PESQUISA 

Artigo

O futebol é um jogo ou é um negócio? Aparentemente nem uma coisa nem a outra – é o ópio do povo. É o que se conclui da bizarra decisão de atrasar o pontapé de saída do Sporting-FC Porto, passando-o para as 19h15 do dia das próximas eleições autárquicas, de forma a que não atrapalhe o normal curso dos procedimentos democráticos. Se fosse um jogo, poderia jogar-se, como todos os que decorrerão nesse domingo. Se fosse um negócio, poderia defender-se, como todos os negócios que estarão de portas abertas nesse domingo. Chato mesmo é ser o ópio do povo, a encarnação de todos os males. A potencial abstenção dos eleitores portugueses não tem, afinal, a ver com o aumento do grau de desilusão que vão tendo nalguns políticos que elegem ou do sentimento de impotência para travar o que sentem estar mal. Não tem sequer a ver com a quantidade de programas de TV idiotas que lhes enchem a grelha do cabo e das generalistas ou com o facto de poderem passar os domingos de eleições a vegetar dentro de centros comerciais, que a cada ano esticam mais os horários de abertura e de fecho – quando em muitos países onde se fazem coisas parvas, como jogar futebol em dia de eleições, esses mesmos centros comerciais fecham ao domingo para permitir o convívio das famílias. Não. A abstenção dos eleitores portugueses tem a ver com os jogos de futebol. Por isso, no próximo dia 1 de Outubro, poderemos todos ir ao cinema, ao teatro, à praia, ver espetáculos de música, fazer piqueniques no campo… Poderemos até passar o dia a ver montras nos centros comerciais, mas estamos protegidos desse mal maior que é a possibilidade de ir ao futebol enquanto as urnas estão abertas. Quem teve esta ideia peregrina demonstra muita coisa, mas não um conhecimento acertado da realidade. É que apesar das tentativas recentes de recuperação do setor, que sim, é um negócio e não está a ser nada ajudado com decisões como esta, o futebol, para os portugueses, deixou há muito de ser uma atividade predominantemente de estádio. É uma atividade de sofá. Há mais gente a ir aos estádios, mas o que as pessoas querem por estes dias não é ver um remate do Aboubakar, um drible do Gelson ou um passe a rasgar do Pizzi. O que querem é saber o que dizem na televisão desses feitos – daí o sucesso de programas que mais não apresentam do que imagens em loop dos treinadores a percorrer a linha lateral e a reação de adeptos “famosos” ao que se vai passando no campo. É giro, não tem de se perceber e sempre mete uns palavrões e uns insultos de vez em quando. Portanto, meus senhores, é melhor proibir também nesse dia os programas sobre futebol – mas podem deixar os reality shows, as novelas, as sessões de cinema e os desenhos animados, que isso, quem os vê não deve votar. Aceito até que aleguem que não é só isso. Que a malta em Portugal anda mais entretida com essa conversa tóxica, com as entrevistas dos diretores de comunicação, os mails, o vídeo-árbitro ou as listas dos corruptos por comprovar do que a ver futebol a sério porque o futebol por cá não é assim tão interessante. Pois bem, eis a má notícia. Nesse dia 1 de Outubro, há um Real Sociedad-Betis às 11h, um Nápoles-Cagliari às 11h30,  Arsenal-Brighton ao meio-dia, um Hertha-Bayern às 14h30, um FC Barcelona-Las Palmas às 15h15, um Newcastle-Liverpool às 16h30, um FC Colónia-RB Leipzig e um Milan-Roma às 17h e por fim um Atalanta-Juventus e um Real Madrid-Espanyol às 19h45. Podem fazer uma de três coisas. Convencer os eleitores a irem votar pela fresquinha, esperar que o Barça e o Bayern resolvam os jogos depressa para se dar um salto à mesa de voto – pode ser que não haja muita fila e dê para votar antes de começar o Liverpool… – ou impor à Sport TV a transmissão dos jogos em diferido. E bloquear os streamings todos, para que quem prefere ver as coisas de forma, digamos, menos legal, também não se sinta tentado a abster-se. O problema é que a política já passou há muitos anos pelo caminho de descredibilização que o futebol está a passar agora. Provavelmente tem a ver com a sociedade. Cresci a ouvir um pouco por todo o lado acerca dos políticos o que se ouve hoje da malta do futebol – e não eram coisas simpáticas. O segredo, acreditem, não passa por proibir. Ninguém deixa de ir votar por causa de um jogo de futebol às 18 horas. A submissão de uma atividade económica tão importante como o futebol – sim, podem rir-se à vontade, mas quando acabarem vão ver os números – a um capricho é que não indicia nada de bom. Nem acerca dos homens do futebol nem dos políticos que acham que estão a fazer uma coisa boa.
2017-09-17
LER MAIS

