção da inocência. E não se resolve a misturar análise a jogos com avaliação das arbitragens.
2017-01-08
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O país futebolístico anda entretido com a Taça da Liga e a ideia generalizada é a de que os espetáculos não têm sido condizentes com a quadra festiva que se vive. Acumulam-se os resultados mínimos, em jogos tardios, com o frio e a falta de interesse competitivo a levar a que se registem médias consideravelmente mais baixas de espectadores para todos os clubes. A Liga, que até tem feito muito pela credibilização desta prova, não fez ainda o suficiente. Nem sequer o que podia. E não falo sequer da atribuição de uma vaga na Liga Europa para aquele a que agora quem manda no futebol quer chamar campeão de Inverno.Quem é que não inveja o boxing day inglês, aquela jornada de dia 26 de Dezembro, à tarde, com estádios cheios de famílias e a competitividade ao máximo? Ou aquilo que se fazia na Escócia até há poucos anos, com o Old Firm (Celtic-Rangers) sempre marcado para o dia de Ano Novo? No fundo, o que os britânicos fazem há muito tempo é uma coisa muito simples: juntam a predisposição do público para assistir ao espetáculo com a realização de jogos apaixonantes. Aqui, se é verdade que já se acabou com essa ideia peregrina de interromper a competição por duas ou três semanas por alturas do Natal e do Ano Novo, que é quando as famílias têm mais dinheiro e tempo livre, depois enche-se o calendário desta época festiva com jogos muitas vezes vazios de sentido, porque são organizados com a intenção firme de ter os grandes no “final four” e fingir que se joga uma competição justa até lá chegarmos. João Eusébio, treinador do Varzim, lamentou após a derrota em Alvalade o facto de ter de jogar duas vezes fora e apenas uma em casa, mais uma desvantagem competitiva a juntar ao facto de liderar uma equipa de um escalão inferior, apenas para concluir de forma até muito compreensiva que “o futebol é cada vez mais um negócio”. A questão é que é um negócio que não sabe defender-se em boas condições.Percebo bem a ideia por trás do raciocínio de Eusébio: o negócio precisa de ter tantos grandes clubes quanto for possível no “final four” para tornar o evento atrativo para a TV ou para os compradores de bilhetes. Mas o negócio defender-se-ia muito melhor com mais competitividade. E se olharmos para o futebol como um todo, o negócio defender-se-ia melhor se a Taça da Liga, a terceira das provas nacionais em termos de relevância, aparecesse numa altura em que o público tem mais fome de bola. No início da época, por exemplo, em vez de atafulhar esta altura de Natal, na qual seria muito mais cativante dar aos potenciais interessados jornadas competitivas, sim, mas do campeonato nacional, onde cada clube mete sempre mais gente nos estádios. Se os treinos abertos de Natal são um sucesso, por que razão não se explora melhor esta época com jornadas diurnas, eventualmente até com os derbis regionais? É por isso que continuo a considerar a Taça da Liga como a melhor ideia desaproveitada dos últimos anos do futebol português. Já no ano de inauguração me parecia que a melhor altura para a jogar seria o início de época, a altura em que a fome de bola dos adeptos é tão grande que até um Sporting-Varzim, um FC Porto-Feirense ou um Benfica-Vizela são pratos apetecíveis. Depois, toda a prova se revela injusta, na forma como os grandes são poupados à primeira fase e fazem dois jogos em três nos seus estádios: uma competição justa começaria com a fase de grupos entre todos os participantes e, no final do Verão, com os grandes a jogar fora, nos campos das equipas de II Liga, fazendo uma espécie de “tournée” pelo país real. Até me parece evidente que, na maioria das vezes, os grandes acabariam na mesma por satisfazer quem se preocupa apenas com os nomes dos participantes na decisão final, sobretudo se jogassem as fases a eliminar numa altura da época em que ainda não estão fatigados pela dureza da época que já vai longa. E nesta altura estaríamos todos a deliciar-nos com uma jornada diurna cheia de derbis. Com os estádios cheios e com as famílias felizes a ver futebol em vez de andarem a vaguear pelos centros comerciais. Não tem de ser assim apenas no estrangeiro.
