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Último Passe

O futebol é, há muitos anos já, coisa de profissionais onde, com cada vez mais raras exceções, quem tem verdadeiro amor à camisola – ou ódio, muitas vezes, que aqui funciona mesmo como uma espécie de amor ao contrário – são apenas os adeptos. Os jogadores, esses, tal como os treinadores, os jornalistas e ultimamente até os dirigentes, são profissionais. Sempre defendi que deve exigir-se-lhes que façam tudo o que podem em defesa das cores com as quais têm contrato enquanto esse vínculo vigora e nada a partir do dia em que ele termina. Querer levar a coisa para além disso é uma ilusão a que só uma meia dúzia de eleitos pode corresponder: os que aliam paixão clubística com independência financeira. Foi por isso que o vídeo de apresentação de Fábio Coentrão como jogador leonino, no qual o jogador diz já ter vestido muitas camisolas mas ter sido sempre “feito de Sporting”, me disse tanto como aquele outro, até há pouco tempo apresentado como a verdade, no qual o jogador dizia que em Portugal só jogaria no Benfica. Ou como uma entrevista mais antiga, dada num momento em que Coentrão ainda era jogador do Rio Ave mas já se dizia nos jornais que o Sporting podia estar interessado nele, na qual o jogador confessou que era sportinguista e que jogar em Alvalade seria uma honra. Qual é a verdade que vale aqui? A primeira, por ser mais antiga? A última, por ser mais atual? Na verdade, isso devia ser irrelevante, pois em todos os casos aquilo que Coentrão quer é agradar a quem nele aposta. Fica-lhe bem esse sentimento de gratidão, mas não devia ser preciso demonstrá-lo assim, ignorando a existência de neurónios na cabeça de quem o ouve. E no entanto, ele fá-lo. Como o fazem outros. Porquê? Porque a verdade é que isso conta. A partir do momento em que Coentrão disse agora o que disse e isso foi posto a circular nas redes sociais, estas vão ser palco de uma luta entre dois exércitos: os que acham que Coentrão andou anos a enganar o Benfica e a sofrer pelo Sporting e os que acham que Coentrão foi feliz no Benfica e agora vai enganar o Sporting. Não alinho num grupo nem no outro. Tanto se me dá se, no fim dos jogos do Real Madrid, Coentrão ia perguntar à família como ficou o Sporting ou como ficou o Benfica. E a Jorge Jesus, outro sportinguista que foi feliz no Benfica e tenta tudo para voltar a sê-lo no Sporting, isso também não interessa nada. O que lhe interessa é saber se o jogador ainda é capaz de encher o corredor esquerdo como fazia quando ele o liderava no Estádio da Luz. O resto é conversa para encher chouriços e enganar tolinhos.
2017-07-05
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Último Passe