Artigo

Nenhum tema se apresenta tão primordial para o futebol em Portugal nas próximas eleições como o do jogo online. Os milhões de euros que são movimentados pela comunidade de apostadores que há muito deixou o Totobola e não acredita na aleatoriedade do Euromilhões fazem toda a diferença entre um futebol a entrar em falência e um futebol ao qual se dá uma botija de oxigénio – e se depois essa botija é aproveitada ou desperdiçada pelos dirigentes desportivos já é outra conversa. A questão é que quando falo de futebol não falo só de clubes, jogadores e treinadores. Falo de jornais, sites de internet, canais de televisão, todos eles dependentes dos patrocínios que só as grandes casas de apostas podem oferecer neste momento. Ainda que muito tardiamente, o Estado português apercebeu-se na última legislatura do volume de negócios das casas de apostas, que operavam em Portugal num regime totalmente desregulado. Fez-se uma lei para que daí pudessem vir receitas para o Estado, pela via normal nestas circunstâncias, que é a dos impostos. As taxas previstas na Lei portuguesa são superiores às da generalidade dos países europeus, o que desde logo condicionou a permanência no nosso mercado de alguns dos maiores “bookies” internacionais, mas ainda assim uma mão cheia deles anunciou que ia pedir licença para poder operar no nosso mercado. Sucede que o processo de atribuição das licenças – e por inerência da legalização dessas casas de apostas – tem sido demorado. Demasiado demorado para que se aceite que tem a ver com simples burocracia e não com a vontade de o arrastar até à data das eleições, por estar em causa uma profunda diferença ideológica entre as forças em disputa. Algumas casas continuam a trabalhar em Portugal. Fazem uma interpretação muito própria da lei, segundo a qual enquanto não for atribuída a primeira licença a lei não é considerada em vigor e tudo continua como antes. As grandes e mais competitivas – as que mexem com mais dinheiro, também – retiraram-se, abrindo caminho à entrada do Placard, o sistema de jogo offline da Santa Casa da Misericórdia. O sistema é simples: registam-se as apostas nos agentes que aceitam boletins do Euromilhões, mas não há depois qualquer possibilidade de gerir online as posições adquiridas. E se isso vem funcionar como sinal amarelo para os maiores apostadores, que funcionam com apostas de back-up, o sinal vermelho acende-se com a constatação das odds (probabilidades) praticadas pelo Placard, sempre uns bons “ticks” abaixo das que servem de referência nas casas de apostas internacionais. Parece-lhe normal? Então imagine que tinha o monopólio das transações bolsistas num país e que podia comprar todas as ações que quisesse a um euro e depois vendê-las nos mercados internacionais a 1,10€. De quanto tempo precisava para ficar imensamente rico? A questão é que a realidade atual não é má apenas para os apostadores. É má também para os jornais, que têm na Santa Casa da Misericórdia um cliente de luxo, mas que enquanto não foram disso impedidos por uma providência cautelar a trocaram pelas Betclics e BWins da vida. É má para os clubes, para a Federação Portuguesa de Futebol e para a Liga, que além de perderem potenciais patrocínios, recebem migalhas em vez de receberem uma parcela interessante daquilo que os seus jogos geram nos mercados de apostadores. No fundo, se presumirmos que um eventual governo PSD/CDS levará avante a lei que elaborou e que o PS manterá a ideia anunciada recentemente por António Costa – e que é a de dar o monopólio à Santa Casa da Misericórdia, dessa forma contribuindo para pagar a despesa do Estado ou da Segurança Social – este é um dos grandes pontos de discórdia entre as maiores forças políticas que vão concorrer às eleições de domingo. E é, ao mesmo tempo, uma das únicas diferenças verdadeiramente ideológicas entre ambas, entre quem prefere dinamizar a economia e receber a receita através dos impostos e quem prefere ter o Estado a gerir essa mesma economia, sem a intervenção da iniciativa privada. Em mais de 25 anos de jornalismo já passei por uma série de eleições. A tradição nas redações era ouvir-se os responsáveis que os maiores partidos designavam para a área do desporto acerca de política desportiva. Prometiam-se pavilhões, pistas de atletismo, relvados para treinar futebol, políticas de formação e dinamização do desporto escolar. Desta vez, nada disso importa verdadeiramente. A política desportiva do próximo governo vai definir-se com uma questão muito simples: o que vai fazer acerca do jogo online?
2015-09-30
LER MAIS

Último Passe

A próxima jornada da Liga vai ter um foco de polémica no facto de os três grandes jogarem no dia das eleições legislativas. Toda a gente condenou a Liga por não ter deixado esse fim-de-semana vago no calendário e, depois ainda, por ter permitido que o Benfica, o FC Porto e o Sporting jogassem precisamente no domingo do ato eleitoral, em vez de anteciparem ou adiarem os seus jogos. Nada de mais disparatado, é o que me parece. E não é só por todos estarem envolvidos em jogos europeus a meio desta semana. O que me espanta é que gente com responsabilidades governativas entre nesse tipo de argumentos, que facilmente se prova serem totalmente irresponsáveis. Como se o futebol de alto nível não fosse uma indústria tão precisada de gerar rendimento como outra qualquer, para poder cumprir as suas obrigações com funcionários ou credores. E como se o simples facto de querer ver futebol ao fim da tarde fosse impedir-me de cumprir o meu dever cívico e votar antes disso. Além do mais, não dei por qualquer indignação ante o facto de no dia das eleições também estarem abertos os centros comerciais, os cinemas, os teatros, ou até o Jardim Zoológico e o Oceanário. Sei que a moda é usar o futebol como sinónimo de alienação, de corrupção intelectual das classes baixas, mas alguém tem ainda de me convencer como é que um jogo dos grandes é mais alienante do que os intermináveis espetáculos de música popular de gosto duvidoso com que os canais de TV nos brindam todos os domingos da hora de almoço até à hora de jantar. E, mais, por que é que ninguém se insurgiu contra a sua realização e emissão em dia de eleições. Aliás, se me surpreendeu a reação da classe política quando rebentou de indignação ao saber que havia jogos de futebol na data das eleições, não me surpreendeu menos a reação dos dirigentes dos clubes, da Liga ou até da Federação. Os primeiros fizeram-no na tentativa de ganhar alguns voos no lóbi anti-futebol. Para o silêncio dos segundos tenho mais dificuldade em encontrar explicações. Foi como se já estivessem em período de reflexão.
2015-09-28
LER MAIS