2017-01-01
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A questão do total de títulos nacionais de futebol tem sido vista à luz da rivalidade entre os maiores clubes ou da estratégia de comunicação de Bruno de Carvalho, que a trouxe para a agenda mediática com o intuito de comprar mais uma guerra que sirva de forma de afirmação ao Sporting, mas vale muito mais do que tudo isso. Porque em causa não estão só o total de títulos de campeão nacional dos leões e, por inerência, do Benfica e do FC Porto. Em causa estão também os títulos de clubes como o Olhanense, o Marítimo, o Belenenses ou o já extinto Carcavelinhos (um dos clubes que deu lugar ao Atlético), que merecem tanto respeito como os três grandes, suportados em milhões de adeptos. Em causa está se a decisão do campeão nacional é retrospetiva ou prospetiva, feita a olhar para trás ou para a frente. Porque uma coisa é certa: não pode haver anos com dois campeões. A FPF decidiu que contam como títulos de campeão nacional os três campeonatos da I Liga, realizados entre 1934/35 e 1937/38, por serem provas por jornadas, em modelo de todos contra todos, e terem sido jogados antes da instituição do campeonato nacional da I Divisão, em 1938/39. Decidiu ainda a FPF não contar como suscetíveis de atribuição do título de campeão nacional os 17 Campeonatos de Portugal, jogados entre 1921/22 e 1937/38, por os considerar antepassados da Taça de Portugal, também ela jogada por eliminatórias a partir de 1938/39. Dessa forma, aos títulos de vencedor do campeonato nacional de futebol – Benfica por 32 vezes, FC Porto por 26, Sporting por 18, Belenenses e Boavista com um cada – somam-se mais três do Benfica e um do FC Porto, fruto das vitórias que conquistaram no tal campeonato da I Liga. Pretenderia o presidente do Sporting que, em vez desses títulos da I Liga, fossem contabilizados os vencedores do Campeonato de Portugal: quatro troféus do FC Porto e do Sporting, que assim aumentariam o pecúlio para 29 e 22 títulos, respetivamente; três do Benfica, que subiria na mesma para 35, substituindo as três Ligas por igual número de campeonatos de Portugal; três do Belenenses, que passaria a considerar-se quatro vezes campeão nacional; mais um do Olhanense, um do Marítimo e um do Carcavelinhos, que engrossariam o lote de campeões. A tese da FPF é que o antepassado do atual campeonato nacional é o campeonato da Liga, também ele jogado por jornadas. Faz sentido. Mas também pode não fazer. Ora, façamos um pouco de história. O futebol português andou uns anos atrás do resto da Europa, a ponto de só em 1922 se ter extravasado o nível regional no que a competições respeitava. Nesse final de época de 1921/22 jogou-se pela primeira vez o Campeonato de Portugal, que em ano de estreia se resumiu a uma espécie de finalíssima entre os campeões de Lisboa (o Sporting) e do Porto (o FC Porto). Ganharam os nortenhos, que tal como todos os seus sucessores na prova adquiriram o direito a apresentar-se como “campeões de Portugal”. Veja-se o caso do Benfica de 1930, de que se mostra na imagem acima o cartaz relativo ao almoço de homenagem aos jogadores. O Campeonato de Portugal foi evoluindo. Na segunda edição, além de Sporting e FC Porto, outra vez campeões dos seus distritos, já participaram os campeões de Coimbra, da Madeira, do Minho e do Algarve. E a prova foi-se alargando a mais regiões, até passar, a dada altura, a permitir a entrada de mais do que um representante por cada distrito. Iam-se assim sucedendo os campeões de Portugal. E tudo continuou igual até que, em Março de 1934, a seleção nacional foi arrasada pela Espanha em Chamartin. Foram 9-0, a eliminação do Mundial e a abertura de um processo de reformulação dos quadros competitivos do futebol nacional. Uma das coisas que os espanhóis tinham e os portugueses não era competição nacional regular – o Campeonato de Portugal só se jogava de Maio a Julho – sob a forma de uma prova por jornadas, em que todos os clubes se defrontavam a duas voltas. Os portugueses resolveram imitar esse modelo e criaram, ainda que de modo experimental, o campeonato da Liga – cujo nome derivou do modelo inglês. A prova foi introduzida a título experimental, por se temer que o aumento