Se há coisa tão irrelevante como tentar descobrir o clube do coração dos jornalistas é tentar descobrir o clube do coração dos futebolistas. Mas o futebol move-se em terrenos pantanosos que muito rapidamente se aproximam da irracionalidade, a ponto de quem está de fora tender muito a achar que os profissionais preferem fazer mal o seu trabalho só para depois celebrarem com os amigos a vitória do seu clube e isso acaba por condicionar toda a gente – tanto jornalistas como jogadores. Só por isso, para satisfazer esta audiência sedenta de clubismo, Coentrão terá dito um dia que a regressar a Portugal só o faria para jogar no Benfica. Felizmente para ele, nos tempos do Rio Ave também tinha dado uma entrevista em que se afirmava sportinguista e revelava o sonho que seria jogar no Sporting e isso agora será apresentado como atenuante no julgamento a que a santa inquisição vai submeter um lateral-esquerdo que já foi o melhor de Portugal mas que se perdeu no caminho e precisa outra vez de encontrar quem o compreenda e lhe dê o enquadramento competitivo correto. Pode ser no Sporting, ainda que o facto de chegar diminuído não o ajude. Não vale a pena agora estarmos a questionar aquilo em que se transformou o futebol e que, por exemplo, leva os jornalistas presentes numa competição como a Taça das Confederações – ou um Europeu ou um Mundial – a não ter alternativas às entrevistas com os adeptos se querem exercer a faceta mais nobre da profissão, que é a reportagem. Mas, quando a Itália discute como discute o caso-Donnarumma, quando os adeptos lhe atiram notas falsas para o campo só porque não entendem as aspirações do jovem guarda-redes melhorar a vida e a carreira, percebe-se que não é uma corruptela só nossa e faz sentido pensar nas razões que levaram alguém a fazer aquela pergunta a Coentrão – e, antes ou depois, a Markovic, Simão, Bernardo Silva, Quaresma… –, bem como nas razões que os levaram a responder como responderam, com juras de fidelidade eterna cujo cumprimento na realidade não podem garantir. A questão é que se as coisas lhes correrem bem depois deste “o dobro ou nada” jogado no campeonato do amor ao emblema, ninguém se vai lembrar. Mas se correrem mal, toda a gente vai ter a arma apontada ao traidor, que passa a ser “mal-visto” dos dois lados da barricada. Por isso, o Coentrão que entrar em Alvalade já vem duplamente diminuído. Vem diminuído no plano físico e competitivo, como se percebe facilmente pelas lesões acumuladas em 2016/17 e pelos menos de 300 minutos que fez em campo em toda a temporada. E depois vem diminuído pela pressão que vão colocar-lhe em cima aqueles adeptos mais fundamentalistas, que já não gostaram de ver chegar Markovic e vão exercer o grau-zero de tolerância para com erros, até porque não lhes agrada a ideia de verem Jesus, ex-treinador do Benfica, recorrer a jogadores que brilharam com ele na Luz e são, por inerência, do lado contrário da barricada. A verdade é que, mais do que parte do problema, aqui Jesus pode ser a solução. Foi ele que deu a segunda vida a Coentrão, quando o jogador andava perdido em empréstimos sucessivos – Nacional, Real Saragoça, Rio Ave –, o que parece significar que compreende como ninguém a muito complicada psicologia por trás do rendimento de Coentrão. Resta perceber se consegue sacar-lhe mais uma ressurreição. 
2017-06-20
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A sexta vitória consecutiva da seleção nacional em jogos competitivos, obtida em Braga frente à Dinamarca (1-0), garantiu a qualificação para a fase final do Europeu e devia valer a esta equipa pouco brilhante mas sempre consistente mais confiança dos portugueses. A seleção raramente entusiasma, é verdade, mas nunca falha – e isso, no fim, é o que conta para um treinador que agora tem oito meses até à fase final do Europeu, onde a tarefa principal terá de ser a de encontrar uma dinâmica que lhe permita resolver os problemas ofensivos que tem enfrentado e o têm levado a sacrificar Ronaldo, abandonando-o aos adversários. A busca da fórmula-Euro é a prioridade, a começar já no domingo, em Belgrado, na partida frente à Sérvia, na qual até por isso convinha ter Ronaldo em campo e não a assistir pela TV, como vai suceder. Portugal voltou a ganhar pela margem mínima – as seis vitórias foram todas por um golo de diferença – mas a verdade é que nunca pairou no estádio a possibilidade de vir a perder o jogo. Fernando Santos podia jogar com a hipótese do empate, que também garantia a qualificação – aliás até a derrota a teria garantido, face à vitória da Sérvia frente à Albânia – e isso fez com que a equipa se sentisse mais em casa face a uma Dinamarca que raramente se desequilibra, mas que em contrapartida sofre horrores para fazer golos. O resultado foi um jogo sempre pouco entusiasmante, na linha, aliás, dos que sempre tem feito esta equipa, mas consistente. E com diferenças estratégicas, sobretudo na primeira parte, durante a qual se viu pela primeira vez uma coordenação muito satisfatória entre o meio-campo e as três peças móveis da frente: Ronaldo começava ao meio, com Nani à esquerda e Bernardo Silva à direita e Moutinho a aproximar-se muito, sobretudo em situações de pressão. A equipa, assim, equilibra-se, ocupa todos os corredores – ao contrário do que sucede se Ronaldo começa num corredor lateral e o deixa para aparecer no meio – e, sobretudo se resistir à tentação de jogar diretamente no CR7, construindo com mais elaboração, até cria condições para que este não fique abandonado aos centrais adversários, condenado a jogar de costas para a baliza e a anular-se em tarefas que não são as que mais o beneficiam, como se viu nas outras vezes em que jogou como 9. Notou-se essa preocupação estratégica frente à Dinamarca, com mais triangulações envolvendo os três homens da frente e os médios, com duas preocupações: a excessiva participação de Ronaldo em fases iniciais da construção e a perda de passes, fruto de alguma insegurança na posse. Ainda assim, o meio-campo mostrou que pode funcionar: Danilo foi forte defensivamente, Tiago definiu bem os momentos de surgir na área e Moutinho, condenado a ser segundo ponta-de-lança em muitos lances e primeiro a pressionar a saída do adversário noutros, acabou por resolver com um golo bem muito trabalhado. Mas pode melhorar, como podem melhorar as inserções ofensivas dos laterais – desta vez melhor Cédric que um Coentrão sempre em dificuldades para segurar Braithwaite. E é por isso que, na deslocação à Sérvia, importa não descomprimir. Portugal tem vários problemas a resolver e não pode agora dar-se ao luxo de libertar jogadores ou de encarar qualquer jogo que aí venha a não ser com uma ideia: a de aperfeiçoar o coletivo. Oito meses chegam para encontrar uma fórmula.
2015-10-08
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Último Passe

Alex Sandro voltou aos treinos do FC Porto no mesmo dia em que o diário espanhol As o dá como fazendo parte dos planos do Real Madrid para se bater com o compatriota Marcelo pela lateral esquerda. Aliás, o As não fala só de Alex Sandro: diz que o Real Madrid também quer Nico Gaitán e até se dá ao luxo de escrever que o argentino seria uma boa alternativa a Bale e James Rodriguez. Que bom deve ser trabalhar como diretor desportivo do Real Madrid e gastar assim 35 milhões de euros para uma posição na qual já se investiu quase 150 milhões nos últimos dois anos... A contratação de Aly Cissokho, aliada à permanência de José Angel e à súbita fadiga muscular de Alex Sandro já fazia entender que a saída do lateral esquerdo brasileiro do FC Porto podia ser só uma questão de tempo e de números. E se o Real Madrid já foi ao Porto buscar Danilo, bem podia alargar o âmbito da operação, que os dragões já estavam precavidos. Já a eventual perda de Nico Gaitán não foi ainda devidamente acautelada por um Benfica que já no ano passado deixou o mercado chegar perto do fim para definir o plantel. Ou isso ou é a noção de que com Alex Sandro e Marcelo o Real deixará mesmo de contar com Coentrão, muito ofensivo para as ideias que Benítez tem para um defesa lateral. Já se sabe que a história de amor entre Coentrão e o Benfica terá um dia o regresso como epílogo, mas o melhor para todos era que tal não fosse para substituir Gaitán. É que apesar de este carrossel favorecer mais o Benfica que o FC Porto, Coentrão nunca foi muito brilhante como extremo de um grande. E a eventual perda de Gaitán, como a de Di Maria antes dele, exigirá alguém que o faça esquecer.
2015-08-12
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