da receita não chegasse para cobrir o aumento da despesa com deslocações mais longas e frequentes. Foi um sucesso. Ora é aqui que se introduz a rotura. Para a FPF, agora, os 13 campeões de Portugal até aí coroados deixaram de o ser. E os vencedores das quatro Ligas experimentais que antecederam a criação do campeonato nacional de futebol, em 1938/39, passaram a poder ostentar o título de campeão nacional. O primeiro campeonato da Liga, em 1934/35, foi ganho pelo FC Porto, mas nesse mesmo ano o Benfica venceu o Campeonato de Portugal, batendo o Sporting na final, por 2-1. Na página 143 do segundo volume da História do Sport Lisboa e Benfica (1904/1954), obra excecional editada aquando do cinquentenário do clube por Mário Fernando de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva e prefaciada por Ribeiro dos Reis, reproduz-se a ementa do jantar oficial de homenagem “Ao team de Foot-Ball Campeão de Portugal” do Sport Lisboa e Benfica. Teve lugar nas Portas do Sol, em Santarém, a 21 de Julho de 1935. Claro que se a prova se chamava Campeonato de Portugal, a equipa que a ganhava se considerava campeã de Portugal. Nem outra coisa faria sentido, apesar de já existir o campeonato da Liga, que nesse ano coroou o FC Porto. Só em 1938 o panorama competitivo voltou a mudar. Ao campeonato da Liga sucedeu o campeonato nacional de futebol; ao campeonato de Portugal seguiu-se a Taça de Portugal. As competições mantiveram os moldes de disputa, pelo que é natural que, vendo as coisas de trás para a frente, a FPF considere agora campeões nacionais os clubes vencedores da Liga e não os que ganharam o Campeonato de Portugal. Porque a questão é que, durante quatro anos, houve clubes cuja legitimidade para se considerarem campeões nacionais se funda no futuro (e na evolução que a competição veio a ter) e outros cuja legitimidade se funda no passado (e no facto de até 1934 o campeonato de Portugal ter sido a única prova nacional). Como não podia haver dois campeões nacionais no mesmo ano, era preciso tomar uma decisão. A FPF decidiu assim e a decisão tomou letra de lei. O mais justo, porém, seria separar as quatro provas e os respetivos palmarés. Porque a alternativa é dizer aos jogadores e aos clubes que ganharam o campeonato de Portugal entre 1922 e 1938 que afinal não foram campeões de Portugal. E isso vai muito para lá das provocações de Bruno de Carvalho ou das respostas dos adeptos benfiquistas.
2016-12-23
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Três assuntos têm animado os adeptos de futebol em Portugal. O caso Sporting-Doyen, a troca de José Peseiro por Jorge Simão no Sp. Braga e a polémica em torno da contagem dos títulos nacionais. Com algum atraso num ou noutro caso, eis o que penso de cada um. 1. O Sporting vai ter de pagar à Doyen no caso relativo à transferência de Rojo para o Manchester United. Sempre foi claro para mim que assim seria, porque havia um contrato em vigor e ele tinha sido assinado pela direção legítima do clube. Não sei se Bruno de Carvalho entrou nesta guerra para adiar o pagamento, para o evitar de todo ou apenas para fazer barulho à volta do tema polémico que é o da participação de fundos de investimento nos passes dos jogadores. Se foi a primeira razão, limitou-se a ser chico-esperto. Se foi a segunda, estava a ser ingénuo. Se foi a terceira, fez bem. Porque os negócios com os fundos de investimento sem rosto são, na maior parte dos casos, lesivos dos interesses dos clubes e abrem a porta ao dinheiro sujo que quem gosta de futebol deve querer ver longe da modalidade. 2. Nutro por José Peseiro a estima de muitos anos de conhecimento, porque crescemos a 150 metros um do outro. Tenho, além disso, o reconhecimento pela qualidade do trabalho que ele fez em muitos clubes, mas acho que fez mal em voltar a Braga. Depois de ele próprio ter perdido a final da Taça de Portugal para o Sp. Braga de Paulo Fonseca, entrar naquele balneário só podia ser feito com a certeza de que tinha condições para fazer melhor. E a verdade é que não tinha. Peseiro não foi demitido por ter perdido com o Sp. Covilhã. Foi demitido porque antes de cair na Taça de Portugal já tinha perdido a passagem à fase seguinte da Liga Europa e porque, antes ainda, a sua equipa mostrara um futebol demasiado pobre no Dragão contra o FC Porto – e o futebol de qualidade até foi sempre uma das imagens de marca deste treinador. Para o lugar dele entra Jorge Simão, um treinador jovem e ambicioso, que tem muito mais condições para ser bem sucedido. Quais? Tem atrás dele um trabalho de enorme qualidade no Chaves e entra num clube onde as expectativas já estão outra vez a um nível muito baixo. O resto é capacidade de trabalho, que tanto um como o outro têm inegavelmente. 3. A FPF manifestou-se finalmente acerca da polémica relativa aos títulos de campeão nacional, decretando que aos torneios da I Liga, disputados por jornadas entre 1934/35 e 1937/38, correspondem títulos de campeão nacional, e que aos Campeonatos de Portugal, jogados por eliminatórias entre 1921/22 e 1937/38, correspondem troféus equiparados à Taça de Portugal. A polémica vem da mais recente cruzada de Bruno de Carvalho, que nem sequer é uma ideia nova: recordo-me de, durante anos, o Record se ter recusado a alinhar com A Bola nessa equiparação, valendo-se da tese de Henrique Parreirão, segundo a qual só havia campeão nacional a partir de 1938/39, havendo antes, sim, o campeão da Liga e o campeão de Portugal, que eram coisas diferentes. E se na altura achei que a tese defendida pelo Record servia sobretudo de afirmação ante o gigante que era A Bola – era preciso contrariar o establishment para poder vir a superá-lo, algo que o Record depois até chegou a conseguir – também agora vejo na preocupação de Bruno de Carvalho uma forma de agitar as hostes e de ser contra-poder. As taças, porém, valem o que valem e estão nos museus dos clubes, de nada valendo agora tentar reescrever a história, seja num ou noutro sentido. O FC Porto, por exemplo, foi duas vezes campeão e europeu? Ou ganhou uma Taça dos Campeões e uma Liga dos Campeões? É que as provas têm nomes e formatos diferentes. E foi campeão mundial de clubes? Ou tem duas Taças Toyota? É claro que o documento da FPF aqui faz lei, mas na minha opinião as contas são outras: o Benfica tem 32 títulos de campeão nacional (e não os 35 que reclama com a soma das três I Ligas que ganhou), o FC Porto tem 26 (e não 27) e o Sporting tem 18 (e não os 22 que exige ver reconhecidos com a adição do Campeonato de Portugal).
2016-12-16
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O empate que a seleção nacional feminina cedeu frente à Roménia, no Estádio do Restelo, no primeiro jogo do play-off de apuramento do Europeu, foi uma desilusão e deixa a equipa em maus lençóis no que respeita a uma qualificação inédita, pois terá de enfrentar a segunda mão em casa do adversári. A exibição, mesmo tendo a equipa nacional sido melhor que a romena e tendo mesmo falhado um penalti, também não foi brilhante. A adesão do público, tendo em conta que as entradas eram gratuitas, também ficou aquém do esperado, mesmo com as atenuantes da chuva e do horário (ainda) laboral. No entanto, o dia pode bem ter sido um marco importante para o futebol feminino nacional.Quando me sentei para ver o jogo da seleção, fi-lo devido a uma série de motivações. A caminhada que a equipa fez no grupo, com a épica superação da Finlândia e da Irlanda em cima do risco fina, após o arranque tremido, terá sido a maior. A mais importante, no entanto, terá sido o investimento pesado que a FPF fez na promoção desta equipa e tem feito no futebol feminino em geral, cuja face mais visível foi o vídeo de apoio feito por vários campeões europeus. Porque mesmo que a seleção não se qualifique para esta fase final, é esse investimento, associado aos últimos resultados nas categorias inferiores, que me leva a acreditar que estará na próxima.O jogo em si, na verdade, até me desiludiu. Vi uma equipa melhor que a adversária, mas bem abaixo do que se vê nas grandes provas de futebol feminino que vão sendo transmitidas no que respeita aos princípios de jogo ou à articulação coletiva. Este não terá sido um dos melhores jogos desta seleção. Mas há outra oportunidade para brilhar já na terça-feira. E o importante é que se sente de cima a firmeza de não deixar que as coisas voltem a ser como antes e que o futebol feminino veio para ficar.
2016-10-21
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Três opiniões sobre o Jogo Duplo   A operação Jogo Duplo não foi uma surpresa para mim. Não sabia que ia acontecer, como é evidente, mas suspeitava de que algumas coisas daquele género se passam em Ligas menos visíveis, como a II Liga portuguesa ou até as Ligas principais de alguns países mais recônditos. Tem tudo a ver com a necessidade de compreender o sistema  e a própria realidade, em vez de lhe fechar os olhos, como têm feito as autoridades. A esse respeito, tenho por isso três coisas a dizer. Perante a detenção de agentes e jogadores acusados de fabricar resultados, a primeira tentação será a de se dizer: “isso das apostas é um mundo podre com o qual temos de acabar”. Errado! É uma falácia achar que o problema está no jogo. O problema está no jogo desregulado. Será mil vezes mais fácil detetar irregularidades e movimentações suspeitas de dinheiro com a regulamentação e a monitorização do jogo online do que limitando o jogo a terminais físicos, como sucede neste momento em Portugal. Ao manter estas limitações, o Estado português não está a acabar com o jogo online nem com as possibilidades de corrupção: está a encaminhar os grandes jogadores para fora do país – dessa forma deixando de recolher impostos sobre os volumes apostados – através de VPN e de contas bancárias no estrangeiro. Porque com ou sem jogo online em Portugal, ele continuará a existir no estrangeiro e a abarcar jogos de equipas portuguesas. Quem me conhece melhor sabe que enquanto isso foi autorizado fiz trading em casas de apostas desportivas, como a Betfair. Nessa altura cheguei a fazer parte de um grupo de “amigos” de vários países que se entretinha a “seguir o dinheiro”. E nem imaginam como é fácil descobrir movimentações suspeitas. Como? É simples. O trading funciona com base em apostas a favor (back) e contra (lay). O jogador não joga contra a casa, mas sim contra outro jogador, que aposta contra uma posição inicial colocada a favor de um determinado evento. Através de software relativamente fácil de utilizar, como o Geek’s Toy, por exemplo, é possível ver os montantes que estão à espera de ser correspondidos, isto é, as apostas colocadas mas ainda sem ninguém do outro lado. Estes grupos de apostadores têm Ligas e equipas sinalizadas como suspeitas, tanto na Betfair como sobretudo nos mercados asiáticos. É impressionante como por vezes aconteciam entradas de volumes anormais de dinheiro num determinado acontecimento e, assim que essas verbas eram correspondidas, esse evento verificava-se. Não é um meio fácil de ganhar dinheiro, porque muitas destas apostas eram simples bluffs: haverá certamente quem faça isto para lavar dinheiro, para o mover de uns países para outros, apostando a favor de um lado e contra do outro. Mas até por isso a regulação é importante, porque permitirá às polícias saber aquilo que os grupos de curiosos não saberão – de onde vem o dinheiro e para onde ele vai. Acredito que a generalidade dos jogadores de futebol não é subornável. Mas também acredito que entre os futebolistas – como entre os jornalistas, os médicos, os arquitetos, os políticos etc. – há gente capaz de aceitar dinheiro para facilitar um acontecimento. No caso dos futebolistas o problema é suscetível de ser agravado quando as suas equipas já não têm objetivos desportivos pelos quais lutar. O que fazer para o evitar? Se não é possível acabar com as apostas no Mundo, há duas coisas a fazer. Regulá-las, primeiro. E tornar o sistema do futebol o mais invulnerável possível a este tipo de tentações. Isto para dizer que ter jogadores profissionais de futebol a ganhar menos do que o ordenado mínimo – quando o recebem, porque parte deles só recebem o primeiro mês – é vulnerabilizar o sistema. Ora se o futebol move milhões – e tanto move, que as apostas se fazem – como é possível que os clubes da II Liga portuguesa, do segundo escalão profissional nacional, de uma elite, não sejam sequer capazes de manter em dia salários de miséria? O que há a fazer é tudo o possível para trazer os milhões que o futebol move para dentro do sistema, apostando depois numa repartição mais equilibrada da receita. É regulamentar o jogo, acabar com os monopólios existentes e permitir que as casas de apostas devolvam parte do dinheiro que ganham aos agentes desportivos sob a forma de patrocínios, por exemplo, e depois ser rigoroso na inspeção das irregularidades, tanto dos jogadores que se vendem como dos clubes que não lhes pagam. É por isso que digo que os menos culpados, aqui, são os jogadores. Eles são as vítimas que se deixaram apanhar num enredo que está viciado desde o início.
2016-05-19
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É impossível que o futebol português passe completamente ao lado das acusações feitas por Carlos Cruz no que respeita à alegada compra de votos por parte da candidatura portuguesa à organização do Euro’2004. E no entanto é isso que está a acontecer. Um dia depois de essas acusações terem sido tornadas públicas, na pré-publicação da autobiografia do ex-apresentador de televisão, pelo jornal “A Bola”, não há notícias de seguimento nem há reações oficiais, da Federação, dos clubes, da UEFA, da polícia... Nada. E isso incomoda-me. Carlos Cruz pode ter caído em desgraça quando foi condenado por alegados abusos sexuais a menores, no processo Casa Pia, mas não deixou de ser um dos principais responsáveis pelo sucesso da candidatura portuguesa, um dos principais executivos na empreitada que trouxe o Campeonato da Europa para os estádios nacionais. Lembro-me de entrevistar Cruz, naquele tempo, e de ele mandar vir uns pregos para comer durante a conversa, porque o desdobramento em reuniões atrás de reuniões não lhe deixava sequer tempo para almoçar. Portanto, se há coisa de que Cruz não pode ser acusado é de não ter estado por dentro das coisas, de não saber do que fala. E, bem ou mal intencionado, ele acusa claramente Gilberto Madaíl e José Sócrates de terem comprado votos a presidentes de federações estrangeiras, com envelopes recheados com dinheiro. Se o que Cruz escreveu foi verdade, isso cabe à polícia investigar. Tendo em conta o que se sabe hoje acerca da forma como se ganham e perdem organizações deste calibre, não me custa admitir que a história possa ter um fundo de verdade. Mas para já, o que queria mesmo era ter a certeza do normal funcionamento das instituições e de ser informado para além do que fez Jonas nos treinos da seleção do Brasil, do que disse Gaitán acerca do futuro do Benfica, se Peseiro sente o FC Porto e se os jornais turcos dizem que o Sporting está interessado em Raul Meireles. São tempos estranhos, estes que vivemos.
2016-03-23
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Que a SuperLiga vem aí, já toda a gente com olhos na cara percebeu há uns 25 anos. Tem a ver com a compreensão daquilo que é o futebol, mas também com a noção daquilo que é o Mundo, que se reflete sempre no futebol. As instâncias que governam o futebol têm vindo a dar pequenos passos numa direção que por vezes nem é a que mais lhes convém, porque perceberam que essa é a única forma de impedir as forças motrizes do negócio de dar o grande salto em frente. Mas chegará o momento em que as ligeiras travagens não são suficientes. E ele já não está muito longe, pelo que o que há a fazer não é tentar impedi-lo. É prepararmo-nos para ele. De preferência com a UEFA à cabeça – mas para isso, as federações que mais podem perder com isto têm de se mexer. E a portuguesa é uma delas. Quem me acordou para esta realidade foi Alex Fynn, em inícios da década de 90. Na altura um executivo de topo da Saatchi & Saatchi, o homem que primeiro defendeu a criação desta SuperLiga europeia explicou-me, a mim e a quem fez o favor de me ler, nas páginas do “Expresso”, as razões pelas quais a prova já estava ali ao virar da esquina. Se a melhoria dos transportes ferroviários e da rede de autoestradas nos permitiu passar dos campeonatos regionais aos nacionais e, depois, a evolução dos transportes aéreos permitiu a criação das competições europeias, a sua vulgarização levaria a que fosse possível jogar-se uma verdadeira Liga europeia. E Fynn falava muitos anos antes do fenómeno “low cost” na aviação e das implicações que ele trouxe para a mobilidade das pessoas em geral. Fynn não falava sem interesse – tinha feito um estudo encomendado por Silvio Berlusconi, na altura ainda apenas dono do Milan e de uma rede de media. Berlusconi tinha um clube e os meios de o rentabilizar e queria ver avanço no negócio. Porque para o Milan era mais atrativo jogar com o Manchester United do que com o Bari. Tal como agora para o Bayern é mais interessante defrontar o Barcelonado que o Hoffenheim. E é mais rentável. Sobretudo, é mais rentável. Por isso, se algo me surpreende, agora que recupero as notas dessa conversa com mais de 20 anos, é que a SuperLiga ainda não tenha arrancado. Não arrancou porque a UEFA tem andado sempre um passo à frente. Em 1992, para impedir o avanço da SuperLiga, criou a Liga dos Campeões, assegurando mais jogos a cada clube. Em 1998, quando se falou outra vez de secessão, aumentou para dois o número de vagas para cada um dos principais países. Em 2010, face a mais conversas, o total de vagas cresceu para quatro nos três primeiros países do ranking. Agora, que os cinco maiores clubes ingleses abriram conversações para jogarem partidas da Champions nos EUA ou no Oriente, não se vê o que mais pode a UEFA oferecer-lhes a não ser criar ela própria uma nova competição. E mesmo assim não é garantido que os clubes decidam ficar, pois o organismo que tutela o futebol europeu já não é um garante de legitimidade que era há 20 ou 30 anos, quando ainda não se falava de corrupção como se fala agora. Aqui chegados, a SuperLiga não é uma má ideia. Pelo contrário. É uma excelente ideia. O que nos trouxe a globalização, com a vulgarização das transmissões de futebol de todo o Mundo para todo o Mundo, é que as novas gerações de portugueses já sabem melhor como joga o Barcelona, o Real Madrid ou até o Leicester do que o Tondela, o Arouca ou o V. Setúbal. Podemos gostar ou não gostar – e a mim não me incomoda por aí além – mas não podemos mudar o Mundo de uma penada. E se o que as pessoas querem é grande futebol, pois que se lhes dê grande futebol. De preferência com a UEFA a mandar, porque essa, ainda assim, é a única forma de desviar alguma da receita para o desenvolvimento do futebol jovem e das federações menos ricas, de evitar, não que os ricos fiquem mais ricos, mas que os pobres fiquem mais pobres. Salvaguardados esses princípios de justiça relativa, é preciso depois pensar que SuperLiga se cria. Porque uma coisa é aquilo que é justo e outra é aquilo que é melhor para o negócio. O que é justo é pegar-se nas 20 melhores equipas da Europa (por exemplo os 16 apurados na fase de grupos de uma próxima Champions e os quatro semi-finalistas da Liga Europa do mesmo ano), criar para elas um escalão supra-nacional, acima dos campeonatos de cada país e das atuais provas europeias, com quatro despromoções e quatro subidas, a serem entregues aos finalistas das duas competições continentais de cada ano. Jogar-se-ia em 38 jornadas, ao fim-de-semana e, para não se esvaziar totalmente os campeonatos nacionais, os clubes da SuperLiga até poderiam participar neles com equipas B. O que é melhor para o negócio é fazer uma Liga fechada, tipo NBA, sem subidas nem descidas, com cinco equipas de Inglaterra, quatro da Alemanha, quatro de Espanha, quatro de Itália e dar as três vagas restantes ao Paris St. Germain, ao Mónaco e ao Zenit. Eventualmente, o Celtic, o Ajax, o Galatasaray, o Benfica ou o Shakthar Donetsk podiam tentar entrar, ainda que sem grandes hipóteses de sucesso. Portugal quer isto? Creio que não. Então mexam-se! In Diário de Notícias, 14.03.2016
2016-03-14
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A instauração de um processo disciplinar a Slimani pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, na sequência da queixa do Benfica, que acusa o argelino de ter dado uma cotovelada em Samaris, é absolutamente normal. Primeiro porque, ao contrário do que pode parecer pela reação inflamada do Sporting, Slimani não foi castigado. Pode vir a sê-lo, como pode acabar ilibado. Depois porque há uma grande diferença entre o choque de Slimani com Samaris e os lances apresentados pelo Sporting como represália. É uma coisa redonda, que se chama bola, que não está num e aparece nos outros. Aqui chegado, não tenho nada a certeza de que Slimani tenha de ser castigado. Aliás, o argumento apresentado hoje por Octávio Machado parece-me plausível ou pelo menos defensável: o argelino estaria a tentar chegar à bola e para isso tentou tirar da frente o adversário que lhe bloqueava o caminho. Terá sido isso? Ninguém pode garanti-lo. Nem isso nem o seu contrário. Mas a defesa ensaiada por Octávio Machado serve na perfeição para arrumar a um canto as queixas leoninas acerca de lances em que vários jogadores do Benfica são vistos a atingir adversários, nesse mesmo jogo. É que todos esses lances são duros, estão mesmo um pouco para lá dos limites da dureza aceitável, mas em todos a bola está bem presente e a ser disputada pelos intervenientes. Não percebo, por isso, tão inflamadas queixas leoninas acerca da existência de dois pesos e duas medidas, pelo menos no que toda aos lances de futebol. Diferente é se falarmos das motivações por trás de cada queixa. E aí tão mal fica o Sporting, por ter ido a correr compilar imagens de jogo que lhe servissem de represália à queixa benfiquista, como o Benfica, por se ter queixado de Slimani só para se vingar as denúncias acerca dos vouchers, feitas por Bruno de Carvalho. É que se queremos falar de um arquivamento incompreensível, é neste que devemos centrar atenções.
2016-01-27
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Último Passe

Há uma grande diferença entre dar uma esmola e promover a distribuição de riqueza. Uma esmola dá-se por caridade. É um gesto muito nobre mas nunca resolve o problema e deixa sempre o necessitado a precisar de nova esmola, pouco tempo depois. A distribuição da riqueza é que pode tornar a esmola desnecessária. E o futebol português está tão cheio de gente interessada em dar e receber esmolas como escasso de quem gere e esteja depois interessado em distribuir riqueza. A Taça de Portugal, que coloca grandes e pequenos no mesmo pote, pode ser um instrumento muito interessante na distribuição de riqueza. Mas não é só isso. É suposto ser uma festa, também. Quando foi decidido que, a partir desta época, os pequenos jogariam em casa sempre que o sorteio lhes ditasse defrontar um grande, a ideia não era gerar riqueza de forma imediata: era publicitar o futebol, levar as grandes equipas a estádios onde nunca vão, fazê-las jogar para públicos que nunca as veem ao vivo. Era, em suma, criar engajamento, ganhar esse público para o futebol de bancada, em vez de o ter no futebol de sofá e, aí sim, gerar e distribuir riqueza, nem que seja num plano secundário. Os clubes, no entanto, não conseguiram ver tão longe. O Vianense deslocou a receção ao Benfica para Barcelos, onde o Gil Vicente teve nos últimos anos muito futebol de primeira, ao passo que o Vilafranquense vai “receber” o Sporting no Estoril, num relvado que até à Liga Europa já está habituado. Só o Varzim manteve o jogo com o FC Porto no seu recinto. Calculo que a pressão de pagar salários, de encontrar verba para cumprir orçamentos, seja muito forte e leve os clubes a tomar decisões com base no imediato, mas se a ideia era ter mais receita já, o melhor teria sido decidir ao contrário: sempre que um grande defrontasse um pequeno, o jogo disputar-se-ia no estádio com mais lotação. Dava-se uma esmola em vez de se gerar e distribuir riqueza. Ao mudarem os jogos para campos neutros só porque levam mais gente nas bancadas, os clubes modestos estão a alienar o futuro em nome do presente, estão a preferir os tostões de hoje aos milhares de amanhã, estão a decidir pela caixa das esmolas que o sorteio lhes deixou escancarada – podiam ter calhado uns contra os outros e nem fazer receita nenhuma - em detrimento da sustentabilidade futura do futebol como um todo. Os clubes pequenos podem até argumentar que não é a eles que lhes cabe pensar nisso, pois se eles até jogam no Campeonato Nacional de Seniores… Por isso é de uma assinalável coerência virem depois, como veio o presidente do Vilafranquense, estranhar que o Sporting não abdique da sua parte da receita: a caixa das esmolas devia ser toda para o pobre e dela não devia beneficiar o remediado. Numa forma pequenina de pensar, faz sentido. Mas pensar grande era outra coisa. Era fazer da Taça da Portugal a festa do país futebolístico, era ganhar gente para os domingos seguintes, era fazer com que dentro em breve não se precisasse tanto da caixa das esmolas porque a riqueza estava a crescer. Infelizmente ainda não estamos prontos para isso.
2015-10-16
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Último Passe

A próxima jornada da Liga vai ter um foco de polémica no facto de os três grandes jogarem no dia das eleições legislativas. Toda a gente condenou a Liga por não ter deixado esse fim-de-semana vago no calendário e, depois ainda, por ter permitido que o Benfica, o FC Porto e o Sporting jogassem precisamente no domingo do ato eleitoral, em vez de anteciparem ou adiarem os seus jogos. Nada de mais disparatado, é o que me parece. E não é só por todos estarem envolvidos em jogos europeus a meio desta semana. O que me espanta é que gente com responsabilidades governativas entre nesse tipo de argumentos, que facilmente se prova serem totalmente irresponsáveis. Como se o futebol de alto nível não fosse uma indústria tão precisada de gerar rendimento como outra qualquer, para poder cumprir as suas obrigações com funcionários ou credores. E como se o simples facto de querer ver futebol ao fim da tarde fosse impedir-me de cumprir o meu dever cívico e votar antes disso. Além do mais, não dei por qualquer indignação ante o facto de no dia das eleições também estarem abertos os centros comerciais, os cinemas, os teatros, ou até o Jardim Zoológico e o Oceanário. Sei que a moda é usar o futebol como sinónimo de alienação, de corrupção intelectual das classes baixas, mas alguém tem ainda de me convencer como é que um jogo dos grandes é mais alienante do que os intermináveis espetáculos de música popular de gosto duvidoso com que os canais de TV nos brindam todos os domingos da hora de almoço até à hora de jantar. E, mais, por que é que ninguém se insurgiu contra a sua realização e emissão em dia de eleições. Aliás, se me surpreendeu a reação da classe política quando rebentou de indignação ao saber que havia jogos de futebol na data das eleições, não me surpreendeu menos a reação dos dirigentes dos clubes, da Liga ou até da Federação. Os primeiros fizeram-no na tentativa de ganhar alguns voos no lóbi anti-futebol. Para o silêncio dos segundos tenho mais dificuldade em encontrar explicações. Foi como se já estivessem em período de reflexão.
2015-09-28
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